O nó sinoatrial
26 A primeira neve do ano
Emma e David tiveram dois dias para conviver e se acostumarem com a presença um do outro. Por dois dias, ela esteve no piloto automático. Ia para a clínica quando havia consultas – que eram mais raras a cada dia – e retornava para ajudar o pai com a limpeza dos restos queimados do antigo celeiro.
O frio aumentava, o trabalho começava lento até que as juntas dos dedos esquentassem o suficiente para retomar os movimentos normais. O céu, cada vez mais fechado, indicava a neve mais próxima do que Emma tinha imaginado e ela enfrentava alguns momentos de pânico sempre que pensava que os cavalos não estariam em casa para o inverno.
Naquela tarde, eles já estavam na terceira garrafa de café, bebida aos poucos conforme a demolição do celeiro andava. Prometeram um ao outro uma generosa dose de whisky após o jantar, com a desculpa de que ajudaria a relaxar os músculos cansados tanto pelo trabalho pesado quanto pelo frio.
Emma se sentiu observada durante boa parte do dia. Sabia que o pai analisava seus movimentos e, embora tentasse se manter dentro da normalidade, sua mente tendia a viajar para longe. Nem tão longe assim, já que a pessoa que ocupava seus pensamentos estava nas terras vizinhas.
— Sabe o que eu percebi ontem? – David comentou em algum momento próximo ao fim da tarde. Ele serviu uma caneca de café para si mesmo e bebeu um pouco, antes de continuar – Que a Regina tirou as alianças.
Emma sentiu o ar desaparecendo. Sua mão congelou na metade do caminho até o pedaço de madeira que pretendia pegar. Ao levantar os olhos, viu o pai bebericando do café e a encarando.
— É... Eu tive a impressão mesmo – Ela pigarreou – Mas achei que meus olhos estivessem me enganando.
— Parece que ela finalmente está pronta para seguir em frente – Ele observou.
Emma, que colocava os pedaços de madeira dentro do carrinho de mão, soltou um riso rápido, incrédulo e forçado. Ao virar-se para o pai, encontrou-o com as sobrancelhas levantadas.
— Boa sorte para quem resolver tentar testar essa teoria – Respondeu, por fim. Como David continuava olhando para ela, sem alterar a expressão, a médica deu de ombros – A vantagem é que não tem outra mulher que queira mulheres aqui em Storybrooke, então ela pode muito bem pegar as coisas dela e ir procurar em outro lugar.
Dando o assunto por encerrado, Emma deu as costas para o pai e se abaixou para juntar mais madeira. Subitamente, sentia-se ofendida pelos pedaços pequenos, que passaram a receber um tratamento um pouco mais duro ao serem atirados para o carrinho, sem qualquer cerimônia.
— E você não pensou em assumir o posto? – A pergunta a pegou desprevenida e Emma congelou outra vez – Não sei, a Regina é uma mulher linda e você... Você ainda gosta de mulheres, não é? Vocês já têm um cavalo juntas, imagino que se deem bem.
— Se eu não pensei em tentar... – Emma repetiu e caiu na gargalhada, ignorando as lágrimas que queimavam os cantos dos olhos – É, pai... Eu também imaginei que a gente se dava bem.
— O que aconteceu, Emma? – Ela o encarou – O que realmente aconteceu?
— O que aconteceu é que a Regina prefere viver como uma celibatária solteirona que não é amada por ninguém a correr o risco de enfrentar qualquer perda outra vez.
David coçou a cabeça, pensativo.
— Ela realmente sofreu com a morte da Kristin – Ele deu de ombros – Diabos, todos nós sofremos.
— É o que todos continuam dizendo – Emma voltou ao trabalho.
Depois de algum tempo, ele também voltou ao que fazia.
— Eu não consigo competir com uma mulher morta – Emma falou quando parecia que o assunto estava acabado – Santa Kristin, que mesmo debaixo da terra ainda tem todo o amor da Regina. E não me entenda mal, eu sempre respeitei isso e a Regina sabia... Foi uma das primeiras coisas que nós esclarecemos quando começamos a sair. Mas eu não vou passar a vida como a sombra de um fantasma, eu não... Eu não sou a minha mãe.
O silêncio que veio depois foi pesado.
— Desculpe – A médica finalmente falou – Eu não quis trazer o passado assim. É só...
— Não, não se desculpe – David sorriu um pouco – Por mais que doa ouvir isso, é a verdade. Mas você não é a sua mãe e a Regina, graças a Deus, não é como eu. Eu passei a vida inteira preso ao passado e destruí tudo ao meu redor, Emma. Mas a Regina não é como eu. Ela tirou as alianças... ela tá tentando sair do buraco de onde eu nunca consegui sair. Não desiste dela por medo de eu ter sido um péssimo marido pra sua mãe.
Nesse ponto da conversa, ambos abandonaram o trabalho e se sentaram sobre os escombros, compartilhando outra caneca de café.
— Sabe que... Eu nunca me permiti ter relacionamentos – Emma começou a falar e David a olhava, atento – Claro que eu tive mulheres na minha vida e passei um tempo com elas, mais com algumas do que com outras. Mas sempre que as coisas começavam a ficar sérias, eu fugia. Porque eu tinha tanto medo de terminar em um relacionamento como o que você e a minha mãe tiveram – Ela suspirou – Mas Regina... Ela me irritava tanto, sabia que na nossa primeira conversa, ela me deu um tapa?
— O quê? – David questionou, surpreso.
— Sim, mas foi merecido. Eu entendi tudo errado e a acusei de ter dormido com você para roubar suas terras – A médica acrescentou e observou, com um sorriso, quando o pai gargalhou – Estupidez, eu sei. Mas na época fazia sentido.
— Pelo amor de Deus – David finalizou a própria risada – Imagino que tenham chegado a um acordo sobre isso?
— Sim, eu me desculpei depois. O ponto é que... Entre discussões, provocações e flertes, nós nos aproximamos. Entramos em um relacionamento para o qual nunca demos um nome e eu não estava com medo, não estava fugindo, não estava indo para lugar nenhum – Ela balançou a cabeça – Na noite do incêndio, algum gatilho nela foi acionado e ela simplesmente foi embora, disse que me amava e não queria me amar – A lembrança, ainda tão vívida, causava um nó em sua garganta – E eu disse que a amava... sabe que foi a primeira vez que eu disse isso para alguém?
Os dois permaneceram em silêncio por vários minutos, as nuvens de chumbo como testemunhas silenciosas de tudo o que estava sendo dito.
— Quando você era criança, decidiu que amava balé – David sorriu, enquanto falava sobre a lembrança – Não sei onde você viu isso, porque nunca tivemos balé em Storybrooke. E você fez sua mãe alugar dezenas de filmes sobre isso e inventou um tutu de palha e não desistiu até conseguir fazer um... Não sei o nome, mas é um daqueles movimentos complexos – Ele deu de ombros – Depois, você decidiu que amava medicina, corações. E olha só para você hoje em dia, Emma. Estudou, se esforçou, se especializou e se tornou uma das maiores médicas de coração. O que eu quero dizer é que... você nunca desistiu do que amava.
— Tudo tem um limite, pai – Emma sorriu, com tristeza – Eu nunca desisti do que dependia de mim, mas se tratando de Regina... não depende de mim, não mais.
— A Regina é uma mulher poderosa, é forte e de uma determinação insana. Mas qualquer um pode ver que ela não está passando por um momento bom, você viu a aparência dela – David suspirou – E a grande verdade, Emma, é que mesmo tirando as alianças, ela não vai conseguir sozinha. Pense nisso.
Ele deu dois tapinhas carinhosos no joelho da filha, enquanto se levantava e ia para dentro. A neve viria naquela noite, disso tinha certeza.
Emma permaneceu sentada nos escombros por longos minutos após o pai entrar, encarando o vapor denso da caneca de café que segurava entre as mãos enluvadas. As palavras de David ecoavam em sua mente com a força de um martelo contra o ferro frio.
Ela não vai conseguir sozinha.
A médica soltou um suspiro pesado, vendo o ar quente se transformar em névoa diante de seus olhos. Parte dela queria trancar aquele pensamento em uma caixa e jogá-lo no fundo do lago mais próximo; a outra parte — a parte que pertenceu irremediavelmente a Regina desde o primeiro instante — sabia que o pai estava coberto de razão. Regina Mills podia ostentar uma armadura impenetrável para o resto do mundo, mas Emma tinha visto as rachaduras. Tinha visto o cansaço no fundo daqueles olhos castanhos e a sombra da solidão que a cercava.
Com um esforço físico e mental, Emma terminou o resto do café de um gole só, sentindo o líquido quente descer rasgando pela garganta. Levantou-se, bateu a poeira das calças e voltou ao trabalho.
A solidão do celeiro em ruínas parecia maior agora. Sem a voz do pai ou o som das ferramentas, o único barulho era o do vento uivando fraco através das brechas da madeira queimada e o estalo das tábuas velhas sendo jogadas no carrinho. Ela trabalhou até que os braços doessem e a ponta do nariz estivesse completamente dormente pelo gelo.
Quando o primeiro floco de neve finalmente caiu, tocando de leve a pele quente de sua bochecha antes de derreter, o céu já havia tomado uma tonalidade cinza-chumbo quase negra.
Emma parou, encarando o floco solitário na ponta de sua luva. A tempestade havia chegado. E, com ela, a incerteza de quanto tempo mais conseguiria manter seus próprios pés fincados no chão antes de ceder ao impulso de ir até as terras vizinhas.
Empurrou o carrinho cheio até o canto coberto do galpão, guardou as ferramentas e caminhou a passos lentos em direção à casa principal, onde a luz amarelada da janela da cozinha prometia o whisky que haviam combinado. Mas, ao olhar para a estrada escura que cortava a divisa das propriedades, Emma soube que nem mesmo a bebida mais forte da casa seria capaz de esquentar o frio que se instalara em seu peito.
Emma puxou a maçaneta e finalmente entrou em casa, deixando a rajada de ar congelante do lado de fora. Tirou as botas pesadas, a luva e o casaco encharcado pela neve que começava a engrossar, sentindo o corpo inteiro tremer. Ela precisava urgente de um banho e de algo forte no estômago.
O banho de água fervendo pareceu restaurar seus sentidos, embora a fumaça do vapor no banheiro só servisse para fazer sua mente voltar, repetidamente, às palavras do pai.
Ela não vai conseguir sozinha.
Quando desceu para a cozinha, vestindo um moletom confortável e com os cabelos loiros ainda levemente úmidos, encontrou David servindo duas doses generosas de whisky na bancada. Ele não falou nada sobre o assunto de mais cedo, apenas empurrou o copo com gelo na direção da filha, oferecendo um brinde silencioso.
Emma aceitou e virou metade do copo de uma vez. O líquido dourado desceu rasgando, queimando sua garganta e espalhando uma onda instantânea de calor pelo peito. Era exatamente do que ela precisava.
— Essa tempestade vai castigar a cidade até amanhã cedo — David comentou, olhando pela janela para o breu branco que cobria o rancho.
— É... vai sim — Emma murmurou, encarando o líquido restante no fundo do copo.
Eles conversaram por mais meia hora sobre coisas banais, o calor da lareira e do whisky deixando o ambiente confortável. Mas conforme a bebida ia fazendo efeito, a falsa sensação de anestesia dava lugar a um tipo perigoso de coragem.
A mente de Emma não sossegava. Ela sabia que o Haras Mills era uma fortaleza, repleto de funcionários competentes. Regina não precisava de ajuda prática. Tinha dinheiro, infraestrutura e poder.
Mas Emma tinha visto o rosto dela. Tinha visto o cansaço e a armadura pesada que Regina insistia em carregar. E o whisky na veia só deixou mais claro o que ela já sabia: Emma Swan não conseguiria passar a noite inteira deitada na cama, ouvindo o vento uivar, sabendo que a mulher que amava estava do outro lado da cerca enfrentando a própria tempestade sozinha.
— Pai... vou dar uma saída — Emma anunciou de repente, terminando o resto do whisky de um gole só e se levantando.
David a encarou, surpreso, com o copo no meio do caminho até a boca.
— Ficou louca, Emma? Olha a neve lá fora! Vai para onde a essa hora?
— Resolver uma coisa que eu devia ter resolvido há muito tempo — Ela disse, já pegando o casaco pesado de novo e a chave do SUV sobre a mesa.
David apenas balançou a cabeça, com o canto da boca se elevando em um meio sorriso cúmplice. Ele sabia exatamente para onde ela estava indo.
— Cuidado nessa estrada, garota.
Emma não perdeu tempo. Caminhou a passos rápidos até o SUV, enfrentando a cortina branca de neve. Pela primeira vez em muito tempo, ela preferia arriscar a cara e tomar outro tapa — figurativo ou não — do que viver no conforto covarde da dúvida.
O motor do SUV deu partida, projetando feixes de luz amarelada contra a tempestade. Com o whisky ainda queimando no peito e o coração batendo no compasso da teimosia, ela engatou a marcha e acelerou em direção às terras de Regina Mills.
A luz suave dos aquecedores indicava que os estábulos estavam com as temperaturas certas para os animais. Emma, que sentia o corpo todo estremecer pelo frio, os invejou por alguns instantes, enquanto praticamente corria para atravessar o espaço entre o SUV e a varanda da casa principal.
Antes que pudesse bater na porta, ela se abriu, revelando uma Regina de olhos avermelhados e expressão confusa.
— Swan, o que diabos você tem na cabeça para dirigir com esse tempo?
E o simples pensamento de que a morena estivera chorando, derrubou todas as defesas de Emma, que abriu a jaqueta cheia de neve antes de puxar a mulher para junto do próprio corpo, abraçando-a.
— Eu não vou a lugar nenhum, Regina – Falou, simplesmente.
Regina relutou, tentou se afastar algumas vezes até, por fim, desistir. Ela, então, apoiou todo o seu corpo contra Emma, enlaçando-a pela cintura e chorando outra vez.
Emma conduziu Regina para dentro da casa sem nunca soltá-la e fechou a porta atrás delas, deixando o frio e a neve para trás. Com os movimentos limitados, tirou a jaqueta com um só braço e a deixou jogada no chão, no hall de entrada, ansiosa para se livrar da peça úmida. Podia sentir a neve nos cabelos começando a derreter e o frio que parecia se infiltrar pelo couro cabeludo até o meio dos ossos.
Elas foram para a sala de estar, onde a lareira crepitava como uma velha companheira. Diante do fogo, uma almofada solitária descansava ao lado de uma taça de vinho pela metade. Regina jogou outra almofada no chão antes de voltar para o lugar que ocupava antes; a morena se sentou e abraçou os joelhos, encarando as chamas com os olhos ainda úmidos.
A médica pegou uma taça para si mesma antes de se sentar ao lado de Regina e servir mais vinho para ambas. Aquela prometia ser uma conversa difícil que já não podia ser adiada, e toda ajuda seria bem-vinda, mesmo que causasse uma tremenda dor de cabeça no dia seguinte.
— Você é completamente maluca, Swan – Regina quebrou o silêncio, olhando para ela, com a cabeça ainda apoiada nos joelhos – Dirigir com esse tempo?
— Eu precisava ver você, não queria que ficasse sozinha para a primeira neve da temporada.
Regina piscou devagar, absorvendo o peso daquelas palavras. Com um gesto hesitante, ela estendeu a mão e tocou com a ponta dos dedos a bochecha fria de Emma, afastando uma mecha de cabelo ainda úmida da neve. O contraste do calor da pele de Regina contra o gelo que ainda impregnava a médica fez Emma prender a respiração.
Mas o toque durou apenas um instante. Assustada com a própria audácia e com o arrepio que percorreu seu corpo, Regina recolheu a mão rapidamente, abraçando os joelhos outra vez como se tentasse se proteger.
— Por que, Emma? — A voz de Regina saiu baixa, encarando o fogo, embora a rigidez na postura entregasse sua tensão — Eu passei as últimas semanas te empurrando para longe e você cruza essa divisa no meio de uma nevasca. Você tem um problema sério com o perigo ou só é teimosa demais para o seu próprio bem?
— Eu amo você, Regina – Emma respondeu, dando de ombros. Como se aquela fosse a frase mais fácil já dita – E sou teimosa. Junte as duas coisas e você me tem escorrendo água gelada em frente à sua lareira.
A morena a encarou, a taça esquecida em algum lugar no meio do caminho até seus lábios.
— Meu coração está partido, Emma – Falou, depois de alguns instantes – Eu mesma o parti.
— Sorte a sua que eu sou cárdio, Mills.
Os lábios de Regina se elevaram em um sorriso mínimo, uma pequena brecha de humor em meio ao turbilhão entre elas.
— Eu ouvi, naquele dia... Quando você disse que me amava – Regina confessou.
— Eu sei.
— E mesmo assim eu fui embora...
— Estou ciente.
— E mesmo assim... Você está aqui.
Emma se virou para encará-la. Os olhos da morena eram poços profundos de vulnerabilidade. A médica se viu perdida naquela íris tempestuosa. Se fosse uma artista, teria pintado um quadro daquele olhar, mas o carregaria na memória pelo resto da vida.
— Porque você também disse que me amava – A loira voltou a falar – E eu não vou deixar você escolher a solidão, quando sei que tenho uma chance de te fazer feliz. Pode ser que eu nunca consiga significar o que a Kristin significou e tudo bem, eu aceito isso, já te falei uma vez que respeito a sua história com ela e isso não mudou. Mas eu não vou deixar você passar o resto da sua vida infeliz e perdida no luto, acho que Kristin e eu concordamos que não queremos isso para você.
— Esse é o problema, Emma... – Regina admitiu, em voz baixa, como se falar alto tornasse tudo mais real do que poderia suportar – Você significa e eu não sei o que fazer.
Emma não soube o que dizer então e a morena voltou a falar.
— Quando me dei conta do que estávamos vivendo, percebi que me sentia viva outra vez e isso me deixou... Não sei qual palavra usar. Parecia tão certo e tão injusto ao mesmo tempo – Regina bebeu um pouco, antes de continuar – De repente eu queria uma foto nossa em cima da lareira, queria fazer amor a noite toda e depois reclamar que não tenho mais idade para isso e... Fazer o jantar com você. E quando eu pensei sobre isso, eu lembrei...
— Vocês estavam fazendo o jantar – Emma terminou por ela e Regina assentiu, encarando a marca desbotada em seu dedo, onde a aliança costumava estar.
— Eu estava nessa linha de pensamentos quando meu funcionário veio avisar sobre o fogo no celeiro – Ela franziu o cenho, balançando a cabeça – E quando chegamos no rancho, você estava no celeiro e eu simplesmente não conseguia respirar, porque o simples pensamento de te perder, Emma, me fez sentir ainda pior do que depois da morte de Kristin e isso me trouxe uma culpa que eu nem sei como explicar.
— Amar de novo não significa esquecer o que você já viveu – Emma sorriu um pouco, tentando entender quando foi que se tornou alguém apta a dar conselhos nessa área – Eu vi minha mãe sendo um fantasma da própria irmã, que foi o primeiro amor do meu pai. E eu tive medo, Regina, de ser como ela. De passar meus dias sendo uma segunda opção para você, que continuaria a amar Kristin e ninguém mais. Eu já vi de perto o que esse tipo de coisa faz com uma família.
A morena piscou devagar, processando cada palavra com um nó apertado na garganta. Saber que seu silêncio e sua fuga haviam feito Emma se sentir exatamente assim — no lugar mais doloroso da própria história familiar — foi como um soco no estômago.
Regina soltou um suspiro trêmulo, deixando a taça de vinho no chão ao lado do fogo. Virou o corpo de frente para a médica, seus olhos brilhando com uma urgência quase desesperada para desfazer aquele mal-entendido.
— Você nunca foi uma segunda opção, Emma — A voz de Regina saiu num fio, embargada, mas carregada de certeza— Nem por um segundo. O que eu sinto por você não é um substituto e não ocupa o lugar de nada nem de ninguém. É novo... me apavora até o último fio de cabelo, mas é só seu.
— Estamos quites, Regina Mills – Emma bebeu o resto do vinho em sua taça em um gole só – Porque o que eu sinto por você me apavora e você também me dá um pouco de medo, às vezes – Regina sorriu – Mas eu não quero e não vou deixar que o medo do que eu sinto me afaste de você.
Foi Regina quem cortou o espaço entre elas e puxou Emma para um beijo. O contato que começou urgente, logo se tornou ameno e lento, pontuado por um carinho há muito acumulado.
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