O nó sinoatrial
7 Diaval
Em algum momento, o trabalho no jardim teria que acabar. Dois dias depois, Emma se viu encarando as flores agora livres de ervas daninhas, a terra recém afofada e ainda úmida. É claro que ainda tinha muitas coisas a fazer, se estivesse realmente buscando por tarefas que poderiam distrair sua mente e, no entanto, estava cansada de pensar.
Tivera dois dias inteiros para digerir a história contada pelo pai. Quarenta e oito horas reavaliando cada memória da própria infância, todos os olhares, as lágrimas e as tantas outras coisas que, embora fossem normais em sua família, não faziam parte da rotina diária de outras casas.
Ainda lembrava como foi um choque para Ruby quando a amiga descobriu que seu pai, ao invés de esbravejar ao vê-la usando maquiagem pela primeira vez, se escondeu para chorar. E agora, quinze anos depois, ela entendia o motivo.
Apesar de ter tido várias aulas que tratavam de psicologia, a matéria era focada na relação entre médico e paciente, no impacto do adoecimento na saúde mental. Era onde aquele grande grupo de estudantes ansiosos por um bisturi, aprendia a ter o tato necessário na hora de conversar com pacientes e familiares. Para quaisquer aprofundamentos no tema, eles orientavam as pessoas a visitar um profissional especializado em saúde mental.
De modo que, mesmo que continuasse pensando, não conseguia entender porque parecia incapaz de assumir a autoridade e as certezas que tinha dentro de um hospital. Atualmente, cuidava de oito internos sob sua responsabilidade e isso era algo que já vinha fazendo há alguns anos. Suas mãos e sua mente haviam treinado ao menos trinta profissionais perfeitamente capacitados. Realizava cirurgias e procedimentos de alto risco sem tremer por um segundo.
E ainda assim, desde que colocara os pés em Storybrooke, se sentia como a garota tola que deixara a cidade para trás. Continuava balbuciando coisas sem nexo quando seria melhor agir como a mulher que era e adiando conversas difíceis porque, bem, seriam difíceis.
Ainda pensava nisso quando pegou as chaves do carro, ligou o rádio e dirigiu até o Haras Mills, sem nenhum discurso ensaiado. Não pretendia falar sobre dinheiro ou negócios com Regina, sua única intenção era pedir desculpas por suas palavras. Teve a ideia de levar uma boa garrafa de vinho, mas era domingo e todas as lojas de Storybrooke estavam fechadas.
Dessa vez, seus olhos não percebiam as cercas bonitas ou os animais caros. A voz de Chris Stapleton enchia o carro com sua cadência e a janela aberta deixava entrar o vento que bagunçava seus cabelos de maneira agradável. Mesmo com todos os nós que sua vida havia dado, com as noites insones e os problemas por resolver, Emma Swan se sentia bem. Cantarolava Tennessee Whiskey por pura memória, como se não tivesse passado os últimos anos ouvindo só o que tocava na rádio em Los Angeles.
Por ser domingo, não havia funcionários andando pelo pátio, os cavalos estavam tranquilos no pasto mais próximo – com vista da casa – e tudo estava silencioso. O carro escuro de Regina era o único indicativo de que a mulher estava no haras.
— Regina? – Emma chamou, ao descer do carro e perceber todas as portas fechadas.
A médica caminhou pela varanda, chamou outras vezes e não obteve nenhuma resposta.
Talvez Regina tivesse mais de um carro, pensou. Ou simplesmente não queria falar com ela. Estava prestes a voltar para casa, quando escutou um relincho agudo seguido por uma pancada forte na madeira. O som vinha do estábulo mais próximo e Emma apressou o passo naquela direção.
— Eu preciso que você se levante, droga! – A voz de Regina passou pela porta aberta.
A morena estava dentro da baia de um dos cavalos, apenas seus ombros e cabeça eram visíveis e ela claramente tentava puxar alguma coisa, que não se movia.
— Regina? – Emma chamou, mais alto e ela se virou.
— Venha aqui, Swan – Ela ordenou e Emma, sem saber o que fazer, foi em sua direção.
A médica quase teve uma crise de pânico ao perceber a mulher de estatura pequena, compartilhando o espaço pequeno da baia com um cavalo de pelagem negra que pesava pelo menos meia tonelada, tinha os olhos esbugalhados e a respiração acelerada.
— Regina, o que...
— Emma, ouça, eu preciso que você me ajude a levantá-lo, está bem? – Nesse ponto, o cavalo tentou se virar de lado e Regina usou sua pura força de vontade para impedi-lo com uma tábua, que colocou entre o animal e a parede, a fim de não o deixar se virar completamente.
Emma a encarou. Pela primeira vez, desde que entrou no celeiro, percebeu que a pele de Regina estava suada, suas bochechas coradas e lágrimas se acumulavam nos cantos dos olhos. Naquele momento, ela não parecia em nada com a mulher autoritária que conhecera há alguns dias.
— O que eu faço? – Perguntou, tirando a jaqueta e a deixando sobre um fardo de feno.
— Puxe o cabresto, chame ele – Regina suspirou, exausta – Eu vou empurrar, enquanto isso.
Assentindo, Emma pegou o cabresto do chão e passou a puxá-lo, tentando incitar o cavalo como vira o pai fazer tantas vezes, com assovios e sons. Regina foi para a parte de trás do animal, tomando cuidado para manter distância dos cascos e o empurrou. As botas da morena deslizaram no chão, mas o cavalo não se mexeu.
Elas seguiram tentando daquela maneira por algum tempo. Emma assistia ao crescente desespero de Regina e começava a ficar nervosa, sem saber o que fazer para resolver a situação.
— Não tem... Não tem ninguém que eu possa chamar? Seus funcionários estão todos de folga hoje?
— Não, tenho cinco deles averiguando as cercas – Ela passou a mão pelos cabelos, nervosa – Eu sei que na verdade estão se divertindo, mas as coisas aqui estavam tranquilas e eu disse que podiam ir. Tentei ligar, mas os celulares estão fora da área e o veterinário nem está na cidade, vai demorar até conseguir chegar aqui. Não temos tempo para esperar ninguém.
Emma pensou no pai. Mas da última vez que o vira, estava cambaleando pelo corredor e indo para o próprio quarto, onde provavelmente estava apagado até o momento. Ele não ouviria o telefone.
— Vamos tentar mais uma vez – Ela propôs e logo Regina estava em posição, ignorando completamente uma ou outra lágrima que derramava, de vez em quando.
Após mais de quinze minutos, a morena se recostou na parede. Seus braços tremiam pelo esforço e a própria Emma sentia os músculos doloridos. Quando Regina escondeu o rosto nas mãos, ela decidiu dar-lhe alguma privacidade e caminhou para o outro extremo do celeiro.
Passou por outras baias com animais que apesar de inquietos, pela movimentação delas, pareciam em ótimo estado. No fim do corredor, encontrou um cômodo pequeno com a porta fechada. Pensando ser um banheiro, entrou a fim de jogar água no rosto para se refrescar, mas encontrou apenas prateleiras.
Sprays para ferimentos, alguns comprimidos gigantes que ela nunca tinha visto e ampolas. Emma engasgou, acostumada a ver ampolas com medicamentos humanos, que continham não mais do que 5ml, estava diante de versões gigantes dos frascos, alguns com 50 e outros com 100 ml. Automaticamente, suas mãos correram pelas prateleiras, analisando rapidamente o uso de cada um dos medicamentos que encontrava.
— Flunixin... – Falou consigo mesma, quando a palavra analgésico pareceu saltar diante de seus olhos. Aquela leitura precisou de um pouco mais de atenção. Os componentes, a dosagem e a maneira certa de aplicação.
Com uma calma que não realmente sentia, Emma olhou ao redor, até encontrar uma bandeja plástica grande, que continha as seringas. Ela puxou a seringa veterinária da embalagem e soltou uma risada incrédula. Aquilo não era um instrumento médico, era uma ferramenta de marcenaria. O cilindro de plástico rígido tinha capacidade para cinquenta mililitros, cinco vezes maior do que qualquer seringa que ela já usara em uma emergência humana. Mas o pior foi a agulha. Com quatro centímetros de comprimento e uma espessura que lembrava um prego pequeno.
Mas ainda que tudo ali fosse em uma escala bem maior do que estava acostumada, ainda era sua área de atuação. Correu de volta para a baia, onde Regina havia voltado a empurrar o cavalo.
— Encontrei uma coisa – Falou, e a outra se assustou.
— Swan... Eu pensei que tinha ido embora. O que é isso?
Emma entregou a ampola para ela, que leu e balançou a cabeça.
— Eu não tenho a menor ideia sobre essas coisas, Emma. Kristin era veterinária, eu não... – Sua voz morreu, como se entendesse o que estava falando.
— É nossa melhor alternativa agora – A médica declarou e Regina apenas assentiu.
Emma retirou o lacre do vidro e testou a seringa para entender quanta força seria preciso usar. Ela então passou a agulha pela borracha grossa que protegia o líquido e injetou ar dentro da ampola, para que o êmbolo não fosse sugado de volta. Calculou a dose para quinhentos quilos, imaginando que o cavalo poderia pesar um pouco mais, mas não querendo exagerar na medicação.
Agora vinha a parte difícil.
Ela se abaixou diante do cavalo inquieto e tateou pelo pescoço do animal; não precisou de mais do que uma tentativa para encontrar a pulsação forte da jugular, que saltou sob seus dedos graças ao estado agitado do bicho. Sequer suspirou antes de empurrar a agulha contra o couro duro, sentindo-o ceder devagar.
Foi preciso usar a força da palma da mão para empurrar o êmbolo, ao contrário de uma seringa humana, na qual o polegar quase sempre era o suficiente.
E então, elas esperaram.
Em algum momento, Regina entregou para a médica uma garrafa com água, da qual ela bebeu com gratidão. Tendo parado com o esforço físico já há alguns minutos, sentia os músculos dos braços doloridos e o nervo do pescoço sinalizando desconforto.
— A respiração dele parece melhor – Regina comentou.
O cavalo parecia mais tranquilo, embora ainda mostrasse sinais de inquietação.
— Ok, vamos lá... Agora você fica na frente e eu tento empurrar – Emma deu a volta, a fim de assumir seu lugar, enquanto Regina se abaixou na frente do animal.
— Vamos lá, Diaval – Ela falou, acariciando a testa do cavalo – Eu preciso que você se levante, está bem? Faça isso por mim, por favor.
Só então, ela pegou o cabresto e se levantou.
Dessa vez, não foi preciso muito esforço. Na segunda tentativa, o cavalo se levantou, relinchando baixo. Ele ainda sentia dor, mas o alivio do remédio fora o suficiente para que conseguisse se mover e não entrar em pânico.
Elas o levaram para fora, obrigando-o a continuar caminhando.
— Não podemos deixar ele comer – A morena suspirou – Esse alívio é temporário.
Alguns minutos se passaram e Emma começava a ficar preocupada quando cinco homens a cavalo se aproximaram.
Regina latiu ordens, apontou dedos e usou de seu melhor tom autoritário para que os homens se mexessem. Logo, dois deles trouxeram o trailer e os outros três direcionaram Diaval para o interior do mesmo, onde ficaram quando a porta se fechou. Eles seriam os responsáveis pelo bem-estar do cavalo até a clínica, garantindo que ele não se deitasse, caso a dor retornasse.
Elas permaneceram paradas no quintal por vários minutos, observando o trailer se afastar. Após algum tempo, Regina andou na direção da casa e Emma a seguiu. A morena entrou e retornou com duas garrafas de cerveja, lhe entregando uma.
— Obrigada pela ajuda hoje, Swan – Ela falou, após um longo gole. Emma não achava que Regina seria o tipo de pessoa que bebe cerveja direto da garrafa, mas abafou o pensamento – Pensei que ia perde-lo lá dentro.
— Fico feliz que pude ajudar – Emma deu de ombros – Eu vim até aqui para te pedir desculpas pelo que disse, no outro dia.
— É mesmo? – Emma assentiu – Eu não devia ter te dado um tapa. Podemos considerar que estamos quites?
— Claro... No fim das contas, eu meio que mereci o tapa – Regina sorriu então.
— Ah Emma... Depois de hoje, considere que está total e completamente redimida – Seu sorriso se desfez enquanto olhava o horizonte – Diaval era o cavalo de Kristin, minha falecida esposa.
— Sinto muito.
O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Era apenas um momento compartilhado entre duas pessoas que haviam trabalhado juntas por longas horas, em prol de um bem maior.
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