O nó sinoatrial
16 Vivo, morto.
A mente humana sempre foi um verdadeiro mistério. Embora os avanços nessa área continuassem abrindo novas portas na medicina, muitas coisas simplesmente não podiam ser explicadas.
Emma estava a ponto de roer as unhas. No dia anterior, David havia sido ótimo e concordado com seu plano de internamento, disposto a se livrar do vício. Mas bastou que a manhã chegasse para ela perceber o pai arredio, com um pensamento que ia no sentido completamente oposto.
Ela percebera que as coisas mudaram ainda no café da manhã. David estava sem carro e, portanto, com os movimentos mais limitados do que o normal. Ainda assim, deixara bem clara sua intenção ao ofendê-la antes mesmo que trocassem os cumprimentos matinais, afastando-a como vinha fazendo nos dias anteriores.
E embora Emma soubesse, racionalmente, que era o vício falando, ainda sentia como se fosse ela quem tinha fracassado outra vez.
A única boa notícia do dia havia sido, até então, a conversa que tivera com o prefeito. Fora um telefonema rápido, mais fácil do que Emma pensava que seria. Quando anunciou seu nome para a secretária do gabinete, a ligação foi transferida rapidamente e logo a voz sorridente do homem se fazia ouvir. A médica podia jurar que o ouviu pulando quando declarou seu interesse pela clínica.
Seguindo todos os protocolos, Emma já havia dado entrada no processo burocrático que a permitiria atuar no Maine. Por ter se formado e trabalhado apenas em Los Angeles, sua licença era válida na Califórnia, sendo necessária uma série de checagens para obter a nova permissão para atuar em Storybrooke. Era pura burocracia: antecedentes, histórico da faculdade e a verificação das notas do USMLE. O comum era que isso levasse de dois a quatro meses para acontecer. Além disso, ela ainda aguardava a atualização do órgão de controle para a receita de medicamentos.
Ainda que soasse como uma espera longa demais, ela teria tempo o bastante para reestruturar a clínica no que fosse necessário e voltar a estudar. Acabou sendo um choque extra perceber que, embora soubesse como reparar uma aorta com precisão, sentia insegurança a respeito de tratar asma infantil. Considerava-se um pouco enferrujada no que dizia respeito à medicina geral e precisava relembrar algumas coisas.
Mas é claro que as coisas não ficariam assim.
O prefeito tinha sido incrivelmente rápido; conseguira uma licença de emergência de cem dias com o conselho do Maine, alegando calamidade pela falta de médicos na região. Mas a facilidade parava ali. Emma olhou para a tela do notebook, sabendo que precisaria pagar as taxas de inscrição de seu próprio bolso, além de passar algumas horas respondendo ao exame de jurisprudência do estado antes de poder assinar a primeira receita. Isso sem contar o seguro de erro médico que precisaria contratar para a clínica... Cada clique parecia sugar mais um dígito de sua conta bancária.
Sua intenção inicial era apenas demonstrar interesse na clínica, conseguir permissão para pegar a chave — nada escondido dessa vez — e talvez pedir alguma ajuda para fazer a limpeza do local. O que acabou ficando para depois, já que se viu presa em formulários.
A grande verdade era que Emma começava a ficar preocupada com as suas finanças. Tendo vendido o apartamento e o carro esportivo que dirigia em Los Angeles, pensava ter mais do que o suficiente para arcar com qualquer custo que a clínica exigisse e ainda conseguir manter as parcelas em dia com Regina por alguns meses. Mas as novas promissórias de David haviam acrescentado alguns zeros a essa conta, isso sem contar os custos da internação do pai, que seriam descontados assim que ele parasse de agir daquela maneira e cumprisse sua parte do acordo.
Depois disso, não havia muito o que pudesse fazer além de esperar. Levou o notebook para o quarto, trancando a porta antes de sair de casa. Esse era um costume que adquirira após descobrir que o pai usara suas joias para pagar dívidas de jogo; e mesmo que detestasse ter que agir assim, sabia que seria ainda pior correr o risco.
Após dirigir até a cidade, Emma buscou a chave da clínica — com Granny, sob o olhar atento de Ruby — e foi para o prédio. Certamente o lugar precisaria de uma pintura nova, reparos no forro e no telhado, e talvez trocar as dobradiças da porta frontal, que estavam enferrujadas. Durante as horas seguintes, a médica ocupou-se em testar as máquinas e toda a aparelhagem da clínica, além de separar centenas de prontuários escritos a caneta. Precisaria revisar todos eles e dependeria da ajuda dos moradores locais para atualizá-los, decidindo quais iriam para o registro digital e quais seriam, possivelmente, descartados.
— Já está se organizando, doutora? — A voz de Regina tirou-a de sua concentração profunda, e Emma levantou a cabeça, sem jeito.
Estivera tão focada no que fazia que não ouviu a morena entrar, e não fazia ideia de há quanto tempo estava sendo observada.
— Regina. — Só então a médica sorriu. — Como soube que eu estava aqui?
— Swan... Eu já lhe disse que sei de muitas coisas. — Regina caminhou ao redor do aposento, verificando a quantidade de pó sobre os móveis. — Mas digamos que o fato de você ser a única que dirige um SUV em Storybrooke, e de ele estar parado bem na porta, pode ter ajudado.
— Claro — Emma acabou rindo. — Já que está aqui, eu poderia realmente usar alguma ajuda com esses prontuários. São antigos e eu preciso saber quais manter e quais descartar.
A morena andou até Emma e apoiou-se na mesa ao lado dela, puxando o primeiro prontuário da pilha.
— Morto. — Dizendo isso, jogou a pasta no chão e passou para a próxima. — Viva. O quê?
Emma a encarava com os olhos arregalados.
— Eu só não esperava isso — apontou para a pasta azulada jogada ao lado da mesa, o que fez com que Regina risse. Emma também não esperava que a proximidade do perfume da outra a fizesse se sentir subitamente bem, mas jamais diria aquilo em voz alta.
— Ora, Swan... Essa é a única atualização que você precisa aqui. Os que estiverem nessa pilha de papéis e estiverem vivos virão até você, já que não existe outro médico nesta cidade. Os que não estão mais entre nós... Bem... — Ela deu de ombros.
Continuaram assim durante algum tempo, até Regina travar de repente, encarando a pasta etiquetada com o nome de Kristin. Emma não se mexeu, dando a ela o tempo de que precisava. Ao contrário dos outros prontuários, esse não foi jogado no chão; a morena abaixou-se e, com delicadeza, colocou-o sobre a pilha crescente ao lado da mesa.
O próximo item da pilha era o prontuário da própria Regina, e ela sorriu para Emma antes de colocá-lo junto aos que estavam no tampo de madeira. Ela tentou erguer a pilha e encaixar a pasta sob as outras, mas a médica não deixou.
— Não, esse você precisa deixar bem no topo.
— Ah, é mesmo, Swan? Por quê?
— Porque é de alguém que eu espero ver com alguma frequência... Não como paciente, mas o prontuário serve para pegar alguns contatos.
— Você sabe onde eu moro, tem meu telefone... A menos que esteja interessada no meu período menstrual, Swan, não vejo o que mais você pode conseguir aqui.
— Que pena, Mills – Emma deu de ombros, fingindo decepção – Eu esperava descobrir se você estaria interessada em jantar comigo, na sexta-feira.
Regina a encarou com uma das sobrancelhas levantadas e um sorriso leve nos lábios. Sem dizer nada, pegou o próprio prontuário, tirou uma caneta do suporte e passou alguns instantes escrevendo. Ao devolver a pasta sobre a mesa, bateu as unhas vermelhas sobre ela algumas vezes antes de virar as costas.
— Te vejo na sexta, Swan — Disse, enquanto caminhava para a saída.
Emma, que manteve os olhos presos no corpo da morena até perdê-la de vista, balançou a cabeça antes de abrir a capa da pasta.
“19h na minha casa. Você leva o vinho.”
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