O nó sinoatrial
15 Uma aposta simples
A primeira coisa que Emma percebeu foi o cheiro.
A casa de Regina cheirava à madeira que ardia na lareira, ao couro dos móveis caros e ao perfume dela mesma, aquela fragrância tão característica de rosas vermelhas combinada a algo que a médica nunca conseguia identificar. A sala de estar aquecida devolveu-lhe os dedos, trazendo a sensação incômoda de que eles estiveram gelados por tempo demais e deixando as juntas rígidas e doloridas.
— Que coisa estúpida, sair no frio sem usar um casaco – Regina falava, enquanto deslizava um cobertor grosso sobre os ombros de Emma – Principalmente para uma médica. Eu esperava mais de você, Swan.
Emma a acompanhou com os olhos, observando enquanto a morena se movia pela sala, atiçando a lareira e afofando almofadas que claramente não precisavam de atenção. Em seguida, Regina foi até o bar e serviu duas doses de whisky. Deslizou um dos copos por entre os dedos rígidos da loira.
— Beba, vai te esquentar – E como sempre acontecia quando se tratava de Regina Mills, Emma obedeceu.
O álcool queimou a garganta de Emma. Ela se pegou pensando que, se o pai achava que o que ele bebia era bom o bastante para um efeito analgésico, provavelmente cairia duro se provasse o estoque de Regina.
Ela sorriu, depois riu baixo. Mas não havia no som qualquer traço de humor ou diversão e Regina, reconhecendo o riso dos desesperados, sentou-se ao lado dela no sofá e apenas esperou.
— Ele roubou minhas joias – Emma falou, em voz baixa.
— O que? – Regina a encarou – Olha, Swan... Eu sei que você está tendo um colapso, mas vou precisar de mais volume do que isso.
— David roubou minhas joias – Dessa vez, a médica declarou em alto e bom tom, encarando a outra enquanto falava, dizendo para si mesma aquela verdade que se recusava a verbalizar – Ele roubou minhas joias e as usou para pagar promissórias – Ela riu outra vez – Ele tem uma maldita gaveta cheia delas.
Regina arregalou os olhos, sem disfarçar a própria surpresa.
— E ele tem... Tem um mural com coisas minhas. Como um maldito santuário.
— Que tipo de coisas?
— Recortes de revistas, uma cópia do meu diploma... Coisas assim – Emma bebeu outra vez – Fico me perguntando como a versão dele que construiu aquilo se sentiria se soubesse que ele mesmo me roubaria anos depois.
— Emma... Eu sinto muito.
— Eu cheguei tarde, não é? Meu pai se afundou enquanto eu estava em Los Angeles, vivendo algum tipo de conto de fadas patético, e agora não há nada que eu possa fazer.
— Emma Swan, não pense por um segundo que isso é culpa sua — Regina balançou a cabeça, a irritação pela autossabotagem da outra transparecendo na voz — Seu pai é um homem adulto, responsável pelas consequências das próprias escolhas.
— Sim, mas eu estava longe e...
— Estava construindo sua própria vida — A morena a interrompeu, levantando-se — Estava estudando, sendo alguém, salvando vidas e consertando corações. Ninguém tem o direito de te culpar por isso. Nem ele, e nem você mesma.
— Regina...
— Não, Emma, não tem “mas” – Ela andava de um lado ao outro – Você sabe da sua própria vida melhor do que eu, então olhe bem para o fundo de suas memórias e me diga que tem plena certeza de que algo seria diferente, caso tivesse ficado aqui.
E esse era o problema, Emma não tinha certeza nenhuma.
— A conclusão mais provável – Regina continuou – É que você teria afundado junto dele.
A médica ficou em silêncio, encarando as chamas que ardiam na lareira. Conhecia-se o suficiente para saber que teria tentado salvar o pai com todas as forças, o que, no fim, era exatamente o que estava tentando fazer agora. A diferença é que, na época, não teria capital e, provavelmente, faltariam forças para enfrentá-lo. Diabos, talvez ela mesma o tivesse acompanhado no vício.
— Você tem razão – Foi tudo o que ela respondeu, quando uma lágrima solitária desceu por sua bochecha esquerda.
— É claro que eu tenho razão – Regina pontuou, voltando a se sentar ao lado dela e puxando-a para um abraço – Eu sempre tenho razão.
No dia seguinte, Emma acordou devagar. O corpo estava dolorido pela tensão da noite anterior, e os nervos reclamavam a cada movimento. Sentiu-se perdida, a princípio, encarando um teto que não era o de seu quarto na casa Swan, até que todos os detalhes retornaram de uma só vez.
— Ah, não... — Gemeu, escondendo o rosto entre as mãos.
De todos os lugares para onde seu cérebro travado poderia tê-la levado, ela acabara chorando na sala de estar de Regina Mills, onde ainda permanecia.
O cheiro do café quente embalou seus movimentos lentos. Ela se levantou do sofá, dobrando a coberta pesada que a protegera do frio da noite. Por um momento, ficou parada, dividida entre a porta da frente que a levaria embora e o arco ornamentado que supôs levar até a cozinha. Bastou que calçasse as botas e desse alguns passos em direção à saída para escutar a reprimenda de Regina.
— Nem pense nisso, Swan – A morena vinha da cozinha, trazendo duas xícaras de café – Nenhuma mulher passa a noite comigo e sai de fininho na manhã seguinte.
Emma não respondeu, aceitou a xícara estendida em sua direção e bebericou, enquanto pensava.
— Desculpe por isso – Ela deu de ombros – Eu não tinha intenção de vir até aqui e acordar você, eu nem...
— Você não estava pensando direito, Emma – Regina a olhou, não havia pena ou divertimento em seu olhar, apenas seriedade – Seu cérebro só mandou você para onde sabia que estaria protegida enquanto ele reiniciava.
— Acho que sim...
— Já chegamos ao acordo de que eu sempre tenho razão, Swan – A fala da morena fez Emma sorrir – E honestamente, fico lisonjeada que seu cérebro a tenha enviado até aqui. O que pretende fazer agora?
— Eu... Eu não sei ainda – Emma balançou a cabeça, surpresa pela mudança súbita de assunto – Estou um pouco perdida, depois de ontem.
Após sua primeira quebra emocional, na noite anterior, a médica havia relatado toda a reação do pai ao vê-la. Os acontecimentos haviam deixado a morena chocada, já que de acordo com ela, em outros tempos, o homem ansiava pela visita da filha.
— Mas você sabe que esses ataques não são realmente pessoais, não é? – Regina perguntou, recebendo da loira um par de sobrancelhas erguidas – Emma... David não está sendo David, nesse momento. Ele precisa de você longe para continuar jogando, para continuar levando o vicio adiante. E antes era fácil, porque você não tinha acesso ao rancho, não estava por perto.
— E agora eu estou, por isso ele faz o possível para me afastar – Emma concluiu.
— Exato. Quanto tempo pretende ficar dessa vez?
— Não tenho um limite – A médica encarou a própria xícara.
— Uau, as vantagens de ser uma doutora prestigiada, não é? – A morena gracejou – Imagino que o hospital saiba que não podem substituí-la.
— É... O ponto é que... Eu pedi demissão – Dessa vez, foi Regina quem levantou as sobrancelhas – E vendi meu apartamento.
— Swan... Você me surpreende – Regina sorriu, enquanto pegava a xícara das mãos dela e seguia para a cozinha – Parece que finalmente Storybrooke ganhou uma médica que é um colírio para os olhos. Pegue um casaco antes de sair.
Emma encarou o arco por onde Regina tinha acabado de passar, toda a tensão desaparecendo durante os segundos em que deixou que o elogio disfarçado se infiltrasse em sua cabeça. Pensou que, quando tivesse tempo, depois de resolver todos os problemas com David, gostaria de flertar mais à sério com a morena.
O amanhecer estava glorioso – e gelado – a umidade da noite fria havia limpado o ar e as cores do amanhecer eram claras. Emma inspirou profundamente, incomodada pelo fato de que nunca havia apreciado as paisagens ao redor. Nos últimos anos, estivera morando em uma das áreas mais cobiçadas de Los Angeles, pela vista da praia e das palmeiras e mesmo assim, não se importara com nada daquilo.
Sem pensar muito, bateu uma foto da vista e enviou para Elsa e Ruby, a fim de avisar as amigas que havia voltado. A resposta veio logo depois, acompanhada de emojis assustados enviados por Ruby.
“Pera, você está no Haras Mills?”
Emma riu e não enviou nenhuma resposta. Lidaria com elas mais tarde.
Ao chegar em casa, não viu o carro de David e supôs que ou o pai ainda não tinha chegado ou já tinha saído. Qualquer uma das alternativas lhe parecia boa o bastante, mas Apolo e Diana vieram para perto da cerca ao ouvir o carro e a segunda alternativa se mostrou a mais provável.
A médica conversou com os cavalos por vários minutos, percebendo como havia sentido falta dos animais e prometeu que voltaria depois, com petiscos.
Emma entrou em casa, as botas pesadas ecoando no silêncio da sala. O cheiro de whisky barato e poeira misturada ainda flutuava no ar, uma lembrança sufocante da noite anterior, mas o efeito do abraço de Regina e as poucas horas de descanso pareciam ter criado uma blindagem ao redor de seus nervos.
O que ela não esperava, no entanto, era encontrar David semiadormecido, com os braços apoiados sobre o tampo da mesa da cozinha. Emma travou o passo no início do corredor. O som da própria respiração pareceu alto demais no silêncio da casa enquanto ela assimilava a cena.
David estava desabado, a testa encostada na madeira áspera e os braços abertos ao redor da cabeça, como se tivesse despencado ali no exato momento em que as forças falharam. O cheiro de álcool impregnava o ambiente, pesado e azedo, competindo com a brisa fresca que Emma tinha trazido consigo da varanda. Uma garrafa de whisky barata, pela metade, repousava a poucos centímetros dos dedos trêmulos dele.
A médica deu um passo à frente, o instinto profissional assumindo o controle antes mesmo que ela pudesse processar a mágoa. Os olhos semicerrados analisaram o ritmo da respiração do pai — superficial, mas regular —, certificando-se de que se tratava apenas do torpor do álcool e não de algo pior. As marcas amareladas no rosto dele pareciam ainda mais feias sob a luz clara da manhã.
Emma engoliu em seco, sentindo o estômago revirar ligeiramente. A imagem daquele homem forte, que um dia comandara o rancho com firmeza, reduzido àquela fragilidade autoimposta na mesa da cozinha, era um soco no estômago mais doloroso do que qualquer grosseria que ele pudesse berrar.
Antes que pudesse se afastar, David abriu os olhos. Levantou a cabeça, passando a mão pelo rosto e a encarou.
— Você não estava em casa quando cheguei.
— Não, não estava — Emma respondeu, levantando escudos de defesa que não esperava precisar usar. — Cheguei agora há pouco e pensei que você não estaria por aqui, não vi seu carro.
David riu então. O som seco, desprovido de qualquer humor ou humanidade, fez um arrepio correr pela nuca da médica.
— Eu perdi.
— Como é?
— Eu perdi a maldita caminhonete em uma aposta — Ele desabafou, balançando a cabeça. — Não me deixaram assinar outra promissória, então eu tive que dar a caminhonete.
Emma puxou uma cadeira e se sentou, tentando absorver aquela informação.
— E como você veio para casa?
— Uns caras do bar me deram carona – Ele suspirou – Sobre o que eu disse ontem, Emma... Me perdoe. Não quis dizer nenhuma daquelas coisas... Eu sinto que nada que eu digo é algo que eu queira dizer, me compreende? – Emma o encarava, sem reação – Eu passei o rancho para você porque precisava proteger essa terra de mim mesmo, com mil diabos, eu passei os cavalos para você, porque precisava protegê-los de mim.
— Pai... – Emma começou, mas ele sinalizou para que esperasse.
— Eu não aguento mais, Emma. Eu falhei como marido, falhei como pai e consegui perder tudo o que eu tinha. Mas eu não consigo parar, juro que não consigo. Desde que você chegou, antes, eu acordava de manhã e prometia para mim mesmo “hoje eu não vou jogar” e quando a noite chegava, eu nem pensava, quando percebia já estava lá e como já estava lá, eu jogava.
— Pai, eu estou tentando... Eu consegui tirar o rancho do leilão, firmei um acordo com a Regina para pagar por tudo. Mas eu não consigo continuar arcando com as dívidas desse jeito, eu sei sobre a sua gaveta cheia de promissórias lá em cima – Ele fechou os olhos, envergonhado – Eu não sei o que fazer para te ajudar e isso está me deixando desesperada porque você pode não ter sido o melhor pai do mundo, mas é o meu pai, é o único que eu conheci, o único que tenho.
A essa altura, os dois choravam.
— Mas se vamos fazer isso, precisamos trabalhar juntos – Emma finalizou, secando uma lágrima.
— Como... Como? Eu não consigo parar, Emma. Não vou mentir para você, não mais. Quando a tarde cair, vou sair por aquela porta e, se não conseguir carona, vou caminhar até a cidade vizinha. Eu posso jurar agora que não farei isso, mas... Mesmo perdendo, eu continuo indo.
— É como o vício funciona, pai. Um dependente químico não é viciado na droga, mas sim na sensação que ela traz, mesmo que nenhum uso vá ser tão bom quanto o primeiro — Emma explicou. — Você não é viciado nas fichas ou nos dardos, também não é ganhar a recompensa. O vício em jogos é sobre dopamina, que é a nossa “molécula do quero mais”, a expectativa antes da recompensa. É como se o seu cérebro fosse viciado no quase.
— Sim – Ele sorriu pela lembrança – É o momento antes de virarem as cartas.
— Pai... Esse é um vício tão ruim quanto a dependência de álcool ou drogas, você entende isso? – Ele assentiu – Não vai ser fácil, eu preciso que você entenda isso. Eu não vou conseguir transformar esse lugar em uma prisão domiciliar e impedir que você saia.
— Você vai me internar – David entendeu, mas sua fala não tinha um tom acusatório.
— Como médica, eu acredito que essa seja a melhor opção agora.
— Mas eu ainda preciso quitar essas dívidas, Emma... Mesmo que eu tenha passado o rancho para você, eles ainda vão vir até aqui cobrar o que eu devo e se eu não pagar ou não estiver aqui.... – Ele apontou para o próprio rosto – Não quero que nada disso aconteça com você.
— Eu vou resolver isso – Emma prometeu – Agora suba e descanse.
Durante o resto do dia, Emma fez ligações, acionou contatos antigos e seu advogado. Como o pai estava disposto a se internar voluntariamente, não foi difícil encontrar uma clínica e preencher a papelada. Quando a tarde chegou ao fim, ela já tinha tudo pronto para, em no máximo dois dias, levá-lo para os arredores de Los Angeles.
Próximo à hora do jantar, ela percebeu o pai ansioso e olhando para a porta como se fosse um último suspiro. Pediu a ajuda dele na cozinha, para tentar distraí-lo, e, juntos, fizeram a comida. Pouco depois, Ruby e Elsa chegaram, dois pares de olhos extras para garantir que ele ficaria em casa.
Ruby, sempre preparada, havia trazido um baralho para tornar as coisas mais fáceis e, aquela noite, foi a primeira em muito tempo que David Swan conseguiu encontrar alegria estando na própria casa.
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