O nó sinoatrial
4 Cercas bem-feitas
Emma não sabia o que esperar, conforme dirigia o SUV pela estrada que a levaria para casa. Fez como Regina tinha instruído e passou direto pelo Rancho Swan, revirando os olhos ao perceber a divisa exata entre as propriedades.
— Cerca bem-feita. – Imitou o tom da morena, com escárnio.
Mesmo tendo vivido ali na juventude, Emma não tivera interesse em aprender muito sobre cavalos. Sabia o básico sobre alimentação e como identificar cólicas e torções, nada além. Ainda assim, ao ver alguns animais pastando tranquilamente na propriedade Mills, soube que eles provavelmente custavam mais do que seu apartamento – o que não era pouco – e isso a deixou nervosa. Não pelo dinheiro ou pela riqueza, coisas assim não a amedrontavam. O que a deixava tensa era a perspicácia que pessoas assim geralmente tinham. Eram ardilosas e conseguiam encontrar brechas nos melhores contratos.
Emma tinha suas próprias certezas sobre Regina Mills. Se a tal mulher estava agora tentando comprar o rancho de David e estivera colocando dinheiro nos vícios do homem, ela podia muito bem dizer que aquele era um plano de longo prazo. Chegaria ao fundo daquela história.
Assim que passou pela porteira, viu que o caminho que levava para o interior da propriedade era asfaltado. De longe, era possível ver duas arenas com obstáculos e picadeiros menores, usados para exercícios diários, além de três estábulos grandes e um celeiro, onde o maquinário era guardado. No centro, uma casa de dois andares se erguia imponente, como o miolo de uma flor cujas pétalas eram dólares.
Emma estacionou o SUV diante da casa, desembarcando com um suspiro descontente.
A casa era de madeira, com um tom suave de branco cobrindo as tábuas estreitas. Uma grande varanda ocupava todo aquele lado do andar térreo, com cadeiras estofadas e vasos suspensos, de onde uma grande variedade de flores e folhagens espiava por sobre as bordas. Uma porta de vidro, fechada, deixava uma breve amostra da sala de estar organizada.
A médica analisou calmamente os detalhes, decidindo que no dia seguinte, talvez pudesse arrumar o jardim da mãe. Em seguida, balançou a cabeça, dizendo a si mesma que aquele não era o momento para entrar de cabeça em uma competição solo de jardinagem.
— Ora, você veio rápido – A voz de Regina surpreendeu-a outra vez.
À esquerda, na varanda, a morena estava parada diante de uma porta aberta, com os braços cruzados e uma expressão neutra no rosto.
— Eu não sou do tipo que deixa as coisas para depois – Emma rebateu, caminhando devagar até onde a outra estava.
Regina não respondeu, entrou, sinalizou a cadeira diante da mesa e ocupou seu próprio lugar, do outro lado. As duas se olharam por alguns instantes, em silêncio.
— Quanto você quer? – Emma finalmente falou, tamborilando os dedos no braço da cadeira.
— Perdão? – Regina estava surpresa pela pergunta, mas manteve as mãos cruzadas sobre a mesa.
— Quanto meu pai te deve? Quanto você quer para sumir da vida dele para sempre e parar de infernizar com essa história de comprar o rancho? Me dê um preço, Regina Mills.
— Eu não tenho nenhuma dúvida de que você é capaz de cobrir qualquer dívida que David tenha – Regina se levantou, caminhou devagar até um armário de mogno e voltou para a cadeira, trazendo consigo uma pasta de couro – Fiz meu trabalho de casa sobre você, Emma Swan. Devo dizer que fiquei surpresa com a carreira que construiu. Entendo que pessoas voam de todos os lugares do mundo para Los Angeles, porque você é a única esperança de que continuem vivendo.
— Olha, eu não... – Emma começou, mas foi interrompida.
— Mas o que realmente me surpreende, é que insista em fingir que não sabe o que está acontecendo com o Rancho Swan – A morena a encarava, sem desviar os olhos – Você é a única filha, portanto, herdeira daquelas terras e ainda assim...
— Eu não tenho qualquer interesse em herdar qualquer coisa aqui, Sra. Mills – Emma levantou o queixo. Sabia estar em desvantagem ali, já que a mulher parecia conhecer cada pormenor de sua vida e de seu pai – Meu único interesse é garantir que meu pai não seja despejado do lugar onde vive. De modo que eu não preciso de nenhuma lição sobre nada. O que eu preciso é resolver isso logo.
— Agenda cheia, imagino – Calmamente, Regina remexeu dentro da pasta de couro e puxou uma pilha de documentos, que deixou sobre a mesa. Ela separou alguns, que empurrou na direção da loira – Veja bem, Emma... Mesmo que você não tenha qualquer interesse nessas terras, provavelmente se lembra de que cavalos costumavam viver ali. David sempre foi um homem correto, de forma que as empresas das quais ele comprava ração, feno, suplementos e medicação para esses cavalos, não levaram tão a sério quando ele parou de pagar por essas coisas. Mas dívidas acumulam e bem, como você pode ver, seu pai acabou... Como dizem? Endividado até o pescoço pelo não pagamento de mantimentos para animais que ele sequer continuava criando.
Emma puxou os papéis para mais perto. Sim, Regina não estava mentindo sobre nada daquilo. Dívidas acumuladas geravam juros crescentes e o valor final daquilo chegava muito perto de ser um número que fazia o estômago da médica se contrair. No entanto, um detalhe no fim da pilha de documentos a fez franzir o cenho.
— Por que você assumiria todas as dívidas do meu pai? – Ela levantou os olhos.
— Eu pensei que ele estava passando por um momento ruim, Emma – Regina suspirou – Imaginei que se eu conseguisse quitar essa dívida, ele teria um respiro para recomeçar e poderia me pagar mais tarde, em condições melhores do que as exigidas pelo banco. Mas claramente não era o caso.
— Uma boa samaritana – Emma desdenhou – E por que você não pode simplesmente aceitar que eu lhe pague esse valor e deixar as coisas por isso mesmo?
— Você realmente pensa que é só isso? – A morena continuou a encarando, mesmo quando suas mãos voltaram a mexer nos documentos – Meus Deus. Seu pai tinha uma boa reputação na criação de cavalos. Ainda que usasse métodos rústicos, vários de seus animais foram campeões mundiais e as pessoas acreditavam que a vida livre que ele proporcionava era uma das razões. Enfim... Pessoas pagaram por potros e nunca receberam os animais comprados, sabe por quê? Porque David vendeu os genitores antes mesmo da reprodução acontecer.
— Como é que é? – Emma estava amargamente arrependida de não ter se informado melhor sobre a situação do pai. Viera ali com a confiança de que sairia do Haras com o problema resolvido e agora sua cabeça tinha mais perguntas do que respostas.
— David Swan vendeu quase todos os cavalos antes de usá-los para reprodução – Regina massageou as próprias têmporas, sentindo que lhe chegava uma dor de cabeça – E as pessoas que já tinham pago pelos custos dessas reproduções, entraram com processos contra ele.
Outra pilha de papéis foi empurrada para Emma.
— Swan, honestamente... Eu aconselho que leve esses documentos para casa, leia tudo com calma e fique a par de tudo. Quando fizer isso, poderemos conversar e decidir o melhor caminho para todos os envolvidos.
Emma continuava folheando as páginas. Boa parte delas tinha o nome de Regina, que havia assumido dívidas, assinado contratos, evitado processos. Levando em conta a quantia que a morena já tinha investido no lugar, não era de se admirar que ela quisesse colocar seu nome no contrato.
O que a médica sentiu foi uma onda súbita de raiva.
Raiva do pai, por ter se colocado naquela situação e a arrastado consigo. Raiva da mãe que partiu cedo demais e a deixou com um homem quebrado para tentar consertar. Raiva de si mesma, que deixara para trás tão completamente sua antiga vida, que agora se via diante daquela mulher, sem sequer saber o que estava acontecendo com as terras onde tinha crescido.
E a fim de disfarçar a própria frustração, ela fez o que a maioria das pessoas acaba por fazer em situações assim. Ofendeu.
— O que foi que aconteceu entre vocês, hein? – Emma se levantou e Regina fez o mesmo, a olhando com as sobrancelhas erguidas em confusão – Não sei, Regina, nada disso faz sentido. Meu pai estragar a própria vida não é exatamente uma novidade, mas uma mulher bonita e mais jovem que simplesmente surge de lugar algum e tenta salvar o pescoço dele.... Isso é inesperado.
— Swan, não continue... – A morena tentou interrompê-la, já irritada.
— Então, qual foi? Por quanto tempo vocês dormiram juntos, até você perceber que não conseguiria tirar as terras dele com sussurros de amor?
Antes mesmo que Emma pudesse respirar, após essa última frase, a mão de Regina estalou em sua bochecha direita.
O som seco do tapa ainda ecoava pelo escritório silencioso, quando a médica cobriu o lado do rosto com a própria mão, sentindo o ardor quente que formigava no formato exato da mão de Regina. A morena a encarava, em fúria, o peito subindo e descendo rapidamente.
— Fora – Regina praticamente rosnou.
Quando Emma não se mexeu, ainda em choque não só pelo tapa, mas pelas próprias palavras, Regina enfiou todos os papéis de volta na pasta de couro e a empurrou nos braços da médica.
— Eu disse fora!
Emma foi praticamente empurrada de volta para a varanda e a porta bateu com força atrás dela. Subitamente, se viu sendo um objeto de curiosidade para alguns funcionários do haras, que haviam ouvido a comoção e parado o que faziam. Sem esperar, correu para o carro e deu a partida.
Ela ainda tinha o desenho dos dedos de Regina estampados na face, quando a primeira lágrima escorreu.
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