O nó sinoatrial

27 O nó sinoatrial


Notas iniciais
Bom... Cá estamos, no último capítulo dessa jornada. Eu quero deixar meu agradecimento a todos que acompanharam, os que comentaram e os que leram em silêncio. Obrigada, de verdade. O nó sinoatrial foi minha primeira história depois de um bloqueio de quatro anos que parecia não ter fim. E foi um prazer e uma honra compartilhar esse devaneio bonito com vocês. SQ hoje, SQ amanhã, SQ para sempre!

Em algum momento da madrugada, a tempestade deu uma trégua, deixando em seu lugar um sol frio de manhã que atravessava as frestas da cortina e cortava a penumbra do quarto.

Emma despertou aos poucos com a sensação suave e contínua de algo roçando sua pele. Estava deitada de bruços, o rosto afundado nos travesseiros, envolta no calor denso das cobertas. O toque suave vinha de dedos quentes que desenhavam contornos lentos e cuidadosos em suas costas — mais especificamente, ao longo da marca do ferimento do celeiro, agora uma mancha rosada e em fase final de cicatrização, mas ainda bem aparente contra a pele clara da médica.

Regina estava apoiada sobre um dos cotovelos ao seu lado, o olhar fixo e absorto naquela marca. A respiração da morena era calma, ritmada, e o movimento de suas pontas dos dedos parecia quase um pedido silencioso de desculpas, uma oração de gratidão por Emma estar ali, inteira.

Emma soltou um suspiro baixo, a voz rouca pelo sono recém-abandonado.

— Vai acabar desgastando a minha pele se continuar encarando isso com tanta atenção...

Regina sorriu, sua mão deixando as costas da loira e indo para o rosto, de onde retirou algumas mechas bagunçadas.

— Apenas me certificando de que a médica da cidade sabe fazer um bom trabalho.

— Engraçadinha – Emma grunhiu.

— Enquanto você dormia, David mandou uma mensagem – A morena comentou, já se levantando – Para irmos tomar café no rancho.

— Mandou? Não ouvi meu celular – Sendo uma pessoa de despertar mais lento, a médica não teve tanta praticidade ao se desenrolar das cobertas e procurar por sua roupa.

— Ele mandou no meu celular, Swan.

— Ah... – Com toda a carga emocional a noite passada, Emma se esquecera por completo da expressão que o pai tinha no rosto quando ela saiu.

Regina soltou uma risada baixa, observando a médica tentar vestir a camiseta do avesso na pressa.

— Pois é. E ele ainda fez questão de avisar que preparou panquecas, então é bom não demorarmos.

Emma parou por um segundo, com a cabeça meio presa na gola da blusa, e olhou para Regina com um sorriso de canto, incrédula e aliviada ao mesmo tempo.

— O David não existe... — Murmurou ela, finalmente acertando a roupa — E você, pelo visto, já virou a favorita da casa.

— Você disse a ele que viria aqui ontem? – A morena perguntou, já quase completamente vestida.

— Não... Mas acho que ele imaginou, pelo jeito como eu saí.

— O que você contou a ele? – Regina calçou as botas e cruzou os braços, preocupada – Digo, sobre nós.

— Para ser sincera, Regina, não muito. Ele adivinhou boa parte da coisa toda e eu só preenchi as lacunas – Ela deu de ombros – Isso te incomoda?

— Não, não exatamente. Mas você sabe que o David é uma pessoa por quem tenho muita estima e eu não quero que ele fique ressentido comigo por... Você sabe, ter te magoado.

— Honestamente? Mais fácil ele ficar ressentido comigo por magoar você – Emma riu quando a outra levantou as sobrancelhas – É sério, ele te adora.

Como prometido, David as esperava com panquecas e uma garrafa de café quente. Elas foram no carro de Emma e, ao chegarem, o encontraram já na varanda, estampando um sorriso discreto por trás da caneca fumegante.

— E então? – Questionou, tão logo elas chegaram perto da casa – Eu não quero os detalhes, por favor me poupem disso, só quero saber se vocês finalmente se acertaram?

Regina sorriu, enquanto Emma escondia o rosto nas mãos.

— Sim, nós tivemos uma longa e necessária conversa – Foi a morena quem respondeu, um pouco sem jeito – Mas acho que agora todos os pingos foram colocados nos is.

— Graças a Deus – Ele deu espaço para que elas entrassem – Não acho que as portas dos meus armários iriam sobreviver a mais uma semana da Emma sem você.

— Pai... – Emma corou, enquanto a morena apenas sorriu e a beijou no rosto.

Os três foram para dentro da casa, onde compartilharam um café da manhã tranquilo. Com a chegada da neve, a reconstrução do celeiro teria que esperar. Embora pudessem finalizar a retirada dos escombros — que já estava praticamente concluída —, teriam que esperar até a primavera para começar a erguer a nova estrutura.

O café se estendeu para um almoço simples, que Emma se propôs a cozinhar. Regina sentou-se junto à mesa para observá-la. Em meio a uma conversa sobre a diferença na qualidade dos vegetais que a médica comprava em Los Angeles para os produzidos pelos moradores de Storybrooke, um celular apitou várias vezes, indicando diversas mensagens.

— Acho que é o meu – Emma falou, cortando algumas cenouras – Pode ver para mim? Pode acabar sendo uma emergência, preciso ficar de olho. A senha é 2310.

Regina não comentou sobre como considerava um gesto de intimidade, ter livre acesso ao celular dela.

— Elsa... – A morena sorriu para o aparelho, conforme lia – Ela diz que virão para o jantar... cinco pessoas... trarão as bebidas... e ela quer comer o assado de panela do David – Regina ergueu as sobrancelhas – Aqui ela escreveu, em letras maiúsculas, que não pode ser nenhum outro prato.

— O quê? – Emma franziu o cenho e limpou as mãos, pegando o celular em seguida – Mas o que a Elsa tem na cabeça?

David, que entrava na cozinha, parou ao lado da geladeira.

— O que aconteceu?

— Elsa quer vir para o jantar... E parece que o único prato aceitável é o seu assado de panela. Não faço ideia do motivo.

— Ora, simplesmente porque eu sou o mestre do assado de panela – O semblante dele se iluminou, enquanto abria a geladeira – Temos os legumes? Sim, está tudo aqui... Batata, cenoura, tomate... Eu acho que tenho um bom pedaço de carne também, deixe-me ver.

Emma e Regina o encaravam, assistindo atordoadas quando ele passou a assoviar.

— Então... Você quer vir jantar aqui hoje? – Emma perguntou para a morena.

— Óbvio.

O almoço mal havia terminado quando David as expulsou da cozinha. Garantindo que o único acesso livre para elas era a geladeira e apenas para cervejas, entregou uma garrafa para cada e as enxotou. Emma tinha se esquecido de como o pai adorava fazer aquele prato. Era talvez uma das poucas memórias de infância que ela realmente gostava, os domingos que o pai tomava conta do cômodo e preparava sua especialidade, enquanto ela e a mãe iam para o jardim.

— É bom vê-lo assim – Regina comentou, enquanto se sentavam no sofá da sala. Pretendiam caminhar para fora, mas a garrafa gelada era um lembrete nada sutil do ar frio e preferiram ficar ali – Não me lembro desse prato. Acho que ele nunca chegou a comentar.

— Ele já não estava em uma boa época quando vocês vieram morar aqui – Emma respondeu, pensativa – Eu tenho algumas memórias sobre isso. Às vezes ele acordava num domingo de manhã e pedia para chamarmos Anna, Elsa, Ruby e Granny para cá. Ia para a cozinha, ligava o rádio em uma estação country e preparava o famoso assado – Ela sorriu – Ruby uma vez me contou que a avó dela ficava esperando, aos domingos, louca para que ele as convidasse.

— No fim das contas, por mais infeliz que tenha sido o ataque aos cavalos... Serviu para alguma coisa – Regina falou – Se não fosse por isso, ele não teria aceitado ir para a clínica.

— Infelizmente é verdade. Tem horas que eu nem consigo acreditar que acabou, sabe? Os jogos, as dívidas, as ameaças – A médica suspirou, aliviada – Agora eu só preciso terminar de quitar a dívida com você e tudo realmente termina.

— Podemos negociar no credicorpo – A morena gracejou e Emma quase cuspiu a cerveja, gargalhando – Agora, eu preciso que me leve para casa. Viemos no seu carro e eu preciso checar algumas coisas e tomar um banho antes do jantar.

Emma deixou-a em casa e, antes de voltar para o rancho, passou pelo estábulo para ver seus cavalos. Sentia falta deles e não via a hora de ter o celeiro pronto e tê-los por perto outra vez.

Suas ofertas de ajuda para o David se provaram inúteis e, depois da terceira tentativa, ela simplesmente desistiu e subiu para tomar banho. Regina viria no próprio carro, assim como o resto dos convidados. Emma riu com o pensamento, sabendo que, na realidade, ela própria é que tinha sido convidada para jantar na própria casa.

Regina foi a primeira a chegar. Pouco depois, quando os carros de Elsa e de Granny pararam na entrada de veículos, viu-se uma animação incomum que Emma não soube identificar.

— Vocês voltaram? – Ruby praticamente gritou, seu olhar indo da médica para o carro da morena – Finalmente.

Elsa e o marido trocaram um olhar rápido.

— Meu Deus, eu pensei que não viveria para comer outra vez esse assado... – Granny falou, passando por todos e entrando na casa.

Como sempre, David fez com que todos estivessem devidamente sentados em seus lugares na mesa antes de trazer o assado. Elsa estava praticamente pulando em seu assento, não disfarçando a ansiedade pelo jantar. De fato, ela ficara silenciosa e brusca antes da refeição, um humor que mudou completamente após a primeira garfada.

— David, você salvou minha vida – Elsa declarou, enquanto se preparava para repetir o prato.

Emma apertou os olhos e cutucou Regina, indicando a garrafa de vinho.

— Sirva Elsa – Sussurrou.

A morena, embora tivesse franzido o cenho diante do pedido, pegou a garrafa e indicou a taça da moça.

— Vinho?

— Não... – Elsa respondeu depressa e seus olhos foram rapidamente para Emma, que a encarava – Eu... Não estou bebendo.

Regina levantou as sobrancelhas.

— Eu queria contar antes – Elsa continuou, corando – Mas eu sabia que vocês estavam no meio de um clima meio chato... Só que hoje eu acordei com essa vontade insana de comer o assado e não dava para deixar para depois.

— Quanto tempo? – Emma já estava sorrindo e Regina fez o mesmo, ao entender a pergunta.

— Dois meses.

Rapidamente, a médica se levantou e foi abraçar a amiga, que estava há algum tempo tentando engravidar. Regina fez o mesmo, já negociando com que idade era aceitável que a criança ganhasse um pônei de presente.

David, por sua vez, não poderia estar mais orgulhoso pelo desejo de gravidez da moça ter sido tão específico. O homem, grato pela segunda chance, olhava para a mesa cheia de pessoas alegres e sentia o coração transbordar.

Os outros, embora já soubessem, comemoraram como se ouvissem a notícia pela primeira vez.

Elsa estaria cercada pelos melhores cuidados. Emma, embora não fosse obstetra, poderia oferecer alguns cuidados básicos, e o acompanhamento seria feito na cidade vizinha — o que ficou decidido depois que Ruby ameaçou entrar em combustão espontânea se Emma citasse, pela sexta vez, que podia trazer um obstetra para Storybrooke. E quando chegasse o grande dia, todos seriam avisados para irem até o hospital esperar pela criança.

Quando todos voltaram para casa, levando pedaços generosos do assado para o dia seguinte, David voltou a assumir a cozinha, pronto para limpar a bagunça que havia feito, e Emma foi para a varanda, observando sua própria respiração se condensar no ar gelado da noite.

Regina logo se juntou a ela, encaixando automaticamente seu corpo sob o braço da loira.

— Dorme aqui hoje? – Emma questionou e a morena assentiu.

— Achei atencioso a Elsa esperar para dar a notícia – Regina comentou – É engraçado que eu as conheço desde que Kristin e eu nos mudamos para cá, mas nunca chegamos realmente a conversar. Elsa, Ruby... Porém, desde que você voltou, elas me acolheram no grupo de amigas como se eu sempre estivesse lá.

— É... Eu não posso dizer que temos outras referências disso – Emma riu – Kristoff nunca esteve muito interessado em participar do nosso grupinho e eu... Bom, eu nunca estive o suficiente com alguém para isso. Mas é importante que elas estejam acolhendo você.

— Me faz feliz. Aliás... Eu posso ter meu anel de volta?

Emma beijou a testa da morena e descansou sua cabeça contra a dela, encarando a escuridão.

Pela primeira vez, via o tempo adiante com esperança e alegria. Em Los Angeles, as semanas se transformavam em meses e os meses em anos sem nenhuma perspectiva além de continuar fazendo cirurgias e publicando artigos; não havia um momento no qual Emma olhasse para a frente e esperasse qualquer coisa diferente do que já estava fazendo.

Ao chegar em Storybrooke, a situação com o pai era tão crítica que olhar para a frente lhe causava medo. A incerteza do que o dia poderia trazer a despertava pela manhã com o estômago embrulhado.

Mas naquele momento, parada na varanda de casa, segurando nos braços a mulher que amava, Emma tinha esperança. Pensar sobre os meses que viriam lhe causava uma ansiedade boa, uma expectativa de alegria. Saber que um celeiro novo seria erguido no quintal e serviria de morada para Apolo, Diana e Houston, que o pai continuaria bem e almoços de família seriam algo frequente outra vez. Acompanharia a gravidez de Elsa, vendo a amiga realizar o maior sonho que tinha carregado durante toda a vida. Trabalharia em sua clínica, onde o humor ácido de Cruella a faria rir.

E, sobretudo, estaria com Regina.

Elas brigariam outra vez, tinha certeza disso. Mas também tinha certeza de que fariam as pazes, que se sentariam e conversariam sobre o que quer que fosse e resolveriam o problema. Porque ambas haviam aprendido que se joga melhor quando todas as cartas estão na mesa.

E quanto a ela mesma, talvez não voltasse a ver um coração de perto. Não publicaria mais artigos sobre o nó sinoatrial e, no entanto, tinha agora mais certeza do que nunca sobre o funcionamento dele, pela maneira como seu coração batia sempre que Regina se aproximava.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!