Notas iniciais
Alguns rancores guardo com muito carinho. Malvados.

No capítulo anterior: Érika e Ventura encontram-se no restaurante.

Enquanto entreolham-se desconcertados com a situação, Carlos que resolvera sua questão sobre as reservas que fizera aproxima-se de Érika e Clara.

Carlos: Oi Ventura! Oi Sônia! Como vão? -Cumprimentou-os-

Érika assustou-se. Não esperava ouvir a voz de Carlos tão próxima à ela. Será que ele percebeu alguma coisa? Perguntou-se à si mesma tentando disfarçar suas mãos trêmulas e seu embaraço frente à situação. Ventura deu um sorriso pelo embaraço da amiga, ele sim conseguira percebê-la totalmente perturbada. Nunca entendeu o porquê de Érika se desconcertar tanto sempre que se vêem e principalmente, porque sempre tenta negar para si mesma que tudo o que viveram juntos não representa mais nada.
Com toda naturalidade, responde à pergunta de Carlos.

Ventura: Bem e vocês?
Carlos: Viemos fazer um programa em família.
Sônia: Isso é ótimo! -Disse alegre sentada à mesa-
Érika: E vocês?

Como foi difícil fazer essa pergunta sem que sua voz tremesse pela emoção em ver Ventura. Mas não poderia continuar ali sem interagir e deixar transparecer seu embaraço. Isso causaria um grave problema com Carlos.
Sônia responde.

Sônia: Viemos jantar.
Clara: E a Angélica? Não quis vir?
Ventura: Não. Ela preferiu ficar em casa. -Entristeceu-se-

A pergunta de Clara trouxe à tona todos aqueles sentimentos que ele estava vivenciando minutos antes de encontrar Érika. Como um baú de memórias, o simples fato de vê-la seja de qual forma for mobiliza com intensidade todos os bons sentimentos que ainda nutre por ela e pela relação que tiveram. Foi o melhor sentimento que pôde vivenciar naquela noite.
Carlos ao perceber uma mudança brusca no semblante de Ventura finaliza:

Carlos: Amor vamos nos sentar? -Chamou Érika com docilidade segurando seu braço-
Érika: Vamos sim. Com licença. Bom jantar à vocês! -Fitou Ventura com um sorriso discreto-
Ventura: Obrigado! Igualmente! -Sorriu de volta-

Érika dirige-se abraçada a Carlos até a mesa reservada enquanto Ventura fica à olha-los. Carlos parece não ter percebido nada do que acontecera minutos antes além da mudança brusca de Ventura.

Carlos: Que clima pesado hein! Será que aconteceu alguma coisa?
Clara: Deve ser por causa da Angélica. -Respondeu sentando-se à mesa-
Érika: Por causa da Angélica? -Sentou-se frente à Clara-
Clara: É. O Ventura não tem uma relação muito boa com ela. Ontem eles tinham combinado de sair para jantar mas o Rogério passou mal e ele acabou levando-o para o hospital. Angélica ficou chateada e os dois brigaram. Ela estava toda insuportável hoje no colégio por conta disso.
Carlos: Dede que a conheço, Angélica sempre teve esse jeito difícil. -Disse ao lado de Érika-
Clara: Eu morro de pena porque o Ventura sempre fez tudo por ela e ela sempre o destratou. Está certo que ela se sentiu abandonada por ele várias vezes mas mesmo assim... Parece que é um estilo dela, destratar as pessoas.
Érika: Eu não acho que seja legal ficarmos opinando sobre à vida dos outros. -Repreendeu-
Carlos: Você tem toda razão. Vamos pedir?

Clara e Carlos pegam o cardápio. Ventura, de sua mesa consegue visualizar de forma privilegiada a mesa de Érika que por azar, fora reservada duas mesas à sua frente. Ele fica a observá-los e sente-se feliz por ela ter concretizado seu sonho de construir uma família mesmo que não tenha sido com ele. Como se dão bem! Suspirou ao ver Carlos e Clara rindo possivelmente de alguma piada que Carlos contara. Daria tudo para estar ao lado dela compartilhando sua felicidade junto à filha que seria obviamente, deles. Não que ele não seja feliz com Sônia, ele é, mas é outro tipo de amor. Sônia é sua companheira e lhe deu uma filha. O que ele sente por Érika é algo que não consegue definir. É mais intenso, mais nobre e mais espiritual. Não sente por ela apenas o desejo sexual como já sentira. Ela ainda continua uma mulher extraordinariamente bonita e negar que sente ainda uma atração sexual por ela estará mentindo, mas sente algo além disso. Apesar de toda essa máscara de mulher forte que Érika sempre insistiu em mostrar para a sociedade, ela é uma mulher extremamente sensível. Ele foi o único que permitiu que ela pudesse se mostrar como sempre foi. Uma mulher sensível, amorosa e apaixonada mas ela não suportou saber que ele a conhecia como ninguém e terminou tudo. Como ela se parece com sua filha Angélica! Se não tivesse assistido ao seu nascimento poderia dizer que se tratava de mãe e filha. Érika é quem o ajuda a entender sua filha e a lidar com ela por terem jeitos muito parecidos. Clara parece não ter herdado nada da mãe. Sempre sorridente e cantarolando pela rua traz aquela energia positiva no ar e uma sensibilidade que Érika luta para não mostrar. Como são diferentes! Suspirou enquanto as observa. Érika sempre com aquele semblante sério mesmo em um momento de descontração em família. O quê terá acontecido para que se fechasse tanto? Quando namorávamos não era assim! Agora é tarde demais para tentar reaver qualquer coisa. Cada um têm suas vidas harmoniosas e felizes. Pensou. Olha para Érika que segura um cardápio. Os olhos de Ventura parece ter um imã que sempre a faz olhar quando ele está à mirá-la. Por cima do cardápio, Érika lança um olhar discreto. Carlos está à seu lado e não pode perceber nada.

Angelica e André saem do local onde assistiam ao Concerto que comportou quase 500 pessoas. Enquanto seguem pelo enorme salão em decoração dourada com cortinas de seda e azulejos brancos ela tagarela com André que passou a metade da apresentação dormindo. Se não estivesse determinado à torná-la sua namorada, definitivamente não se meteria em um lugar tão chato e com pessoas tão diferentes. Ele gosta de balada, Anitta, churrascada e chinelo e não desses eventos extremamente chiques em que se é obrigado a andar engomadinho em pleno calor de 35 graus como faz agora no Rio de Janeiro. Angélica sem dúvida está linda com seu longo preto e seus apetrechos em dourado junto com anel que deu à ela hoje de manhã. Ela parece ter gostado do presente. André não sabe definir se ela está parecendo mais com uma princesa ou com uma rainha. Seus momentos doces mesclados com toda sua grosseria fica difícil dar uma definição correta. Não que isso seja importante. O que importa é que essa menina de fases o faz se apaixonar à cada dia e por ela se vestiu de terno e gravata e se enfiou em um Concerto. Claro que dormiu a metade dele, mas ela estava tão feliz que nem percebeu, senão, não estaria tagarelando alegremente nos seus ouvidos e sim, lhe dando uma bronca do jeito que sempre faz.

Teatro

Angélica parece estar mais contente, não resta qualquer dúvida de que a música faz bem à sua alma. É uma das poucas coisas que a faz falar sem parar. Ela não sabe se André entendeu tudo que lhe explicou durante a apresentação. Isso, tirando os momentos em que ele queria lhe beijar como se estivessem em uma sala de cinema e não em um Concerto que pagaram uma fortuna para ir. Se ele entendesse de música seria um menino com quem se atreveria a se relacionar mais profundamente, mas André não tem qualquer envolvimento com a arte. Ele sequer gosta de ler. Ela havia escrito uma poesia inspirada em Clarice Lispector e ele sequer conhecia sua obra principal. Nem parece que está no 2 ano. Foi seu pai quem lhe apresentou sua primeira obra. Ventura sempre leu suas obras desde que era um adolescente, inclusive, conquistou Sônia com uma poesia dela. Angélica não pode negar que apesar disso tudo está gostando de sair com André. Até que ele é legal e lhe dá uns beijos excitantes, aliás, ele vive querendo lhe dar beijos e ela precisa de espaço. Gente no seu pé é algo que definitivamente não suporta mas hoje está feliz e não vai se importar com isso.
Angélica e André dirigem-se à saída do teatro onde aconteceu o Concerto e de mãos dadas como namorados Angélica continua a tagarelar:

Angélica: Eu já fui em concertos melhores. Não acho que valeu o valor que pagamos pelas entradas. O músico da direita estava desafinado e o outro do canto esquerdo estava fora do tom. Algumas vezes eu percebi que não existia qualquer harmonia entre os instrumentos entende? Claro que foi uma apresentação mais amadora mas eles deveriam se atentar à isso. Não se coloca ninguém para uma apresentação desse nível sem um preparo mínimo antes.

André como quem não estava prestando atenção no assunto retirou o celular do bolso para ver as horas. Angelica percebeu sua total indiferença à tudo que falava desde que saíram da apresentação. Não é possível que eu estava discusando á quase 5 minutos sobre o que achou e ele não está sequer prestando atenção. Vou pedir sua opinião, quem sabe a gente consegue um diálogo decente. E assim o fez.

— O que você achou do concerto?
André: Achei legal! -Indiferente-

Legal é a única resposta que uma pessoa que entende do assunto espera não ouvir. Ela denota um desinteresse velado, mas também eu fui uma burra! Que resposta eu poderia esperar de alguém que não está nem aí para música? Pensou com indignação. Ele sequer lera seu livro de 200 páginas de introdução à música que deixara com ele.

Angélica: Você não entendeu foi é nada dele. -Concluiu-
André: Ah Angélica! Eu venho tentando entender, mas é muito difícil pra mim. É pior que matemática.
Angélica: É. Está provado que a música é para todos mas nem todos é para a música. -Descontente-
André: Na verdade, eu não consegui prestar muita atenção porque estou com uma coisa que não consigo tirar da cabeça.
Angélica: O quê? -Curiosa-
André: Sabe Angélica, -Olhou-a nos olhos- eu não sei se deveria dizer isso. Você sabe que eu gosto muito de você... -Atrapalhou-se-
Angélica: Fala logo Andre! -Irritou-se com a enrolação-
André: Eu quero namorar com você! -Alívio-
Angélica: O quê? -Assustou-se- Eu ouvi direito? Você quer me namorar?
André: Sim.
Angélica: Você está de onda né?
André: Não. Eu realmente quero namorar você.

André não poderia estar falando sério! Como ele poderia estar querendo namorá-la se nunca lhe deu qualquer tipo de esperança? Ela não deveria ter aceitado seus presentes e nem ter chamado para o Concerto, foi um erro. Apenas queria um garoto que pudesse sair de vez em quando sem compromisso e ele confundiu tudo achando que queria um compromisso sério. Sempre deixara isso muito claro desde que começaram à sair com frequência. Por quê estaria ele lhe fazendo esse tipo de pedido? Tenho que dar um fim nisso antes que ele fantasie mais uma situação que não existe. Concluiu.

Angélica: André, eu não sei da onde tirou esta ideia, mas eu não quero namorar com você e nem com ninguém. Eu sempre deixei isso bem claro entre a gente. Eu só quero dar uns beijos na boca de vez em quando, entende?
André: Entendo, acho que me precipitei em dizer isso -Tom triste-
Angélica: Você se precipitou sim. Eu só tenho 14 anos e não acho que devo me envolver em algo tão serio.
André: Eu não quero forçar uma barra, apenas quero que saiba que eu gosto muito de você.
Angélica: Eu sei. -Fitou-o com um sorriso doce-
André: Será que a gente pode continuar se vendo?
Angélica: André pára com essa pressão. -Reclamou- Você me manda mensagem toda hora e todo dia. Ficou me beijando no meio do Concerto. Isso é muito chato! A gente tem que ter um espaço também. -Irritou-se-
André: Entendi. -Sorriu- Eu vou ligar pro motorista vir nos buscar. Enquanto esperamos, podemos comer alguma coisa.
Angélica: Tá bom!

André a abraça. Mesmo que não tenha aceitado o seu pedido sente-se contente. Ao menos, ela aceitou continuar saindo com ele. Agora ela está até mais doce. Quem sabe um dia aceite ser sua namorada?

A casa da família Amenjo Cardoso não é uma casa grande em relação às outras do condomínio, com a leveza de um azul bebê e vidros transparentes, é uma casa térrea com uma pequena piscina em seu interior. À seu lado tem uma outra casa que fôra desocupada semanas atrás mas já está comprada e terá moradores novos na próxima semana. Emília mudou-se para o condomínio desde que fôra adotada por seus pais. Ninguém além de Thaís e Angélica sabem desse fato. Sua mãe nunca quisera contar porque acredita que as pessoas podem a rejeitar, ainda mais não sendo parente consanguíneo de sua família rica. Celeste, sua mãe é professora universitária. Ela formou-se em veterinária, fez doutorado em pequenos animais e abriu uma Clínica Veterinária na zona norte. Seu pai, Paulo, é um jornalista muito conhecido por escrever em um jornal on-line de uma emissora bem conhecida. Ele é responsável pela coluna de eventos. Emília fôra adotada ainda no hospital quando a abandonaram apenas com 3 dias. A única coisa que tem de sua mãe biológica é uma foto, mas já não deve ser a mesma afinal, já faz 13 anos. Sua mãe adotiva não pode ter filhos, perdeu o útero com um câncer aos 20 anos quando ainda estava na faculdade. Ela quase morreu mas a dor maior foi saber que não poderia ter filhos e ela sempre quis ser mãe. Ao saber que abandonaram uma criança em um hospital público da cidade, Celeste junto com Paulo resolveram todos os processos legais para a adotarem. As enfermeiras disseram sua mãe recusou-se até a amamentar. Hoje Emília tem uma casa linda, um quarto só dela e basta estalar os dedos para ter tudo que deseja. Saber de toda sua história. Por quê a abandonaram? É a pergunta que não sai da sua cabeça e acha que não vai sair nunca.

Casa da família Amenjo Cardoso

Seu quarto é pintado em salmão, sua cor predileta. Tem muitas bonecas e alguns brinquedos como de montar e uma casinha que ainda utiliza para brincar de Barbie. Na cama tem uma colcha da Hello Kitty, sua personagem preferida junto com alguns ursos. Um guarda roupa rosa e um móvel grande com uma estante ao lado comportam seu notebook e sua televisão junto com alguns dvds da Mulan, Rei Leão e Mickey. Suas amigas dizem que já não tem idade para gostar dessas coisas mas ela não se interessa por meninos e baladas como elas. Acha que ainda não tem idade para beijar na boca apesar de já ter ficado com um menino da sua turma só para pararem de falar em sua cabeça. Com seus cabelos ondulados no ombro e olhos azuis apesar de ser um pouco gordinha pode-se dizer que sou uma menina bonita. Já recebera várias cantadas de um menino do colégio no celular. Uma delas, está vendo agora no grupo do colégio quando sua mãe entrou em seu quarto mais uma vez sem bater.

Celeste: Emília você não vai dormir?
Emília: Agora não mãe. Hoje é sexta. Não preciso dormir tão cedo. -Respondeu olhando seu celular-
Celeste: O quê está fazendo nesse celular? -Tentou olhar curiosa-
Emília: Nada demais! Mãe, você não tem qualquer noticias dos meus pais biológicos?
Celeste: Já te disse mil vezes filha. Eu sequer os conheci. Por quê?
Emília: Nada. Apenas queria saber se tinha alguma informação deles além da que te deram no hospital.
Celeste: Nunca soubemos de nada deles minha filha, mas não tem que se preocupar com isso. Olha para você, é uma menina linda e tem de tudo.
Emília: Não tenho do que reclamar.

Paulo adentra o quarto com um saco plástico.

Paulo: Trouxe açaí, quem vai querer?
Celeste: Eu! Com esse calor que está fazendo.
Paulo: Então venham pegar que já está derretendo.
Emília: Já vou.
Paulo: Vê se não demora filha senão você vai tomar é um suco. -Saiu com Celeste-
Emília: Tá bom! -Olhou o celular após ouvir uma chamada-

É seu colega de turma que acabara de enviar uma mensagem. Que garoto insistente! Emília não está nem um pouco a fim de ficar com ele. Talvez deva dar uns beijos nele logo no show que vai amanha e quem sabe ele sai de vez do seu pé e assim ela o convida para sair amanhã.

Angélica e André parecem estar se divertindo muito correndo pela areia como duas crianças. Após o concerto Angélica o levou para caminhar na praia. André lógico não gostou, ele parece ser meio nojentinho para essas coisas. Foi um sufoco fazê-lo tirar aqueles malditos sapatos e colocar o pé na areia. Disse que não estava com roupa adequada. Ora! Quem se importa com isso à meia noite? Angélica é muito intensa em suas experiências e tenta de todas as formas fazer com que André vivencie isso da mesma forma que ela. Ela conseguiu convencê-lo a deixar de lanchar para emplacar em uma de suas aventuras malucas que só realizara com seu pai. Com seu vestido longo fez André correr atrás de dela como que em um pega-pega. Suas sandálias de salto devem ter ficado perdidas em algum lugar na areia mas quem disse que ela está preocupada com isso? Sandálias tem aos montes. Angélica parece estar se abrindo mais para o contato com seu companheiro, em alguns momentos André até conseguiu roubar um beijo. Quem poderia dizer que aquela menina tão rude e tão introspectiva poderia ter momentos de maluquices e até de algumas risadas. Ele conseguira tirar dela algumas gargalhadas com as palhaçadas que fazia. Para uma menina que sempre retribuía qualquer demonstração de afeto com olhares de tédio e de repreensão até que estava indo bem.
Nessa brincadeira, são meia-noite. Ventura já chegara à quase duas horas e está preocupado. Angélica saiu e não deixou qualquer aviso. Seu celular está desligado, já tentara inúmeras vezes e nada.

Casa da família Mercantelly Alves

Ventura está sentado no sofá preocupado enquanto Sônia está com o telefone na mão ligando para algumas pessoas amigas de Angélica.

Sônia: Ninguém sabe da Angélica. Liguei para todos os seus amigos. -Disse ao desligar o telefone-
Ventura: Onde terá ido? Onde? -Preocupado-
Sônia: Ela me disse que não iria sair de casa.
Ventura: Mas saiu! -Gritou do sofá-
Sônia: Calma Tura! Ela não deve ter ido muito longe.
Ventura: Aonde alguém pode ter se metido à meia noite?
Sônia: O porteiro disse que a viu sair em um carrão preto. Com... um... garoto. -Disse meio sem jeito-
Ventura: Carrão preto? Garoto? Mas que conversa esquisita é essa Sônia?

Angélica abre a porta da sala onde Ventura e Sônia estão. Descabelada e segurando suas sandálias com seu vestido longo molhado pela água do mar ela entra como se fosse normal uma adolescente chegar à meia noite sem avisar ninguém.

Ventura: Posso saber onde você estava? -Levantou-se do sofá ao vê-la entrar-
Angélica: Não! Não pode! — Respondeu rispida seguindo para a escada que dá para o andar superior-
Ventura: Claro que posso! Sou seu pai! -Gritou indo em sua direção-
Sônia: Ventura por favor se acalme! -Interveio-

Ventura não é um pai agressivo, mas ultimamente Sônia vem vendo-o brigar com Angélica e ás vezes, até contendo-a com firmeza. Tem medo que Ventura agrida a filha por conta do seu comportamento rebelde.

Ventura: Vai me dizer agora onde estava Angélica! -Disse com severidade-
Angélica: Eu fui na Lagoa. -Respondeu com certa tranquilidade-

A conversa pareceu tornar o tom normal de sempre com a resposta tranquila de Angélica. Ao menos, o clima de tensão havia passado e se tudo continuar como está não haverá o perigo de uma agressão por parte de Ventura.

Ventura: E eu posso saber por quê você foi na Lagoa à essa hora e não quis ir comigo e sua mãe no jantar que tínhamos combinado?
Angélica: Eu não quis ir com você pai. Sabe muito bem disso. -Deu de ombros-
Ventura: E eu posso saber o que você foi fazer na Lagoa para chegar à essa hora?
Angélica: Eu fui em um Concerto.
Ventura: Sozinha? -Estranhou-
Angélica: Ai que saco! -Suspirou em tédio-

Só faltava essa! Ter que ficar dando satisfação de com quem eu vai em suas atividades de lazer. Como se Ventura se importasse mesmo com sua vida particular.

Ventura: Ai que saco não é a resposta que eu quero Angélica.
Angélica: Fui com um amigo.
Ventura: Que amigo?
Angélica: Um amigo da escola.
Ventura: E por quê você não disse à sua mãe que iria sair?
Angélica: Porque ela não me perguntou. Por que está tão bravo? Você nunca saiu com nenhuma "amiga"? -Provocou-
Ventura: Sim. Várias vezes, mas nunca deixei ninguém preocupado por ter saído sem avisar.
Angélica: Desculpa. -Baixou seu olhar -

Ventura olhou para sua filha. Ela estava diferente. Não teria ido apenas à um Concerto para voltar com suas sandálias nas mãos e seu vestido molhado. Ela foi para outro lugar. Ele não acredita que sua filha está se relacionando de verdade com algum garoto. Ela estava rude mas tinha uma leveza em seu Ser. Ventura resolveu ficar com suas observações e não comentar sobre o que percebera no momento. Angélica não iria contar-lhe nada e sairia pela tangente como sempre faz.

Ventura: Me deixe sozinho com a Angélica Soninha. -Disse olhando para Angélica com seriedade que nesse momento, não consegue encará-lo-
Sônia: Tura...

Sônia não gosta deixar Ventura e Angélica sozinhos. Do jeito que a coisas andam eles podem se agredir. Ventura ama muito à filha mas definitivamente não tem paciência para sua ironias e piadinhas maldosas. Se ela fizer alguma dessas nesse momento não sabe o que pode acontecer se estiver ausente. Ela tem que ficar. Ventura ao ouvir seu apelo insistiu:

Ventura: Por favor.

Seu pedido tocou Sônia. Ela olhou-o, pediu calma e se retirou. De certa forma, Ventura e Angélica precisam conversar e quem sabe, aparar suas arestas. Preocupada subiu as escadas para seu quarto. Espera que nenhum dos dois se exaltem ao ponto dela ter que descer e separar uma briga. Ventura nunca deu uma tapa em Angélica mas nesses 4 anos já ameaçara fazer isso algumas vezes.
Ele continuou.

— Quer dizer que é assim que você me ataca? Faltando ao jantar, saindo à noite e voltando à essa hora só para que eu ficasse preocupado?
Angélica: Não foi por você. Foi por mim. -Respondeu quase que em um sussurro-

A resposta de Angélica contemplou uma emocionalidade serena. Mesmo distantes, Ventura ainda a conhece bem. Ela não iria com um garoto em um Concerto se não estivesse minimamente envolvida com ele. Muito menos, se atreveria à correr pela areia descalça e de vestido como se isso fosse algo clichê. Além do mais, ela estava linda! Não se arrumaria tão bem apenas para ouvir uma boa música. Ela queria chamar a atenção e seduzir alguém que se tornou bem especial.

Ventura: Gosta dele?
Angélica: Dele quem? -Fez-se de desentendida-
Ventura: Desse amigo com quem você saiu. Nunca me contou que tinha amigos meninos.
Angélica: À muito tempo você não sabe mais das minhas coisas pai.
Ventura: Mas eu estou tentando filha. Estou tentando de tudo para me aproximar de você mas você se fechou a tal ponto que não sei mais quem é. -Olhou-a com ternura-
Angélica: Continuo sendo a mesma, apenas não sou mais uma criança que precisa te contar tudo.
Ventura: Você não respondeu a minha pergunta. Gosta dele?
Angélica: Não. Não queira saber nada de mim pai. Não adianta mais. -Disse com seu tom rude começando a subir as escadas-
Ventura: Ainda não acabamos de conversar Angélica. -Disse da sala ao vê-la subir-
Angélica: Eu não tenho mais nada a te dizer. -Respondeu em meio aos degraus- Eu saí com um amigo. Não deu pra avisar. Fomos à um Concerto. Ele me deixou aqui e foi isso. No mais, eu quis sim te atingir por todas as vezes que me deixou esperando durante todos estes anos. -Subiu-

Ventura Sentou-se no sofá. O que mais ele poderia dizer ou perguntar? À cada dia mais se distancia de sua filha. Agora ela tem um suposto namorado e ele nem sabe quem é. Como gostaria de compartilhar com ela esse momento, tem tantas histórias para contar. Sofrera muito por amor quando Érika terminou o noivado sem qualquer motivo plausível. Quer de todas as formas ensinar a filha a se proteger dos perigos do amor. Não será possível. Angélica jamais o escutaria. Triste, ele fica à pensar.
Angélica entra em seu quarto. Já havia um tempo que não se sentia preenchida. André não era o cara perfeito, ao contrário, eles não tem nada a ver além de uma excitante química nos beijos que trocam. Ele nem curtiu correr pela praia como ela fez, mas não pode negar que ele vem sendo sua companhia para seus momentos de solidão. Olhou para o espelho e começou a tirar seus apetrechos. O anel que André lhe deu era realmente muito bonito e colocou-o em uma caixinha própria ao lado de sua penteadeira. Seu pai é tão desligado que nem percebeu o anel. Antes ele perceberia qualquer pêlo de sobrancelha da filha fora do lugar. Tudo que ela quer na sua vida é fazê-lo sentir tudo que sentiu quando se distanciou dela. Tirou então seu vestido preto sujo de areia e foi tomar banho. André não mandou ainda nenhuma mensagem apaixonada, ou ele dormiu ou finalmente conseguiu entender o recado que lhe dera sobre respeitar seu espaço.

O Rio de janeiro contempla uma manhã acalorada de sábado. Muitos moradores estão se divertindo na piscina do condomínio. Ainda na primavera o relógio já marca 30 graus às 9 da manhã. Alguns garotos estão jogando futebol na quadra, atividade quase que corriqueira nos finais de semana. O que também gera briga entre as meninas de condomínio que treinam handebol no mesmo período. Essa enorme confusão levou a associação a estipular horários alternados para o uso de cada um.
Na casa da família Grácia, Rogério acabara de receber alta do H.U.E. Ele está feliz por estar em casa e mais uma vez prometeu à si mesmo não beber ao ponto de expor novamente sua família. Cristina está mais aliviada e tranquila, não foi dessa vez que perdeu seu marido para o alcoolismo. Anabela que passou o dia anterior preocupada com o pai também respira aliviada. O pai que tanto ama estava em casa e ela poderia agora brincar com ele como sempre faz nos finais de semana.

Casa da família Fernandes Grácia

Rogério está sentado à mesa pensativo, acabara de tomar seu café da manhã. A casa está silenciosa, Cristina saiu para as compras e Anabela está dormindo. Mariane que acabara de acordar entra na cozinha, respira fundo ao vê-lo, ainda não sabia que seu pai tinha chegado. Em silêncio dirige-se à geladeira para pegar um copo de leite.

Rogério: Filha... -Chamou-a com chateação ao vê-la entrar-
Mariane: Não me chame de filha! Não sou sua filha! -Disse pegando o leite e colocando no copo sobre a mesa-
Rogério: Por favor! Não faça isso comigo! Eu tenho tentado melhorar. -Pediu quase que com imploro-
Mariane: Estou vendo. Tomando 20 cachaças ao invés de 21. -Sentou-se-
Rogério: Eu sei que deve se sentir muito envergonhada por tudo que tenho feito à você.
Mariane: Vergonha não só, mas sinto raiva. Não por chegar gritando bêbado na escola, na praça ou nos eventos festivos. Não por eu sempre ir com a minha mãe te buscar caído na rua ou abrindo a porta e receber algum dono de bar te segurando. Isso é fichinha perto de tudo que já me fez. Eu sinto raiva por me bater! Por bater na minha mãe. Por nos deixar marcas que temos que esconder das pessoas para que você não seja denunciado, para que você não vá para a cadeia por agressão a mulher, para que a Ana não tenha uma pai criminoso. Quantas vezes na escola eu já tive que esconder suas agressões? Quantas vezes em pleno calor de 40 eu tinha que usar roupa de frio para esconder as marcas roxas pelo corpo porque você chegou bêbado e me bateu assim... sem qualquer motivo? E o quê dizer da minha mãe? Quantas humilhações ela já aguentou por você? Quantos chutes, tapas, palavrões? E você ainda quer que eu te chame de pai? Quer que eu tenha compreensão sendo que todos os tratamentos que buscamos você recusou? O seu trabalho pagou uma clínica para que você se desintoxicasse. Bancou seu tratamento e o que você fez? Fugiu! -Gritou- Fugiu como um covarde! E agora quer que eu tenha qualquer consideração por você? Que consideração você teve por sua família? Temos que viver escondendo da Ana suas bebedeiras e agressões e você ainda quer que eu te considere como meu pai? Não! Eu não tenho pai, eu nunca tive e não vai ser agora que eu vou ter. -Desprezo-
Rogério: Mariane, tudo que eu mais queria era que você se sentisse orgulhosa de mim.
Mariane: A única coisa que consigo sentir por você é desprezo. Se dependesse de mim, nunca mais olharia para você. Minha mãe disse que seu maior desejo era ir à minha festa de 15 anos.
Rogério: Sim. É o meu maior desejo. Queria muito compartilhar com você este momento. Sempre quis dançar a valsa com você. Vê-la se tornando uma mulher.
Mariane: Esquece! -Tom firme- As únicas lembranças que tenho de você Rogério são agressões, tapas, gritos. Jamais dançara valsa comigo sabe por quê? Porquê pra mim você morreu! Você morreu naquele dia em que deu o primeiro tapa na minha mãe. Você morreu quando trocou deliberadamente sua família por uma garrafa de pinga. Por isso, espero que você tome mil cachaças e tenha a decência de não aparecer na minha festa. Eu não quero você lá. Sua filha por enquanto, é a Anabela, apenas ela. -Saiu-
Rogério: Mariane... me perdoe! -Gritou chorando na mesa-

Rogério não se conforma com a forma em que perdeu sua filha sem perceber todo o mal que causou à ela. E Cristina? Como é possível que ainda esteja com ele depois de tudo que já fizera a ela: Ela deve mesmo o amar. Lembrou-se do primeiro dia que deu o primeiro tapa nela. Foi porque não tinha feito o jantar. Ele havia chegado de mais um de seus encontros com os amigos após o trabalho e já bêbado exigiu o jantar que Cristina não tinha feito. As meninas queriam lanchar e ela preferiu pedir hambúrgueres pelo tele-entrega. Claro que havia guardado um pra Rogério e ele com raiva jogou-o no chão e deu-lhe um tapa na cara ao saber que aquilo era sua janta. Outra vez foi quando Mariane chegou do La Porte 1 hora após o combinado. Ela estava com o namoradinho da escola e ele bateu nela deixando hematomas por todo o seu corpo. Como foi um imbecil! Agora está fora da vida dela por conta desse maldito vício que até hoje não conseguiu largar. Sente-se um monstro à cada vez que lembra de toda a violência que cometera com sua família e chorando ele fica por alguns minutos.

Ventura está em seu quarto. Hoje tem que ir para o plantão e acabara de sair do banho. Em cima de sua cama está seu jaleco branco como algodão que Soninha passara com muita dedicação. Que mulher de ouro eu tenho! Pensou. Muitas vezes acha que não é merecedor de uma mulher como ela, principalmente porque sabe que nunca conseguiu amá-la como ela o ama. Se o amor pode ser medido, é notável que ela o ama infinitamente mais que ele. Talvez porque ainda esteja preso ao amor que sempre sentiu por Erika e todas as sensações boas que ela lhe traz. Não há um dia sequer que não se culpe por não dar à Sônia toda a sua atenção. Como pôde virar um viciado em trabalho? Ele que recrimina tanto Érika está fazendo a mesma coisa. A ganância por se tornar suficiente bom e bem remunerado acabou tornando-o cego pelo trabalho. Hoje tem uma excelente condição financeira, status, mas não tem uma família. Ao menos, não tem mais uma filha. Quantos momentos importantes deixara de acompanhar. Quantas festas de aniversário? Quantos recitais? Festas na escola? Como se orgulhava de cada nota boa, de cada cartão de dia dos pais, cada melodia tocada no violino. Como se orgulhava de ser pai. Daria tudo, sua condição financeira, seu status para ter de volta os momentos com sua filha. Nenhum currículo por melhor que seja substitui essa sensação. Essa culpa e esse vazio ele vai carregar pra sempre. A única coisa que pode fazer é tentar ser diferente de agora em diante, se conseguir recuperar o tempo perdido. Assim ele começa a se arrumar para o plantão. Não pode se atrasar.

Casa da família Mercantelly Alves

Sônia está terminando de colocar a mesa junto com Cíntia. Cíntia foi contratada para ajudar Sônia desde que engravidou. Por trabalhar demasiadamente, Ventura achou que ela fosse precisar de uma ajuda para arrumar toda aquela casa ainda mais com a chegada de um bebê. Hoje ela é uma fiel amiga de Sônia. É com ela que Sônia passa a maior parte do tempo, sai para fazer compras e atreve-se a fazer algumas receitas novas.
Após colocarem a mesa Sônia chama por Ventura.

Sônia: Tura, você não vem almoçar? -Gritou-
Ventura: Cadê a Angélica? -Perguntou chegando à cozinha-
Sônia: Foi tomar banho. Já deve estar vindo. -Respondeu colocando o último prato à mesa-
Ventura: Sabe que estava pensando? De no fim do ano tirar umas férias e irmos viajar para fora do país. Eu, você e nossa filha sem precisar sair correndo para atender um paciente. -Sentou-se-
Sônia: Eu ia adorar. -Sorriu-
Ventura: Amor, eu sei que tenho falhado com você. -Levantou-se e sentou-se na cadeira ao lado de Sônia- O trabalho tem me consumido muito. Tenho que me dividir entre o HUE e a Climédia o tempo todo, ainda mais esses tempos por causa do doutorado, mas eu prometo que agora tudo será mais leve.
Sônia: Nunca te cobrei nada Ventura. -Olhou-o com ternura- Se eu não tivesse engravidado naquela época ainda sim teria se casado comigo?
Ventura: Claro que teria! Angélica não nos atrapalhou em nada, apenas antecipou nossos planos -A beija quando Angélica entra na cozinha-
Angélica: Ai que melosice! -Resmungou sentando-se à mesa-
Ventura: Não foi você que saiu ontem à noite com um amigo? -Perguntou sentando-se em seu lugar novamente-
Angélica: Eu não fiquei aos beijos com ele. -Serviu-se-
Ventura: Então não estão namorando?
Angélica: Claro que não! -Contundente-
Ventura: Ele é da sua turma?
Angélica: O quê isso importa?
Ventura: Me importa porque você é minha filha. Queria que compartilhasse suas coisas com seu pai. Como foi o Concerto?Angélica: Já vi melhores.
Ventura: Você é muito exigente e esse seu amigo gosta de música?

Angélica olhou para seu celular. Não quer responder à pergunta de seu pai. Sua vingança vai ser não dar detalhes nenhum acerca da sua vida para ele. Por algum milagre André ainda não lhe enviara nenhuma mensagem de bom dia como sempre faz. Até que ele está mais controlado. Ventura insiste na pergunta. Ele sabe que a filha não levaria alguém à um Concerto se não estivesse gostando nem um pouco do garoto.

— Filha, o quê aconteceu? Eu só quero saber quem é esse seu amigo. Qual a dificuldade em me dar uma simples informação?
Angélica: Você não pode reclamar de nada porque nunca está aqui. Vive trancado naquele hospital com aqueles doentes que nem da sua família são e a sua família mesmo você nem olha na cara. Minha mãe é uma idiota por ainda ficar passando sua roupinha, fazendo sua comidinha e se possível, lamber o chão para você passar! -Raiva-

Como sentiu-se aliviada em dizer aquilo para seu pai. Estava realmente entalado na sua garganta todas aquelas coisas. Dizê-las e machucá-lo com todas aquelas palavras não poderia ter feito tão bem à ela. Finalmente ele estava passando por tudo que ela passou. Que vontade tem de bater nele até que essa raiva saia de dentro dela, mas como não pode, só lhe resta dizer palavras duras.
Ventura sempre entendera toda a rebeldia de Angélica em relação à sua pessoa mas ele não podia permitir que ela se referisse à Sônia com desrespeito sendo que tudo que ela fez a vida inteira foi cuidar dela como todo amor e dedicação. Ele então, grita irritado:

Ventura: Já chega Angélica! -Deu um soco na mesa e levantou-se irritado- Peça desculpas imediatamente à sua mãe! -Olhou-a com firmeza-
Angélica: Não vou pedir! -Desafiou- Não acho que ela mereça um marido como você. Que nunca está com ela. -Olhou-o com raiva-
Ventura: Não vou permitir que fale assim comigo! -Atacou-
Angélica: Eu falo como eu quero! -Levantou-se da mesa em desafio- Seja com você ou com qualquer outra pessoa! -Olhou-o fixamente-
Ventura: Comigo não! Você tem que me respeitar como seu pai! -Gritou-
Angélica: Meu pai? Cadê? Nem em casa você fica. Que pai você é? Não é nem marido que dirá pai.

Cíntia que estava em outra parte da cozinha atenta à discussão aproxima-se de Angélica com uma bandeja de suco.

Cíntia: Angélica seu suco.
Angélica: Engole esse suco! -Respondeu rude saindo da cozinha-
Ventura: Angélica! -Gritou-

Ventura segue atrás de Angélica irritado. Ele mais do que ninguém poderia permitir que Angélica começasse a destilar sua grosseria por estar com raiva dele. Era no mínimo injusto com as pessoas que sempre cuidara dela. A raiva sim era permitida mas a ingratidão não!
Sônia sempre serena e com medo de uma possível agressão que vem sendo ensaiada desde a noite anterior tenta apaziguar a situação segurando-o pelo braço.

Sônia: Tura calma! Angélica está irritada com tudo que vem acontecendo. Dê um tempo pra ela. -Disse levando-o novamente para a mesa-
Ventura: Tempo? Que tempo? -Sentou-se- Mais desculpas do que eu já pedi impossível! Angélica está passando dos limites. Nos faltar com o respeito? Isso eu não vou aceitar. Se ela quiser almoçar que almoce frio ou então que ela mesma esquente ouviu Cíntia? Já chega de mimos com Angélica. -Irritou-se-
Cíntia: Sim doutor. -Saiu-

Ventura levantou-se da mesa, não tinha mais clima para continuar o almoço. Brigar com Angélica daquela forma é uma das poucas coisas que o faz perder a cabeça e o equilíbrio emocional. Ultimamente vem sendo uma luta diária manter a harmonia diante de uma situação tão conflituosa.
Sônia interveio ao vê-lo levantar.

Sônia: Você não vai almoçar?
Ventura: Me desculpe meu amor. Perdi a vontade. Vou pro H.U.E. Nos falamos depois. -Beijou-a com ternura-

Saiu pela porta em uma mistura de irritação e chateação.

Sônia: O que está havendo com esta menina meu Deus? -Ficou à pensar-

Angélica sempre foi geniosa e temperamental. Sua personalidade sempre trouxe uma dureza especial mas ela nunca havia faltado com o respeito à qualquer um de seus pais e nem com Cíntia que sempre cuidou dela desde que nasceu. Não é possível que todo o distanciamento do pai tenha tornado-a uma menina sem educação ao ponto de destratar até os que a amam. Angélica não pode ter se tornado uma menina tão dura e sem sentimento como tem se mostrado durante esse tempo. Isso a preocupa muito.

A casa de Clara possui ao fundo um enorme jardim com uma bela piscina, churrasqueira, flores e um balanço que ela gosta de sentar ao anoitecer para observar as estrelas Clara tem um amor gigantesco por esse jardim, foi nele que construiu uma boa parte das suas fantasias infantis. Nele ela brincava e sentia-se menos solitária com a ausência de sua mãe desde os 7 anos. É nele que encontra um acalento para os seus dias de solidão. Como é um sábado de sol e não tem qualquer atividade escolar, gosta de nadar com seu pai. Carlos sente-se feliz em poder estar com a filha. Ninguém se sentiu tão feliz com uma gravidez inesperada tanto quanto ele. Já estava se acostumando com a idéia de que nunca teria filhos. Érika sempre foi tão contundente em relação à isso que não lhe dava qualquer espaço para argumentação. Mesmo com um desejo enorme em ser pai ele a amava demais para isso ser um empecilho para o casamento. Quando Érika contou-lhe aos prantos que estava grávida seu coração acelerou e a única coisa que conseguiu fazer foi enchê-la de beijos e tirar de sua cabeça um possível aborto. Quando Clara nasceu sua alma se iluminou de tal forma que desde então nunca mais fôra o mesmo. Hoje todas as suas ações são baseadas em sua filha. Por ela, Carlos passou a cuidar da saúde, abandonou o vício do cigarro, parou de dirigir embriagado e optou por levar uma vida mais saudável. Ele precisa ter saúde para cuidar da sua filha como um pai deve fazer e assim ele tem feito até hoje.

Casa da família Guimarães Diáz

Clara e Carlos se divertem na piscina. Quem olha os dois acham que se trata de dois irmãos e não de pai e filha. Carlos pega Clara no colo e a joga na água, Clara por sua vez, grita assustada por seu pai tê-la pêgo de surpresa.

Carlos: Vamos ver quem chega do outro lado primeiro.
Clara: Pai, você sabe que eu não tenho fôlego para isso.

Mariane entra no jardim e fica a observá-los. Olhar para eles brincando felizes na piscina a faz lembrar da época em que podia se divertir com seu pai dessa forma. Hoje ela não sabe se saberia se aproximar dele. As poucas lembranças que tem dele surge em sua mente como fragmentos. Para ela, Rogério agora é um estranho vivendo em sua casa. Em um suspiro nostálgico causado pelas boas lembranças, aproxima-se um pouco mais da piscina.
Clara que ficou a jogar água com um copo em Carlos a vê e a cumprimenta.

Clara: Oi amiga!
Mariane: Carla me disse que estava aqui. Oi Carlos! -Cumprimentou-
Carlos: Oi Mariane!
Clara: E o Rogério como está?
Mariane: Bem, por enquanto.
Clara: Pai eu já volto.
Carlos: Eu vou treinar enquanto isso.

Clara sai da piscina pela escada pegando sua canga que estava sobre uma das cadeiras à beira e continuou sua conversa com Mariane dirigindo-se à uma das mesas da churrasqueira.

Clara: Ai Mari, eu sei que tem motivos de sobra, mas me dói tanto a forma dura como o trata.
Mariane: Você vem falar de dor.
Clara: Eu sei que ele te machucou muito, mas não deixo de ter uma certa pena de tudo que ele se tornou. -Lamentou sentando-se à mesa-
Mariane: O que ele se tornou foi ele mesmo quem procurou Clara. Você sabe que fizemos de tudo para ajudá-lo mas ele não quis. -Pausa- Hoje nos falamos. -Sentou-se-
Clara: E aí?
Mariane: A mesma ladainha de quando ele volta de uma desintoxicação. Me pediu perdão, disse que esta tentando fazer diferente, que ama muito nossa família. Enfim... estas coisas de sempre.
Clara: Você pensa mesmo em não chamá-lo para sua festa de 15 anos?
Mariane: Sabe o que ele me disse? Que seu maior sonho era poder dançar a valsa comigo.
Clara: Deve ser muito dolorido para ele.
Mariane: Você vai ficar defendendo as atitudes do Rogério até quando Clara? -Brava-
Clara: Não é questão de defender, mas você também não pode me impedir de que fique sensibilizada com ele. Não deve estar sendo fácil para ninguém esta situação.
Mariane: Se fosse pelo Rogério esta festa nem sairia. Ele nunca tem salário porque sempre está devendo. Se não fosse por alguns bicos com cabelo que minha mãe faz escondido talvez eu nunca tivesse uma festa e agora você quer que eu o chame?
Clara: Não disse isso. Você ainda pensa em não chamá-lo?
Mariane: Penso. O Rogério não entrará na minha festa. Lembre-se que ela é só para conhecidos e ele já deixou de ser um conhecido pra mim à muito tempo.
Clara: Eu espero que você não se arrependa.
Mariane: Não vou me arrepender Clara. Para mim, o Rogério pode até morrer.
Clara: Sua irmã e sua mãe sofreriam muito.
Mariane: Eu sei, por isso não torço por sua morte. Só por elas.
Clara: Eu acredito que as pessoas mudem e eu espero que vocês um dia tenham a chance de reaver tudo isso que aconteceu, mas deixemos isso com o tempo. Está a fim de tomar um suco?
Mariane: Eu estou.
Clara: Então vamos na cozinha porque estou morta de sede.
Mariane: Você ficou sabendo do trabalho de física ser em dupla?
Clara: Não... quem te falou? -Saem conversando para a cozinha-

Carlos que dava algumas braçadas na piscina fica a olhar as duas. Como se dão bem! É difícil manter uma amizade tão duradoura e tão leal como a de Clara e Mariane. Elas não combinam em quase nada além de ter opiniões muito diferentes mas isso não é o suficiente para abalar a cumplicidade que uma tem com a outra. Alegre continuou a nadar ao vê-las entrar pela porta da cozinha.

Angélica está andando de bicicleta pelo calçadão da Lagoa. Mesmo tendo colocado tudo para fora na mesa do almoço sente-se triste. Não quer que seu pai fique chateado com ela mas a raiva que tem por ele é tão grande que só de ouvir sua voz sente vontade de bater até que ele fique desacordado. Sua mãe é outra que insiste em dizer que está sendo egoísta em achar que ele a abandonou quando só desejou melhorar a sua situação de vida. Quando é que os pais vão entender que não precisam de condições de vida para manter filhos? Apenas de amor? Refletiu. Se pensar bem, sua vida nem mudara tanto assim depois que ele começou a se envolver loucamente com o trabalho. Se o dinheiro aumentou só se foi para eles porque para ela continua tudo a mesma coisa. Angélica tem um cantinho secreto que só seu pai conhece e é pra lá que ela se dirige nesse momento.

Praia da Lagoa

Angélica deixou sua bicicleta na areia não se importa se alguém roubá-la. Faz isso com frequência e nada acontecera até hoje. Quem vai se importar com uma bicicleta à toa? Ela tira seus meus chinelos ficando a caminhar pela borda da praia enquanto a água toca seus pés. Já são quase seis da tarde e o vento começou a contemplar seu rosto secando suas lágrimas contidas que insistiam em cair. Um longo caminho de pedregulhos e algumas plantações à leva à uma enorme pedra e de lá pode ver todo o mar contemplando o horizonte. Ao sentar-se foi surpreendida com várias lembranças dos momentos que passara com seu pai. De quando saiam juntos para andar de bicicleta pelo calçadão e de quando paravam sempre em um quiosque para tomar água de côco. Ela já não aguentava mais tomar aquela coisa, mas fingia tomar só porque sabia que seu pai adorava compartilhar esse momento com ela. Quando era criança ele a levava à museus. Foi lá que aprendeu tudo que sabe sobre arte. Com 6 anos ele lhe mostrou uma obra de Van Gogh e explicou em um único quadro, tudo sobre ele . Talvez seja por isso que consegue ver arte em tudo, até no horizonte marítimo. Seu pai sempre fôra muito inteligente, ela dizia que ele era super-dotado. Nunca tocara nenhum instrumento mas conhecia música como ninguém. Era ele quem afinava seu violino quando ainda não sabia. Ele dizia que só a arte poderia salvar as pessoas desse mundo tão difícil. Pelo menos para ela, essa é uma frase verdadeira. Seu pai a ensinou a gostar de filmes europeus. Perdera a conta de quantas vezes foram ao cinema para assistir à esse estilo que quase ninguém gosta. Ela particularmente não consegue até hoje gostar de filmes hollywoodianos. Ventura sempre a ensinou muitas coisas boas e bem diferenciadas. Nunca conseguira encontrar ninguém que gostasse daquilo que gosta e isso que a faz tão solitária, mas fôra educada assim. Aprendeu a ver o mundo de uma maneira única ou pelo menos igual à seu pai e isso a tornou uma pessoa esquisita que seus amigos insistem em dizer que é.
Sua memória trouxe à tona uma de suas festas de aniversário. Seus pais tinham feito uma super-produção em um salão de festas muito requintado do Rio. Tinha de tudo, até palhaço e ela nem gosta de palhaço, mas seu pai não poupou esforços e nem dinheiro para lhe dar a festa dos seus sonhos. Era sua festa de 10 anos, ela tinha escrito uma poesia para seu pai. Nunca achara que um simples obrigada pudesse abarcar tudo que ele tinha feito por ela. Ele sempre foi muito profundo e sempre achava que merecesse como agradecimento algo tão profundo quanto sua forma de ser. Neste dia preparou uma poesia e iria recitá-la assim que ele chegasse. Estava ansiosa para que o momento acontecesse e essa foi a sua primeira frustração. Ventura não pôde comparecer à festa porque estava agarrado com os dados da pesquisa que tinha que entregar no dia seguinte. Ela lamentou, chorou mas entendeu e assim sucederam outras festas mais. 11 anos, 12, 13, 14, comemorações na escola, recitais e sempre a mesma justificativa, a pesquisa ou algum paciente à beira da morte precisando de cuidados médicos. Ou então, congressos e lançamento de livros. Lembrou-se todas as inúmeras vezes que teve febre ou enxaqueca de saudades dele que às vezes passava semanas fora. Como já esperara por ele e ele sempre em outro lugar, com outras pessoas. Com um intenso sentimento de abandono, começa chorar. Como isso lhe dói! Como lembrar dele provoca sensações que quer de todo o jeito arrancar de dentro de si. Seu pai é o culpado por se sentir assim, tão sozinha, tão alheia ao mundo. Ele era o seu mundo e agora não tem nada. Ninguém para sequer compartilhar algum de seus desejos incomuns. Ele não deveria ter feito isso comigo. Eu não merecia sofrer com toda essa distância. Por que me abandonara dessa forma? Começou a chorar compulsivamente.

Angélica: Não! Eu odeio você por ter me abandonado pai! Te odeio com todo o meu coração! -Disse chorando entre soluços-

Ali ela fica chorando. Havia prometido que não choraria mais por ele mas não consegue. Não derramar qualquer lágrima por toda essa situação vem sendo uma missão quase impossível. Como não chorar sempre que se lembra de toda essa distância? Não conseguindo controlar o choro ouve-se uma mensagem no celular, é André com tua sua mansidão.

Mensagem de celular:

Boa tarde princesa! Que seu dia seja maravilhoso! Nunca se esqueça que gosto muito de você e já estou com saudades!
André.

Em meio as lágrimas que escorriam pelo seu rosto esboçou um sorriso doce. A mensagem de André chegou em um momento muito especial. Parece que adivinhou que precisava ouvir que alguém se importava e sentia sua falta. Dessa vez, não ia apagar sua mensagem como sempre faz, ao contrário, ali ficou à olhá-la com uma ternura especial. Talvez namorá-lo não será tão ruim assim, afinal, ele já fora até em um Concerto com ela.

Em um hotel do Rio de Janeiro, Olga e seus dois filhos, Victor de 16 anos e Lucas de 7 vieram tentar uma vida nova na cidade, chegaram à apenas dois dias. Olga era interprete de uma empresa multinacional em São Paulo na qual seu marido era dono. Ambos tinham uma vida confortável em um condomínio para milionários. Porém, seu marido viciado em jogos de azar começou a afundar a empresa em dívidas e ao tê-la tomada pelos mafiosos não suportou perder o poder que tanto tinha e se suicidou deixando para Olga todas as pendências de sua vida. Ela ainda tentara de alguma forma reaver a empresa mas sem sucesso, acabou por decretar falência. Ainda com uma renda satisfatória adquirida durante os anos de trabalho percebeu a dificuldade de manter o padrão de vida onde vivia e com as intensas ameaças de ainda tirar dela o pouco que lhe resta decidiu abandonar a cidade e vir para o Rio com medo de que aconteça algo à seus filhos, os dois já foram ameaçados de sequestro várias vezes.
Elisa, uma amiga de longa data se mudou para o Rio assim que casou com Rômulo e mesmo com a distância, nunca perderam o contato uma com a outra. Ela e o marido são donos de uma empresa de contabilidade bem conhecida na cidade por cuidar das finanças das maiores empresas do Rio de Janeiro. Elisa que sempre acompanhou toda a história da amiga e muito preocupada com o desfecho que poderia tomar decidiu empregar a melhor amiga em sua empresa com a promessa de ajudá-la a ter uma vida mais tranquila. Ela inclusive, se mudara também para um dos apartamentos vagos do condomínio para ficar próxima à Olga e protegê-la de qualquer ameaça que possa surgir de agora em diante. Está muito feliz em ter a amiga tão próxima. Olga usou todo o seu dinheiro para comprar a casa de quase meio milhão no condomínio. Feliz, ela e seus dois filhos entram no carro da amiga e seguem para o bairro, os entregadores já estão à caminho com a mudança.

Praça dos Amores

No condomínio, um enorme caminhão passa pela portaria dirigindo-se à uma casa recém-vazia no final da rua. Á casa pintada em verde e com um enorme portão pertencera semanas antes à uma família que se mudara para fora do país. Elisa assim que soube, imediatamente fez contato com Olga e organizou tudo para que a amiga viesse com total segurança. Não é uma casa grande, nem a das mais caras, mas é do tamanho suficiente para quem veio tentar uma vida nova sem qualquer ganância no Rio de janeiro.
Os entregadores começam a retirar os imensos móveis que restaram da casa de Olga cujos quais tem imenso carinho. Enquanto ajuda os entregadores a colocá-los na calçada vai indagando:

Olga: Cuidado com os meus móveis!
Victor: Quero só ver como vamos arrumar tudo isso. -Comentou com um desdém-

Desde que seu pai morrera Victor nunca o perdoara por toda situação em que deixou sua família. Várias vezes ficou sem ir à escola por ameças de rapto e mesmo com medida protetiva era sempre surpreendido com mensagens em seu celular e telefonemas anônimos. Perdera a conta das vezes que teve que sair escoltado da escola e das inúmeras vezes que trocou de número de celular por estar sendo ameaçado. Por conta disso também fôra obrigado a deletar todas as suas redes sociais o que o levou a perder contato com todos os seus amigos. Já fora sequestrado uma vez e nunca mais quer passar por essa situação. Ele sabe que mudar de cidade não o afastara do enorme medo que vive. As pessoas com quem seu pai se envolveu pode achá-los em qualquer lugar que esteja. É tudo uma questão de tempo.
Elisa prossegue:

Elisa: Não se preocupe Victor. O Rômulo vai dar uma mão.
Cléris: Depois que arrumar os nossos moveis né mãe. -Interveio-
Olga: Quanto à isso não se preocupe. Algumas coisas o Victor pode me ajudar, o Lucas também.
Victor: O Lucas? Ele não sabe nem se limpar. -Provocou-
Elisa: Olga, o outro caminhão deve estar vindo. Você deu à eles o endereço direitinho?
Olga: Sim Elisa, muito obrigada! Não sei o que seria de mim sem você. -Sorriu agradecida-
Victor: O outro faz as merdas e agora a gente fica dependendo de favor das pessoas. Que vergonha! -Resmungou-
Elisa: Não é vergonha pedir ajuda Victor. Sua mãe e eu somos amigas e é isso que faz os amigos, ajudamos uns aos outros.
Victor: Se você diz. -Ignorou-
Elisa: Por quê você não vê essa possibilidade como uma mudança de vida?
Victor: Porque eu não acredito que haja possibilidade de mudança saindo das condições em que saímos de São Paulo.
Olga: Victor por favor, este assunto ficou lá!
Elisa: Vocês não querem conhecer a casa?

Interveio tentando finalizar uma possível discussão.

Lucas: Eu quero! -Respondeu entusiasmado-
Elisa: Então vamos entrar. -Disse abrindo a porta-

A casa não é muito grande. É uma casa térrea com apenas 5 cômodos em relação as gigantescas casas do condomínio. Sua arquitetura compõe uma sala, cozinha, 2 quartos e uma pequena churrasqueira nos fundos. Não é nada comparado a mansão em que viviam em São Paulo, mas nesse momento, Olga não está podendo escolher muito e o que vier está de bom tamanho. Elisa já fizera muito por ela a empregando na empresa do marido até que consiga se estabilizar financeiramente.

Cléris: Nossa que casa massa! -Exclamou ao entrar na enorme sala-
Lucas: Posso escolher meu quarto mamãe?
Olga: Depois a gente vê isso filho. Primeiro temos que colocar todas estas coisas para dentro.

Elisa e Olga começam a colocar alguns pequenos móveis para dentro enquanto Cléris continua a conhecer todos os cômodos.

Cléris: Irada esta casa Victor. O quê achou? -perguntou abrindo as portas dos cômodos-
Victor: Legalzinha. -Disse desinteressado parado na sala olhando sua mãe colocar as coisas para dentro junto com Elisa.-
Cléris: Já vi que você não gostou nem um pouco da ideia de ter vindo pra cá. -Observou-
Olga: Deixa ele Cléris, logo ele se acostuma. -Intrometeu-se arrastando sua enorme cômoda pela porta da sala-
Lucas: Eu já me acostumei. -Disse da porta que dá pra a churrasqueira- Vem ver. Tem uma churrasqueira aqui atrás Victor. Vem ver. -Puxou-o-
Victor: Me solta garoto! -Rispido-
Cléris: Ai Victor, quando tiver tudo arrumado podemos fazer um churrasco de boas vindas. -Comentou ao ver a churrasqueira-
Victor: Comigo e com você? -Ironizou sem mover-se 1 centímetro de onde estava-
Elisa: Claro que não! -Intrometeu-se- Conosco né benzinho! -Deu-lhe um beijo no rosto- Olga, eu vou ajudar o Rômulo com os móveis. Qualquer é só chamar e saiba que estou muito feliz por saber que seremos vizinhas.
Olga: Eu que tenho à agradecer Elisa.
Elisa: Cléris você vai ficar?
Cléris: Victor, depois eu passo aí. Vou dar uma mão para meu pai.
Victor: Beleza, até. -Despediu-se saindo com Elisa-
Olga: Victor me ajuda com estes móveis aqui.

Victor vai ajudar sua mãe com um semblante cansado. Já se mudara de vários condomínios e essa será apenas mais uma das inúmeras mudanças que passará ao longo de sua vida. Assim que os mafiosos descobrirem o lugar em que residem começará as ligações anônimas e as ameaças e dessa vez, nem vai adiantar muito esconder sua identidade.

Anoitece, são 7 horas da noite, o La Porte está cheio e consequentemente, o condomínio bastante movimentado. Angélica está como sempre em seu quarto compondo seus poemas. Ela tem um site na internet onde publica-os anonimamente. Mariane está brincando com Anabela enquanto Cristina fica à conversar com Rogério na cozinha. Thaís, Cibele, Isabel e Emília conversam na praça.
Clara acabara de sair do banho, pretende encontrar com as amigas mais tarde. Sábado à noite ela gosta de ficar na praça jogando conversa fora mas aproxima-se a hora do jantar e não vai perder a oportunidade de estar com sua família já que sua mãe ficou trancada na biblioteca a tarde toda resolvendo coisas de trabalho. Ao sair do banheiro com sua toalha enrolada nos cabelos confere o celular, não há nenhuma notificação nova em nenhuma da inúmeras sociais as quais pertence. Ela então troca de roupa, um short e uma camiseta é a escolha perfeita para o calor que beira os 40 graus em plena primavera. Ela imagina como será o verão, não adepta de tempos infernais, sente que terá duros 4 meses pela frente. Cantarolando a música I want it that way, desce as escadas. Já trocara de roupa e está quase na hora de jantar.

Casa da família Guimaraes Diáz

Carla está na cozinha terminando de preparar o jantar. Carlos pediu para que fizesse lasanha, sua comida favorita e uma salada bem especial para Clara que não come nada de carne. Sábado e domingo são os únicos dias da semana que ele pode jantar com a família. Érika sempre chega muito tarde do trabalho e Clara que tem atividades extra-curriculares à maior parte dos dias, muitas vezes prefere fazer um lanche ou comer fora. Alegremente cantando, Clara chega à cozinha.

Clara: Minha mãe não vem jantar Carla? -Sentou-se à mesa-
Carla: Não. Está na biblioteca e pediu para não ser incomodada.
Clara: E meu pai?
Carla: Saiu.
Clara: Sozinho? -Estranhou- Que esquisito! -Desconfiou-
Carla: Muitas coisas nesta casa são esquisitas. Vive cada um para um canto. Não conversam. Não saem juntos.

Carla tem a péssima mania de dar opinião em tudo. Por ser muito antiga na casa sente-se como da família e acha que pode intrometer-se. Clara e Carlos não se importam com seu jeito, mas Érika não suporta que se meta onde não fora chamada, afinal, ela não passa de uma empregada.

Clara: Carla? Minha mãe sempre foi esquisita assim? -Perguntou pegando algumas folhas de alface sobre à mesa-
Carla: Não! Antes da sua avó morrer ela sorria, brincava, era mais amorosa. A dona Erika sempre foi fechadona e meio mandona sabe?
Clara: Carla! -Repreendeu-

Clara não gosta que Carla refira-se a sua mãe com adjetivos perjorativos mesmo que tenha razão.

Carla: Desculpa! Meio rígida. -Corrigiu- Depois que sua avó morreu ela piorou muito. Ficou meses trancada no quarto. Só saia pra trabalhar. Chegava sempre tarde. Não sorria mais.
Clara: Não resta dúvida de que a morte da minha avó a abalou muito.
Carla: Imagina, elas eram coladas.
Clara: Queria tanto poder ajudar minha mãe, mas ela não me deixar aproximar. Nem conversar com ela eu consigo. Mesmo sabendo de tudo isso eu sinto falta de ter uma mãe. -Suspirou em um lamento-
Carla: Princesa, eu sei disso, mas você tem o Carlos. -Sentou-se à seu lado-
Clara: Ele tem sido meu suporte mesmo durante este tempo, mas mesmo assim, sinto muita falta da minha mãe. De contar coisas que só mãe pode saber. Falar sobre meu dia, das minhas duvidas.
Carla: Você pode falar pra mim princesa. Lembre-se que eu te criei desde que nasceu.
Clara: Obrigada Carla. -Sorriu- Não é que eu não confie em você, muito pelo contrário, eu te devo todo o meu carinho por ter sido uma babá tão carinhosa e cuidadosa.
Carla: Eu sei, é aquele ditado, mãe é mãe. -Levantou-se da mesa-
Clara: É, mais ou menos isso.

Clara começa a colocar sua salada em seu prato. Está com fome e não pode mais esperar por seu pai. Não sabe nem aonde foi.

Carlos: Boa noite! -Disse chegando à cozinha dando um beijo em Clara-
Clara: Boa noite pai!
Carlos: Cheguei correndo para jantar com você, mas vejo que dancei né. -Disse ao vê-la colocar em seu prato um punhado de salada-
Clara: A Carla disse que você tinha saído e não sabia quanto tempo ia demorar. Eu acabei comendo. Estava morrendo de fome.
Carlos: Tudo bem princesinha.
Clara: Carla disse que você tinha saído. Aonde foi?
Carlos: Fui dar uma caminhada.
Clara: Podemos correr amanhã. O quê acha?
Carlos: Acho ótimo e sua mãe?
Clara: Na biblioteca desde que chegou.
Carlos: Não veio jantar com você?
Carla: Não! E pediu para não ser incomodada. -Intrometeu-se-
Carlos: Este recado não serve para mim -Levanta-se da mesa saindo da cozinha enquanto Clara continua a comer seu prato de salada-

Com uma estante cheia de livros e uma mesa com 3 cadeiras compõem a pequena biblioteca. Ela é um dos cômodos mais reservado da casa. Sempre que alguém está lá é porque quer ficar sozinho. Muitas vezes ela deixa de ser um local de estudos passa a ser um local de reflexão. Carlos abre a porta, não pode negar que Érika fica sexy com seus óculos de trabalho em cima de uma pilha de papéis. Carinhosamente chego por trás e a abraça carinhosamente.

Érika: Como foi a caminhada?
Carlos: Ótima, mas teria sido melhor se você estivesse comigo. -Beijou-lhe no rosto-
Érika: Eu não gosto de caminhar Carlos. Sabe disso.
Carlos: Você sempre gostou. Manter uma vida saudável não te importa mais? -Voltou-se para a frente da mesa onde estava-
Érika: Carlos, não começa de novo com estas cobranças.
Carlos: Cobro porque estou vendo você se desligar à cada dia mais da sua família, da sua filha, de mim. O quê está acontecendo Érika? Não é possível que depois de todos estes anos você ainda esteja carregando o luto pela morte da sua mãe. -Sentou-se na cadeira à sua frente-
Érika: Já te disse que não quero falar nisso. -Finalizou voltando à olhar seus papéis-
Carlos: Tudo bem. Não falamos nisso, mas você não pode sacrificar à mim e a Clara por conta da sua dor.
Érika: Você fala isso como se fosse os únicos no mundo.
Carlos: Posso dizer por mim e pelo que sinto. Se você age da mesma forma com os demais eu não posso fazer muita coisa. O que eu sei é que você à cada dia mais se afunda no trabalho e não adianta dizer que é para dar uma vida melhor para Clara porque eu sei que não é.
Érika: Eu gosto de trabalhar. Pronto! -Respondeu com contundência-
Carlos: Eu também, mas não tenho um pingo de vontade de fazer da minha biblioteca uma extensão do meu escritório.
Érika: Nós saímos ontem.
Carlos: Vai contabilizar as saídas?
Érika: Você veio aqui só para me cobrar?
Carlos: Não, chega de cobranças. Você não pode me dar mais do que está me dando mesmo sabendo que você é capaz de fazer mais que isso. O que eu venho pedir é só que não descuide da sua filha. Clara esta entrando em um momento delicado da vida e vai precisar muito de uma mãe que a oriente, a aconselhe e principalmente, que a proteja.
Érika: Clara já tem 14 anos, sabe se virar sozinha, não é mais nenhuma inocente.
Carlos: Não se trata dela ser ou não inocente, trata-se de relação Érika. Você pode perdê-la com essa distância. Pode perder sua filha pra sempre. Pensa nisso. Espero que nessa noite, possamos desfrutar o jantar com sua presença. -Sai fechando a porta deixando Érika a pensar-

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Que vontade de chorar à toma, como ama esse homem e ama também sua filha mas estar com eles é tão difícil pra ela. Olhar Clara e Carlos se dando tão bem e ela tendo que segurar à 7 chaves tudo que sabe sobre eles é quase que insuportável. Se ao menos pudesse compartilhar com alguém como compartilhou com sua mãe, talvez tudo isso ficasse menos pesado e ela voltasse a sorrir, ao menos, aproveitaria melhor o tempo com sua família. Seu desejo sempre fôra ter uma e sente-se como se estivesse jogando-o no lixo. Por um momento arrepende-se de ter terminado com o Ventura. Ela o amava e terminou por insegurança, por medo de sofrer. Se estivesse com ele talvez nada disso estaria acontecendo. Quantas vezes já pensou em falar e tirar esse peso de dentro de si. Pouco à pouco sente que perde sua filha e seu marido e não pode fazer nada para evitar. Como Sônia e Ventura reagiriam se soubessem de tudo? Angélica, Carlos e principalmente Clara? Ela ficaria mais aliviada se pudesse contar mas não tem o direito de atrapalhar a vida de todos os envolvidos que sempre seguiu tranquila até agora. Alguns segredos são levados para o túmulo e esse é um deles.

Thaís e Cibele conversam na praça que está menos movimentada do que as outras partes do condomínio. As outras meninas estão com outras ocupações nesse sábado acalorado. Emília teve um aniversário na família. Isabel está responsável por cuidar da irmã de 8 meses enquanto seus pais trabalham à todo vapor no La Porte. Mariane não pode sair após às 19 horas e Angélica está a tocar seu violino após ter escrito algumas poesias horas antes.

Praça dos Amores

Thaís que conversa com Cibele sentada em um dos bancos da praça, vê luzes e movimentações na casa que fora desocupada semanas antes e comenta:

Thaís: Nossa! Parece que temos vizinhos novos.
Cibele: Aonde? -Procurou-
Thaís: Ali na casa que era dos Nogueira.
Cibele: Olha! É mesmo! -Exclamou olhando para a casa um pouco distante-
Thaís: Ninguém merece! -Reclamou-
Cibele: Ué? Não gostaria de ter vizinhos novos?
Thaís: Ahh sei lá. Na verdade pra mim tanto faz. -Indiferente-
Cibele: Vamos lá dar uma olhada Thaís. -Animou-se-
Thaís: Ai Cibele pra quê?
Cibele: Vamos. -Insistiu- Vai que é gente interessante. Isso é o que falta neste bairro.
Thaís: Não sei bem o quê seria gente interessante para você.
Cibele: Gente com dinheiro. Importante. Com algum prestígio social.
Thaís: Ai Cibele! O quê isso importa?

Cibele: A mim muita coisa. Se no mundo a gente pode escolher andar com gente que tem prestigio, por quê eu iria querer andar com gente comum? Meu pai sempre me ensinou que na vida é bom ter contatos importantes. A gente nunca sabe quando vai precisar deles.

Thaís: Lutar por si próprio para ter as coisas ele não ensinou não né?
Cibele: Lá vem você com esse papo de lutar por si próprio e mimimi. Thaís, nem tudo na vida é apenas força de vontade. Às vezes, você vai precisar de um empurrãozinho e é para isso que serve os contatos.
Thaís: Não acredito que essa deva ser a forma correta de se conseguir as coisas, mas te respeito.

Thaís e Cibele pensam muito diferentes. Thaís por ter pais que sempre de dedicaram à área social, desde pequena aprendeu que o que vale é o que as pessoas trazem de bom dentro de si. Dinheiro e prestigio nunca poderão comprar qualquer sentimento de reciprocidade e alteridade. Ao contrario, acha que ser rico e ter contatos sociais é apenas uma forma superficial de manter relações que não a nutre como deveria. Já Cibele, aprendeu com seus pais que convivem à todo momento com pessoas conhecidas como da alta sociedade que o que vale na vida é o prestigio. Só é possível crescer e se tornar alguém de poder e conhecido pela sociedade se andar com contatos que sejam importantes no meio social. Foi assim que seu pai conquistou tudo que tem. Com pessoas importantes que puderam alavancar seus desejos e projetos.

Cibele: Então para de mimimi e vamos ver quem são esses tais vizinhos novos que chegaram. -Dirigem-se à casa de Victor-

Victor está com sua mãe terminando de ajeitar alguns móveis na sala. Não puderam trazer tudo que possuíam por conta do caminhão. Olga que traz em seu rosto um semblante alegre está acreditando fielmente nessa mudança de vida. Agora tem uma amiga com quem pode contar caso necessite. Cibele e Thaís ficam a olhar pelo muro de vidro que tem algumas plantações de arvores que dificulta a visão da enorme janela aberta pelo calor. Victor ao perceber algumas movimentações ao olhar pela janela sai para checar o que está acontecendo. Teme ser algum bisbilhoteiro pago pelos mafiosos que os perseguem desde que seu pai morrera. Assustado mas sem chamar a atenção de sua família, abre o portão e pergunta ríspido:

Victor: Quem são vocês? -Perguntou rude-

Continua...

Notas finais
Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com a coragem. Jean-Paul Sartre