A inscrição era a única coisa no qual o dr. Charles Seward conseguia se concentrar enquanto sentia a escuridão tomar conta de si. Na escuridão havia paz, sem luzes frias iluminando os restos dilacerados de sua existência. Durante anos ele se dedicara a combatê-la. Naquele momento, simplesmente se entregava a ela.

Apenas à noite Seward conseguiu encontrar paz com a lembrança de Lucy. Em seus sonhos ainda sentia seu abraço quente. Por um momento fugaz ele podia retornar a Londres, a uma época mais feliz, quando via sentido em seu lugar no mundo e em sua pesquisa. Era a vida que quisera partilhar com Lucy.

O alarido de início de manhã, com carros de leite, peixeiros e carroças de outros vendedores passando apressados pelas ruas calçadas de Paris, invadiu o sonho de Seward e o arrastou de volta ao duro presente. Seward se obrigou a abrir os olhos. Eles doeram mais que iodo puro em uma ferida aberta. Com o teto trincado do quarto da casa de cômodos parisiense que ele alugava entrando em foco, refletiu sobre como sua vida mudara. Ficou triste ao ver como perdera os músculos. Seus bíceps murcharam, e agora faziam lembrar aqueles novo saquinhos de chá de musselina costurada a mão recém-tirados de um bule. As veias em seu braço eram como rios em um mapa gasto. Ele era uma sombra de quem havia sido um dia.

Seward rezou para que a morte chegasse rapidamente. Ele deixara em testamento seu corpo para a ciência, a ser usado em uma sala de aula de sua alma mater. Consolava-se com o fato de que na morte ajudaria a inspirar futuros médicos e cientistas.

Após algum tempo, lembrou-se do relógio, ainda aninhado em sua mão esquerda. Virou-o. Seis e meia! Por um instante foi tomado de pânico. Inferno! Dormira demais.

Seward se levantou cambaleando. Uma seringa de vidro vazia rolou da mesa e se estilhaçou no piso de madeira encardido. Uma pequena garrafa de vidro marrom de morfina estava prestes a ter o mesmo destino da seringa, mas ele rapidamente pegou o líquido precioso, soltando o cinto de couro de seu antebraço esquerdo com um movimento treinado. A circulação voltou ao normal, e Seward desenrolou a manga, recolocando em seguida a abotoadura de prata com monograma em sua camisa social gasta. Abotoou o colete e vestiu o paletó. Wallingham & Sons eram os melhores alfaiates de Londres. Se seu terno tivesse sido feito por qualquer outro, teria se desistegrado dez anos antes. A vaidade não morre fácil, pensou Seward com um risinho sem humor.

Teria de correr, caso ainda quisesse pegar o trem. Onde estava o endereço? Ele o havia colocado em um lugar seguro. Naquele momento, quando mais precisava, não conseguia recordar exatamente onde o pusera. Seward virou o colchão de palha, inspecionou os fundos da mesa com pernas desiguais e olhou sob os caixotes de verdura que serviam de assento. Vasculhou pilhas de recortes de jornal envelhecidos. As manchetes revelavam a preocupação de Seward: Histórias horripilantes sobre Jack, o Estripador. Fotos de autópsia das cinco vítimas conhecidas. Mulheres mutiladas posavam de pernas abertas, como se estivessem esperando por seu assassino perturbador. O Estripador foi classificado como um açougueiro de mulheres, mas um açougueiro é mais misericordioso com os animais que abate. Seward relera inúmeras vezes os relatórios de autópsia. Páginas soltas de suas teorias e ideias escritas em papel rascunho, Papelão rasgado e caixas de fósforos desdobradas flutuavam a seu redor como folhas levadas pelo vento.

O suor que escorria da testa de Seward começou a arder em seus olhos injetados. Maldição, onde o tinha colocado?! O benfeitor correra um enorme risco para fornecer-lhe aquela informação. Seward não suportava imaginar-se desapontando a única pessoa que ainda acreditava nele. Todos os outros- os Harker, os Holmwood- Achavam que havia perdido o juízo.

Seward sabia que se vissem aquele quarto considerariam justificada essa crença. Examinou as paredes com revestimento rachado que comprovavam seus delírios induzidos pela morfina, suas ideias alucinadas escritas a tinta, carvão, vinho, até mesmo com o próprio sangue. Nenhum louco seria tão óbvio. Ele estava certo de que aqueles escritos um dia se revelariam lúcidos.

Em meio a tudo, havia uma página arrancada de um livro, cravada na madeira com uma faca de caça com cabo de osso cuja lâmina estava suja de sangue coagulado. A página tinha um retrato de uma bela jovem elegante de cabelos negros. Abaixo da imagem, uma inscrição: "CONDESSA ELIZABETH BATHORY, CIRCA 1582."

Claro, foi onde escondi. Seward riu de si mesmo enquanto arrancava a faca da parede. Pegou a página e a virou. Encontrou, escrito com sua caligrafia quase ilegível, o endereço de uma vila em Marselha, Seward pegou um facão e um isqueiro que ali se encontrava. Colocou tudo no fundo falso de sua bolsa de médico e cobriu com instrumentos e medicamentos comuns.

O trem deixou a Gare de Lyon pontualmente. Ao vê-lo partir no instante em que pagava a passagem, Seward disparou pelo prédio marcado pela enchente para alcançar o monstro resfolegante que deixava a plataforma sete. Conseguiu agarrar o último vagão e subiu antes que o trem ganhasse velocidade. Seu coração se encheu de orgulho ao dar o salto ousado. Ele havia feito esse tipo de coisa na juventude com Quincey Morris e seu velho amigo Samuel Arthur. A juventude foi desperdiçada com aqueles dois, riu Seward consigo mesmo ao relembrar os dias irresponsáveis de sua inocência... e ignorância.

O médico se acomodou no sofisticado vagão-restaurante enquanto o trem bufava rumo ao sul. Não se movia rápido o bastante. Seward consultou o relógio de bolso; apenas cinco minutos haviam transcorrido. Lamentou não poder mais se dar ao luxo de passar o tempo escrevendo em seu diário. O trem só alcançaria Marselha dali a dez horas. Lá, ele finalmente teria como provar suas teorias e mostrar àqueles que o haviam evitado que não estava louco; que estivera certo o tempo todo.

Seriam as dez horas mais longas da vida de Seward.

Seward fitou de olhos arregalados o condutor, de pé acima dele com um frio olhar de impaciência.

–Desculpe-me.- E Seward deu sua passagem ao condutor, ajeitando o cachecol para cobrir o bolso rasgado do peito.

–Britânico? — perguntou o condutor, com forte sotaque francês.

–Sim, por quê?

–Médico? — O funcionário apontou com a cabeça para a maleta entre os pés de Seward.

–Sim.

Seward viu os olhos cinzentos do homem avaliando a pessoa andrajosa diante de si, o terno grande demais e os sapatos gastos. Não era a imagem de um médico respeitável.

–Deixe-me ver sua maleta, por favor.

Seward entregou a maleta, pois não tinha muita escolha. O condutor retirou metodicamente garrafas de remédio, leu os rótulos e as recolou sem muito cuidado. Seward sabia o que o funcionário procurava, e esperava que ele não vasculhasse fundo demais.

–Morfina- Anunciou o condutor em um tom tão alto que outros passageiros espiaram. Ele ergueu a garrafa marrom.

–Algumas vezes tenho de receitar como sedativo.

–Quero ver sua licença, por favor.

Seward procurou nos bolsos. No Mês anterior havia sido assinada a Convenção Internacional sobre Ópio, proibindo a importação, venda, distribuição e importação de morfina sem registro médico. Ele demorou tanto para encontrar que, quando por fim achou a licença, o condutor estava prestes a puxar a corda para deter o trem. O homem examinou o papel franzindo o cenho, depois voltou a olhar duro o documento de viagem. O reino Unido fora o primeiro país a usar identificação fotográfica em seus passaportes. Desde que tirara aquele retrato, Seward perdera muito peso. Seus cabelos estavam muito mais grisalhos, a barba, desgrenhada e malcuidada. O homem no trem não passava de uma sombra do homem na foto.

– O que vai fazer em Marselha, doutor?

– Eu trato um paciente lá.

– De que sofre seu paciente?

– De distúrbio de personalidade narcisista.

– O que seria isso?

–É um desequilíbrio psicológico que leva o paciente a demonstrar um controle predatório, autoerótico, antissocial e parasitário sobre quem o cerca. Assim como...

–Merci- cortou o condutor, devolvendo a Seward seus papéis e a passagem com um gesto hábil.

Seward segurou o adorado relógio junto ao coração e fechou os olhos para sonhar.

Foi um quarto de século antes. Seward erguera o mesmo relógio à luz para ler a inscrição: "Oceanos de amor, Lucy."

Ela estava lá. Viva.

–Você não gostou — disse Lucy, amuada.

Seward não conseguia desviar o olhar de seus olhos verdes, suaves como uma pradaria no verão. Lucy tinha a estranha idiossincrasia de fitar a boca do interlocutor como se tentasse sentir o gosto da palavra seguinte antes que passasse pelos lábios. Ela sentia uma ânsia pela vida. Seu sorriso conseguia aquecer o coração mais frio. Com Lucy sentada no banco do jardim naquele dia de primavera, Seward se encantou como o modo como a luz do sol iluminavam os cachos soltos de cabelos ruivos que dançavam à brisa, emoldurando seu rosto. O cheiro de lilases frescos se misturava à maresia salgada do porto de Whitby. A partir de então, sempre que sentisse cheiro de lilases ele se lembraria daquele belo e amargo dia.

– Só posso concluir... — Seward pigarreou antes que sua voz falhasse.

– ...que, como gravou "Querido amigo" em vez de "Noivo" , você decidiu não aceitar meu pedido de casamento.

Lucy desviou os olhos úmidos. O silêncio dizia muito.

Achei que seria melhor que soubesse por mim — disse Lucy finalmente, suspirando. — Eu aceitei me casar com Samuel.

Samuel era amigo de Seward desde que eram garotos. Seward gostava dele como de um irmão, mas sempre invejara a maneira como Samuel conseguia tudo com tanta facilidade. Ele era bonito e rico, e jamais deparara com preocupação ou esforço. Ou coração partido.

– Entendo — disse Seward, sua voz soando um guincho em seus ouvidos.

– Eu amo você — sussurrou Lucy. — Mas...

– Mas não tanto quanto ama Samuel.

Claro que ele não poderia competir com o rico Samuel Arthur, nem era tão arrojado quanto o outro pretendente de Lucy, Quincey Morris.

– Perdoe-me — continuou ele em tom mais suave, de repente temendo magoá-la. — Esqueci meu lugar.

Lucy se esticou e deu um tapinha em sua mão, como se fosse um animal de estimação.

– Sempre estarei aqui.

De volta ao presente, Seward se agitou no sono. Se pelo menos pudesse ver a beleza nos olhos de Lucy... Na última vez em que os fitara, naquela noite terrível no mausoléu, não vira nada além de dor e angústia. A lembrança dos gritos de morte de Lucy ainda dilacerava o cérebro de Seward.

Após saltar do trem, Seward caminhou sob uma tempestade torrencial pelo labirinto de prédios brancos de Marselha amaldiçoando a ocasião. Claro que em sua busca o levara à Riviera Francesa em março, o único mês chuvoso.

Caminhou adiante Pesadamente, olhando para trás de modo a ver o Fort Saint-Jean se erguendo como uma sentinela de pedra no porto de um azul profundo. Então virou-se para estudar a cidade provençal, que havia sido construída em torno de uma cidade com dois mil e seiscentos anos. Artefatos dos fundadores gregos e romanos de Marselha eram encontrados em todos os bairros medievais ao estilo parisiense. Seward lamentou estar naquele porto pitoresco por um objetivo tão sinistro. Embora não fosse a primeira vez que a maldade se fizesse sentir ali: durante o século anterior, aquela cidade litorânea havia sido assolada por peste e piratas.

Seward parou. A sua frente se erguia uma típica vila mediterrânea de dois andares com grandes venezianas de madeira e barras de ferro batido nas janelas. A lua de inverno, atravessando as nuvens de chuva, lançava um brilho fantasmagórico sobre as tradicionais paredes brancas. O teto era coberto por telhas de barro vermelhas que o faziam lembrar-se de algumas das velhas casas espanholas que vira ao visitar Quincey Morris no Texas, tantos anos antes. Elas conferiam um clima muitíssimo agourento, nada receptivo a uma vila luxuosa da Riviera Francesa. Parecia inteiramente destituída de vida. Seu coração se apertou com o pensamento de que poderia ter chegado tarde demais.

Tornou a verificar o endereço.

Era ali.

De repente, ele ouviu a chegada ruidosa de uma carruagem puxada por cavalos espalhando água sobre o calçamento. Seward se escondeu em um vinhedo em frente ao prédio. Não havia uvas nos galhos gotejantes que lembravam uma teia. Uma carruagem negra com remates dourados subia a colina puxada por duas éguas negras brilhantes. Os animais pararam sem receber um comando. Seward ergueu os olhos e, para sua surpresa, viu que não havia cocheiro. Como aquilo era possível?

Uma figura vigorosa saltou do veículo. As éguas morderam uma à outra e guincharam, os pescoços curvados. Depois, novamente para surpresa de Seward, partiram em passo perfeito, sem cocheiro para guiá-las. A figura ergueu uma bengala com uma das mãos calçando luva preta e enfiou a outra no bolso para pegar uma chave, e, então parou de repente, como se percebendo algo.

– Maldição — murmurou Seward para si mesmo.

A pessoa junto à porta curvou a cabeça, quase como se tivesse ouvido a voz de Seward em meio à curva, e se virou lentamente na direção do vinhedo. Seward sentiu ondas de pânico e adrenalina tomarem seu corpo, mas conseguiu prender a respiração. A mão enluvada foi na direção da aba da cartola de veludo, e Sewad quase engasgou ao ver a cartola ser retirada, revelando sensuais canchos de cabelos negros caindo sobre os ombros daquela pessoa.

Ficou eufórico. Era ela! O Benfeitor estava certo.

A condessa Elizabeth estava junto ao umbral da vila, parecendo exatamente como estava no retrato pintado mais de três séculos antes.