O namorado da minha melhor amiga.
16 Declarações.
Não tenho noticias do Felipe desde sábado de Manhã. Não tentei falar com ele e nem avisei quando cheguei ontem à noite. Começo a ficar preocupada quando não o vejo no colégio. Mando uma mensagem para ele:
“Bom dia. Não vai vir hoje?”
Depois de alguns minutos (que parecem horas) ele responde:
“Bom dia. Estou atrasado, chego para a segunda aula”
Fico mais aliviada.
A primeira aula custa a passar, eu quero vê-lo logo e as horas parecem demorar mais que o normal. Quando a primeira aula acaba e Felipe entra na sala com o cabelo bagunçado e seus olhos vermelhos e pequenos por causa da rinite eu abro um largo sorriso.
Ele espirra antes de se sentar em seu lugar.
— Eu só vim para te ver – ele fala. O nariz está entupido então sua voz fica estranha.
— Nossa, estou me sentindo importante.
— Para mim você é
Fico olhando dentro daqueles olhos castanhos, não me canso de ouvi-lo dizer essas coisas para mim. Fico toda derretida.
— Você vai me acostumar mal dizendo essas coisas.
— Você não gosta? – Ele abre seu caderno e olha para mim esperando minha resposta.
— Claro que sim, mas você está me acostumando mal.
— Então quer que eu pare?
Por um momento acho que ele está irritado, mas olhando para ele percebo que ele quer realmente saber se isso me incomoda.
— Porque nós estamos falando sobre isso? Como foi sábado? Deu tudo certo?
Quando Felipe começa a falar a segunda aula começa então ele só consegue me contar no intervalo. Penso sobre as coisas que ele me diz e como ele me trata e que a cada dia eu gosto mais dele e que isso me enche de medo. Tenho medo de acordar amanhã e tudo voltar a ser como antes, não é como se ele fosse morrer ou deixar de existir, eu viveria sem ele na minha vida como antes eu vivia, mas agora é diferente. Não sei até onde isso vai, que rumo vai tomar e aonde vai chegar e gostar dele assim me deixa vulnerável.
Felipe me conta sobre a festa, a mãe da criança era bem exigente e pediu para ele tirar foto da menina a cada movimento, foi cansativo mais ele gostou muito. Fotografia de aniversário não é o que ele realmente gosta de fazer, mas é um começo e ele também precisa de dinheiro. Ele não me diz por que não falou comigo desde sábado de manhã e eu também não pergunto. Não estou chateada, gosto de estar com ele mas não posso ficar exigindo que ele me ligue todo dia, que ele fale comigo toda hora, ele tem que fazer isso porque quer e não porque estou cobrando. O mundo exige tanto de nós, acho que os relacionamentos amorosos deveriam ser mais leves, sem tanta cobrança.
...
A semana passa rápido. No sábado eu e Felipe combinamos de passear com os cachorros, mas amanhece chovendo. Está tão frio que eu e minha mãe dormimos até meio dia, é raríssimo minha mãe dormir até as dez, até meio dia acho que é a primeira vez. Acordo com Felipe me ligando:
— Alô – atendo ainda sonolenta.
— Você ainda está dormindo?
— Sim. Está muito frio.
— Queria te ver – ele diz.
— Vem pra cá – sugiro.
— Sua mãe não vai achar ruim?
— Minha mãe adora você
— Sério?
— Como se você não soubesse.
— Então, eu estou indo.
— Beleza – ele desliga e eu levanto da cama.
Até dentro de casa está frio. Tomo um banho e vou para a cozinha fazer um café. Minha mãe levanta.
— Bom dia. Que cheiro gostoso de café – ela senta esperando.
— Boa tarde. Já passa do meio dia.
— Meu Deus – ela olha para o relógio – não é melhor almoçar?
— Não to a fim de almoçar.
— Nem eu.
Tomamos o café da manhã em silencio. Nós duas estamos com aquela preguiçinha da manhã, parece que quando se dorme demais o corpo fica preguiçoso o dia inteiro.
— O Felipe vai vir para cá, tem algum problema? – Pergunto para ela.
— Claro que não, afinal, agora ele é seu namorado – ela me olha de lado.
— Acho que sim.
— Como assim você acha? – minha mãe me encara séria.
— Vai me dizer que você e o meu pai começaram a namorar logo de cara?
— Sim! Ele me pediu em namoro no segundo dia que me viu.
— Nossa – meu pai sempre foi determinado quando queria alguma coisa.
— Se vocês vão ficar andando pra cima e pra baixo juntos o negocio tem que ser sério.
— Mas é sério.
— Eu to de olho em você, viu.
— Ué, você sempre confiou em mim.
— Eu confio em você filha, mas garotos bonitos costumam bagunçar nossa cabeça – de repente o olhar da minha mãe se perde, percebo que ela está pensando em outra coisa.
— Isso é sobre você ou sobre mim? – olho para ela desconfiada.
— O que você quer dizer?
Acabo de tomar meu café e coloco a louça na pia.
— Nada – vou andando para meu quarto.
— Aline – ela me chama esperando uma resposta.
Agora ela sabe que eu desconfio que ela está paquerando o vizinho. Queria perguntar sobre isso mas acho que ela vai negar.
Arrumo minha cama e depois Felipe chega.
Abro a porta para ele.
— Oi – ele diz e olha em volta procurando minha mãe. Ela está no quarto dela então ele me beija.
— Oi – eu digo sorrindo quando ele se afasta.
Felipe olha para o meu pijama cor de rosa e minha pantufa.
— Você fica linda de pijama.
— Obrigada. Já comeu? – pergunto enquanto puxo ele para dentro do apartamento.
— Sim. Minha mãe está cada dia melhor na cozinha.
— Que maravilha. Quando você vai me chamar para jantar na sua casa? – eu digo e percebo que falei demais. Olho para ele observando seu rosto que continua tranqüilo e seu sorriso aberto.
— Era exatamente sobre isso que eu queria falar com você. Que tal amanhã?
— Nossa que rápido!
— Mas se você não quiser não tem problema.
— Eu quero sim.
Decidimos assistir filme. Faço pipoca e pego um cobertor. Minha mãe tirou a tarde para arrumar o guarda roupa dela então ficamos sozinhos na sala. É muito bom assistir filme com ele. Felipe fica na mesma expectativa que eu para saber o que vai acontecer, ele percebe detalhes mínimos que por muitas vezes passam desapercebidos por mim, ele é bem observador. Depois jogamos vídeo game e antes que ele vá embora minha mãe pede pizza.
A pizza chega e antes mesmo de abrir a caixa da pizza começa chover. A chuva está tão forte que bate na janela da cozinha e faz um barulho alto.
— Que chuva – minha mãe diz se sentando.
A pizza é marguerita, minha favorita.
— Daqui a pouco para – Felipe diz pegando um pedaço de pizza.
Terminamos de comer e ainda está chovendo. É em torno de oito horas.
— Acho melhor esperar a chuva diminuir um pouco, ai eu te levo até a sua casa – minha mãe fala para ele.
— Não precisa se incomodar.
— Me incomodo se você for embora a pé nessa chuva e com esse frio.
Voltamos para o sofá e dessa vez eu coloco uma série, acho que não dá tempo de assistir outro filme. Ficamos juntinhos assistindo e esperando a chuva passar. Já estamos no terceiro episódio e Felipe começa a ficar inquieto, ele olha o relógio a cada segundo.
— Relaxa, minha mãe vai levar você e não está tão tarde.
— Vou avisar minha mãe.
Ele manda uma mensagem para ela.
Em algum momento a gente cai no sono. Meus olhos estão pesados e estou tão confortável ali do seu lado, apoio à cabeça no seu ombro e sinto seu cheiro. Não quero que ele vá embora, quero que ele fique. Fecho meus olhos e durmo, sonho com Felipe. No sonho ele está com um buquê nas mãos e se afasta de mim, cada vez que eu tento me aproximar, mais distante ele fica. Acordo com alguém me chacoalhando, abro meus olhos e o vejo na minha frente me olhando assustado.
— Que foi? – olho em volto sonolenta, tentando entender o que está acontecendo.
— A gente dormiu. São três da madrugada.
— Três horas? – arregalo os olhos.
— Eu preciso ir embora – Ele levanta e coloca a jaqueta.
— Agora? – pergunto.
— Acho que sua mãe acabou dormindo também.
— Espera. Você não vai embora sozinho há essa hora.
— Sua mãe vai me matar Aline.
— Por quê? – eu não entendo.
— Porque eu to aqui até a essa hora.
Eu dou risada. Não acredito que ele está com medo da minha mãe. Ela deve ter escutado o barulho, pois aparece na sala coçando os olhos e bocejando.
— Que barulhada é essa? – ela pergunta mal humorada.
— Me desculpa – Felipe diz todo sem graça – eu acabei pegando no sono.
— Eu sei.
— Sabe? – pergunto surpresa.
— Sim. Fui eu que desliguei a televisão. A chuva demorou muito para passar e sair na chuva com esse frio não dá. Liguei para sua mãe avisando ela.
— Nossa! Obrigado – ele agradece.
— Agora vamos parar de barulho que eu quero dormir – ela anda em direção ao corredor, mas para e volta um pouco – Ah, a porta do meu quarto está aberta viu.
Ela aponta para nós dois. Eu fico roxa de vergonha, deu para entender claramente o que ela está insinuando. Quando minha mãe some de vista Felipe cai na gargalhada.
— Xiu – coloco o dedo em frente à boca pedindo silêncio.
— Sua mãe é muito maneira – ele diz baixinho.
Ele deita do meu lado. O sofá da sala é daquele que dá para puxar o assento, fica parecendo uma cama de casal e dá para dormir bem confortável. Será que minha mãe deixou mesmo nós dois dormir juntos na sala ou ela espera que eu vá para meu quarto?
— Acho que vou para meu quarto – Felipe para de sorrir e olha para mim.
— Por quê?
— Assim você fica mais confortável.
— Não – ele balança a cabeça sacudindo o cabelo – você fica – ele praticamente me esmaga em seus braços – você é tão quentinha – ele coloca a mãe em minha bochecha.
— Não imaginei que minha mãe deixaria um garoto dormir aqui assim tão fácil.
— Seu ex-namorado não dormia?
Pela claridade que vem da janela da sala posso ver seus olhos me observando. Fico surpresa quando ele diz isso.
— Não, ele quase não vinha aqui. Pensei que ninguém sabia que eu já tinha namorado.
— Como não? Vocês sempre estavam juntos no colégio.
_ Muito pelo contrário, a gente quase não ficava juntos.
— Eu via você com ele.
— Então quer dizer que você ficava me observando? – olho para ele desconfiada.
— Sempre. Você que nunca percebeu.
Felipe afasta meu cabelo do meu pescoço e me cheira. Sinto um frio percorrer minha espinha, perco até o meu raciocínio, sinto seu nariz tocar meu pescoço e é uma sensação muito boa.
— Eu gosto do seu cheiro – ele diz.
Tento controlar minha respiração.
— Isso eu sei – dou uma risadinha – o que eu não sei é porque você ficava me observando – estou curiosa.
— Acho que eu sempre me senti atraído por você.
Não acredito no que ele acaba de dizer, para falar a verdade eu fico chocada, sempre achei que Felipe era indiferente a qualquer garota. Me sinto tão importante, não porque conheço muitas meninas que ficariam loucas por escutar isso dele, mas porque agora eu sei que tem algo especial acontecendo entre nós dois.
— Eu nunca imaginei uma coisa dessas – digo sinceramente.
— E eu nunca imaginei que ia me sentir tão bem com alguém – sinto meu coração acelerar – você lembra que eu disse que eu não sou bom o suficiente para nenhuma garota?
— Lembro.
— Eu quero mudar por você Aline, quero ser bom o suficiente e merecer estar com você.
Ai meu Deus!
— Estou completamente apaixonada por você – confesso. Agora não tenho medo de dizer isso para ele.
— Acho que eu me apaixonei por você na primeira vez que eu te vi. Se lembra que você entrou no banheiro masculino por engano e deu de cara comigo?
— Que mico – coloco a mão no rosto – pensei que já tinha esquecido isso.
Queria que ele tivesse esquecido, eu quase morri de vergonha. Felipe ainda me mostrou onde era o banheiro feminino e não fez nenhuma piadinha comigo. Ele não parava de sorrir para mim e eu pensei que ele era um garoto especial, depois que o vi com os amigos percebi que ele não tinha nenhuma deficiência.
— Não esqueci porque foi a primeira vez que eu vi você.
Coloco minha mão no seu rosto, ele fecha os olhos. Agora eu posso tocá-lo e ficaria olhando para ele por horas sem enjoar.
Depois de um tempo nós dois caímos no sono e eu posso apostar que durmo sorrindo segurando a sua mão.
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