O nó sinoatrial

8 Eu sei de muitas coisas


O dia seguinte amanheceu nublado. O céu de chumbo anunciava que não demoraria para começar a chover e o campo começava a parecer quieto, o típico silêncio que antecede uma tempestade.

Emma abriu os olhos, um pouco perdida no tempo devido à pouca claridade. Não se lembrava da última vez que pudera se permitir simplesmente continuar deitada após acordar. Desde a faculdade, abria os olhos já se levantando. Fosse para estudar, para assumir um plantão ou atender uma emergência, ficar na cama até tarde não era uma regalia que costumava ter.

A jaqueta que usara no dia anterior estava pendurada na cadeira ao lado da escrivaninha e mesmo da cama, Emma podia sentir o cheiro de feno e cavalo. Acabou sorrindo ao se espreguiçar, mas logo fez uma careta quando todos os seus músculos protestaram pelo movimento. Claro, passaria dois ou três dias pagando pelo esforço físico feito com Diaval.

Ela se levantou, tomou um banho quente para relaxar a musculatura e só desceu ao sentir cheiro de café. Não esperava que David estivesse em pé, mas encontrou-o enchendo duas canecas na cozinha.

— Bom dia – Disseram juntos, enquanto ele lhe entregava uma das canecas.

— Levantou cedo – Emma comentou.

— Sim, precisava limpar as baias e colocar comida para os dois cavalos – Ele suspirou – Com o tempo desse jeito, não vou soltar eles no campo.

O celular de Emma apitou, avisando que uma mensagem havia chegado. Ela franziu o cenho, como se só então percebesse que estava bem perto de esquecer como soava seu próprio celular. Se na cidade grande, ele parecia não parar de apitar por cinco minutos, em Storybrooke era fácil demais esquecer de levá-lo consigo.

Ele passou bem pela noite. O veterinário disse que seu cálculo de dosagem foi quase cirúrgico, Swan. Obrigada.

R.M.

Emma sorriu. Claro que haveria um ‘quase’.

— Sorrindo para o celular – David a olhava, com uma expressão divertida – Posso não ser um homem que entende muito de modernidades, mas eu ainda sei o que significa isso aí.

— Não tem nada de ‘isso aí’, pai – Ela ainda estava sorrindo quando bloqueou a tela do celular e o deixou sobre a mesa – Regina está só me mandando notícias de Diaval.

— O que aconteceu com ele? – Ele questionou, sem sorrir – E porque ela está te mandando notícias sobre Diaval?

— Ele teve uma cólica ruim e ela está me mandando notícias porque eu estava lá. Tivemos um trabalhão para fazer com que ele se levantasse – A médica massageou o próprio pescoço – Me sinto como se um caminhão tivesse me atropelado.

— Cólicas são ruins – David franziu o cenho – Podem ser fatais, se não tratadas a tempo. E como está Diaval?

— Está bem, Regina disse que passou bem pela noite.

O homem assentiu, aliviado. Ficaram em silêncio enquanto ele se servia de outra caneca de café e Emma pensou que aquele seria o fim do tema, até que, depois de alguns minutos, ele a encarou.

— E o que você estava fazendo no Haras? – Os primeiros pingos de chuva bateram no teto.

— Eu tinha que... Ham... Pedir desculpas por uma coisa – Emma coçou a cabeça, pensativa – E quando cheguei, Regina estava tentando fazer o cavalo levantar.

— Pedir desculpas, heim? E o que a minha adorável filha andou fazendo, para ter que pedir desculpas?

— Pai, por que você está me interrogando? – David apenas a olhava, com as sobrancelhas erguidas e Emma subitamente sentiu-se outra vez uma menina, que foi pega fazendo algo que não devia – Tá... Eu falei algumas coisas ruins quando a vi no outro dia e voltei lá para me desculpar. Satisfeito?

Decidida a evitar que aquilo continuasse, ela pegou sua caneca de café e subiu de volta para o quarto. Enquanto subia os degraus, ouvia o pai rir de sua situação.

A chuva rapidamente se tornou consistente, os trovões estrondavam pelos campos e a brisa logo se tornou fria, fazendo com que Emma voltasse para debaixo das cobertas. Se perguntou o que Regina estaria fazendo, se o haras exigia mais dela em dias como aquele ou se também estava encolhida sob alguma manta.

Fico feliz que ele esteja bem. Como você sabe meu número particular?

Enquanto esperava pela resposta, Emma checou seus e-mails. O hospital cobrava sua presença, questionando se estava pronta para voltar ou se precisariam estender a licença outra vez. Ela sabia que a pergunta era uma espécie de luxo que jamais seria oferecido para a maioria dos outros médicos, que não carregavam tanta reputação quanto ela. Suspirou, sabendo que teria que voltar em breve. Justamente quando estar ali, já não se parecia tanto com um peso horrível que caíra sobre sua vida.

Ainda não dormia bem todas as noites, o silêncio do campo exercendo uma pressão distinta sobre seus tímpanos. Mas começava a parecer bom o fato de tudo em Storybrooke ser em câmera lenta, sem pressa ou correria. Amava sua profissão e sobretudo, amava salvar vidas, porém, era reconfortante não ter que estar correndo para fazer isso.

O celular apitou outra vez.

Eu sei de muitas coisas, Swan.

Emma não sabia o que responder a isso, encarou a tela, pensando em como poderia fazer para devolver a provocação de Regina. Essa era uma das várias complexidades que enfrentava. Acostumada aos jargões médicos e à linguagem técnica, suas comunicações variavam entre enfermeiros e pacientes com suas famílias. Quaisquer interações que vazassem dessa bolha, se tornavam uma complicação e ela logo percebia que suas habilidades sociais estavam longe de serem razoáveis.

Foi interrompida quando passos pesados e rápidos subiram a escada e logo David abria a porta do quarto, depois de bater apenas uma vez.

— Emma – Ela largou o celular sobre a cama e o encarou, esperando – Gold acabou de chamar pelo rádio. Belle está grávida de oito meses e não se sente bem, parece que teve um colapso ou algo do tipo. A estrada velha está bloqueada por uma árvore que caiu e a ambulância do condado vai demorar pelo menos duas horas para conseguir dar a volta. — David segurou o batente da porta, encarando a filha com urgência. — Eles sabem que você está na cidade. Estão desesperados, Emma.

Antes que David terminasse de falar, ela já estava de pé. Calçou o tênis com a rapidez e a habilidade de quem estava habituada com aquele tipo de situação. Mentalmente, agradeceu aos céus por nunca sair de casa sem sua bolsa, que carinhosamente apelidara de bolsa de necessidades. Ali, levava um kit completo de primeiros socorros, aparelho para medir pressão, medicamentos básicos – outros nem tanto – e seu estetoscópio.

Juntos, os dois desceram a escada e correram até o carro de David.

A chuva torrencial dificultava a visibilidade, os limpadores do para-brisa mal davam conta de toda a água que recebiam e Emma apertava a bolsa em seu colo. Depois de abri-la pela terceira vez e conferir que tudo o que poderia precisar estava presente, ela apenas encarou as gotas de chuva que escorriam pelo vidro, torcendo para que aquela emergência terminasse bem.

— Por que eles não vão à clinica da rua principal? – Questionou, de repente. Lembrava-se do velho doutor que atendia no prédio azul, quando ela mesma era criança.

— Acabou – David balançou a cabeça – Quando o velho Doc morreu, não conseguiram outro médico para vir e a Storybrooke depende do hospital da cidade vizinha.

— Por Deus – Ela franziu o cenho – E o que vocês fazem quando algo assim acontece? Como hoje?

— Nós rezamos.

A caminhonete ainda nem havia parado completamente, quando Emma desceu. Gold esperava por eles na porta da joalheria, o semblante preocupado e os olhos avermelhados pareceram suavizar quando a médica entrou em seu campo de visão.

— Ela está lá em cima – Apontou para os fundos da loja, onde uma escada serpenteava para o apartamento que dividia com a esposa, no segundo andar.

Emma subiu, pulando os degraus conforme corria escada acima. Passou por uma cozinha pequena e seguiu direto pelo corredor estreito, onde uma única porta aberta lhe dava visão de Belle, deitada na cama do casal.

Emma se lembrava da moça, era alguns anos mais jovem do que ela e fora criada em uma das fazendas vizinhas. Os olhos azuis estavam arregalados, ambas as mãos espalmadas sobre o próprio ventre arredondado.

— Oi Belle – A médica cumprimentou, esperando que soasse calma o suficiente – Como está se sentindo?

— Meu bebê não está mexendo – A moça a encarou, enquanto ela abria a bolsa e pegava o estetoscópio, posicionando-o sobre o coração de Belle – Porque não está mexendo?

— Deixe-me ver, vou precisar que você levante a blusa para mim, pode fazer isso? – Belle obedeceu – Como você caiu?

— Eu escorreguei no banho – Belle suspirou – Caí de lado.

— Isso é bom – Emma sorriu e a moça a olhou, confusa – Seria muito mais preocupante se você tivesse batido a barriga.

A movimentação dos homens entrando no quarto foi o bastante para tirar a concentração da médica e logo o rosto de Gold surgiu diante dela.

— Como ela está? E o bebê? O que podemos fazer? Devemos ir ao hospital?

Emma afastou o estetoscópio do ouvido e se virou para David.

— Pai, você pode por favor fazer companhia ao Sr. Gold, na sala de estar? – David levantou as sobrancelhas – Eu chamo vocês assim que terminar de examiná-la.

Os dois pais saíram do quarto, um deles, claramente preocupado e o outro, com o peito estufado em orgulho.

— Você teve algum sangramento? – Emma questionou, assim que eles saíram – Dor?

— Não... E a dor, apenas no braço.

Emma apalpou a barriga de Belle algumas vezes, indo de um lado ao outro com dedos ágeis e precisos.

— Cabeça para baixo, bom sinal.

Quando a médica colocou o estetoscópio sobre o ventre de Belle, a moça prendeu a respiração. Ela o moveu alguns centímetros para a direita, depois um pouco menos para a esquerda, vendo o rosto da gestante empalidecer mais a cada segundo.

— Ah, te achei – Emma sorriu e sinalizou para Belle esperar um pouco mais.

Ela continuou escutando, encarando o relógio de pulso enquanto o fazia.

— Cento e quarenta batimentos por minuto, saudável como um touro – Belle suspirou, aliviada – Vocês chamaram a ambulância?

— Sim, mas disseram que demoraria demais e eu estava com tanto medo....

— Vocês fizeram o certo – Emma sorriu, tranquilizando-a – Não temos nenhum motivo para acreditar que seu bebê tenha sofrido com a queda. Ele provavelmente está dormindo, é comum que se mexam menos durante o sono. Quer ouvir? Aqui... Você vai ouvir seu próprio coração e o coração do bebê, que bate num ritmo mais acelerado.

Os olhos de Belle brilharam ao escutar o coração do filho. Mesmo tendo feito diversos exames, ainda se emocionava com o som e, principalmente, depois de um susto como aquele.

— Deixe-me ver esse braço – Emma pediu, após guardar seu equipamento na bolsa – Uma torção leve. Peça para Gold aplicar uma compressa morna e evite forçar esse pulso pelos próximos dias.

Deixando a jovem mãe para um descanso merecido, Emma voltou até a sala, onde os homens esperavam em um silêncio agoniado.

— Belle e o bebê estão bem – Anunciou – O bebê está com batimentos fortes e estáveis e Belle tem apenas uma leve torção no pulso direito.

Gold jogou-se sobre a poltrona, as pernas cedendo ao alívio após o tempo de tensão.

— Meu Deus... Obrigado, Dra. Swan... E David. Eu não sabia o que fazer, ela estava entrando em desespero.

Emma sorriu, guardando para si o comentário de que Belle, apesar de assustada, parecia menos desesperada do que ele.

— Mas eu ainda quero que a leve para o hospital quando a ambulância chegar – Comentou – E façam um exame de imagem, para ter certeza.

— Claro.

Deixando que o homem fosse ver a esposa, David e Emma desceram sozinhos para o carro.

— Quer aproveitar que estamos aqui e almoçar no diner? – Ele perguntou – Por minha conta.

— Topo.

Emma ficou surpresa ao encontrar o lugar cheio, pensava que as pessoas iriam preferir ficar em suas casas num dia como aquele, mas aparentemente, estava errada. Ao que parecia, boa parte dos sinais de telefone e televisão caiam com o mau tempo e todos buscavam se reunir no diner, que era considerado o coração da cidade.

Ficou ainda mais surpresa quando, ao entrarem, David foi diretamente até um grupo de amigos e estampou seu melhor sorriso.

— Trouxe minha filha para almoçar hoje – Ele falou – Pela primeira vez, a vi atuando como médica. Parecia que eu estava em uma daquelas séries do canal oito. Vocês precisavam ver, ela botou o Gold para fora do quarto.

E a partir disso, todo tipo de pergunta surgiu. Enquanto alguns estavam interessados em saber sobre a saúde de Belle e do bebê, outros preferiam questionar sobre como o severo Gold reagira ao ser expulso do próprio quarto. Mas Emma não estava atenta ao que eles diziam, porque percebia que era realmente a primeira vez que o pai a vira trabalhar e que ele estava realmente orgulhoso.