O nó sinoatrial
19 Dra. Emma Swan
Emma não questionou quando Ruby apareceu na porta de sua casa, às nove da manhã, pedindo pelas chaves do antigo prédio. Fingiu também que não vinha ignorando todas as mensagens das amigas que mencionavam o nome de Regina.
Seu erro fora, talvez, perguntar a Elsa sobre o vinho. Elas logo fizeram a conexão e, desde aquele dia — há mais de uma semana —, não se passavam vinte e quatro horas sem que alguma delas questionasse se ela e Regina tinham finalmente “se pegado”.
Por qualquer que fosse a razão, Emma não queria compartilhar o assunto. Não queria dizer para as amigas que estava feliz, talvez mais do que devesse estar, nem que ela e Regina dormiam juntas praticamente todas as noites, no rancho ou no haras. Não admitiria que o entardecer estava se tornando sua hora favorita do dia, quando se sentava na varanda e via o carro escuro da morena deslizando pelo curto espaço de estrada que as separava.
Ela, apaixonada? Não.
No fim das contas, a calmaria só começou a dar lugar às perguntas quando, no meio da tarde, Elsa apareceu de repente no rancho, chamando-a para ir até a cidade.
A situação se tornou ainda mais estranha quando a avalanche de perguntas que Emma esperava simplesmente não aconteceu. Elsa dirigiu tranquilamente até Storybrooke, parando o carro bem diante da velha clínica. Só então ela se virou para a médica, com um sorriso enorme no rosto.
— A gente fez uma surpresa para você — Elsa declarou, apontando para o prédio. — E por "a gente", eu quero dizer a cidade inteira.
Emma arregalou os olhos, incerta do que fazer ou dizer. Ela olhou para o velho prédio, que havia ganhado uma pintura nova — um tom de azul vivo e acolhedor —, e, através das janelas impecavelmente limpas, pôde ver um grupo de pessoas transitando pelo interior.
Entre elas estava Regina. Pela forma como a morena apontava em todas as direções e gesticulava, claramente era ela quem liderava e ditava as ordens para que tudo ficasse perfeito. O coração de Emma falhou uma batida ao perceber o quanto a outra tinha se empenhado naquilo.
— Vamos, não decline o convite — Elsa falou, já abrindo a porta para desembarcar e quebrando o transe da amiga. — Tem muita gente lá dentro ansiosa para ver a sua cara de choque.
Emma desceu do carro com as pernas ligeiramente bambas. Ao empurrar a porta de entrada, as palavras se perderam completamente em sua garganta.
O ar pesado e mofado de abandono fora substituído por um aroma fresco de pinho e cera de madeira. Todo o pó havia sumido. O piso de cerâmica brilhava sob a luz natural e os antigos móveis da recepção tinham sido cuidadosamente lixados, envernizados e polidos. Através das portas dos consultórios, Emma pôde ver as macas com lençóis novos e armários com portas de vidro exibindo um estoque impecável de materiais descartáveis e medicamentos. Tudo estava pronto. Tudo estava perfeito.
As pessoas olhavam para ela com expectativa. Regina, Gold, Belle com o filho nos braços, suas amigas e outros moradores — inclusive o prefeito, que ostentava o sorriso de um homem que carregava a certeza absoluta da reeleição —, todos esperando que ela dissesse ou fizesse qualquer coisa. Emma, no entanto, só conseguia olhar ao redor, esforçando-se ao máximo para não deixar que as lágrimas acumuladas em seus olhos caíssem.
Sua clínica estava ali, bem diante dela, pronta para receber pacientes. O caminho que até meia hora atrás parecia incerto e nebuloso, agora se abria com uma clareza inesperada. A médica não conseguia colocar os pensamentos em ordem por tempo suficiente para formular uma frase completa.
— Eu... — Ela abriu um sorriso trêmulo, olhando de rosto em rosto — Eu não sei o que dizer. É... uau. Obrigada. — Emma franziu o cenho, ainda em transe, olhando para as paredes pintadas — Como vocês fizeram isso?
— Foi um trabalho em equipe — Ruby deu de ombros, sorrindo com orgulho — Gepeto cuidou dos móveis, Gold ajudou com a compra dos materiais e remédios, Anna, Elsa e eu ficamos com a limpeza... Todo mundo ajudou um pouquinho.
— Eu nem sei como agradecer a todos vocês — Emma declarou, abrindo um sorriso largo, já recuperada o suficiente para conseguir falar direito.
Abraços calorosos foram trocados com os moradores que se aproximavam. Quando finalmente chegou a vez de Regina, Emma a puxou para si, segurando-a em seus braços por um tempo nitidamente maior do que o necessário.
— Como isso aconteceu? Você sabia? — Questionou, afastando-se apenas o suficiente para olhar o rosto da morena.
— Fiquei sabendo há alguns dias. Foi Gold quem começou tudo — Regina respondeu, dando de ombros com elegância — As pessoas realmente precisam de você aqui, Emma. Todos estavam tão ansiosos para aprontar tudo que, às vezes, ficavam perdidos em sua própria animação.
— Imagino que tenha sido um grande sacrifício para você... dar ordens — A médica zombou.
Algumas pessoas ao redor chegaram a ficar boquiabertas quando Regina soltou uma gargalhada genuína em resposta. Ao que parecia, Emma Swan começava a curar corações antes mesmo de iniciar seu trabalho em Storybrooke.
Enquanto a pequena festa de recepção continuava acontecendo, Emma buscou Gold com os olhos, encontrando-o com o filho no colo, diante de uma das janelas.
— Gold? — Ela chamou ao se aproximar. O homem mais velho se virou com um sorriso contido — Parece que é a você que eu preciso agradecer por tudo isso.
— Não me agradeça, Emma. Nós fomos abençoados com a sua presença em Storybrooke, e eu não podia deixar que seu pai irresponsável colocasse tudo a perder.
Emma franziu o cenho, terna, enquanto estendia o dedo indicador para o bebê, que o agarrou imediatamente com a mãozinha.
— Eu imagino que já tenha percebido que sou um homem com certa... influência — Ele falou, devagar, e a médica assentiu — Usei dessa influência para saber sobre a sua situação financeira. Não, não se preocupe, não sei números exatos. Mas fui informado de que você estava começando a organizar a clínica quando David estragou tudo com aquela dívida. Eu não podia deixar as coisas desse jeito. O lugar estava aqui... eu só dei um empurrãozinho. Só Deus sabe quantos pontos você ainda vai precisar dar no queixo do pequeno Neal no futuro.
— De qualquer forma... obrigada — Emma sorriu, genuinamente grata — Vai ser bom voltar à ativa e finalmente entregar alguma medicina de verdade por aqui.
— Nada de caçarolas como pagamento, Emma.
— Vou manter isso em mente — Emma riu, despedindo-se de Gold com um tapinha carinhoso no ombro do homem, enquanto ele se afastava para entregar o bebê de volta a Belle.
Aos poucos, o burburinho na recepção começou a diminuir. A tarde ia caindo e os moradores, satisfeitos com a surpresa e com os agradecimentos sinceros da nova médica, começaram a se despedir em pequenos grupos. Ruby e as meninas acenaram da porta, prometendo ser as primeiras pacientes caso tivessem alguma ressaca misteriosa no fim de semana, arrancando mais uma risada de Emma.
Quando a porta de vidro se fechou pela última vez, o silêncio que se instalou na clínica trouxe uma energia gostosa de recomeço.
Emma soltou um longo suspiro, os ombros finalmente relaxando depois de tantas emoções. Ela caminhou lentamente até o balcão da recepção, passando os dedos pela madeira recém-envernizada, ainda custando a acreditar que tudo aquilo era seu.
— Um centavo pelos seus pensamentos — A voz rouca de Regina ecoou, vinda do corredor dos consultórios.
A morena vinha caminhando sem pressa, as mãos cruzadas elegantemente à frente do corpo. Ela já tinha deixado de lado aquela postura firme e cheia de autoridade que exibia mais cedo enquanto coordenava o mutirão; agora, restava apenas a mulher que olhava para Emma com um orgulho que não fazia a menor questão de esconder.
— Só estou... tentando processar — Emma admitiu, virando-se de costas para o balcão e apoiando os cotovelos ali, observando Regina se aproximar — Há algumas horas, eu achava que ia passar os próximos meses afogada em burocracia e dívidas por causa do meu pai. E agora... olhe para isso. Está pronto.
— Storybrooke sabe cuidar de quem importa — Regina parou a poucos centímetros dela, o aroma familiar de maçãs invadindo o espaço de Emma imediatamente — E você faz parte do nosso mundo agora, Swan. Quer você queira, quer não.
Emma sorriu, sentindo um calor confortável se espalhar pelo peito. Ao olhar para os olhos intensos e acolhedores de Regina, qualquer receio ou medo que costumava acompanhá-la diante de sentimentos mais profundos simplesmente não encontrou espaço para crescer. Não precisavam de grandes definições agora; o que elas tinham era real, e era bom.
— Obrigada, Regina — Emma sussurrou, encurtando a distância entre elas e segurando a cintura da morena, trazendo-a para perto — Sei que o Gold deu o empurrão financeiro, mas conheço você. Sei que nada disso teria andado tão rápido se você não estivesse de olho em cada detalhe nos bastidores.
— Alguém tinha que garantir que o Gepeto não pintasse as paredes de um amarelo horroroso — Regina brincou, embora suas mãos tivessem subido naturalmente para a nuca de Emma, os dedos acariciando os fios loiros. Seu tom amoleceu, cheio de carinho — Você merece isso, Emma. Merece um lugar que seja seu.
O beijo que se seguiu foi calmo, desprovido da urgência dos últimos dias no rancho, mas carregado de uma cumplicidade bonita. Ali, entre as paredes com cheiro de tinta nova e o silêncio confortável da clínica, Emma finalmente sentiu que estava exatamente onde deveria estar.
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