O nó sinoatrial
18 Mills & Swan
Duas coisas aconteceram nas quarenta e oito horas seguintes à visita de Emma à loja de penhores do Sr. Gold.
A primeira foi o silêncio sepulcral que engoliu o Rancho Swan. Sem o fantasma do vício de David rondando os cômodos e sem a ameaça iminente de capangas armados no celeiro, a propriedade parecia ter entrado em uma espécie de trégua forçada. A paz que Emma tanto queria finalmente havia chegado, embora tivesse custado cada centavo de seu recomeço.
A segunda coisa chegou pelos correios.
Emma encarava o documento oficial sobre a mesa da cozinha enquanto segurava uma caneca de café forte. Era a sua licença médica temporária para atuar em Storybrooke, devidamente carimbada e aprovada pelo conselho estadual. O universo, pelo visto, tinha um senso de humor bem distorcido. Ali estava a permissão legal que ela tanto aguardara, o papel que a transformava oficialmente na nova médica da cidade. O único problema é que, agora, ela não tinha mais um tostão para reabrir a clínica ou comprar qualquer equipamento.
— Uma médica sem consultório — Ela resmungou para si mesma, dando um gole no café amargo — Perfeito, Emma. Simplesmente perfeito.
No entanto, o fato de não ter um lugar fixo não a impedira de atender algumas pessoas. Alguns apareceram no rancho, munidos com suas caçarolas, enquanto outros ela visitava a domicílio, depois de uma ligação rápida. Não era a situação ideal ou um sonho realizado, mas funcionava.
Afora essas pequenas consultas, aqueles dois dias tinham sido dedicados quase que exclusivamente a Apolo e Diana. Sem dinheiro para o futuro, Emma descontou sua energia cuidando do presente. Ela havia limpado as baias meticulosamente, escovado o que restara das crinas dos animais com paciência cirúrgica e aplicado pomadas cicatrizantes nos ferimentos. Os cavalos ainda estavam ariscos com barulhos repentinos, mas a presença constante e calma de Emma parecia estar devolvendo a eles um pouco da confiança perdida.
Ela acariciou o focinho de Apolo, sentindo o calor do animal. O relógio em seu pulso, no entanto, a lembrou de que o tempo estava correndo. Era sexta-feira. O dia do encontro com Regina Mills.
Emma jamais admitiria sua trapaça, mas as garrafas de vinho só tinham sido compradas com a garantia de Elsa de que aquele era o exato rótulo que a morena sempre pedia em sua lista.
Regina havia sido clara: o jantar seria em sua casa. Um território que Emma já conhecia, mas que agora parecia ter uma eletricidade diferente. Da última vez que estivera ali, ela havia colapsado sob o peso dos problemas, encontrando no sofá da outra um porto seguro inesperado. Dessa vez, no entanto, ela não estava desabando. Estava indo por escolha própria.
Ela passou um tempo no banheiro tentando apagar a exaustão da semana com um banho quente. Vestiu uma calça escura e uma camisa cujos botões superiores deixou abertos, sabendo exatamente o tipo de olhar que aquela pequena ousadia arrancaria da morena. Diante do espelho, soltou os cabelos loiros em ondas desalinhadas. Não adiantava tentar parecer formal demais; Regina a conhecia em seus piores e melhores momentos, e o jogo entre elas funcionava justamente na base da honestidade cortante e dos beijos trocados como "moeda de troca".
Pegando as garrafas de vinho na bancada — o segredo meticulosamente guardado com a cumplicidade de Elsa — e as chaves do SUV, Emma saiu de casa.
O trajeto até a mansão Mills foi acompanhado por um frio familiar no estômago, misturando a ansiedade dos últimos dias com a expectativa do que aconteceria naquela noite. Quando estacionou o SUV diante da fachada e subiu os degraus da entrada, Emma não hesitou. Ela tocou a campainha, ajustando as garrafas de vinho nos braços e exibindo um sorriso de canto, pronta para a primeira provocação que, com certeza, viria assim que aquela porta se abrisse.
Regina abriu a porta usando um vestido vermelho no mesmo tom de sangue de seus lábios carnudos. Ela cruzou os braços e se apoiou no batente, encarando a médica de cima a baixo.
— Ora, Swan, eu estava prestes a criticar seu atraso — Comentou, com aquele tom aveludado e cínico — Mas a vista faz valer a pena.
Antes de segui-la para o interior da casa, Emma verificou o relógio no pulso e revirou os olhos ao constatar que eram exatamente sete horas e um minuto. Não que o relógio tenha mantido sua atenção por muito tempo, já que as curvas da mulher que caminhava diante dela eram como ímãs para seus olhos.
Regina a guiou até a cozinha, onde uma panela ainda fervendo exalava um aroma que fez o estômago da loira roncar, e o forno estava aceso, indicando que algo especial acontecia ali.
— Não imaginei que tivesse bom gosto para vinho, Swan — Regina falou, enquanto pegava duas taças no armário.
— Você gosta? — Emma questionou, deixando as garrafas sobre a bancada — Golpe de sorte, imagino.
— Emma... Nós duas sabemos que uma coisa que você não tem, ultimamente, é sorte — Rebateu a outra, com um sorrisinho de canto.
A médica acabou rindo diante do comentário, mas não se deu por vencida. Caminhou um passo à frente, sustentando o olhar.
— Eu poderia concordar, mas eu estou literalmente em um encontro com você, então... — Ela deu de ombros, observando com indisfarçável satisfação quando as bochechas de Regina ganharam um tom sutil de carmim, rivalizando com o vestido.
— Honestamente, Emma Swan, com uma lábia dessas me admira que Storybrooke ainda não tenha recebido nenhum ônibus cheio de garotas que você deixou para trás em L.A. — A morena rebateu, tentando recuperar a pose enquanto servia o vinho nas taças.
Emma sorriu de canto, puxando um banquinho alto e se sentando ao lado da bancada de pedra.
— Digamos que eu não tinha muito tempo livre para pensar sobre isso em L.A — Revelou. Regina levantou as sobrancelhas, genuinamente curiosa — Eu era muito focada no hospital e nos pacientes, não estava disposta a abrir mão da minha rotina.
— Sim, posso imaginar que nenhuma mulher ficaria exultante dividindo espaço com a sua rotina no hospital — A morena pontuou, entregando uma das taças para a loira e apoiando-se contra a bancada, logo à frente dela.
— Exato, e eu não tiro a razão delas. Então, eu escolhi uma única coisa para focar e permaneci nela.
— E você não se sentia só?
— Às vezes, sim — Emma admitiu, franzindo o cenho de leve — Mas eu chegava a fazer doze ou quatorze horas diárias no hospital, até mais quando tinha uma operação longa. Eu meio que chegava em casa e desmaiava até o dia seguinte, sem muito tempo para pensar sobre essas coisas.
— E aí você largou uma rotina de doze horas de trabalho e veio para o meio do nada — A morena comentou, sorrindo de canto com um misto de ironia e admiração — Difícil imaginar que você se adaptaria tão bem.
— Sinceramente, Regina... O trabalho que eu tenho tido com o meu pai me cansa muito mais do que aquelas doze horas faziam.
— Eu soube sobre o internamento. Ele chegou a vir até aqui para me pedir um carro emprestado, um dia depois da data em que ele supostamente iria para a clínica — A morena revelou, balançando a cabeça enquanto se virava para mexer o conteúdo da panela — Inventei uma desculpa qualquer.
— Fez bem — Emma suspirou, o peso do cansaço retornando por um instante — Se não fosse a invasão do rancho, duvido muito que ele tivesse ido de livre e espontânea vontade.
— O quê? — Regina virou-se abruptamente, esquecendo a panela. Os olhos castanhos fixos na médica, transbordando surpresa e um início de alerta — Invasão?
— Foi só... — A médica hesitou, buscando as palavras certas para explicar a bizarrice da situação — Eles cortaram as crinas dos cavalos, Regina.
A morena arregalou os olhos, o choque paralisando seus movimentos.
— Picotaram as crinas e os rabos — Emma continuou, a voz um pouco mais baixa, entregando o peso daquela memória — Não chegaram a machucá-los fisicamente, mas... eu honestamente nunca pensei que me sentiria violada por algo assim. Vê-los traumatizados e assustados daquele jeito...
— Porque é uma violação, Emma — Regina balançou a cabeça, a voz carregada de uma irritação genuína e protetora — As crinas são importantes para os cavalos, e não só pela questão da estética ou do orgulho. Eles sabiam exatamente o que estavam insinuando quando fizeram isso. — Como se só então a pior possibilidade lhe ocorresse, ela fixou os olhos castanhos na loira — Você não estava lá, estava? Ameaçaram você?
— Não, eu não estava lá. Os encontrei na entrada do rancho, quando estava chegando em casa. Disseram que, na próxima, não seria com os bichos.
Regina desligou o fogo abruptamente e passou a caminhar de um lado para o outro atrás da bancada, os saltos estalando contra o piso. Seus lábios se abriam, como se estivesse prestes a explodir ou despejar um sermão, mas ela mudava de ideia no último momento, tentando conter a própria fúria.
— Já está resolvido, Regina — Emma se adiantou. Ela deixou a taça de lado, levantou-se do banquinho e parou do outro lado da bancada, tentando trazê-la de volta à terra — Isso fez o David acordar. Agora ele está na reabilitação e eu quitei as dívidas. Eles não vão mais voltar.
— Como você pode ter tanta certeza, Emma? — A morena a encarava, os olhos faiscando de preocupação.
— Eles não têm mais nada para receber da minha família e, com certeza, têm uma fila de outros caras deixando dívidas para serem cobradas por aí. O Apolo, a Diana e eu... nós ficaremos bem.
Regina assentiu, respirando fundo para dissipar a raiva.
— Ótimo. Porque, honestamente, minha vontade é de ir até essa clínica onde o David está e...
— A minha também — Emma a interrompeu, soltando um riso soprado — Acho que, no fim das contas, o período obrigatório sem qualquer contato exterior serve mais para proteger os viciados da gente do que qualquer outra coisa.
A morena levantou os olhos, o fantasma de um sorriso finalmente brincando em seus lábios.
— Nossa, Mills... — Emma comentou, voltando a se acomodar no banquinho ao lado da bancada — Por um momento, pareceu que você se preocupa comigo.
— Não seja idiota, Swan — Ela rebateu prontamente, mas o sorriso em seu rosto a entregava por inteiro — Eu só não quero que Storybrooke fique sem médico outra vez.
Seguindo as orientações de Regina, Emma organizou os pratos e talheres na mesa, enquanto a morena se ocupou de servir a comida. A conversa seguiu por temas mais amenos, como as brincadeiras que os cavalos faziam e um jovem que havia sido recém-contratado para trabalhar no haras.
— Nossa, eu não fazia ideia de que ser chef de cozinha estava entre suas habilidades, Mills — Emma declarou, deixando o garfo de lado ao terminar de comer, genuinamente impressionada.
— Eu tenho muitas habilidades — Regina sorriu de canto, com um brilho divertido no olhar — Agora, por que você não me mostra suas habilidades com a lavagem da louça?
Emma riu, já arregaçando as mangas da camisa e se levantando da cadeira.
Quando finalizaram a cozinha, Regina pediu licença e foi ao banheiro, deixando-a na sala de estar. A lareira acesa mantinha o aposento aquecido e, embora Emma já tivesse passado algumas horas naquele mesmo lugar da outra vez, seu estado psicológico na época não permitira que prestasse atenção ao redor.
O aposento era ricamente decorado em couro e tons de vermelho, os sofás cheios de almofadas que pareciam recém-afofadas e um tapete felpudo que ocupava boa parte do chão, o que a fez sentir vontade de ficar descalça. Um painel aéreo sustentava a televisão, além de uma variedade de enfeites menores, mas foram os retratos que realmente chamaram a atenção de Emma.
Nas imagens, Regina estava acompanhada de outra mulher — que ela supôs ser Kristin — e, ao que parecia, elas costumavam viajar bastante. Kristin fora uma mulher muito bonita, dona de cabelos longos, lisos e loiros que compunham a dupla perfeita com seus olhos azul-céu.
Emma não tentou disfarçar a própria curiosidade quando Regina entrou na sala, trazendo consigo a terceira garrafa de vinho da noite. A morena a encarou por alguns segundos e sorriu de canto, caminhando até ela.
— Vejo que conheceu Kristin.
— Sim, acho que eu não tinha parado para pensar na aparência física dela até agora — Emma comentou, sinalizando um agradecimento quando Regina encheu sua taça — Era uma mulher linda.
— Sim, ela era. Emma... Eu não sei o que estamos fazendo aqui ou onde isso vai dar, mas... — Regina suspirou, o olhar vacilando por um instante antes de encarar a loira com total honestidade — Você precisa saber que a Kristin sempre vai estar no meu coração — Ela pausou, organizando os pensamentos enquanto a médica apenas a observava, esperando pacientemente — Eu não tive encontros depois dela. Não tive ninguém.
— Eu entendo, Regina. Ela foi a mulher da sua vida e ninguém que vier depois vai substituí-la — Emma respondeu de forma tranquila — Nós não somos adolescentes, temos uma vida que vem acontecendo desde muito antes de nos encontrarmos. Eu respeito isso. — Ao perceber que a tensão finalmente deixava os ombros da morena, Emma abriu um sorriso travesso — E me sinto honrada por ser seu primeiro encontro.
— Swan... — Regina revirou os olhos, mas o sorriso em seus lábios era puro alívio.
Quando Emma se aproximou para beijá-la, ela não se afastou. Pelo contrário, puxou a médica para si, aprofundando o toque com uma urgência que há muito tempo não sentia.
Horas depois, quando a chuva fria começou a bater contra as janelas da sala, elas já estavam perdidas entre as cobertas do quarto. A garrafa vazia ficou esquecida no chão do andar de baixo, em algum lugar junto das roupas que haviam sido deixadas pelo caminho.
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