O namorado da minha melhor amiga.
10 Festa na Julia.
Fico na esperança que a Bruna me dê carona até em casa, mas isso não acontece. Depois da escola ela vai almoçar com Miguel. Ele já tem dezoito anos, será que não trabalha? Só sei que faz faculdade e Bruna comentou que é a noite.
Quando conheci a família de Miguel eles não tinham muita grana, mas pelo jeito isso mudou. Ele busca a Bruna depois da escola com um carrão.
Me sento fundo do ônibus desanimada. O dia não colabora muito com meu ânimo, está nublado e cinzento. Gosto de dias ensolarados com aquele céu azul e nuvens branquinhas que parecem algodão. Felipe senta do meu lado, ele também não parece animado.
— Que dia feio – eu comento.
— Ta bom para ficar dormindo o dia todo.
Fico olhando pela janela. Passei tantas vezes por esse caminho, será que vai ser estranho quando eu não tiver que passar mais? Será que vou sentir falta da escola? Acho difícil. Pensei minha vida toda que quando terminasse o ensino médio eu teria certeza do que fazer. Agora que o fim está chegando eu me sinto completamente perdida. Estudo para os vestibulares, mas não sei para que curso eu vou prestar. Todo mundo parece saber, menos eu. Cada vez que eu faço um teste vocacional o resultado é diferente.
Felipe me pergunta de repente:
— Que tipo de shampoo você usa? – Que pergunta estranha. Será que ele está tentando puxar conversa?
— Como assim?
— É que o seu cabelo tem cheiro de limão com mel.
— Eu uso um shampoo de limão e minha mãe viu em algum blogue que é bom colocar um porquinho de mel no shampoo.
Ela viu em um blogue que colocar mel no shampoo é bom para caspa e desde então sempre coloca. Pelo menos para mim resolveu, eu tinha muitas caspa e melhorou muito. Cheiro o meu cabelo, está cheiroso mas não conseguiria saber que é cheiro de limão com mel.
— Seu olfato é sempre assim? – dou risada.
— Não costuma ser tão preciso.
— Caraca. Nunca vou poder tirar o tênis perto de você – eu não tenho chulé, falo só para brincar com ele. Agora se ele sentir o chulé da minha mãe ele deve desmaiar na hora.
Felipe ri.
— Credo, você tem chulé.
— Credo, você tem alergia de gatos.
— É algo involuntário.
— Chulé também.
— Você pode usar um talco – ele sugere.
— Você pode tomar um antialérgico.
Faço uma careta para ele.
Durante o resto do caminho conversamos sobre coisas aleatórias. Gosto de conversar com ele, o assunto flui naturalmente.
...
De tarde recebo uma mensagem da Julia me convidando para uma festa na sua casa. Até penso em ir, só que está frio e para sair de baixo das cobertas com um clima desse só se Noah Centineo fosse um dos convidados. Também não sou fã dessas festas.
Estou tirando um cochilo no sofá com a televisão ligada quando alguém me liga. É Bruna. Atendo o celular:
— Oi.
— Está sabendo que vai ter festa na casa da Julia? Os pais dela foram viajar – ela diz animada demais para meu gosto.
— Recebi a mensagem dela sim.
— Nós vamos né?
— Não sei você, mas eu vou ficar bem quieta embaixo da coberta – estou mais interessada no programa de culinária que está passando do que nesta festa.
— Vai se arrumar. Passo para te pegar.
Ela não me da a chance de responder e desliga. Odeio esse jeito da Bruna que acha que tem esse direito de mandar em tudo e em todos. Sei que não tenho obrigação de fazer o que ela quer, deveria ficar deitada e quando ela chegar e apenas digo que não vou e pronto. Não é isso que eu faço, vou para o banheiro emburrada e me arrependo amargamente a cada peça de roupa que eu tiro. Que frio da bexiga!
Não coloco nenhuma roupa espalhafatosa, até porque não tenho nada assim no guarda roupa. Visto uma calça jeans justinha e uma blusa bem quentinha, eu amo essa blusa, ela é cheia de pelinho e bem fofinha. Faço uma maquiagem simples e capricho no batom. Me arrumo tão devagar que quando Bruna chega em casa ainda estou penteando os cabelos.
— Seu cabelo ta lindo – ela pega uma mecha loura (meu cabelo não é aquele loiro Xuxa, é um loiro escuro quase castanho) e enrola no dedo.
— Obrigada.
Termino de pentear o cabelo e calço o tênis.
Bruna esta com um conjunto de moletom bem estiloso. Seu cabelo está metade preso e metade solto, os cachos bem definidos. Não entendo porque tem garotas que alisam os cabelos, acho tão lindo quem tem cachos. Posso ficar horas enrolando o cabelo, em menos de meia hora o cabelo volta ao liso escorrido.
Bruna chama um Uber e vamos para a casa da Julia. Minha mãe só pede para avisar quando eu chegar lá e mandar a minha localização. Ela não é de ficar no meu pé, nossa relação de mãe e filha é muito boa, não escondo nada dela.
O carro chega rápido e durante todo o caminho Bruna não tira os olhos do celular.
A casa da Julia me lembra a casa da minha avó materna. Tem um jardim na frente muito parecido, de um lado tem a garagem o do outro uma varandinha com um banco suspenso por correntes de ferro. Da para ouvir a musica de fora da casa e quando a gente entra fica mais alto.
— Que bom que vocês vieram – Julia sorri para nós (sua boca é extremamente grande e fica ainda maior com o batom vermelho que ela usa).
— Pensei que ia ter que arrastar a Aline.
Dou um sorriso amarelo.
— Fiquem a vontade. Tem bebidas na geladeira. – ela pisca para nós duas e se afasta.
— Obrigada – respondo. Estamos na sala onde tem algumas pessoas sentadas no sofá. Felipe está sentado abraçando uma garota da escola, não sei seu nome só a conheço de vista. Será que eu digo oi? Decido ignora-lo, fingir que eu não o vi.
Sendo sincera fico um pouco chateada de vê-lo com uma garota. Acho que me apeguei a ele mais do que deveria.
— Oi Gata – Marcela beija o rosto da Bruna e nem faz questão de olhar na minha cara.
— Oi Ma.
Enquanto as duas conversam eu me afasto procurando comida. Entro na cozinha e encontro uns lanchinhos em cima da mesa, pego um refrigerante na geladeira. Tem bebida alcoólica a rodo, mas não costumo beber.
Sento e aproveito aquele momento a sós matando minha fome. Um rapaz entra na cozinha, vai até a geladeira e pega alguma coisa. Fico constrangida por estar ali sozinha devorando a comida da festa. Antes de sair ele olha para mim e sorri, reconheço que é o irmão da Julia. Seu sorriso é tão bonito que faz meu coração palpitar.
Consigo ficar só mais alguns minutos em paz até que Bruna me encontra:
— Não posso piscar que você já some – ela pega um lanchinho e come.
— Estava morrendo de fome.
Ela ri e me arrasta para fora da cozinha. Olho com tristeza para os lanchinhos que deixo para traz.
Quando a gente vai para o quintal tem vários alunos do colégio, alguns dançam, bebem e fumam. Nos misturamos, costumo gostar de estar rodeada de pessoas, mas não sou de freqüentar festas assim. Quando saio com meus amigos (os que não são do colégio) vamos jogar boliche, no cinema ou ficamos em casa jogando alguma coisa. Não sou do tipo que bebe e fuma, sou meio careta para estas coisas. Ali eu me sinto deslocada. Bruna me puxa para dançar com ela e até que por um tempo fico mais confortável e tento me divertir dançando até que ela começa a olhar o celular sem parar. Cada vez que ela pega o celular eu fico mais irritada. De repente ela atende uma ligação e me deixa lá sozinha. Olho em volta procurando alguém que ainda fala comigo. Sinto alguém me cutucar. Me viro. É o Felipe, ele está sorrindo para mim com todos os dentes a mostra. Parece feliz em me ver.
— Oi – ele diz.
— Oi – repondo.
— Não sabia que vinha.
— Nem eu.
— Ta sozinha?
— Não, vim com a Bruna.
Vejo a Bruna de longe, ela parece discutir ao telefone.
— Já volto – saio deixando ele lá parado.
Me aproximo da Bruna e escuto ela dizer:
— Não tem nada demais, estou na casa de uma amiga. Eu disse para você que ia sair com as minhas amigas, para de ficar me controlando — Pelo jeito quem está do outro lado da linha é Miguel — Depois eu falo com você – Ela encerra a chamada.
— Se você quiser ir embora por mim tudo bem – digo quando ela vê que estou do seu lado.
— Eu não vou embora – Bruna cruza os braços – preciso de uma bebida.
— Eu pego – digo.
Entro na cozinha e espero um grupo de meninos que estão praticamente dentro da geladeira. Espero eles terminarem com as gracinhas deles como “nossa Aline você ta muito gata” “vamos ali para gente conversar” “será que rola alguma coisa entre a gente” Fico com a cara fechada até que eles se cansam e saem da cozinha rindo parecendo um bando de hienas.
Pego o que vim pegar e saio rapidamente antes que alguém fale que eu apareci na festa só para comer.
Não encontro a Bruna no lugar que a deixei. Olho em volta, ela não está no quintal. Começo a procurar ela pela casa, talvez esteja no banheiro porque não acho em nenhum lugar. A sala esvaziou e me sento no sofá. Abro a vodka que eu peguei pra ela e bebo. Talvez tomar um porre seria bom, eu nunca fiquei bêbeda e tem a primeira vez para tudo.
O irmão da Julia aparece de novo e senta no sofá, ele olha para mim com pena e eu começo a rir.
— O que foi? – ele me pergunta.
É claro que ele não entende, mal o conheço e só foi olhar para ele que comecei a rir.
— Primeiro você me flagrou devorando os lanchinhos na cozinha e agora aqui tentando me embriagar sozinha.
Ele também ri.
— Você aparece nas festas para ficar sozinha?
Ele passa a mão nos cabelos e vejo uma aliança de namoro em sua mão. Que pena, talvez ele poderia me fazer companhia.
— Eu perdi a minha amiga. Você conhece a Bruna? Procurei ela em todo lugar e ela evaporou.
— Deve estar no banheiro.
— É o que eu suspeito.
Felipe aparece na sala e vê nos dois conversando. Bruna também aparece. Felipe volta de onde veio, Bruna senta do meu lado pega a garrafa da minha mão e bebe. O irmão da Julia sai de fininho nos deixando sozinha. Eu me esparramo no sofá, penso em ligar a televisão, mas com o volume da musica não vou conseguir ouvir nada. Bruna meche no celular sem parar ao meu lado.
— Se fosse para assistir você mexendo no celular eu preferiria ter ficado em casa.
A Bruna levanta do sofá.
— Amiga, você se importa se eu for embora?
— Não – me levanto também – vamos.
— Vou ter que ir sozinha – ela fica sem graça – não vou estragar a sua noite, curte ai com as meninas.
Abro minha boca para argumentar mas ela me dá um tchau correndo e se vai. Só pode ser sacanagem. Que filha de uma mãe.
Sento no sofá e ligo para minha mãe. Já passa da meia noite.
— Aline? – ela atende.
— Mãe, você pode vir me buscar?
— Claro. Estou indo.
Fico um tempo sentada no sofá mas quando um casal vai para sala e praticamente estão se engolindo eu saio. Vou para a varanda e sento no banco balanço. Está friozinho. Balanço de um lado para o outro pensando na raiva que sinto da Bruna. Eu não a deixaria em uma festa desse jeito, mas ultimamente percebi que ela faz comigo coisas que eu nunca faria com ela. Dessa vez ela vai ouvir, vou falar tanta na sua orelha que ela nunca mais vai fazer isso comigo. Me tirar do conforto do meu lar para isso! Francamente.
— Porque você está aqui fora sozinha? – Olho para traz. Felipe está encostado na parede me olhando.
— Estou esperado minha mãe.
— Quer que eu chame um Uber?
Ele caminha até o banco e senta ao meu lado.
_ Estou sem grana – explico.
— Eu peço no meu cartão.
— Ela já está vindo.
Preciso passear com os cachorros para juntar um dinheiro. Costumo passear com os cachorros dos vizinhos e eles me pagam por isso. É muito ruimsair sem nenhum tostão no bolso.
— Essas festas não são muito sua cara né? – Felipe esfrega as mãos e as enfia nos bolsos da calça.
— Não. Só vim por causa da Bruna – Confesso.
— E cadê ela?
Demoro um tempo para responder.
— Foi embora – dou um longo suspiro.
— Você não deveria deixar as pessoas trata-la assim. Merece mais do que isso.
Felipe olha profundamente em meus olhos. É como se ele pudesse enxergar algo que eu não enxergo e também não entendo.
— O que quer dizer?
— Você é boa demais com as pessoas.
— E isso não é bom?
— Não pra você.
Penso por um tempo. Ele tem razão, sempre estou pensando nos outros que esqueço de mim mesma. É engraçado que ultimamente a única pessoa que parece se importar comigo é ele, deve ser por isso que cada vez eu me sinto mas próxima dele. Fico olhando para seu rosto.
— Seu rosto está sujo de batom – digo para ele.
Felipe passa a mão na bochecha errada.
— Saiu?
Faço que não com a cabeça
— A outra bochecha.
Ele passa a mão, mas o batom não sai. Pego um lenço de papel na minha bolsa e limpo o batom. Tenho vontade de pedir para ele não sair beijando qualquer garota, mas me controlo e não falo nada.
Ficamos em silêncio por um tempo.
— Será que sua mãe me dá uma carona? — Ele me pergunta, parece cansado.
— Ué, já vai embora?
— Não deveria nem ter vindo.
— Sua casa é caminho, acho que ela não vai se importar.
O carro da minha mãe chega e nós dois saímos juntos da casa da Julia. Sento no banco do passageiro e Felipe vai no banco de traz.
— Oi dona Suzana – Felipe cumprimenta minha mãe.
— Oi e só Suzana. Sem dona por favor.
Minha mãe abre um sorrisão para ele. O sorriso dela é tão bonito, será que também sorrio assim?
— Aline, onde está a Bruna? – ela me pergunta.
— Foi embora.
— E deixou você lá?
Ela parece chocada.
— Sim.
— Que amiga!
Dou de ombros. Não vou ficar falando mal dela só porque ela me abandonou na festa.
— Suzana, a Aline comentou que você cozinha muito bem – Felipe fala para minha mãe.
Ela olha para mim desconfiada.
— Dá para comer. Pelo menos ninguém nunca reclamou da minha comida.
— Deixa de modéstia, sua comida é maravilhosa.
Ela fica toda feliz com o elogio.
— A Aline disse que você poderia dar umas dicas para minha mãe. Eu comentei com ela e ela ficou toda empolgada.
— Serio? É claro que eu posso dar umas dicas para ela sim.
— Não vai te incomodar?
— Imagina. Aline passa meu número para o Felipe – eu compartilho seu contato pelo aplicativo – Domingo estou livre, se ela quiser ir em casa.
— Nossa, eu fico muito grato. Vou falar com ela.
Até chegar a casa do Felipe, ele e minha mãe ficam conversando. Eu não participo da conversa, prefiro observar os dois, eles se deram muito bem.
Antes de descer do carro ele se despede e nos deseja uma boa noite. Chego em casa exausta, só quero tomar um banho e dormir.
Minha mãe comenta que não gostou nenhum pouquinho que Bruna foi embora e me deixou lá. Se ela não gostou imagina eu.
Depois do banho estou indo deitar e minha mãe me segue falando sem parar, até que chega no assunto que quer:
— Aquele garoto é uma graça. Se eu fosse você não deixaria ele escapar – Eu a conheço bem demais, sei que toda a falação era para chegar em Felipe.
— Mãe! Olha as coisas que você fala.
— Pelo amor de Deus Aline. Se você já é careta nessa idade imagine na minha.
Eu dou muita risada. Agora até minha mãe tira onda com a minha cara. Ela tem razão, eu deveria ser menos careta.
— Nós somos amigos – explico.
— Eu acho que ele não quer ser seu amigo.
— Vou dormir mãe.
Entro no quarto, fecho a porta, apago as luzes e deito. Relembro tudo o que aconteceu hoje, minha cabeça está cheia de pensamentos. Será que todo mundo vê algo que eu não vejo? Será que ele gosta de mim? Se ele gostasse de mim não teria ficado com outra menina esta noite.
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