O nó sinoatrial
17 Orgulho ferido
Notas iniciais
Emma passou boa parte daquela semana envolvida com a clínica. Entre a limpeza e a digitalização dos prontuários, as horas voavam sem que ela percebesse, e havia se tornado comum que voltasse para casa apenas quando a noite já estava alta.
Em alguns dias, encontrava David inquieto, andando de um lado para o outro. Em outros, ele chegava apenas no meio da madrugada. Emma sentia o coração apertado; estava mais preocupada com o pai do que admitia para si mesma e, no entanto, como poderia ajudar um homem que não queria ser ajudado?
Havia descoberto, por meios próprios, que ele tinha feito um pequeno empréstimo com Gold, alegando que usaria o dinheiro para quitar dívidas antigas. Embora alguma parte dela — sua criança interior, talvez — gostasse de pensar que aquilo poderia ser verdade, sabia que não era.
Na quarta-feira, já passava das nove da noite quando finalmente dirigiu para casa. A estrada estava deserta, ao menos até a entrada do Rancho Swan, onde franziu o cenho ao perceber um carro vindo em sua direção, saindo da propriedade.
Os faróis altos do sedã escuro cortaram a escuridão da estrada do Rancho Swan, forçando Emma a fechar os olhos por um segundo, ofuscada. O veículo passou devagar por ela bem na porteira, diminuindo a velocidade até o vidro do motorista descer o suficiente para revelar um par de olhos frios e um sorriso cínico.
— Avise ao seu pai que o prazo dele virou poeira, doutora — O homem ditou, a voz mansa e gélida. — Da próxima vez, a visita não vai ser para os bichos. Vai ser para você.
O carro arrancou, cantando pneu no cascalho e deixando Emma para trás com o coração batendo na garganta.
O pânico se instalou imediatamente. Emma correu para dentro de casa, gritando pelo pai, mas encontrou apenas o silêncio ecoando pelas salas. Desesperada, ela correu em direção aos estábulos.
A cena que encontrou fez seu estômago revirar. As luzes estavam todas acesas, sacas de ração haviam sido rasgadas e espalhadas pelo chão, e as ferramentas estavam jogadas por toda parte. Mas o pior estava nas baias.
Apolo e Diana respiravam de forma ruidosa, inquietos e banhados em suor pelo estresse. Quando Emma se aproximou, com as mãos tremendo, prendeu o choro ao ver o que tinham feito. A crina longa e bem cuidada de ambos havia sido violentamente raspada e cortada em tufos irregulares, deixando falhas grosseiras na pele. O chão da baia estava coberto pelos fios dos pelos de seus companheiros. Eles não sangravam, mas tremiam, traumatizados pela invasão.
Emma ignorou a sujeira e se dedicou a acalmar os animais. Era uma tarefa árdua, já que ela mesma estava à beira do pânico e seus dedos tremiam tanto que se tornava difícil manter o padrão circular que tentava traçar na testa dos cavalos, que supostamente serviria para acalmá-los.
Por fim, ignorando qualquer perigo para a própria integridade física, entrou primeiro na baia de Apolo, abraçando o pescoço do animal até senti-lo menos trêmulo e, em seguida, fez o mesmo com Diana. As crinas despedaçadas a faziam querer chorar sempre que tocava no pescoço deles.
Ela iria embora se fosse preciso. Usaria o que havia restado de suas economias para pagar a estadia dos cavalos no haras de Regina e se mudaria para a clínica. Sim, uma daquelas salas vazias poderia muito bem ser convertida em um quarto, ao menos até se estabilizar.
O vício de David tinha ido longe demais. Ela não podia permitir que a vida dos animais ficasse em risco — ou a sua própria —, embora não estivesse muito focada em si mesma naquele momento.
Outra vez, ela perdeu a noção das horas. Não sabia quanto tempo havia passado com Apolo e Diana, mas ao levantar a cabeça e se deparar com David, parado na porta do estábulo, soube que a madrugada já ia alta.
— Emma... O que... O que você fez?
— O que eu fiz? — Ela praticamente gargalhou, assustando os cavalos outra vez.
Murmurando um rápido pedido de desculpas aos animais, fechou a baia, caminhou com firmeza até estar diante do pai e o cutucou no peito com o dedo indicador.
— Você... Você é quem fez isso! — disparou, com a voz embargada de puro ódio — A culpa é sua!
David levantou os braços em sinal de rendição. Um tanto alcoolizado, o homem parecia genuinamente confuso.
— Eu nem estava aqui, Emma. O que está acontecendo?
— Esse sempre foi o problema, não é? — Rebateu ela, a voz cortante como navalha — Você não estava aqui. Você nunca está aqui.
— Emma, você já deveria ter aceitado, a essa altura, que eu já estou além da salvação — Ele deu de ombros, cansado. — Cuide da sua vida, das suas coisas e...
— Ah, não se preocupe, David. — Ela praticamente cuspiu o nome dele, o que o fez encará-la sob o efeito do álcool — Eu não ligo para como você decide acabar com a sua vida. Não mais. Mas quando as atitudes que você toma colocam os meus cavalos em risco, é hora de traçar uma linha.
— Do que diabos você está falando?
— De quem estava aqui enquanto você sumia — Ela se afastou, olhando-o de cima a baixo com desprezo — Os caras para quem você deve.
Essa frase pareceu dissipar o álcool do organismo do homem, que só então enxergou a realidade ao redor dos dois. Antes, vira apenas uma bagunça desconexa; agora, enxergava os sacos de ração cortados, as ferramentas espalhadas, os tufos de pelos jogados no chão e as crinas destroçadas dos cavalos. Ele olhou para Emma, que ainda tremia, e naquele momento percebeu o verdadeiro peso do que a filha estava dizendo.
— Os cavalos e eu iremos embora amanhã — Foi tudo o que ela disse antes de sair do celeiro e deixar David sozinho.
Emma sabia que não dormiria naquela noite, não sem alguma ajuda. Revirou a bolsa até encontrar a cartela de comprimidos para dormir que guardava para as emergências, engoliu um deles a seco e caminhou até a porta, girando a chave na fechadura duas vezes.
Demorou alguns minutos deitada no escuro, ouvindo o próprio coração desacelerar à força enquanto a adrenalina do susto ia embora. Quando o peso do remédio finalmente nublou seus pensamentos, o corpo cedeu de uma vez. Ela apagou sem forças sequer para puxar as cobertas.
Quando os primeiros raios de sol invadiram o quarto, Emma abriu os olhos sentindo o peso exato de sua escolha. O comprimido havia cumprido o papel de apagá-la, mas não de descansá-la. Era um sono pesado e artificial, muito parecido com a ressaca do álcool: a boca estava seca, a cabeça latejava levemente atrás dos olhos e sua mente parecia se mover através de uma névoa espessa. O pânico da noite anterior ainda estava ali, estagnado em seus músculos tensos, esperando apenas que ela se sentasse na cama para cobrá-la.
Ao menos, se tivesse tentado o relaxamento pelo álcool, teria aproveitado algum sabor antes dos efeitos negativos do dia seguinte.
Ela se levantou devagar, a tensão acumulada tornando difíceis os movimentos rápidos. O banho morno foi mais curto do que gostaria, mas ofereceu o conforto necessário ao corpo dolorido e lhe deu tempo para pensar. Precisava começar, mas não tinha a menor ideia de por onde. Eles não tinham nenhum trailer no rancho. Pensou em ligar para Regina e pedir que buscasse os cavalos, mas sabia que a caminhada lhe faria bem. Decidiu levá-los ela mesma.
E, como sempre acontecia quando se tratava de Emma Swan, seu plano foi por água abaixo no momento em que desceu as escadas. Encontrou o pai sentado à mesa, esperando por ela, com as malas ao lado dos pés.
Ao percebê-la, ele se levantou e tirou o boné que usava, segurando-o junto ao peito.
— Você... Você não precisa ir, Emma – David declarou, apontando para as malas – Eu estou indo... Para aquela clínica onde queria que eu fosse ou para qualquer outro lugar.
— Isso não resolve exatamente os problemas agora, resolve? – Emma passou direto pelo pai, indo até a pia, onde serviu um copo de água para si mesma e bebeu o líquido rapidamente – Você vai, eles voltam.
— Eu pensei sobre isso – Ele suspirou – Você disse que tinha dinheiro para quitar aquelas promissórias. Se fizer isso, eles não vão mais ter motivos para incomodar.
— Simples assim? – Emma quase riu, mas limitou-se a sorrir, sem humor.
— Sim, eu pediria que me deixasse fazer isso, mas não acho que confie em mim e...
— Não, não confio.
— Eu entendo — David torceu o boné entre os dedos, nervoso — Gold pode pagar.
Emma franziu o cenho, sem entender o que diabos o Sr. Gold tinha a ver com aquilo tudo.
— Apenas dê o dinheiro a Gold e ele vai resolver tudo.
— Eu não sei quem você pensa que eu sou, David, mas não sou nenhum tipo de banco com acesso ilimitado a dinheiro — Emma desabafou, a voz subindo de tom — Eu pedi demissão, vendi meu apartamento e vim para cá com a intenção de usar o que guardei para pagar a Regina e reabrir a clínica. Em vez disso, encontrei aquela gaveta cheia de promissórias. E tenho certeza de que, a essa altura, você provavelmente já dobrou esse número.
— Você... Você se mudou para cá?
— Meu Deus, eu estou aqui há duas semanas! — A médica praticamente gritou, rindo sem nenhum humor — Eu estou indo àquela clínica todos os dias, organizando tudo o que preciso para trabalhar!
— Eu pensei que você tivesse pego uma licença ou algo assim...
— Eu já fiz isso na primeira vez que vim aqui servir de banco imobiliário para você.
Ignorando a resposta que o pai tentava formular, Emma enviou algumas mensagens rápidas pelo celular.
— A Elsa está vindo te buscar — Declarou, a voz gélida. — Ela vai te levar ao aeroporto, colocar você no avião e, quando desembarcar em Los Angeles, um amigo meu vai estar te esperando. Ele se chama Killian e vai te acompanhar até a clínica.
— Eu pensei que...
— Não. Eu não consigo sequer olhar para você agora.
Sem esperar por qualquer resposta, Emma deu as costas, saiu da casa e foi direto para o estábulo. Ela permaneceu lá dentro, escondida no escuro, até ouvir o ronco do motor e ver o carro de Elsa cruzar o portão, levando David no banco do carona.
O silêncio que se instalou no rancho após a partida do carro de Elsa foi quase ensurdecedor. Emma permaneceu no estábulo por longos minutos, apoiada contra a madeira da baia de Apolo, apenas ouvindo a respiração pesada dos cavalos. Ela não chorou; a exaustão e a raiva haviam secado qualquer lágrima que ainda restasse.
Olhou para as crinas destroçadas dos animais e sentiu o estômago revirar. Fugir não impediria aqueles homens de voltarem. David tinha razão em apenas uma coisa: se o Sr. Gold era quem mandava nas engrenagens daquela cidade e quem poderia resolver aquilo, que assim fosse. Ela queria paz, e ia pagar por ela.
Passou em casa para calcular as promissórias e pegar os documentos. Dirigiu até o banco no piloto automático. No caixa, quando o funcionário lhe entregou o envelope pardo com o dinheiro — as economias da venda do seu apartamento em Boston, que deveriam reabrir sua clínica —, Emma sentiu uma pontada física no peito. Era o seu futuro sendo reduzido a um maço de notas.
Pouco depois, ela estacionava em frente à loja de antiguidades. O som do sininho acima da porta ecoou pelo ambiente repleto de objetos antigos. Atrás do balcão, o Sr. Gold ergueu os olhos da leitura. Ao reconhecer a médica que havia cuidado de sua esposa e de seu futuro filho, a expressão severa e habitual do homem suavizou-se sutilmente. Ele pousou os óculos sobre a madeira.
— Dra. Swan — Ele cumprimentou, com sua voz calma e pausada, demonstrando um respeito que poucos na cidade conseguiam dele — A que devo a honra de sua visita?
Emma caminhou até o balcão e colocou o envelope pardo ali, sem rodeios, mas sem a agressividade que teria com um inimigo. Estava exausta.
— Eu preciso de ajuda, Sr. Gold. E preciso de paz — Ela começou, indicando o envelope — O David me deixou uma gaveta cheia de promissórias e ontem à noite o meu estábulo foi vandalizado. Eu quero quitar tudo o que ele deve. Mas preciso da sua garantia de que aqueles homens nunca mais vão chegar perto do meu rancho ou dos meus cavalos.
— Eles não são bandidos com tempo livre, Emma — Gold suspirou, puxando o envelope pardo para o seu lado do balcão — Eles cobram quem deve lá no cassino. Se isso for o suficiente para cobrir o que o seu pai assinou, eu garanto que faço o dinheiro chegar até eles e pode ter certeza de que nunca mais pisarão no Rancho Swan.
Ela o encarou em silêncio, processando a frieza prática da engrenagem. Gold sustentou o olhar, a voz mantendo o tom calmo e pausado de quem apenas resolve problemas.
— Eu sei que as coisas não parecem fáceis para quem está do outro lado. Mas... eles apenas cobram a conta, entende? O David é quem foi até a cidade vizinha procurar por eles.
— A quantia está exata, a menos que o David ainda tenha alguma promissória escondida em algum lugar que eu desconheço — Ela suspirou, o cansaço pesando na voz.
— Me dê um momento, está bem?
Gold desapareceu atrás de uma pequena porta, quase oculta sob a escada que levava para o segundo andar — a mesma que ela tinha subido correndo no dia em que Belle passou mal. A médica apoiou os cotovelos no balcão e a cabeça sobre as mãos, exausta demais para manter qualquer postura.
— É o suficiente — O homem declarou, sorrindo levemente ao retomar seu lugar. — Pode ficar tranquila, não existe nenhuma promissória oculta.
— Ótimo... E... como estão a Belle e o bebê?
Um sorriso radiante se abriu no rosto de Gold. Ele rapidamente puxou o celular, estendendo para Emma uma foto da esposa com o filho no colo.
— Ele é perfeito, Emma.
— Sim, ele é — Ela acabou sorrindo também, contagiada pela alegria dele. — Um meninão saudável.
Por algum tempo, trocaram informações sobre a saúde do menino. Por fim, Emma decidiu que era hora de voltar para casa e dar atenção à bagunça no celeiro.
— Obrigada pela ajuda, Gold.
— Não precisa me agradecer, Emma — Ele suspirou, guardando o aparelho. — Sinto muito que tenha passado por tudo isso. Espero realmente que o David consiga melhorar.
— Eu também espero...
E Emma realmente torcia para isso. Não apenas porque o homem era seu pai e queria vê-lo bem, mas também porque ela mesma já não sabia mais o que fazer.
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