O nó sinoatrial
10 Apolo e Diana
O plano era simples, Emma o repassava mentalmente enquanto tomava banho.
Desceria para preparar um café e quando David acordasse, conversaria com ele. Repassariam toda a questão do combinado com Regina, a prioridade era resolver as questões financeiras primeiro e, depois, tentaria voltar a falar com ele sobre os jogos. Ainda antes do almoço, entraria em contato com o banco a fim de já deixar autorizada a transação que faria mais tarde, quando fosse com Regina até a cidade vizinha, resolver as pendências com o condado.
Sim, tudo ficaria bem. Exceto que, quando desceu, o café já estava pronto e David não estava na vista.
Na noite anterior, ele tinha saído logo depois de Regina. Embora tenha dito algo sobre checar os animais, Emma sabia que ele estava indo para seu lugar de jogo. Ele fingia estar bem com a situação, mas a médica via seus olhos perdidos e a expressão de tristeza. Por essa razão, achava melhor não o pressionar naquele momento. Uma coisa de cada vez.
Pegou no armário a caneca que costumava usar e ao se aproximar da mesa, percebeu um envelope pardo ao lado da garrafa e, sobre ele, um bilhete.
“Acho que isso resolve uma parte dos problemas.”
Emma franziu o cenho para o bilhete e, mesmo receosa de descobrir o que havia ali, abriu o envelope.
Ela correu os olhos pelos documentos; sua mão espalmada no tampo da mesa parecia ser a única conexão com o mundo real. Pensou que teria um ataque de pânico quando o coração acelerado demais pareceu bater no meio do pescoço, saltando as veias para cima e para baixo.
A médica se sentou, piscou várias vezes e voltou a dar atenção aos papéis, relendo-os até que não restasse nenhuma dúvida de que o pai tinha passado o Rancho Swan para o nome dela. E não apenas as terras, mas também os dois cavalos idosos que pastavam tranquilamente no campo.
Emma puxou o celular do bolso e discou para o número de Regina. Ela ainda não havia salvo o contato da morena, mas as mensagens trocadas garantiram que soubesse para onde ligar.
O primeiro som que escutou, foi um suspiro longo. Seguido pela voz claramente sonolenta da proprietária do haras.
— Swan... É melhor que tenha um bom motivo para me acordar.
— É... Desculpe por isso, Regina – Ela franziu o cenho outra vez, incomodada. Talvez devesse ligar mais tarde.
— Swan, o que aconteceu? – A voz da morena já estava atenta.
— É o que eu estou tentando entender... Digamos que... Hipoteticamente falando, se meu pai tivesse assinado um documento oficial passando o rancho para meu nome, até onde isso mudaria os planos que fizemos ontem?
O silêncio se prolongou por quase um minuto. Emma chegou a pensar que ela tinha adormecido outra vez.
— Maldito canalha esperto – A risada de Regina não continha nenhum humor – Venha até o Haras, vamos olhar esses papéis.
No fim das contas, David Swan era um jogador. Mesmo que ter passado o rancho para o nome de Emma não alterasse em nada os planos que tinha com Regina, ele estava oficialmente livre de qualquer burocracia.
Regina acreditava que o movimento feito pelo homem servia apenas para proteger as terras de si mesmo e seu vício. Como a médica estava pronta para quitar a dívida com o condado, a morena a orientou e fizeram isso pelo computador do escritório, no haras.
— Parabéns, Emma Swan – Regina havia dito – Você é agora, oficialmente, uma rancheira.
Emma ainda pensava nisso mais tarde, quando chegou de volta ao rancho e percebeu que o pai não havia dado atenção alguma para os animais.
Apolo e Diana esperavam ao lado da cerca, ansiosos. David os tinha soltado pela manhã, mas coube a Emma limpar as baias e alimentar os cavalos. Por sorte, estivera acompanhando o pai durante alguns dias e sabia a quantidade que cada um devia receber.
Enquanto os cavalos comiam, ela fez a limpeza completa da baia, espalhou o feno novo que eles usariam para passar a noite e encheu os cochos de água, xingando mentalmente sempre que precisava buscar outro balde, já que a mangueira que era encanada com esse objetivo estava com algum defeito.
Por horas a fio, a médica andou de um lado ao outro do celeiro, limpando, alimentando e, por fim, escovando os animais. Garantiu que os dois estivessem bem instalados para a noite e fechou as portas, observando o céu que escurecia com alguma rapidez.
David chegou pouco depois, enquanto ela bebia um copo de água para se refrescar antes de subir para o banho. O homem entrou na casa com o olhar cansado, mas sorriu ao vê-la.
— Dia difícil? – Questionou, enquanto tirava uma cerveja da geladeira.
— Como você... – Emma começou a responder, mas parou ao perceber que o pai não estava usando o relógio. Até onde ela se lembrava, era uma herança de família que David nunca tirava do pulso – Onde está seu relógio?
— O relógio? – David olhou para o próprio braço – Devo ter perdido. Já não funcionava mais, de qualquer maneira. Como foi seu primeiro dia como nova proprietária do Rancho Swan?
Emma o encarou, irritada mais pela provocação do que pela mudança de assunto.
— Isso foi um golpe baixo, pai. Você não podia ter feito isso sem falar comigo.
— Ah, Emma, isso aqui ia ser seu de qualquer maneira... Você é minha única filha e herdeira – Ele suspirou – Eu só adiantei as coisas. E por que isso a incomoda tanto? É só uma formalidade. Você já estava assumindo dívidas, pagando contas. Faz diferença se o nome no documento é o meu?
David bebia de sua cerveja como se estivessem de férias.
— Pai, olha só... Eu não moro aqui, não sou fazendeira ou rancheira ou como quer que você prefira chamar – Emma colocou o copo na pia, batendo-o com força na bancada de pedra – Eu vou resolver isso e voltar para Los Angeles, onde a minha vida está. Hoje você nem mesmo alimentou os cavalos... Como espera que eu cuide disso aqui e dos animais, estando do outro lado do país?
Ele a olhou por um longo tempo, tamborilando os dedos na lateral da garrafa. Por fim, sorriu.
— Acho que você decide como vai ficar melhor para você, querida. Afinal, você é a dona.
E enquanto ela ainda o encarava, atônita demais para ter qualquer resposta pronta, David lhe deu as costas e saiu.
Pela primeira vez em um bom tempo, Emma chorou durante o banho. Deixou a água morna escorrer pelos músculos doloridos na mesma medida em que as lágrimas incontroláveis desciam pelas bochechas ainda coradas pela irritação.
Secou os cabelos devagar, tentando evitar o silêncio que sabia que viria depois e quando terminou, o som do pai se movendo pelo andar de baixo quase a fez chorar outra vez. Não queria estar ali, não queria vê-lo ou ouvi-lo naquele momento. Pensou em ligar para Regina, chamar a morena para beber alguma coisa e, no entanto, mudou de ideia.
Acabou optando por enviar uma mensagem para as amigas, que prontamente toparam que se encontrassem no diner. Se encontrariam e decidiriam para onde ir depois.
Naquela noite, Emma se permitiu descontar todas as suas frustrações recentes na bebida e, quem passou pelo corredor cambaleando às quatro da manhã, foi ela mesma.
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