Notas iniciais
Estávamos arrumando nossos instrumentos na garagem, quando a campainha tocou. Ryan sorriu, subindo as escadas apressadamente.
— Nossa, ele está mesmo feliz por esse amigo estar visitando — Felipe observou.
— Deixe o garoto em paz, Felipe — disse eu, plugando o fio do microfone no alto-falante.
— Só estou fazendo um comentário, larga do meu pé, Sam. — respondeu ele, na defensiva. Ryan desceu as escadas com Tyler. Ele era bonitinho.
— Galera, esse aqui é o Tyler. — disse ele, apontando para o garoto. Cabelos azuis, olhos azuis, óculos... — Tyler, essa é a nossa banda.
— Muito prazer em conhecê-lo, Tyler. Eu ouvi muito de você... — murmurei, fazendo Ryan corar de leve. Tyler riu.
— Ryan também me contou muito sobre você, Samantha.
— Pode me chamar de Sam. — sorri, e ele retribuiu.
— Okay... Sam! — exclamou ele. — Quero ouvir suas músicas. Me disseram que vocês são ótimos.
— Na verdade, ainda não temos uma música, por assim dizer... — Tom disse, virando-se para Tyler. — Temos de dar uma retocada na letra e encontrar a música, a parte instrumental. Mas, a gente vai fazer um show no Mr. McClaire na segunda, você está convidado. Agora vamos tocar algumas músicas só para ensaiar mesmo.
— Ótimo! — Tyler disse, animado. — E que música vocês vão cantar?
— Que tal Madness, do Muse? — Ryan sugeriu.
— Essa é a música perfeita. — Tyler murmurou. — Aliás, essa é a banda preferida de dois de meus melhores amigos. Eles são britânicos e moram juntos...
— Moram juntos, tipo... eles são dois homens? — Felipe interrompeu.
— Bem, sim! Eles são um casal. — Felipe arregalou os olhos, perplexo.
— Um... casal... mas...
— Tudo bem, vamos ensaiar? — me virei para Felipe, antes que ele começasse a discutir sobre a opção sexual dos amigos de Tyler.
“I, I can't get these memories
(Eu, eu não consigo tirar essas memórias)
Out of my mind
(da minha mente)
And some kind of madness
(E algum tipo de loucura)
Is starting to evolve
(está começando a evoluir)
And I, I tried so hard to let you go
(E eu, eu tentei tanto te deixar ir)
But some kind of madness
(Mas algum tipo de loucura)
Is swallowing me whole, yeah
(Está me engolindo por inteiro, yeah)
I have finally seen the light
(Eu finalmente vi a luz)
And I have finally realized
(E eu finalmente entendi)
What you mean
(O que você significa)
Ooh”
Eu podia perceber pelo canto do olho o quanto Tyler estava gostando da apresentação, principalmente por causa de um membro em potencial. Sorri.
“Now, I have finally seen the end
Agora, eu finalmente vi o final
(Finally seen the end)
Finalmente vi o final
And I'm not expecting you to care, no
E eu não estou esperando que você se importe, não
Expecting you to care
(Esperando que você se importe)
That I have finally seen the light
Que eu finalmente vi a luz
Finally seen the light
(Finalmente vi a luz)
But I have finally realized
Mas eu finalmente percebi
Realized
(Percebi)
I need your love
I need your love
(Eu preciso do seu amor
Eu preciso do seu amor)
Come to me
(Venha para mim)
Just in a dream
(Somente num sonho)
Come on and rescue me
(Venha e salve-me)
Yes I know
(Sim, eu sei)
I can't be wrong
(Eu não posso estar errado)
Maybe, I'm too headstrong
(Talvez eu seja muito cabeça dura)
Our love is
(Nosso amor é)
Madness
(Loucura).”
— Vocês são o máximo! — Tyler sorriu, abraçando Ryan.
— Obrigado — Ryan murmurou, sem jeito.
— Sam, já te disseram que sua voz é uma mistura de Amy Lee e Joan Jett? — Tyler comentou, e eu senti minhas bochechas quentes.
— Sério? — abri o maior sorriso. — Ninguém nunca me disse isso, eu amo as duas de paixão... obrigada, Tyler.
~x~
— Hey, Sam? — Felipe me abordou enquanto subia as escadas para meu quarto.
— Sim?
— Hum... — hesitou, e pude perceber o nervosismo em que Felipe se encontrava. — Você não acha no mínimo estranho que Ryan anda se relacionando com esse tipo de gente?
— “Esse tipo de gente”? — repeti, incrédula com o modo que Felipe se referira á Tyler.
— É, você sabe... gays — Felipe sussurrou, olhando para os lados para ter certeza que ninguém ouviria. Parecia que estava cometendo um pecado ao falar aquele nome em voz alta.
— Você e seus preconceitos... — suspirei, tentando não alterar meu tom de voz ao responder-lhe. — Não, Felipe, eu acho isso super normal. Qual é o problema de Ryan ter amigos gays?
— Nenhum problema, absolutamente nenhum. Só acho estranho. Um cara 100% hétero nunca seria amigo desse tipo de pessoa — estava tentando ao máximo não falar nada e tentava com afinco não me irritar, mas era inútil. Felipe nunca mudaria, e eu odiava isso. Amava aquele garoto, mas o quanto ele foi abusado por aqueles pais irresponsáveis que odiavam toda e qualquer pessoa que não era da mesma religião me matava. Os pais dele costumavam dizer que tinham a “cura gay”, e todos acreditavam. Levavam os filhos para a clínica de reabilitação da família, mas sabe o que acontecia? Os garotos eram espancados, eram violentados e muitas vezes se matavam por causa de toda a baboseira que os pais de Felipe colocavam na cabeça deles.
— Felipe, eu entendo que você nasceu em uma família religiosa, entendo que eles falavam muita besteira pra você, e você acreditava, pois era uma criança. Mas por favor, por favor, tente abrir um pouco essa sua mente. — pedi, chateada por saber o quanto Felipe era ignorante sobre certos assuntos. Machismo, homofobia... era só uma parte do que os pais dele tinham plantado no garoto. — Você é uma ótima pessoa, e eu espero de verdade que você mude seus conceitos, mas eu sinceramente não estou mais aguentando passar um dia á seu lado. Ninguém está.
— Meus pais eram ótimas pessoas — murmurou ele.
— Mesmo? — ironizei, soltando uma risada. — Então por que eles faziam tudo aquilo com aqueles garotos? Por que seu pai usava o fato de ser homem para poder mandar em sua mãe e sua irmã? Por que eles espancavam aqueles garotos, Felipe?
— Por que eles estavam pecando! Meus pais só tentava ajudá-los.
— Nada justifica aquele tipo de violência! — gritei, com lágrimas nos olhos. — Se o seu Deus ama todas as coisas, por que você não pode amar, ou pelo menos respeitar também?! As pessoas nascem assim, não é uma escolha! — eu estava tremendo de raiva, chorando como só havia chorado uma vez na vida.
— O que está acontecendo aqui? — Ryan perguntou, e eu senti alguém me abraçando de lado. Era Tyler.
— É só a Sam dando mais um de seus ataques — Felipe deu de ombros, virando as costas e caminhando até seu quarto.
— O que ele te disse, Sam? — Tyler perguntou, ainda abraçado á mim. Não tive coragem de dizer-lhes sobre o que estávamos discutindo.
— Nada — murmurei, e Ryan me olhou com os olhos semi cerrados, limpando as lágrimas de meu rosto com os dedos — É sério, eu me irritei com uma resposta dele, só isso.
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