O nó sinoatrial
22 Em chamas
Emma havia trabalhado por meio período quando Cruella avisou que não tinham nenhum outro paciente agendado para o dia. As pessoas, já se preparando para o inverno – e as tempestades de neve – não estavam tão dispostas ou com tanto tempo livre para pequenas consultas de rotina.
A nevasca era um período complicado em lugares como Storybrooke. Nos piores dias, vários centímetros de neve cobriam o solo acidentado e qualquer deslize era o suficiente para garantir um osso partido ou coisa pior. De modo que os moradores faziam preparativos importantes para evitar a necessidade de sair de casa tanto quanto fosse possível.
Ao chegar em casa, encontrou preso no trinco da porta um envelope grande, com seu nome escrito em letras maiúsculas na caligrafia que logo ela reconheceu como a de Regina. Como alguém que, mais de uma vez, tinha recebido notícias nada agradáveis dentro de envelopes como aquele, Emma respirou fundo antes de abrir.
Ela não conseguiu conter o riso incrédulo ao se deparar com a papelada do cavalo texano que derrubara Regina no dia anterior. Aparentemente, Houston era agora o novo morador do Rancho Swan e propriedade da morena e da própria Emma, que precisava só assinar para tornar as coisas oficiais. Seus pés a guiaram rapidamente para o celeiro e, no entanto, ela não estava preparada para o tamanho e a postura do cavalo, um animal imponente, alto e de porte forte. Sua pelagem castanha escura era marcada por grandes manchas brancas espalhadas pelo corpo e ele a encarava com um olhar firme.
Apolo e Diana estavam estáticos, admirados ou assustados pelo animal. Emma conversou um pouco com ambos, usando o tom de voz calmo que havia aprendido que eles gostavam.
— Bom... Ao menos ela vestiu você antes de te mandar para cá – Devagar, Emma se aproximou e passou os dedos pelo chanfro do cavalo, que suspirou com tranquilidade – Vamos nos dar bem, você e eu. Você não gosta de ser montado e eu... Bem, eu não monto.
Mas as surpresas não tinham terminado, ela logo percebeu. Ao entrar no depósito estreito para buscar comida para os animais, se deparou com dois sacos de ração, suplementos e até mesmo um shampoo para cavalos. Os itens estavam amontoados em um dos cantos e, sobre eles, uma folha estava colada com durex. Emma gargalhou outra vez ao ler: “pensão”.
Emma voltou para alimentar os cavalos e o gesto de beijar os focinhos de Apolo e Diana foi automático. Apenas mais tarde, quando já atravessava o quintal para entrar em casa, percebeu que tinha beijado o focinho de Houston também.
— É como dizem... Onde cabem dois, cabem três. — Sorriu consigo mesma, pegando o celular no bolso para enviar uma mensagem para Regina.
“Recebi a pensão do nosso filho... E o filho também.”
Emma riu sozinha, deixando o celular de lado enquanto começava a providenciar seus próprios preparativos para o inverno. Não que precisasse de muitas coisas; tendo apenas a casa e o celeiro com os três animais, era necessário garantir lenha e feno suficientes. Ainda assim, cortar lenha era algo para o qual ela não estava particularmente preparada ou disposta, de modo que, quando deu o expediente por encerrado, a pilha de madeira não tinha crescido muito.
Não veria Regina naquela noite. Haviam combinado de jantar juntas no dia seguinte, quando as agendas de ambas estariam em branco boa parte do tempo. Era comum, ao que parecia, que, conforme o inverno chegava, os compromissos desaparecessem. E Emma não estava se opondo nem um pouco à ideia de, algumas semanas depois, passar mais tempo com a mulher que a cada dia ocupava um espaço maior no seu coração.
Também era preciso lembrar que, em breve, o período de isolamento social de David chegaria ao fim, e a médica precisava admitir que começava a ficar ansiosa pelo primeiro contato que teria com o pai após noventa dias.
De banho tomado e após um jantar rápido, a brisa fria da noite foi a desculpa perfeita para meia garrafa de vinho, o que garantiu que ela estava praticamente apagada no momento em que sua cabeça pousou no travesseiro. Entre cortar lenha e beber, o corpo tão acostumado ao ritmo de Los Angeles estava tendo alguma dificuldade para se adaptar à nova realidade. Ela sequer viu quando seu celular apitou algumas vezes com mensagens de Regina.
O som a buscou em algum lugar profundo dos sonhos. Cascos batendo na madeira, relinchos agudos, estalos altos.
Emma acordou bruscamente. Seus ouvidos registraram o barulho da madeira em chamas. Os olhos arregalaram-se diante da claridade alaranjada que a cortina aberta deixava passar para o quarto. Ela correu.
O celeiro ardia em chamas.
Lavaredas altas despontavam para o céu como se buscassem alcançá-lo. Os relinchos agudos dos cavalos em pânico serviram de combustível para a própria Emma, que encaixou os pés descalços nas botas de serviço do pai – ainda ao lado da porta de entrada – e avançou para dentro da construção ardente.
Houston foi o primeiro; sua baia estava mais perto da porta e Emma foi direto até ele. A regra de ouro de David valendo mais do que diamantes naquele momento.
— Cada cavalo tem sua guia, Emma — Ele havia dito, ainda na infância dela — Não importa se eles estarão aqui por uma noite ou por uma vida. Cada um tem sua própria guia e ela sempre, sempre... fica na porta da baia.
E Emma entendeu o valor dessa regra quando estendeu a mão para a corda de guia pendurada e a jogou ao redor do pescoço de Houston, puxando-o para fora. Embora em pânico, ele entendeu que estavam saindo da zona de perigo e deixou-se levar para o quintal, que atravessaram correndo até a casa.
Deixando o cavalo amarrado na viga de sustentação da varanda, Emma voltou para o celeiro.
Apolo veio depois. Por ser menor e já confiar em Emma pela convivência, ele resistiu ainda menos e foi fácil manejá-lo até onde Houston estava.
Quando Emma entrou no celeiro pela terceira vez, as vigas estalavam e rangiam. O som da madeira cedendo acelerou seus passos e o coração.
A primeira viga desabou no exato instante em que a guia de Diana era colocada. Ela empinou, quase puxando Emma para dentro da baia com o movimento.
— Oooh, calma, garota — a médica tentava acalmar a égua, o que era uma tarefa difícil, considerando que ela mesma estava entrando em pânico.
Quando a segunda viga caiu, Diana se moveu bruscamente para a frente e Emma caiu deitada sobre as ferramentas. A pá de ferro, aquecida pelo fogo, queimou suas costas e a médica gritou, levantando-se com rapidez e buscando pela ponta da guia da égua, que girava sem rumo em meio às chamas.
Emma tentou cobrir o nariz com o braço, mas a fumaça escura e espessa a fazia tossir e dificultava cada respiração. Uma das vigas caídas havia se tornado um obstáculo diante da porta. Ela sabia que, se estapeasse Diana naquela direção, a égua seria capaz de pular, mas duvidava que conseguisse fazer o mesmo por conta própria.
Sem muitas alternativas, a médica se agarrou ao pescoço do animal e se lançou para cima, tentando — sem sucesso — se lembrar de qualquer coisa sobre montaria que pudesse ter aprendido na infância. Ela afundou o rosto nas crinas de Diana e cutucou suas costelas com os calcanhares, perdendo o ar quando a égua disparou em meio às chamas.
Emma fechou os olhos no exato momento em que Diana saltou e, quando os abriu, foi para ver uma pequena multidão se formando em seu quintal.
Um rapaz correu em sua direção e segurou a guia de Diana para que ela pudesse descer. Emma o reconheceu como um dos funcionários de Regina e, ao levantar os olhos para a multidão, encontrou a morena olhando diretamente para ela, como se nunca a tivesse visto antes.
A situação durou poucos segundos e, logo depois, Regina estava apontando e latindo ordens, como de costume. As pessoas se movimentavam ao som de sua voz, buscando baldes e mangueiras e iniciando a luta contra as chamas. Enquanto alguns se dedicavam ao celeiro, outros passaram a molhar o terreno ao redor para garantir que o fogo não se espalhasse.
Emma sentiu o exato momento em que sua adrenalina baixou. Era como se, subitamente, seus pulmões doessem ao respirar e a queimadura em suas costas ardesse como o inferno. Isso, somado à tensão repentina dos nervos, quase a fez dobrar-se sobre si mesma.
Mais pessoas chegaram. Entre aqueles que estavam acordados e viram o clarão das chamas e os que atendiam aos celulares às três e meia da manhã, logo boa parte da população de Storybrooke se amontoava no quintal do Rancho Swan, ajudando a combater o fogo ou apenas olhando o que acontecia.
Ruby e Elsa foram até Emma, levaram-na para dentro de casa, garantindo que as pessoas cuidariam de tudo e garantiriam que os cavalos tivessem um abrigo para a noite. Elas ajudaram a loira a se livrar da camiseta queimada, segurando a própria respiração ao perceberem a ferida nas costas dela.
— Precisamos levar você para um hospital, Emma — Elsa comentou, girando ao redor do quarto, tentando encontrar uma peça de roupa que pudesse ser vestida sem piorar o ferimento.
— Não, não é necessário — Emma garantiu, pausando a fala para passar por uma crise de tosse — No banco de trás do meu carro tem uma bolsa preta e grande, traga-a.
Enquanto Elsa saiu para buscar a bolsa de emergência, Ruby finalmente puxou do armário uma blusa de frente única, cujo único tecido na parte de trás eram duas tiras finas, uma para ser amarrada no pescoço e outra na cintura.
— Tirando o fato de que isso é o tipo de coisa que você usaria numa balada LSD de Los Angeles... — Ruby deu de ombros — Vai servir.
Elsa voltou com a bolsa e, seguindo as instruções de Emma, encontrou uma pomada para queimaduras, que aplicou com cuidado nas costas da médica. Uma bombinha de asma foi usada para ajudar com a inalação de fumaça.
— E a Regina? — Emma questionou, assim que tossir a cada trinta segundos deixou de ser um problema imediato.
— Lá fora — Elsa respondeu, sem entrar em detalhes.
Emma percebeu quando as amigas trocaram um olhar sério, mas não queria ter que participar daquela conversa, não naquele momento.
Só algumas horas mais tarde, quando o incêndio estava controlado — assim como Emma, a quem as amigas não permitiram que saísse de dentro da casa — e as pessoas começavam a ir embora, é que Regina entrou, mancando levemente para não colocar peso sobre o tornozelo machucado.
As três mulheres estavam na sala; Ruby e Elsa bebiam uma cerveja cada uma, enquanto Emma preferiu se medicar com algo um pouco mais forte e bebericava uma dose generosa de uísque. A entrada da morena foi o estopim para que as duas amigas da médica se levantassem.
— Agora você está em boas mãos — Elsa sorriu, dirigindo-se para a porta.
— A gente volta mais tarde para te ver, Emma — Ruby acrescentou, jogando um beijo para ela.
Regina ficou em silêncio. Foi até o armário e buscou por uma das garrafas de vinho que vinha deixando ali desde que começara a frequentar o rancho. Ela encheu a taça até a borda antes de voltar e se sentar no outro sofá, encarando as chamas da lareira como se fossem uma ofensa.
— Os cavalos? — foi Emma quem quebrou o silêncio, a voz rouca devido à fumaça inalada.
— No haras — a morena respondeu, seca — Meu veterinário vai examiná-los e medicá-los, se preciso.
— Obrigada... — Emma estava oficialmente preocupada com a forma como Regina estava agindo.
Não que esperasse alegria em uma situação como aquela, mas devido ao fato de que acabara de sair de um incêndio, esperava um pouco menos de distância por parte da morena.
Só então, Regina olhou na direção da médica. Os olhos castanhos tempestuosos, doloridos. Devagar, ela se levantou e caminhou até estar atrás de Emma, que se sentiu como se estivesse em exposição. Os dedos que se arrastaram por seus ombros estavam gelados, trêmulos.
— Regina? — chamou-a — O que está acontecendo? Por que está agindo assim?
— Você... — Regina começou a falar, pigarreando quando sua voz falhou — Você tem alguma noção de como foi para mim, hoje?!
— Do que está falando? — Emma tentou se virar para olhá-la, suas costas protestaram e ela se levantou, virando o corpo todo até estar de frente para a morena — Como você chegou tão rápido?
— Meu vigia noturno viu o fogo — Ela respondeu, bebendo um pouco do vinho — Ele me chamou e alertou a todos.
— Regina... Fala comigo.
— O que você quer que eu diga, Emma? Que eu estou feliz que os cavalos estão a salvo? Porque eu estou, realmente. Fico feliz que eles estejam, que vão receber todos os cuidados necessários e que ficarão bem — Regina a encarava, tremendo — Fico feliz que você esteja bem, que dentro de alguns dias sua queimadura vá estar curada.
— Qual é a porra do seu problema, então? — Emma perdeu a paciência, sua voz se elevando alguns tons — Por que você está aí parada no meio da minha sala como se estivesse de luto e não feliz por eu estar aqui?
— A porra do meu problema, Swan — Regina rebateu, dando alguns passos na direção dela — É que quando eu cheguei aqui e aquele maldito celeiro começou a desabar com você dentro, eu pensei que ficaria realmente de luto... Pela segunda vez.
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