O nó sinoatrial
24 Descostumes
O problema dos relacionamentos era esse. Ou ele era muito ruim — como o de David e Mary Margaret — e durava toda uma vida. Ou ele era como a luz do sol depois de uma nevasca intensa e terminava de repente. Era fácil perder o rumo quando isso acontecia.
Emma Swan foi para a clínica no dia seguinte e no que veio depois dele; atendeu pacientes, conversou com pessoas, fez o curativo nas próprias costas várias vezes, evitou as amigas e chorou sempre que teve algum tempo livre.
Tudo passaria em alguns dias, ela tinha certeza. Em breve estaria bem o bastante para deixar tudo isso para trás e seguir adiante, mesmo que, sendo Storybrooke, não tivesse muito “adiante” para ir. Precisava continuar trabalhando, focar em limpar o terreno assim que suas costas melhorassem e contratar alguém para reconstruir o celeiro; afinal, não considerava de bom tom que seus cavalos passassem assim tanto tempo na casa da sua ex.
Regina era sua ex?
Em teoria, nunca houvera nenhum pedido formal ou uma grande conversa sobre o futuro. Principalmente porque essas, Emma evitava. Talvez devesse apenas encarar isso tudo como qualquer outro de seus casos passados, exceto que dessa vez, ao invés de buscar roupas e sua escova de dentes, buscaria cavalos.
O problema é que Regina e o relacionamento que elas tinham eram muito mais importantes para ela do que qualquer pessoa que já passara por sua vida.
Ela entendia o trauma da morena, claro que entendia. Kristin morrera de repente, o maldito aneurisma levando-a no meio de uma piada, pelo amor de Deus. E pelo que havia ouvido das amigas, isso tinha despedaçado a bela mulher até ela se tornar um fantasma apático de si mesma. Quando se perde alguém dessa forma, torna-se um hábito o temor de enfrentar isso tudo outra vez.
Sentada em sua sala de estar, olhando para a lareira, conseguia ver o que a dor de perder Kristin havia feito com Regina. Também percebia que sua presença na vida da outra fora uma surpresa tão grande quanto a que ela sentia sempre que pensava nos sentimentos que desenvolvera pela dona do Haras Mills. Ambas foram pegas desprevenidas.
A diferença é que o medo de Emma era acabar presa em um relacionamento ruim, mas quando se tratava de Regina, nada era ruim. Ela não tinha pensamentos sobre o que poderia dar errado ou pedia segundas opiniões; ela só queria continuar vivendo o que tinham. Quando se deu conta, estava em um relacionamento e não havia nada nele que lembrasse o que viu seus pais viverem. Mas para Regina as coisas eram diferentes: o medo dela não estava no começo ou nos dias ruins, estava justamente espreitando pelas frestas em um dia bom, em uma piada e em um sorriso.
Emma talvez não acreditasse no amor e, por não acreditar, não o conectava a nenhuma sensação. Regina acreditava e, em sua experiência, ele estava intimamente conectado à dor e ao luto.
Como ela poderia ultrapassar essa barreira? Como poderia prometer para Regina que nada aconteceria, quando sua própria profissão havia lhe ensinado que um coração pode simplesmente parar de bater?
Quando David ligou, finalmente podendo ter contato com o mundo fora da clínica de reabilitação, Emma tentou parecer feliz. Estava obviamente contente pelo progresso do pai, ouvia com atenção as coisas que ele dizia e agradeceu várias vezes pela placa entalhada que agora adornava a entrada do consultório. Mas ele percebeu mesmo assim e continuou questionando até que ela falasse sobre o celeiro, torcendo para que fosse o suficiente para encobrir a verdadeira razão das lágrimas no fundo de seu sorriso.
— Você está bem? — Foi a primeira pergunta de David — Me fale de você e dos cavalos, aquele prédio velho não importa.
— Sim, nós estamos bem. — Emma sorriu rapidamente pela preocupação do pai — Eu queimei um pouco as costas e os cavalos precisaram fazer algumas sessões de inalação, mas foi mais um susto do que qualquer outra coisa.
Nesse ponto da conversa, ela se lembrou de que só sabia sobre os cavalos porque um dos funcionários de Regina viera até ali para repassar o que havia acontecido a eles desde a noite do incêndio. Ela mesma não tivera coragem de mandar uma mensagem questionando e, ao que parecia, Regina também não tinha assim tanta coragem a ponto de fazer o mesmo. Talvez tenha suspirado alto demais ou engasgado, porque David rapidamente questionou.
— Você tem certeza de que é só isso, Emma?
— Sim, pai. — Ela engoliu seco — Eu ainda estou tentando assimilar o que aconteceu e pensar em como vamos reconstruir o celeiro, não podemos abusar da hospitalidade da Regina por muito tempo.
— Não se preocupe, querida, nós daremos um jeito. — Ele estava calmo, racional de uma maneira que Emma não o via ser há muito tempo — O importante é você estar bem, os cavalos estarem bem. Eu posso ir para casa, se você permitir. — Ele suspirou — Literalmente, você precisa assinar. Era assim que você se sentia quando era criança e eu precisava assinar alguma coisa para um passeio da escola?
— Basicamente, sim. — Emma sorriu pela tentativa do pai de fazê-la rir — Todo mundo sempre ia, mas eu não era todo mundo.
— Bom, caso esteja pensando em devolver na mesma moeda, saiba que eu sou o único no momento que pode ser liberado... Então, se você não assinar, aí sim é que eu vou ser todo mundo.
Emma riu então. Era essa a sensação de ter um relacionamento normal e saudável com o pai?
— Fique tranquilo, eu vou assinar — Ela estava ciente de que poderia se arrepender disso.
— E quando eu chegar em casa, nós vamos resolver isso, Emma. — Ele suspirou longamente — Eu tenho muitas desculpas para pedir a você e vou fazer isso. Mas acima de tudo, eu só quero ser o pai que você merecia ter tido por toda a vida. Sei que perdi muito tempo, mas... Acha que pode me dar alguns anos agora?
Emma sabia que períodos pós-término eram sensíveis, mas não esperava que uma pergunta como aquela pudesse colocá-la para chorar no telefone. O tema era profundo, uma ferida antiga que nunca havia sarado completamente, e o tempo era exato demais.
— Te vejo em casa... Pai.
Quando o carro de Granny parou diante da varanda, Emma suspirou. Ao ver Ruby e Elsa desembarcando com semblantes sérios demais, choramingou.
Vinha evitando as amigas nos últimos dias, respondendo às mensagens de forma prática e nunca falando demais. Não pensava estar pronta para todas as perguntas que viriam, mas ao vê-las surgindo em sua porta, sabia que não teria para onde correr.
Abriu a porta, vestindo seu melhor sorriso.
— Nossa, o cheiro de queimado nunca mais vai sair? – Elsa perguntou, enquanto elas entravam.
— Ao que parece, eu preciso tirar toda aquela madeira queimada primeiro – Emma deu de ombros – Vou começar com isso em alguns dias.
— E as costas? – Ruby puxou a gola da camiseta que Emma usava e espiou, estalando a língua ao ver apenas o curativo.
— Melhorando. Já não arde tanto, só preciso tomar cuidado para não abrir o machucado, agora que está começando a cicatrizar.
— E não tem mais nada que você queria compartilhar com a gente? – Ruby continuou, dando a volta e cruzando os braços diante da médica – Nenhuma informação, nenhuma novidade?
— Não, está tudo correndo como deveria – Nessa altura, Emma sentia que seu sorriso estava congelado no lugar e que não o mudara nem por um segundo desde que abriu a porta.
— Ah, é mesmo?
— Ruby... – Elsa a repreendeu.
— Então por que diabos Regina Mills vai ao diner duas vezes por dia e me pergunta como você está? – A moça estufou o peito, numa pálida imitação da postura e da voz de Regina – Como ela está, Ruby? Tem certeza de que ela está bem? E as costas machucadas? Você e Elsa estão ajudando com os curativos?
— Ok – Elsa franziu o cenho – Talvez eu não tenha percebido que isso estava te incomodando tanto assim, Rubs.
— Não, ela perguntar não me incomoda em nada – Ruby balançou a cabeça, descontente – O que me incomoda é que eu não sei o que a gente está fazendo na vida da Emma.
— Como é que é? – Foi a vez da médica se pronunciar.
— Você começa a sair com a Regina e a gente fica sabendo como todo mundo, só por ficar sabendo... Você não mandou uma mensagem falando nada, aliás, desviou de todas as que nós mandamos. Aí vocês terminam e eu só fico sabendo porque Regina Mills me diz “Emma e eu não estamos mais juntas” – Ruby puxou o ar com força – Então eu queria entender qual é o seu conceito de melhor amiga, Emma Swan, que claramente é diferente do meu.
Elsa olhava de uma para a outra.
— Droga, Ruby, eu não estou acostumada a ter amigas – Emma deu de ombros, cansada o suficiente para tentar subir qualquer defesa – Faz mais de uma década que o bisturi é meu melhor amigo e meus colegas de trabalho são serpentes venenosas com quem não se pode contar. Então me desculpe, mas eu não sei mais compartilhar tudo com alguém.
Ruby assentiu.
— Tudo bem, está desculpada.
Dizendo isso, a moça foi até a geladeira e pegou três cervejas.
— É só isso? – Emma ainda a encarava, atônita.
— É, eu só precisava desabafar. Não vim aqui para ficar brava com você – Ela deu de ombros – Eu falei como me sentia, você falou também e é isso.
Elsa riu, quando a médica se virou para ela.
— É isso, Emma... Assim é ter melhores amigas, bem-vinda – As três ocuparam os sofás – Mas agora explique isso da Regina.
E Emma explicou. Desde os acontecimentos na noite do incêndio até suas próprias conclusões de mais cedo naquele dia. Suas amigas ouviram, fazendo poucas perguntas durante a narrativa. E isso foi bom, a loira percebeu, falar sobre o que lhe pesava o peito fez tudo parecer um pouco mais leve.
— Ela realmente sofreu, Emma – Elsa comentou, ao fim da narrativa – Eu acho que consigo entender um pouco essa atitude dela. Não acho que foi o movimento certo a se fazer, mas consigo entender.
— E ela ama você, isso é um fato – Ruby suspirou – Ela está acabada, honestamente. Eu sempre tive um pouco de medo da Regina, mas quando ela aparece no diner sem brilho, sem pose e com cara de quem não dorme faz uma semana, quase parece um ser humano normal.
— Ela pergunta mesmo sobre mim? – Emma encarou Ruby, que revirou os olhos.
— Sim, Emma. É quase como se a gente estivesse de volta no colégio. Lembra quando você gostava daquela menina mais velha, a Ursula? – Ruby suspirou de forma dramática – A mãe dela trabalhava no diner e você ficava me perguntando se ela tinha ido, se te notava. É como se eu estivesse vivendo isso de novo.
— Eu devia falar com ela – A médica deu de ombros – Mas não sei o que dizer. Eu acho que digitei trezentas mensagens e apaguei todas. E eu devia ver os cavalos também, mas não quero dar de cara com ela... Mas também não quero que eles pensem que eu os abandonei.
— Mas... Mas... Mas... – Foi a vez de Elsa revirar os olhos – Seus “mas” não estão te levando para lugar nenhum.
— E o que eu faço? – Emma se virou para a amiga.
— Mande uma mensagem para ela, agora – Foi Ruby quem respondeu, para o desespero da médica.
— Não! O que eu diria?
— Pergunte dos cavalos – Elsa sugeriu.
— Mas, Elsa... Eu...
— Como... Estão... Os... Cavalos... – Ruby falou em voz alta, conforme digitava no celular de Emma – Pronto, enviado.
— O quê?! – Emma tomou o celular das mãos da amiga – Como você...
— Você guarda o celular no bolso da calça jeans, Emma. Ele fica metade para fora, é fácil de pegar.
Emma entrou em pânico. Encarou a tela e depois as amigas, que a olhavam com diversão e ansiedade. Por fim, ela colocou o celular sobre a mesa de centro, e as três fixaram os olhos no aparelho, que não demorou para vibrar.
— Olha... A gata estava com o celular na mão – Ruby comentou, antes de dar um gole na cerveja.
— Eles estão bem – Emma leu em voz alta, conforme as amigas se aproximavam para olhar – Houston está mais arisco do que nunca, se assustou bastante. Apolo fez inalação e está fisicamente bem, mas acho que deprimido e Diana está tomando alguns remédios, inalou muita fumaça e teve queimaduras leves nas canelas traseiras.
Assim que Emma terminou de ler, outra mensagem chegou. Dessa vez, uma foto dos três, que a médica acariciou com as pontas dos dedos. Outra veio logo em seguida.
“E não se atreva a se culpar pelas queimaduras dela.”
— Meu Deus – Elsa soprou uma risada baixa – É como se ela estivesse lendo a mente da Emma.
— Eu falei desde o começo que fazia sentido porque elas eram as únicas lésbicas da cidade – Ruby acrescentou.
Mas Emma não estava prestando a atenção. Seus dedos se moviam rapidamente pela tela.
“Diga a eles que vou visita-los em breve. E logo poderão voltar para casa. Guarde todas as notas de tudo o que precisou gastar, depois que tudo isso passar, eu vou pagar.”
“Esqueça, Emma. Não quero nenhum centavo. E eu posso vender o Houston se você quiser, não precisa se preocupar com ele.”
“Não, ele fica.”
“Emma...”
A médica não respondeu. A última coisa que queria era que Houston fosse vendido ou discutir sobre isso por mensagens; no dia seguinte, faria uma visita aos cavalos e, com alguma sorte, veria Regina também.
E embora uma parte dela estivesse decidida a tentar seguir em frente, outra parte estava mais do que disposta a tentar uma reconciliação com Regina.
Para o desespero de Emma, a segunda parte estava ganhando.
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