O nó sinoatrial
21 Cavalo texano
Emma ajeitou melhor as mãos ao redor da caneca de chocolate quente, buscando aquecer os dedos ainda gelados. Seus olhos continuavam indo na direção da clínica, do outro lado da rua, onde era possível ver a placa de carvalho pendurada sobre a porta, balançando suavemente conforme o vento frio assoviava pelas correntes.
Ruby, que nunca fora muito fã do inverno, estava de mau humor, encolhida na cadeira do outro lado da mesa e resmungando toda vez que a porta do diner se abria. Enquanto isso, Elsa, que alegava com toda a certeza do mundo que o frio não a incomodava, cantarolava alegremente sobre as luzes de Natal que pretendia colocar na fachada da mercearia.
— Ai, sério? Vamos mesmo ficar olhando a placa nova e falando sobre luzes? — Ruby revirou os olhos, ajeitando o cachecol no pescoço — Ou vamos direto para o assunto de que a Regina Mills está usando um lindo anel novo e que, por acaso, é o mesmo anel que a doutora Emma Swan comprou na semana passada?
Emma levantou os olhos, encarando a amiga por tempo suficiente para fazer com que Ruby apenas desse de ombros, sem se abalar.
— Então parece que está ficando sério mesmo — Elsa emendou, circulando a borda da própria caneca com as pontas dos dedos — Me admira, mas não me surpreende.
— Vocês sabem que um anel não é necessariamente uma aliança, não sabem? — A médica rebateu, tentando manter a voz firme — Nós só trocamos presentes, só isso.
— Eu sou sua amiga há décadas e nunca ganhei um anel... Só dizendo — Elsa falou, sorrindo diante da expressão encurralada de Emma — Sabe, Emma, não tem problema você assumir um compromisso com alguém.
— Se você tivesse crescido como eu cresci, saberia que é justamente aí que mora o problema.
— A gente viu, lembra? — Ruby se curvou para a frente, apoiando as mãos sobre o tampo da mesa — Não é bem uma novidade para nós o relacionamento de merda que seus pais tinham. Ah, o quê? — Defendeu-se ela, quando Elsa a cutucou com o cotovelo — Era uma merda mesmo, não adianta maquiar.
— Mas também não precisa falar assim — Elsa repreendeu, mas logo suavizou o olhar quando se virou para a loira — Emma, o exemplo da sua família é disfuncional por mais razões do que deveria ser possível, mas não é uma regra para a sua vida.
— Meus relacionamentos anteriores também não foram dos melhores... — A médica tentou argumentar, mas foi interrompida de imediato.
— E você deixou que fossem? Desde que éramos adolescentes, você foge de um compromisso como o diabo foge da cruz — Elsa levantou as mãos em sinal de rendição, antes de continuar com a voz mansa, mas firme — Você não pode esperar bons resultados se entra em algo acreditando que vai dar errado antes mesmo de começar. Você afasta as pessoas e vai embora primeiro para garantir que não vai ser deixada depois.
— Touché — Ruby levantou a caneca em um brinde silencioso — Sabe, Emma, eu amo você. Mas me dá uma vontade muito real de encher a sua cara de tapas até você enxergar as coisas sobre a Regina.
— Que coisas?
— Depois que a Kristin morreu, é como se a Regina tivesse virado um fantasma. Ela perdeu peso e andava pela cidade como se não visse nada e nem ninguém — Ruby balançou a cabeça, pensativa — Ela melhorou um pouco depois de um tempo, mas não dava para esperar um sorriso ou qualquer coisa assim. Daí você chegou, e agora ela até tira sarro de mim quando vem aqui. Dá para ver que ela está feliz, e quem viu o que aconteceu antes sabe que é você quem a fez encontrar a felicidade de novo. Você não pode continuar baseando seus relacionamentos na vida amorosa dos seus pais, por favor. O David está em uma clínica de reabilitação e você acha que ele é o modelo certo de inspiração?
— E até mesmo ele está melhorando — Elsa acrescentou, com um sorriso acolhedor — Veja só aquela placa linda na fachada. Eu mal acreditei quando você me falou que ele a entalhou para você.
Emma voltou a olhar para a placa do outro lado da rua. Desde que a recebera naquela manhã, vinha pensando na possibilidade de entrar em contato com o pai assim que os noventa dias de isolamento chegassem ao fim. Ela se perdeu em pensamentos por alguns minutos, a conversa ao redor se tornando apenas um som de fundo para o turbilhão que passava por sua mente.
— Tá, vocês querem a verdade? — Começou ela, de repente, recebendo olhares atentos e instantaneamente alarmados das amigas — Eu sou total e completamente apaixonada pela Regina Mills. Eu queria poder tirar com as minhas próprias mãos toda a dor e o sofrimento que ela já passou na vida. A risada dela é o melhor som que eu já ouvi, e, pela primeira vez na minha existência, eu tenho vontade de assumir um compromisso sério e gritar para o mundo inteiro que a Regina e eu estamos namorando.
Elsa estava com os olhos arregalados de choque, enquanto Ruby claramente mordia o lábio interno, travando uma batalha perdida para não rir.
— Olha... Eu já vi isso acontecer uma vez na vida, mas duas vezes... Deve ser algum tipo de recorde — a amiga comentou, olhando para algo logo atrás da médica.
Emma estava prestes a questionar o que diabos aquilo significava quando uma mão firme foi espalmada na mesa, bem ao lado da sua caneca. O brilho inconfundível do anel de esmeralda captou sua atenção imediata, fazendo seu coração errar uma batida.
— Isso é um pedido, Swan? – A voz rouca próxima de seu ouvido a fez arrepiar.
Regina, no entanto, não esperou por uma resposta. Assim que Emma levantou a cabeça para encará-la, a morena inclinou-se e simplesmente a beijou ali mesmo, no meio do diner, o que rendeu um coro imediato de assovios, palmas e vivas vindos das mesas ao redor. Um grito silencioso, a médica bem sabia. Aquele gesto público era mais do que o suficiente em uma cidade como Storybrooke e, no que dizia respeito aos moradores, as duas agora estavam oficialmente em um relacionamento.
— Sua avó está? — Regina perguntou para Ruby, enquanto puxava a caneca de Emma para si, sem a menor cerimônia, e terminava o resto do chocolate quente.
— Lá atrás — Ruby, que ainda guardava algum receio com a morena, pareceu se encolher de leve na cadeira diante da imponência dela.
Regina deixou um carinho suave na nuca de Emma, um toque demorado que fez a médica suspirar, antes de desaparecer pela porta que levava ao depósito do diner.
E só então, quebrando o silêncio chocado que havia ficado na mesa, Elsa gargalhou.
O eco da gargalhada de Elsa atraiu alguns olhares divertidos das mesas vizinhas, fazendo Emma afundar os ombros na cadeira, sentindo o rosto esquentar.
— Não comecem — A médica resmungou, embora o canto de seus lábios a traísse, curvando-se para cima. Ela olhou para a caneca agora completamente vazia em suas mãos e balançou a cabeça — E a Regina ainda roubou meu chocolate quente.
— Ah, claro, porque o chocolate quente era a sua maior preocupação naquele beijo, Swan — Ruby provocou, piscando um dos olhos antes de recolher a bandeja vazia — Vou deixar vocês duas em paz antes que a sua patroa volte do depósito e eu leve bronca da minha avó.
Entre as piadas leves de Elsa e o café que Emma teve que pedir para substituir o doce roubado, o clima tenso do início da manhã dissipou-se por completo. Era bom estar ali. Era bom sentir que, aos poucos, Storybrooke pertencia a ela tanto quanto ela pertencia a Storybrooke.
O restante do dia seguiu em um ritmo surpreendentemente tranquilo. Na clínica, a presença de Cruella na recepção provou-se, mais uma vez, uma verdadeira bênção. Ela organizava as fichas e geria a triagem com uma eficiência impecável, tirando todo o peso burocrático das costas de Emma. Isso permitiu que a Dra. Swan focasse puramente nos pacientes de rotina e nos retornos do dia.
Quando o sol começou a baixar no horizonte, pintando o céu da cidade com tons de laranja e violeta, Emma finalmente esticou os braços acima da cabeça, relaxando na cadeira de seu consultório. Ela encarou a mesa organizada e sorriu, sentindo uma paz legítima no peito.
O silêncio da noite já começava a se instalar quando Emma estacionou o carro perto das cocheiras principais do Haras Mills. O dia na clínica tinha sido tranquilo, mas a ausência de notícias de Regina deixou a médica com uma pulga atrás da orelha. Havia passado pelo rancho para verificar Apolo e Diana e então seguira direto para o haras. Ao perceber o carro da morena ainda perto do estábulo maior, acabou dirigindo direto para lá, ao invés de parar na casa principal.
Ela desceu do veículo, sentindo o ar frio da noite, e caminhou em direção às luzes acesas do galpão principal. O silêncio do lugar era interrompido apenas pelo som distante de alguns cavalos e pelo murmúrio baixo de dois funcionários que conversavam perto da entrada, com caras visivelmente apreensivas.
— Boa noite, rapazes — Emma saudou, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta — A Regina ainda está por aqui?
Os dois rapazes se olharam, e um deles engoliu em seco, apontando discretamente para a sala de descanso dos funcionários no fundo da cocheira.
— Está sim, Dra. Swan... Mas, ó, se me permite o aviso, a patroa não tá nos melhores dias hoje não.
Emma franziu a testa, a curiosidade superando a preocupação enquanto caminhava até a porta indicada. Ela deu duas batidas leves e abriu sem esperar resposta.
— Regina?
A cena dentro da sala fez Emma travar no lugar, a boca se abrindo em choque antes que o canto dos seus lábios começasse a tremer de vontade de rir.
Regina estava sentada num banco de madeira. As botas de montaria e as calças elegantes estavam completamente cobertas por uma camada generosa de lama seca. O cabelo impecável tinha um fiapo de palha preso perto da orelha, e ela segurava um saco de gelo improvisado contra o tornozelo esquerdo com uma força desnecessária. Ela encarava a parede oposta como se estivesse planejando o assassinato de alguém.
Ao ouvir a voz de Emma, a morena virou a cabeça rapidamente, e o seu olhar cortante poderia ter derretido ferro.
— Não diga uma palavra, Swan — Regina advertiu, a voz baixa, perigosa e extremamente frustrada — Nem uma única palavra.
Emma encostou no batente da porta, cruzando os braços no peito enquanto absorvia o espetáculo da namorada empacada de raiva e suja de terra.
— Eu não ia dizer nada — Emma mentiu, dando um passo para dentro — Mas eu adoraria saber qual foi o bicho que decidiu testar a gravidade com a dona do Haras hoje.
— Aquele maldito cavalo texano... – Regina praticamente cuspiu as palavras – Manso ao toque, aos sons... Deixou colocar a sela... – Ela estreitou os olhos – Ele estava só se preparando para o momento certo.
— Quando você montasse? – Emma questionou, já se ajoelhando diante dela e apalpando o tornozelo machucado.
— Exatamente — Regina sibilou, soltando um pequeno chiado de dor quando os dedos de Emma pressionaram o lado interno do tornozelo — Eu mal coloquei o segundo pé no estribo! O miserável não deu um aviso, Swan. Zero. Ele simplesmente pulou como se tivesse sido atingido por um raio!
— Hum... — Emma mordeu o lábio inferior, usando todo o seu autocontrole de médica para não soltar uma risada alta. Ela deslizou as mãos com cuidado pela articulação, sentindo o inchaço sob a calça suja de lama — E a terra batida, por acaso, estava muito dura?
— Não deboche de mim — A morena fulminou-a com o olhar, embora não fizesse menção de afastar o pé do colo de Emma — Os rapazes disseram que o leiloeiro garantiu que ele era um cavalo de sela para iniciantes. Aquele animal é um sociopata com cascos.
— A boa notícia é que o "sociopata com cascos" não quebrou nada no seu tornozelo — Emma disse, levantando os olhos com um sorriso de canto provocante, sem soltar o pé dela — É só uma torção leve. Mas a má notícia é que a dona do Haras vai ter que ficar de molho, aceitar que levou um golpe de um cavalo texano e deixar a médica cuidá-la pelo resto da noite.
Regina cruzou os braços sobre o peito, jogando a cabeça para trás no banco com um suspiro dramático e um bico irresistível.
— Eu odeio o Texas.
— Ei, você sabe que podia ter sido bem pior, não sabe? – Emma se levantou, retirando o fiapo de palha dos cabelos escuros – Quedas de cavalos podem ser brutais.
— Eu tenho um braço quebrado que me lembra disso durante todo o maldito inverno, Swan – Regina revirou os olhos.
— E mesmo assim você insiste em confiar num cavalo do Texas que te olhou com cara de bonzinho — Emma rebateu, deixando escapar uma risada baixa enquanto limpava as mãos na calça. Ela estendeu a mão para a morena. — Vem. Sem teimosia. Vamos para casa antes que esse tornozelo dobre de tamanho e você resolva colocar a culpa no inverno de novo.
Regina encarou a mão estendida de Emma por dois segundos inteiros, o orgulho travando uma batalha perdida contra a dor que latejava no pé. Com um suspiro de derrota, ela finalmente segurou os dedos da loira.
— Eu não preciso ser carregada — Regina resmungou, apoiando o peso em Emma enquanto ficava de pé, soltando um pequeno chiado ao testar o chão. — E o cavalo vai voltar para o Texas amanhã mesmo.
— Claro que vai — Emma disse em tom apaziguador, passando o braço pela cintura de Regina para dar firmeza ao passo delas. — Mas hoje a única coisa que vai voltar para casa é você. E vai direto para o banho, porque você está cheirando a estábulo e terra molhada, minha rainha.
— Swan! — Regina protestou, surpresa, mas o canto de sua boca traiu sua pose, curvando-se num sorriso contido enquanto se encostava um pouco mais no corpo de Emma a caminho do carro.
— Pelo menos dessa vez não sou eu... – Emma se defendeu, com um sorriso.
O trajeto até a casa de Regina foi silencioso e tranquilo. O calor do aquecedor do carro aos poucos tirava a tensão dos ombros da morena, que mantinha a cabeça encostada no vidro, encarando a noite enquanto o tornozelo latejava em um ritmo chato.
Quando Emma estacionou, desceu rápido e passou o braço pela cintura de Regina antes mesmo que ela tentasse inventar de andar sozinha.
— Eu consigo dar dois passos, Swan — Regina protestou baixinho, embora estivesse se apoiando sem cerimônia no ombro firme de Emma.
— E eu consigo te carregar até o sofá se você der mais um piado — Emma rebateu no mesmo tom, guiando-a devagar para dentro.
Ela acomodou a morena no sofá da sala, ajeitando duas almofadas altas embaixo do pé machucado para deixá-lo elevado. Antes que Regina pudesse reclamar de ter a lama do Haras nos seus estofados caros, Emma já estava ajoelhada na sua frente, trabalhando com paciência nos cadarços da bota de montaria.
— Avisa se doer — Emma murmurou, segurando o calcanhar de Regina com firmeza e deslizando o couro com extremo cuidado.
Regina segurou o choro de alívio quando a pressão no pé finalmente cessou. Ela observou em silêncio enquanto a loira se levantava, ia até a cozinha e voltava minutinhos depois com um copo d'água, dois comprimidos para dor e uma bolsa de gelo envolta em uma toalha macia.
— Toma — Emma entregou os remédios e se ajeitou no chão, encostada no sofá ao lado das pernas de Regina, posicionando o gelo sobre o inchaço — Amanhã o roxo vai estar lindo, mas se você mantiver isso aqui por vinte minutos, o inchaço diminui bastante.
Regina engoliu os comprimidos, tomou um gole longo de água e soltou um suspiro profundo, recostando a cabeça no encosto do sofá. O olhar dela desceu para Emma, que estava ali, no chão da sala dela, cheia de poeira nas mãos por ter cuidado de suas botas e dedicada a segurar o gelo no seu pé.
— Obrigado, Emma — A voz de Regina saiu suave, sem nenhuma daquela casca de durona de antes.
Emma deu um sorriso fraco, levantando uma das mãos para tocar levemente o joelho de Regina.
— Para de teimar comigo e a gente tá quitada. Agora descansa. Eu vou lá em cima separar uma roupa limpa pra você ir pro banho quando a dor passar.
As horas seguintes se desenrolaram no ritmo calmo e quente que o resto da noite pedia.
Um banho demorado conseguiu tirar a poeira do Haras e o cansaço do corpo de Regina, enquanto a medicação fazia o trabalho de adormecer a dor no tornozelo. Depois de uma refeição improvisada na cozinha — com Emma se desdobrando para não queimar nada —, as duas finalmente se acomodaram na sala.
Ou quase isso.
Porque antes de permitirem-se relaxar de vez, a dona da casa deu um jeito de lembrar que, médica ou não, Emma ainda era a responsável por ter encostado calças cheias de terra no seu estofado. E lá estava a Dra. Emma Swan, ajoelhada no tapete às dez da noite, esfregando pacientemente o canto do sofá com um pano úmido e um produto de limpeza especial, sob o olhar atento e analítico de Regina, que acompanhava tudo confortavelmente instalada com o pé elevado e uma xícara de chá na mão.
— Está ficando uma mancha, Swan. Esfregue em círculos — Regina instruiu, a voz suave de quem estava aproveitando cada segundo.
— Eu sou médica, Regina, não especialista em restauração de móveis caros — Emma resmungou, mas não escondeu o sorriso de canto enquanto passava o pano mais uma vez — Se eu soubesse que salvar seu pé incluía trabalho braçal na sua sala, tinha deixado você no estábulo.
— Você me ama demais para isso — A morena respondeu com absoluta certeza, levando a xícara aos lábios.
E Emma, olhando para ela do chão da sala, não conseguiu arrumar um único argumento para rebater.
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