O nó sinoatrial
11 Beijos são comemorações
Na manhã seguinte, David ao menos tinha cuidado dos animais.
Emma se levantou cedo, com uma ressaca infernal que a obrigou a engolir um comprimido antes de sair do quarto. Foi conferir os cavalos antes mesmo de tomar café, mas os encontrou já alimentados e as baias limpas. Talvez o pai estivesse arrependido ou apenas quisesse comprar um pouco de paz, mas, fosse como fosse, ela estava mais do que contente em aceitar aquela trégua momentânea.
Sua licença estava prestes a acabar. Precisaria voltar para Los Angeles antes do fim da semana e já não confiava que o pai manteria as coisas em ordem. Mal fazia um dia que ele tinha passado o rancho para o seu nome e já estava agindo de maneira estranha. Precisaria deixar alguém de olho, para pelo menos garantir que os animais não passassem nenhuma necessidade.
Enviou uma mensagem para Regina, sugerindo um encontro no diner para assinarem os papéis que oficializavam o acordo verbal. Poderia aproveitar e pedir a ela que olhasse os cavalos ou que mandasse um funcionário para fazê-lo. Diabos, se fosse o caso, estaria mais do que contente em pagar a hospedagem de Apolo e Diana no próprio Haras Mills, desde que não precisasse se preocupar com o bem-estar deles.
Regina, que havia ido até a cidade para resolver suas próprias coisas, já estava no diner quando Emma chegou. Como naquela primeira vez que a vira, estava sentada sozinha em uma das mesas, concentrada. A médica a olhou por alguns minutos, a beleza física que quando combinada com a força interior e o bom coração, crescia em ritmo alarmante diante dos olhos dela.
— Amiga... – Ruby chamou sua atenção e Emma apenas sorriu.
Para a surpresa de Ruby, no entanto, Emma não se dirigiu ao balcão e sim para a mesa de Regina, onde se sentou com tranquilidade.
— A primeira vez que eu vi você, foi exatamente aqui – Comentou, quando a morena levantou os olhos do celular e sorriu.
— Hum... Eu me lembro disso. Você estava perguntando por mim.
— O tipo de vergonha que eu pensei que as pessoas só passassem nos filmes – Emma brincou, fazendo Regina rir – E você com sua pose inabalável...
— Você parecia um patinho – O comentário da morena fez Emma levantar as sobrancelhas.
— Um patinho? Você parecia uma megera... Uma megera muito sexy, mas ainda assim...
Ruby parou ao lado da mesa, com os olhos arregalados e o bloco pronto para anotar pedidos.
— O que vai ser para vocês? – Questionou, fingindo não ter ouvido a última frase de Emma, que a ameaçava com os olhos.
— Que tipo de café você acha que uma megera toma, Srta. Lucas? – Regina olhava diretamente para a médica, enquanto perguntava – Uma megera sexy.
— Como... Como disse? – Ruby havia sido pega no meio de um fogo cruzado e sabia disso.
— Regina... – Emma não pode evitar e riu – Desse jeito a Ruby vai ter um treco.
A morena a olhou e seus lábios se levantaram minimamente, a sombra de um sorriso que fez Emma engolir seco.
— Eu vou só trazer o café – A garçonete decidiu – O resto vocês podem decidir sozinhas no prédio abandonado do Doc.
Regina observou, divertida, enquanto Ruby se afastava. Emma tentava não gargalhar da situação.
— Até a coitada da Ruby fica perdida perto de você e olha que ela nem curte mulher – A médica comentou e isso rendeu um olhar interessado por parte de Regina – Negócios, então?
— Negócios então... – A morena empurrou sobre a mesa o contrato que havia redigido com base no que ela e Emma tinham conversado – Eu apenas digitei o que combinamos, mas leia para garantir que está tudo certo.
— Sim, parece que está tudo nos conformes – Emma falou, enquanto corria os olhos pelo documento.
Quando Ruby retornou, com os cafés, retirou do bolso do avental uma chave, que deslizou sobre a mesa.
— Só não esqueçam de me devolver quando vocês... Terminarem – Ela pigarreou – Minha avó não sabe que eu peguei. É a chave da porta lateral, não da frente.
— O que... – Emma começou a perguntar, mas a amiga se afastou outra vez, deixando-a vermelha até a raiz dos cabelos.
Regina segurou a chave, com um sorriso.
— E agora, Swan? O que você prefere fazer? Podemos devolver a chave ou podemos fingir que estamos indo para a clínica e dar para sua amiga muito no que pensar.
Emma sabia que já tinha muito o que explicar para Ruby e Elsa apenas por estar compartilhando a mesa com a morena.
— Bom... Eu não me oponho à ideia e talvez você possa aproveitar para pagar o que me deve – A médica provocou, enquanto rabiscava sua assinatura no contrato.
— O que eu lhe devo? – Regina franziu o cenho.
— Como é mesmo que você disse? Beijos são comemorações feitas depois de todos os papéis assinados – Emma a imitou e sorriu quando ela corou.
— Emma Swan, você... – A morena sorriu, sem terminar a frase. Puxou o papel para o seu lado da mesa e também o assinou.
Depois disso, falaram amenidades. Diaval continuava bem, não havia sofrido nenhum outro episódio de cólica, os músculos de Emma pareceram arder apenas com a lembrança do esforço monumental que tinham feito naquela tarde. Ela comentou sobre algumas consultas que estivera fazendo para os moradores locais e conseguiu manter a ética profissional, mesmo quando Regina ficou curiosa sobre quem era o paciente de idoso que pedira duas receitas de viagra só naquela semana.
Ruby, que observava à distância, digitava frenética no celular e, em determinado momento, Emma pôde jurar que a viu tirando uma foto. Sim, Elsa exigiria muitas explicações.
— O que é esse prédio abandonado, afinal? – Questionou para Regina – A antiga clínica que continua desativada?
— Sim. O terreno e o prédio são da prefeitura e desde que Doc morreu, o prefeito manteve o lugar vazio para outro médico – Regina deu de ombros, suspirando – Mas o outro médico nunca chegou e o prédio acabou abandonado. Até onde eu sei, Granny ficou com as chaves para limpar, mas não vai há tempos.
— Sabe se tem algum equipamento lá dentro? – A médica se interessou – Como no dia em que Belle caiu, se tivéssemos um equipamento de ultrassom, ela e Gold não precisariam ter ido até a cidade vizinha.
— Não sei dizer, Emma. Eu mesma nunca entrei lá – Regina cruzou os braços – Pensando em ficar na cidade e ser nossa médica oficial, Dra. Swan?
— Não – Emma balançou a cabeça – Só curiosidade... Estou voltando para Los Angeles ainda essa semana, mas penso que agora vou vir com mais frequência para cá. Sei que as pessoas vão precisar de consultas enquanto eu estiver aqui e imaginei que seria bom ter algum equipamento à mão – Ela suspirou, passando a mão pelo rosto – Inclusive, Regina, tem uma coisa que eu queria falar com você.
Regina puxou a chave e a guardou no próprio bolso, levantando-se em seguida.
— Vamos lá, Swan – Chamou – Vamos ver o que tem na clinica e no caminho você me diz.
Elas caminharam devagar, o sol não havia aparecido naquele dia e a brisa fresca fez com que apertassem os casacos ao redor do corpo.
— E então? – Regina a olhou.
— Meu pai está... Diferente – A médica começou a falar, tentando encontrar as palavras certas – Esta semana, ele deixou os cavalos à própria sorte o dia todo; só os alimentei quando voltei, no fim da tarde. Quando ele apareceu, estava sem o relógio de pulso que eu nunca o vi tirar.
Emma então contou toda a história para a morena, que franziu o cenho em preocupação. Ambas tinham uma boa ideia do que estava acontecendo, mas não se atreviam a falar em voz alta.
— O ponto é... Eu não confio nele – Emma finalizou – Por isso eu queria te pedir se você pode ficar de olho nos cavalos ou mandar alguém... Se preferir, eu posso alugar duas baias para a estadia deles e deixa-los no haras, o que for mais fácil.
— Não, não acho prudente tirar os cavalos do rancho agora – Regina respondeu, pensativa. Estavam diante do velho prédio abandonado e a médica apontou para a porta lateral – Pode ser que sem eles, David piore. Eu posso ir até lá para verificar como estão, não tem problema.
— Eu vou pagar pelo cuidado, é obvio.
— Eu disse que não tem problema, Swan – Regina encerrou o assunto, enquanto elas entravam no prédio – Aceite a cortesia.
Qualquer resposta que Emma pretendesse usar, se perdeu no momento em que seus olhos se ajustaram à pouca luz do ambiente. O cheiro de pó fazia coçar seu nariz, as partículas de poeira dançavam na claridade que conseguia passar pela sujeira das janelas. Estavam em uma sala de espera com cerca de quinze cadeiras e uma mesa de recepção.
Mais adiante, uma porta levava ao consultório e Emma seguiu para lá. Ali, os móveis estavam cobertos com lençóis brancos, fantasmas disformes e empoeirados. Um a um, Emma os tirou, espantada e maravilhada com o que descobria.
— Olha só isso... O Doc tinha um Raio-X e um ultrassom básico. Regina, isso aqui resolve 80% das emergências de Storybrooke. Ninguém precisaria correr para a rodovia por causa de um braço quebrado ou um susto de gravidez – Ela sorriu para a morena, que a olhava – Num lugar onde as pessoas andam a cavalo e colhem frutas de árvores altas, isso aqui é ouro puro.
Uma mesa de exames, um monitor cardíaco, kit de sutura simples. A pequena clínica era completa e em funcionamento, poderia atender a maior parte dos cuidados da cidade. Obviamente, para casos mais complexos ou cirúrgicos, ainda seria preciso ir para outro município.
— Você está feliz como uma criança, Swan – Regina comentou, mas seu tom ácido veio carregado com um sorriso.
— Eu não consigo acreditar que a prefeitura está deixando esses equipamentos parados, definhando pela falta de uso... Enquanto a comunidade continua precisando de cuidados médicos.
— A culpa não é só da prefeitura, Emma... Médicos querem cidades grandes, hospitais tecnológicos e salários altos... Ninguém está realmente interessado em praticar medicina num lugar como Storybrooke.
Emma encarou o ultrassom, pensativa. Se assustou ao descobrir que não era preciso tanto empenho para se ver ali, exercendo sua profissão. Uma clínica completa e só sua, esse era um pensamento que nutria há alguns anos, mas sempre focado na medicina cardiovascular em Los Angeles. Agora, no entanto, começava a ver as coisas com outros olhos e isso a deixava assustada.
— Outra coisa, Swan... – Emma pulou quando a voz de Regina a puxou de seus pensamentos e se virou para ver a morena vindo em sua direção, até que seus corpos estivessem quase encostados – Você devia saber que eu sempre pago minhas dívidas.
E de repente a boca de Regina estava sobre a dela. Os lábios carnudos exigindo seu próprio espaço, as mãos macias indo de encontro ao seu pescoço, puxando-a para mais perto.
Automaticamente, as mãos de Emma foram para a cintura da morena, apertando-a contra si até que sentisse na própria pele os contornos do corpo delineado. Os sentidos da médica pareciam derreter no calor que crescia entre elas, sua sanidade desaparecendo em algum lugar no meio dos suspiros entrecortados de Regina.
De repente, a mão de Regina em seu peito a fez recuar. A morena tinha a respiração acelerada, os olhos castanhos estavam de um tom mais escuro quando ela mordeu o lábio inferior. Elas se olharam em silêncio por alguns segundos, até que Emma estava prestes a beijá-la outra vez.
Regina então deslizou a chave para a mão da médica e se afastou.
— Boa sorte devolvendo a chave, Swan – Ela sorriu e piscou, antes de retirar o próprio casaco e sair, deixando Emma sozinha para se recompor.
Fale com o autor