O nó sinoatrial
3 Storybrooke
A cidade parecia exatamente como Emma se lembrava. Se os efeitos do tempo não haviam sido simpáticos com o Rancho Swan, Storybrooke parecia congelada em um conto de fadas onde o clima não tinha qualquer influência sobre as pinturas bem-feitas e nos carros coloridos que ocupavam as ruas.
Como em todas as cidades pequenas, ou minúsculas, a rua principal era o lar de todos os comércios familiares. A pequena joalheria dos Gold, levada adiante por Robert e sua esposa, Belle – o casamento fora um escândalo, em sua época, já que a moça era muito mais jovem do que o noivo – a mercearia que as irmãs Elsa e Anna tinham herdado dos pais, o famoso Granny’s Diner, ponto de encontro da população de Storybrooke e vários outros estabelecimentos cujos proprietários Emma não se lembrava ou simplesmente não tinha interesse em visitar naquele dia.
O SUV atraiu olhares. Afinal, era uma cidade sem turismo e qualquer carro diferente chamava a atenção.
“É a Emma?”
“Filha do David?”
“Ela não é médica, agora?”
“Será que voltou para ficar?”
As pessoas conversavam entre si, ao redor de Emma, como se ela não pudesse ouvi-las e, de fato, ela fingiu que não escutava os cochichos. Com o queixo levantado, ela empurrou os cabelos loiros para as costas e seguiu para a mercearia. Não estava disposta a dar quaisquer margens para conversa. As pessoas podiam falar sobre ela o quanto quisessem.
Um fato inegável sobre cidades como Storybrooke era certamente a qualidade dos produtos vendidos nas mercearias e frutarias. Maçãs suculentas, laranjas cheirosas, leite fresco, carne. Não demorou até a cesta de Emma estar lotada com o melhor que os produtores locais podiam oferecer. Acrescentou duas garrafas de vinho e uma caixa da cerveja que sabia ser a preferida do pai. Afinal, se ficaria mesmo na cidade por alguns dias, ela precisava da cooperação de David.
Anna, a irmã mais jovem, estava cuidando do caixa e abriu um sorriso terno ao vê-la.
— Emma Swan! Ouvi falar que você estava na cidade e tinha certeza de que era só questão de tempo até vê-la por aqui.
— Uau, acho que a última vez que nos vimos, você ainda era uma garotinha – Emma sorriu, lembrando-se da alegria da menina ao receber suas bonecas, que entregou a ela pouco antes de partir – Como está Elsa?
— Está bem, mas é melhor ligar. Ela já está ficando chateada porque você chegou há quase doze horas e ainda não disse nada.
Emma e Elsa faziam parte do que a cidade chamava de ‘trio da confusão’, acompanhadas por Ruby, a única morena do grupo, elas conseguiam se meter em mais encrencas do que os meninos e pregavam bons sustos nos pais, que penavam para aceitar que nem sempre meninas eram mais tranquilas.
— Eu pretendia fazer isso hoje à noite – Mentiu – Ainda estou tentando encontrar o caminho até meu quarto, dentro de casa.
Ela pretendia que aquilo fosse uma piada, uma frase sem sentido. Mas Anna abaixou os olhos, constrangida, e Emma soube que a situação do pai não era nenhum segredo.
— Diga à Elsa que falarei com ela mais tarde – Emma pediu, enquanto pagava por suas compras e se preparava para ir embora.
Deixando as coisas no carro, a médica seguiu direto para o diner, onde pretendia tomar o café mais forte que pudesse conseguir.
Assim que cruzou a porta do estabelecimento, foi levada diretamente para memórias de sua adolescência. A avó de Ruby era a proprietária do diner, o que significava refeições grátis nas tardes de estudo e horas a fio passadas nas mesas ao lado da janela, assistindo aos meninos que entravam e saiam do fliperama.
Algumas pessoas tomavam café, sentadas nas banquetas altas diante do balcão. Três crianças discutiam sobre jogos em uma das mesas afastadas e, sozinha em uma mesa da primeira fila, estava a mulher que Emma facilmente descreveria como a mais linda que já tinha visto.
Ela estava concentrada em alguns papéis, correndo os olhos pelas linhas. Seus lábios se entreabriam de tempos em tempos, como se tivesse que repetir para si mesma uma barbaridade qualquer que lia. Os cabelos escuros caíam em uma cascata volumosa por sobre os ombros pálidos, acompanhando a curva do pescoço.
Emma foi tirada de seu estado de observação pela risada de Ruby.
— Certas coisas nunca mudam, não é mesmo? – A amiga falou, parando ao lado dela – Mal chegou e já achou um rabo de saia pra babar. Mas essa aí é demais pra você.
— Olhos foram feitos para apreciar as coisas belas da vida, Ruby – Emma rebateu, e elas trocaram um abraço apertado – Meu Deus, como eu senti sua falta.
— Eu continuei bem aqui, Emma. Você é quem foi embora – Apesar do tom suave, ambas sabiam que a crítica estava nas entrelinhas – Como é ser uma cirurgiã famosa?
— Corrido – Emma sorriu brevemente. Elas seguiram para o balcão, onde a loira se sentou em uma das banquetas e Ruby colocou uma xícara diante dela, servindo o café logo em seguida – Eu sei que não tenho sido exatamente uma boa amiga...
— Não, não vamos levar a conversa por esse caminho. Nós sabíamos que você ia embora, Emma. Não era nenhum segredo que você tinha quase aversão a esse lugar e estava mais do que ansiosa para deixar Storybrooke para trás — Ruby sorriu com sinceridade. — Não vou mentir e dizer que a ideia me alegrou, porque não foi assim. Mas amadureci o suficiente para entender que você não conseguiria seguir em frente se continuasse presa a nós.
— Eu queria tanto que você e Elsa tivessem vindo comigo.
— Imagina, nós três derrubaríamos Los Angeles em uma noite – Ruby riu – Simplesmente não era nosso sonho. Mas eu não reclamaria de fazer uma visita.
Elas falaram amenidades por algum tempo, compartilhando experiências e relembrando piadas internas. Emma finalizou seu café e foi servida outra vez, agradecendo silenciosamente aos céus por ter uma amiga que se lembrava de sua necessidade constante de cafeína.
Quando a manhã já estava na metade, Emma finalmente sentiu-se energizada o suficiente para dar continuidade à missão que a levara até ali.
— Ruby, você conhece todo mundo na cidade, não é?
— Emma.... É Storybrooke – A moça riu – Todo mundo conhece todo mundo aqui. Do que você precisa?
— Preciso saber sobre Regina Mills – Ao ouvir o nome, Ruby ergueu as sobrancelhas – Um endereço seria bom. Mas eu realmente gostaria de saber que tipo de pessoa ela é.
— Que tipo de pessoa eu sou? – Uma voz levemente rouca soou atrás de Emma e ela se virou a tempo de ver a mulher que estivera admirando mais cedo se levantar e vir em sua direção. Ruby engasgou – Deixe-me pensar... Eu não vou à igreja aos domingos, mas faço doações constantes para instituições de caridade. Pago bons salários para meus funcionários, tenho um grande amor pelos animais e pela natureza em geral, gosto muito de ler... Romances, principalmente. E sou do signo de aquário, caso você acredite em horóscopos – Ela sorriu, os lábios pintados de vermelho se inclinando levemente para cima – E você deve ser Emma Swan.
Ruby assistia à cena, agarrando a jarra de vidro com ambas as mãos.
— Isso... Eu sou Emma – A loira se viu irritada pelo aparente derretimento do próprio cérebro e a incapacidade de formar frases que fizessem sentido – E você, ao que parece, é o motivo de eu estar aqui.
— Fico lisonjeada, Emma Swan – Regina inclinou a cabeça, sem tirar os olhos dela – Ao menos alguém em sua família tem faculdades mentais intactas o bastante para não ignorar os problemas.
— Problemas que talvez não existissem se algumas pessoas não fossem tão desesperadas para tomar posse do que não lhes pertence – Emma devolveu, erguendo o queixo.
Regina a olhou por alguns segundos antes de sorrir.
— Te espero no meu escritório, Swan. Passe direto pela entrada do rancho do seu pai e siga em frente, quando alcançar as cercas bem-feitas, é só pegar a próxima entrada.
Regina piscou o olho esquerdo para ela e saiu, pegando suas coisas antes de deixar o diner.
— Uau... Uau – Ruby falou, mais para si mesma.
Emma se virou para ela, recebendo da amiga um olhar misto de pena e diversão
— Você está aqui há menos de um dia e já conseguiu arrumar encrenca com a viúva Mills? Emma Swan, você não para de me surpreender.
— Hey, quem arrumou encrenca comigo foi ela – Emma defendeu-se – Eu estava muito tranquila na minha vida até receber aquele maldito e-mail.
E outra vez, a médica percebeu que a situação do pai era de conhecimento público. O olhar de Ruby perdeu toda a diversão e a moça apertou os lábios em uma linha fina.
— As coisas não vão bem, Emma – Foi tudo o que ela disse, antes de ser chamada por um cliente.
Para Emma, pareceram longos os minutos até que Ruby voltasse. Ela esperou, com uma paciência que não tinha e com a mente nos lábios avermelhados de Regina Mills.
— Ok, acho que agora eu tenho alguns minutos – Ruby se apoiou do outro lado do balcão.
— As coisas não vão bem... Em que sentido?
— Meu Deus, Emma... Você e David não conversam? – A moça a encarou – Sério, tipo... Não se falam?
— Duas vezes por ano, geralmente – Emma franziu o cenho – No Natal e em algum momento entre meu aniversário e o dele, porque são datas próximas. Mas ele nunca fez parecer que tinha problemas ou que as coisas não iam bem – Ela explicou. As mãos, precisando de uma ocupação, giravam a xícara vazia – Até que eu recebi um e-mail dessa mulher, falando sobre o Rancho Swan estar indo para leilão e que meu pai se recusa a vender.
— Olha, eu não sei como Regina está envolvida nisso – Ruby suspirou – Mas depois que você partiu, seu pai simplesmente perdeu o controle. Ele bebe o tempo todo e não é segredo nenhum que perdeu muito dinheiro em jogos. Ele entra no bar e aposta qualquer coisa contra qualquer um... Cartas, dardos, não importa. Ele... Desistiu.
— O rancho está caindo aos pedaços. Não temos mais animais nos pastos, o jardim foi tomado pelo mato.
— A princípio, as pessoas pensaram que você tinha abandonado ele, houve especulações sobre uma grande briga que explicaria seus motivos para nunca mais voltar. Mas todos pensaram que era uma situação passageira e que não ia demorar para ele ser o David de sempre – Ruby deu de ombros – O tempo passou e como nada mudou, as pessoas começaram a acreditar que você é quem enviava dinheiro para tudo.
— Eu nunca mandei um centavo para David.
— Se você não fez isso, Emma, alguém fez.
Emma sentiu uma onda de fúria, porque sabia exatamente quem tinha dado dinheiro ao pai.
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