As batidas incessantes de Emily, minha madrasta, na porta do meu quarto era um indicativo que já era hora de acordar. Odiava quando ela fazia isso, aliás, odiava tudo nela.
Desde que ela se casara com papai há cerca de algumas semanas e se mudou para nossa casa em Nova York, minha vida virou de cabeça para baixo. Ganhei uma madrasta, uma irmã postiça, um quarto compartilhado e um poodle barulhento.
Eu nunca me conformaria com o fato de ela ter sido o ápice do divórcio de meus pais. Está bem que o casamento dos dois já estava em crise há muito tempo, mas quando mamãe descobriu que meu pai estava sendo infiel a ela, debaixo do nosso teto e com uma garota quase oito anos mais jovem, ela surtou.
Eu não a culpo. Provavelmente eu agiria da mesma forma.
O fato é que mamãe arrumou as malas, enfiou tudo no banco detrás do carro e foi morar com a irmã mais nova na Flórida para esfriar a cabeça.
Eu não fui junto, obviamente.
Ela queria um tempo sozinha, sem o ex-marido babaca para encher o saco, sem a maldita agência de propaganda que os dois haviam fundado juntos há doze anos, sem as amigas fofoqueiras que espalhavam a noticia do seu divórcio mais rápido do que chamas em incêndio e sem a filha que não conseguia comer macarrão sem sujar a camiseta de molho.
Ela precisava de espaço, e eu dei.
Talvez até demais, já que após assinar o divórcio ela também se casou com um surfista com metade da sua idade e foi morar com ele em uma casa de frente para a praia.
Sim, meus pais eram bem rápidos...
Emily voltou a bater na porta e o Toc-Toc insistente na madeira me despertou de vez de meus devaneios. Observei Meredith roncando com a boca aberta no travesseiro de ovelhinha e me questionei mentalmente como uma criança de dez anos podia roncar tão alto.
Caminhei até a porta do quarto e a destranquei para que Emily parasse com aquela luta de MMA com a madeira.
-Bom dia! -Ela disse de forma polida.
Eu apenas a ignorei e caminhei em direção ao banheiro, precisava de uma ducha bem quente para começar o dia.
***
A manhã estava nublada e o céu muito escuro, embora não estivesse chovendo. Papai dirigia com a atenção focada na rua, enquanto eu ouvia Ed Sheeran no meu fone de ouvido para não ter que conversar com ele
-Hoje não vou poder te buscar na saída. -Ele disse e eu mal consegui ouvir por causa do volume da música- Você está me ouvindo, Serena?
Ele puxou o fone dos meus ouvidos e eu revirei os olhos.
-Tudo bem, eu volto com a Robin ou com o Jess.
Ele fez uma negativa com a cabeça.
-Não. Já conversei com a Emily e ela vem te buscar logo depois de passar na escola da Meredith.
Eu ri com sarcasmo.
-Prefiro voltar andando.
-Serena! – Ele me repreendeu.
-Estou falando sério. – Eu respondi- Você tentar me enfiar sua esposa goela a baixo, não vai fazer eu gostar mais dela.
Papai não respondeu e eu achei que ficaríamos em silêncio pelo resto do percurso. Infelizmente, ele resolveu que tinha de desabafar.
-Sabe o que eu não entendo? Por que você tem essa gigantesca cisma com a Emily? Por que a sua mãe pode recomeçar a vida com o bonitão dela do outro lado do país e eu não posso ser feliz com a minha esposa.
-Porque mamãe só se casou com o seu “surfista bonitão” depois de estar divorciada de você. Há uma pequena diferença entre se casar de novo e transar com a secretária na mesa do escritório, em frente o porta-retratos com fotos da sua esposa e filha.
-Quando você for mais velha, Serena, vai entender que nem todos amores começam de forma correta.
-Acho que traição é algo que não é correto em idade nenhuma, pai.
Ele não disse nada novamente e eu sabia que esse assunto estava encerrado por enquanto.
-Falando na sua mãe, ela te ligou esse final de semana.
Eu assenti com a cabeça.
Era mentira, eu só não queria faze-la parecer culpada.
Papai parou o carro em frente à escola e eu fingi não ouvir o seu "tchau" colocando os fones de ouvidos de volta, ainda que não estivesse ouvindo nada.
Agradeci mentalmente ao pensar que aquele era meu último ano na escola, não via a hora de ir para a faculdade mais distante que eu fosse aprovada e me afastar de todas essas pessoas malucas que faziam parte da minha vida.
Menos de Robin, minha melhor amiga, minha irmã.
Robin e Jess se beijavam loucamente encostados a porta do meu armário.
-Ah! Qual é a de vocês dois? Arrumem um quarto. – Eu disse.
Os dois se afastaram limpando os lábios e riram da minha reação um pouco exagerada.
-Alguém está de mal humor. – Robin cantarolou.
Eu a ignorei e abri o meu armário pegando o livro de Literatura Inglesa, fechando a porta de metal em seguida. Jess percebeu que eu não estava muito afim de papo e beijou rapidamente os lábios de Robin novamente e indo para sua aula, nos dando espaço para conversar.
-Ok, me conta, o que aconteceu? – Ela perguntou enquanto caminhávamos pelo corredor em direção a sala de aula.
-Meu pai... Emily... – Eu disse- Eles estão forçando tanto a barra para que nos entrosemos. Eu a odeio.
-Eu te entendo amiga, eu odeio Emily também.
-Acredita que ele pediu para que ela viesse me buscar hoje no colégio?
-NÃO? – Ela perguntou admirada.
-Eu falei para ele que volto andando, mas não entro no carro dela!
Ela entrou na sala e sentou em uma carteira ao fundo, enquanto eu me sentei na fileira ao lado.
-Hoje tenho reunião do jornal então não posso te dar uma carona, mas posso falar com Jess e ele te deixa na sua casa. -Robin comentou.
-Se ele não tiver nada para fazer, por favor. – Eu respondi- Só de pensar em estar no mesmo carro que a Emily, tenho vontade de vomitar.
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