O milagre de uma lágrima
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Notas iniciais
No capítulo anterior: Carlos encontrou Ventura e Érika conversando na praça.
Carlos apesar de não demonstrar sente-se profundamente incomodado sempre que encontra Érika e Ventura sozinhos. Gentil como sempre, Ventura responde ao cumprimento feito por Carlos.
Ventura: Boa noite Carlos! Oi Clara. -Olhou-a- Como você está?
Clara: Cansada, mas bem e o senhor?
Ventura: Você me envelheceu 10 anos me chamando de senhor. Me chame pelo nome.
Clara: Desculpe. Ventura — Corrigiu-
Carlos: O quê está fazendo aqui Érika? -Insistiu rude-
Carlos parece não conseguir esconder o seu ciúme. Após a briga ele tem ficado bem receoso com o comportamento de Érika.
Érika: Eu vim dar uma olhada no movimento já que vocês estavam demorando. Acabei encontrando o Ventura que foi comprar algumas coisas para a Sônia e ficamos conversando.
Carlos: Entendi. -Olhou Érika e Ventura- Eu vou entrar. Você vem ou ainda tem o que conversar?
Ventura interrompe imediatamente antes que Érika responda. Ele sabe do ciúme que Carlos sente por ela e não quer que tenham um problema já que Érika apesar de não ter falado nada demonstrou ter tido problemas com ele horas antes.
Ventura: Não. Já terminamos. -Levantou-se do banco pegando as sacolas no chão- A Sônia está me esperando com as compras. Até mais Érika. -Despediu-se-
Érika: Até Ventura.
Clara: Tchau Ventura! -Sorriu-
Ventura sorriu de volta e se dirigiu à sua casa enquanto Érika ficou à olhá-lo discretamente. O clima já estava pesado demais para ela dar qualquer bandeira.
Carlos: Vamos? -Chamou-
Érika levantou-se do banco e seguiu com Carlos e Clara para sua casa no final do condomínio. A madrugada chegou trazendo um clima tenso. Ventura teve uma discussão que quase terminou em agressão com Angélica por ter chegado quase meia noite em casa. Como ela se negou a dar qualquer detalhe à respeito da companhia com quem estava Ventura ficou enfurecido. Érika e Carlos também brigaram. Carlos solicitou atenção de Érika que mais uma vez negou seu pedido e ele irritado, acabou indo dormir no quarto de hospedes. Clara já havia dormido e dessa vez não presenciou a discussão de seus pais. Victor ainda sente-se inseguro com a mudança, teve pesadelos com o suicídio de seu pai praticamente toda à noite. Sonhar com a morte dele é para ele uma situação quase que corriqueira mas ainda assim, não deixa de se sentir incomodado. Quando não é o sonho do suicídio de seu pai que o atormenta é o das perseguições que já sofreu durante esses 3 anos. Ás 3 da manhã ele finalmente pegou no sono mas foi acordado por Lucas que gritou sua mãe por estar com medo.
Colégio Vicente Marques (CVM)
São 9 horas da manhã e os alunos estão em intervalo. Enquanto algumas crianças correm pelo jardim externo, outras se divertem nos brinquedos do salão. Clara, Mariane, Emília, Cibele, Thaís e Isabel conversam animadamente sobre o show que foram no fim de semana. Cibele está dando todos os detalhes à Angélica que por não ter whatsapp não tem qualquer informação sobre o que acontece com as amigas. Como sempre sem tolerância para esse tipo de conversa Angélica fica à olhar seu celular na tentativa de encontrar algo que possa lhe agradar até o horário da próxima aula sem dar a mínima atenção para o que Cibele está contando.
Clara: Vocês papearam tanto naquele grupo que até travou meu celular.
Angélica: Ainda bem que saí dele. -Comentou olhando no celular-
Cibele: Por isso eu estou te dando todos os detalhes do show.
Angélica: Como se eu quisesse ficar sabendo mesmo. -Olhou- a com desdém-
Emília: A Cibele já tratou logo de fisgar aquele gato do Cléris. -Continuou-
Clara: Quem é esse menino? -Curiosa-
Mariane: O colega do Victor.
Angélica: Conheci esse tal de Victor ontem no La Porte.
Victor parece não ter mexido tanto com Angélica quanto ela mexeu com ele. Angélica estava preocupada demais prestando atenção na conversa com André que não deu-se conta de seu interesse por ela.
Cibele: E o quê achou dele? -Perguntou entusiasmada-
Cibele sabe que Angélica não é de falar bem de qualquer menino e espera que ela concorde com sua percepção sobre Victor. Angélica responde:
Angélica: Sei lá! Nem falei com ele direito. -Deu de ombros-
Thaís: Eu achei ele um grosso.
Cibele: Eu também. Acredita que ele fechou a porta na nossa cara?
Angélica: Claro. Vocês foram bisbilhotar a casa dele como duas assaltantes queriam o quê?
Clara que não estava sabendo de toda a história pergunta estranhando o comportamento das amigas.
Clara: Sério que vocês fizeram isso?
Cibele: Não. -Disse com contundência- A Angélica está inventando isso. Nós não fomos bisbilhotar. Nós só fomos ver quem era através da janela. Acabou que ele abriu a porta e nos pegou lá. -Justificou-se-
Angélica: Eu não conheço outro nome pra isso.
Clara: Nossa gente! Que coisa mais feia! -Repreendeu-
Cibele: Ai esse assunto já deu né? -Disse já de saco cheio-
Cibele já havia recebido repreensões demais por ter ido bisbilhotar a casa dos novos vizinhos. Claro que nenhuma de suas amigas foi à favor da atitude que tomou, assim, ela desconversa:
—Vamos continuar a falar do show.
Angélica: Ninguém merece! -Suspirou em tédio voltando a olhar o celular-
Cibele: O que você não sabe Angélica é que até a Thaís se arranjou.
Angélica: E por quê você acha que isso me interessaria? -Lançou para a colega um olhar desinteressado-
Já é a segunda vez que Angélica dá uma resposta atravessada para Cibele. De fato, ela não está mesmo interessada em saber nada nem do show e nem dos envolvimentos amorosos de suas colegas.
Cibele: Ai garota! Como você é esquisita! -Irritou-se-
O comportamento desinteressado de Angélica em qualquer assunto que envolva suas amigas é algo que irrita profundamente não só Cibele, mas suas colegas também. Além de não gostar de qualquer tipo de fofoca Angélica tem dificuldade em fazer alteridade. Por ter mantido uma relação extremamente simbiótica com seu pai, ela não consegue participar do mundo das colegas de forma satisfatória e isso à torna alheia à qualquer tipo de contato. Nem a vida e nem os sentimentos de suas colegas são importantes para Angélica que continua o diálogo:
Angélica: Pouco me importa esse tipo de conversa Cibele! Eu só sei que a Clara ainda continua sendo a única BVL da turma. -Comentou com um olhar provocativo-
Clara: Eu não tenho pressa com isso Angélica. O primeiro beijo tem que ser em alguém especial. -Explicou-
Clara diferente de suas amigas tem uma visão bastante romantizada em relação à seu primeiro beijo e à envolver-se em relacionamentos amorosos. Espiritualista e um pouco moralista quando o assunto é relacionamento, Clara acredita que seu corpo é como sua casa, só deve ser tocado por alguém que ela realmente goste e não por qualquer um como faz suas amigas. Angélica que encontrou como única forma de relacionar-se mais intimamente com alguém o corpo não deixa de achar toda essa ideologia de Clara uma tremenda bobagem.
Angélica: Que bobagem! -Disse em tom de descaso-
André que estava terminando algumas atividades em uma das salas para a próxima aula sai pela porta principal do CVM à procura de Angélica. Ele havia deixado uma mensagem de bom dia no celular da companheira e sem resposta foi à seu encontro. Quem sabe ela aceite passar o intervalo junto com ele? Mariane que mesmo em silêncio estava prestando atenção à conversa das amigas ao ver André vindo em sua direção comenta:
Mariane: Falando em alguém especial. Olha quem vem aí. -Comentou em cochicho-
Emília: É o André Angélica. -Disse ao ver André aproximando-se-
Angélica: E daí? -Indiferente-
Angélica fechou-se em um mundo tão solitário que não consegue demonstrar para as pessoas qualquer reação de afetividade. Não resta dúvida de que a aproximação de André provocou nela uma sensação de alegria mas ela jamais demonstraria.
Cibele: E daí que a gente viu o solitário caríssimo que ele te deu na escola sexta. -Continuou-
Thaís: Vocês estão namorando?
Angélica continuou à olhar o celular como se a pergunta não fosse para ela.
Cibele: Ahh... Abre o jogo gata. -Cutucou Angélica com o cotovelo-
O cutucão que Cibele deu em Angélica foi tão forte que ela chegou até a se desequilibrar e quase derrubou seu celular. Irritada, ela olhou para Cibele e afastou-se ficando um pouco distante de seu contato para evitar uma discussão. André aproximou-se da rodinha e cumprimentou tímido.
André: Oi!
Mariane: Oi André! -Retribuiu-
Clara nem se atreveu a responder de André. Angélica poderia interpretar como uma possível investida e já teve problemas demais com a colega por conta dos meninos da escola. André olhou para Angélica que continuou mexendo no celular na tentativa de esconder todo o seu desconcerto.
André: Angélica? Você não quer ir à cantina comigo?
Angélica: Vou. -Desligou a tela do celular- É melhor do que aturar a curiosidade de certas pessoas. -Olhou provocativa para Cibele-
Cibele: Ui.Ui.Ui. -Debochou-
Angélica sorriu sarcástica para Cibele e saiu caminhando com André até a porta principal do CVM.
Clara: Deixem a Angélica gente. Todas nós sabemos como ela é fechada em relação à isso.
Apesar de brigarem com muita frequência, Clara consegue entender o mundo solitário de Angélica e principalmente sua forma de relacionar-se com ele. Criadas juntas desde que nasceram Clara acostumou-se com o jeito fechado da colega e por isso sempre tenta fazer com que as demais colegas respeitem esse limite colocado por ela na relação. Cibele não contentada com o silêncio de Angélica em relação à André comenta tentando provocar uma intriga:
Cibele: Sexta ela saiu sem avisar ninguém. A mãe dela ligou la pra casa. Saiu com o André.
Mariane interveio imediatamente ao ouvir o comentário cheio de intriga de Cibele, assim como Clara, à ela incomoda muito qualquer curiosidade à respeito da vida do outro. Angélica poderia ter saído com qualquer pessoa e não necessariamente com André.
Mariane: Como você sabe que foi com o André?
Cibele: Ahh Mariane! Acorda! -Indignou-se-
Isabel: Ligou para a minha casa também. Angélica já está dando seus perdidos por aí. Quem diria! -Continuou a intriga começada por Cibele-
Emília: Logo ela que sempre disse que nunca ia se envolver sério com ninguém aos 14 anos.
Thaís: Um dia o amor bate na porta do coração. -Disse apaixonada-
Cibele: Aff! Ninguém merece você! -Zombou-
Clara sem querer dar continuidade na conversa iniciada por Cibele à respeito do possível namoro entre Angélica e André, desconversa:
Clara: Bom gente, vamos falar da festa da Mariane.
Isabel: Isso mesmo. Como vão os preparativos? -Perguntou entusiasmada-
Mariane sentou-se no gramado do jardim externo junto com suas colegas que a acompanharam e alegremente começou a contar sobre o que teria em sua festa. Ela não queria qualquer comemoração de 15 anos pela crise familiar que passa mas sua mãe está tão feliz em poder propiciar à ela um momento que parece ser muito especial que Mariane acabou por ficar contente com tudo que vem sendo preparado.
Olga sai de casa com Rômulo, ele passara no condomínio para levá-la ao primeiro dia de trabalho. Lucas ficará sob os cuidados de Victor até que comece na nova escola. Animado, Rômulo vai contando à Olga tudo sobre sua empresa e tudo que terá que fazer. A Contável é uma empresa de renome no Rio de Janeiro com mais de 30 anos no mercado e é a responsável pela gestão fiscal de várias empresas importantes espalhadas pela cidade. Apesar de formada em relações internacionais, Olga não exercerá essa função dentro da empresa, ela ficará responsável pelo departamento pessoal já que a funcionária pediu demissão por ter mudado de cidade. Olga muitas vezes cuidou da gestão de pessoas na empresa do falecido marido e Rômulo acredita que essa função seja a mais adequada à ela no momento. Olga não tem a opção de escolher com o que trabalhar além de pegar o que aparecer no momento até que consiga se estabilizar no Rio. Ela tem é que agradecer por ter amigos que estão dando-lhe total apoio para que supere suas necessidades.
Contável contabilidade
A Contável localiza-se em um dos gigantescos prédios comerciais no bairro Jardim Botânico. Com uma discreta recepção não parece ser uma empresa muito grande mas ao adentrar o corredor encontra-se 6 amplas salas com pelo menos 5 funcionários em cada uma. A sala de Rômulo é uma das últimas do corredor. Por ser uma empresa de referência, o trabalho é sempre muito corrido. É quase impossível ver qualquer um dos funcionários da Contável parado ou vendo qualquer coisa que não tenha a ver com o trabalho no celular ou no computador. São 10 horas da manhã e o ritmo na empresa já está à todo vapor. Rômulo entra com Olga na recepção.
Rômulo: Olga, seja bem vinda! -Disse ao entrar-
Olga sentiu um misto de satisfação e ansiedade. Ela não tem tanta experiência com gestão de pessoas. Todas as vezes que cuidou disso na empresa do marido foi mais para substituir um funcionário até a chegada de outro para ocupar o cargo do que para trabalhar de verdade. Sua especialidade sempre foi informar, negociar e acompanhar discussões internacionais como governo brasileiro e não gerir pessoas. Rômulo dirige-se à Valéria, recepcionista.
— Valéria esta é Olga, nova funcionária. Ela ficará no setor de recursos humanos já que a Alana saiu.
Valéria: Seja bem vinda Olga. -Sorriu-
Olga: Obrigada!
Jonatan chega à recepção. Ele é um dos contabilistas da empresa e ao ouvir a voz de Rômulo dirigiu-se à ele. Precisa passar uma informação importante que se deixar para depois poderá esquecer.
Jonatan: Os papéis da empresa de Niterói está em sua mesa Rômulo.
Rômulo: Obrigado.
Jonatan se retirou e cruzou com Alice do setor financeiro que carrega alguns papéis endereçados à Valéria.
Alice: Rômulo, aquele advogado pediu para você ligar pra ele com urgência.
Rômulo: Ok, já recebi o recado.
Alice: Bom dia! -Saiu-
Olga assustou-se com a correria dos profissionais na empresa. Parece ser um lugar de trabalho intenso e ela não está acostumada com esse ritmo. A empresa de seu marido era um pouco mais tranquila e ela poderia passar algum tempo sentada tomando café. Com toda essa movimentação às 10 da manhã sente um frio na barriga por medo de não dar conta de tudo que à espera mas ela tem que ser forte, precisa pensar em Lucas e Victor. Rômulo gentilmente conduz Olga pelo corredor e apresenta-a à suas colegas de trabalho.
Rômulo: Pessoal, venho apresentar a nova colega de escritório de vocês. Esta é Olga. Nova contratada da empresa. Olga esta é a Melânia e Camila que dividirá com você o escritório e esse é Rodolfo, nosso advogado, mas como ainda está sem sala ficará fazendo companhia à vocês. -Apresentou-
Rodolfo: Tudo bem Olga? -Saudou-
Melânia: Seja bem vinda Olga!
Olga sorriu em reciprocidade.
Rômulo: Já passei à ela suas funções. Peço que a auxiliem em qualquer dúvida que tiver.
Camila: Pode deixar.
Rômulo guiou Olga até uma mesa vazia próxima à Camila e Melânia.
Rômulo: Esta é sua mesa Olga. -Mostrou- Fique à vontade. Qualquer coisa é só chamar. Meninas bom trabalho.
Camila: Obrigada Rômulo.
Rômulo saiu. Olga sentou-se à mesa insegura com seu novo emprego. Para ela é sempre difícil fazer novas relações sociais já que sempre rompe prematuramente com todas. Ansiosa, fica à olhar suas companheiras a trabalhar com total desenvoltura. Será que se adequará ao trabalho? Perguntou à si mesma enquanto examinava algumas folhas sobre sua mesa. Quer se enteirar de tudo para que não tenha motivo para represálias. Em um olhar apreensivo ela começa a trabalhar, ainda não sabe por onde começar, mas com certeza trabalho é que não faltará.
O Rio de Janeiro contempla um clima mais ameno, com a temperatura em 26 graus nem parece que chegou à 34 graus na noite anterior. Cristina está na cozinha preparando o almoço, logo Mariane chega e ainda tem que aprontar Anabela para a escola. Rogério está na sala assistindo à TV. Ele tem evitado sair para não se sentir estimulado a beber, ouviu em uma das inúmeras clínicas que estivera internado que o melhor à se fazer para afastar-se do vício é evitar qualquer estimulo que possa deflagrar uma vontade repentina. Rogério tem se controlado bem, os remédios receitados por Ventura parece estar segurando a crise de abstinência que sempre fôra muito forte. No momento, ele assiste na TV um desenho infantil já que uma simples mulher bonita em um comercial é capaz de fazê-lo querer beber.
Casa da família Fernandes Grácia
Anabela brinca tranquila em seu quarto. Ela retirou todas as roupas da irmã do guarda roupa e vestiu para brincar de modelo. Usando os saltos altos de Mariane ela fica à fazer caras e bocas em frente ao espelho. Cansada dessa brincadeira que já estava à quase 1 hora, ela junta as roupas e joga no guarda roupa junto com os sapatos da irmã. Anabela é uma criança tão serena que na maioria das vezes não parece que está em casa. Seus cabelos longos pela cintura e com cachos nas pontas dá à ela toda a leveza angelical de uma criança demasiadamente sensível. Após ter arrumado toda a bagunça deixada por ela mesma no quarto, dirige-se à cozinha onde está sua mãe.
Anabela: Mãe, eu posso ficar um pouco no parquinho? -Aproximou-se-
Cristina: Um pouco só Anabela. Logo você vai ter que se arrumar pra ir pra escola. -Respondeu mexendo o arroz-
Anabela: Eu vou voltar assim que você me chamar.
Cristina: Está bom! Enquanto isso termino o almoço.
Anabela saiu da cozinha passando pela sala onde seu pai assiste à TV.
Rogério: Aonde você vai meu amor?
Anabela: Brincar um pouco no parquinho. Estou cansada de ficar em casa.
Rogério: Não demore.
Anabela: Está bem. -Saiu-
O play do condomínio localiza-se na entrada do condomínio. Nele há diversos brinquedos como escorregador, balanço, gangorra e uma piscina de areia onde várias crianças brincam de construir casas e castelos. Lucas está brincando de construir uma enorme rodovia, por estar sozinho, tem toda a piscina de areia só para ele. Victor está com seu semblante ranzinza como de costume por estar ali à quase 2 horas. A diversão está sendo só para Lucas já que todos os que conhece estão na escola. Por aproximar-se das 11 Victor espera que Angélica adentre o condomínio, assim terá alguém para conversar. Se ele ainda tivesse um celular poderia se divertir jogando alguma coisa enquanto espera Lucas terminar de brincar.
Victor: Vamos embora Lucas. Não aguento mais ficar neste lugar. -Reclamou sentado em um dos bancos do play-
Lucas: Você vai pra casa fazer o quê? Ficar naquele vídeo-game? -Retrucou-
Victor: Sim, por quê? Não sou obrigado a ser seu babá.
Lucas: E eu não sou obrigado à ficar em casa só porque você quer. -Desafiou-
Victor: Minha mãe me deixou responsável por você enquanto ela trabalha até você ir para à escola.
Lucas: Victor, você pode ir. Eu sei muito bem o caminho de casa. -Continuou à brincar-
Victor suspirou irritado. Se tivesse permissão para retirar seu irmão arrastado do play com certeza faria mas Olga o proibiu de ser violento com Lucas. Antes Lucas era cuidado por uma babá que ficava por conta de suas necessidades 24 horas por dia e Victor podia dedicar-se à suas atividades. Depois de tudo que aconteceu ele tem que ajudar sua mãe cuidando do irmão que em sua visão é um mimado insuportável. Anabela aproxima-se do play, sua casa é um pouco distante da entrada do condomínio e ela tem que caminhar um pouco até chegar. Com seu jeito eternecedor ela aproxima-se de Lucas na piscina de areia.
Anabela: Oi! -Cumprimentou- Qual é o seu nome? -Sentou-se-
Lucas: Lucas e o seu?
Anabela: Anabela, eu moro naquela casa ali. -Apontou-
Lucas: E eu moro naquela ali. -Apontou para a casa no final do condomínio- Eu me mudei pra cá sábado.
Anabela: Verdade que você veio morar aqui? -Alegrou-se-
Lucas: Verdade.
Anabela: Ai que legal! -Comemorou- Então a gente vai poder ser amigos né?
Lucas: Claro! -Entusiasmou-se-
Anabela estava feliz por saber que agora terá um amigo morando no mesmo condomínio que ela já que não tem nenhuma criança que regule com sua idade, geralmente, são bem mais velhos ou bem mais novos. Lucas por sua vez também estava feliz, ele não tem amigos desde que seu pai morreu. Victor já entediado levantou-se do banco onde estava.
Victor: Vamos Lucas! -Chamou-
Lucas: Você não vê que eu estou conversando com a minha amiga? -Disse com seriedade-
Victor: Eu vou pra casa. Já que você sabe o caminho, vai depois. -Saiu-
Anabela assustou-se com a forma em que Victor referiu-se à Lucas. Mesmo vivendo em um contexto de extrema violência ela não está acostumada à esse tipo de tratamento e ao vê-lo seguir para o final do condomínio perguntou:
Anabela: Quem é ele?
Lucas: Meu irmão. Um chato! Vive brigando comigo.
Anabela: Eu também tenho uma irmã, mas ela é legal. -Comentou começando a fazer um monte de areia com as mãos-
Lucas: Sua irmã não briga com você?
Anabela: Não. Só ás vezes quando eu mexo nas coisas dela. -Disse brincando com a areia-
Lucas: Sorte sua porque meu irmão briga comigo o dia todo.
Em uma ágil brincadeira Lucas e Anabela começam à construir diversos montes de areia e assim ficam por quase dez minutos até Cristina aproximar-se e chamar pela filha.
Cristina: Aninha? Vem tomar banho! -Gritou próxima ao play-
Anabela: É minha mãe. Eu preciso entrar para ir para a escola. -Levantou-se-
Lucas: Está bom! -Disse continuando a construir montes de areia-
Anabela: A gente brinca mais à noite, quando eu voltar já que você está morando aqui.
Lucas: Eu te chamo na sua casa. -Fitou-a-
Cristina: Vem Anabela! -Insistiu-
Anabela: Tchau Lucas! -Despediu-se-
Lucas: Tchau amiga! -Sorriu-
Anabela saiu do play correndo em direção à sua mãe que a aguardava próxima ao salão de festas do condomínio. Ela ainda tem que tomar banho e se arrumar para a escola. Alegre por ter encontrado um amigo com que possa brincar, sacudindo sua roupa e batendo suas mãos sujas de areia ela aproximou-se de Cristina que a abraçou e seguiram para casa.
Aproxima-se o horário de almoço. A Climédia é uma Clínica Médica particular com diversas especialidades. Ventura e Daniel resolveram montá-la assim que saíram da faculdade. Os dois começaram com algo pequeno, clínica médica e obstetrícia em uma sala alugada de um prédio comercial mas com o empenho e especialização de ambos ela foi ganhando espaço e mais profissionais o que os obrigou a mudar para um lugar mais amplo. Hoje, além de contar com diversas especialidades médicas, conta também com fisioterapia, fonoaudiologia e psicologia. Ventura dedica-se à seus atendimentos clínicos em neurologia sempre que não tem plantão no HUE.
CLIMÉDIA – Clínica Médica Integrada e Associada.
Ventura trancou-se em sua sala desde de manhã quando chegou. Geralmente alguns médicos se encontram na copa para tomar um chá ou café e comer alguma coisa no intervalo entre um paciente e outro. Ventura é um dos que faz isso com frequência mas no dia de hoje preferiu isolar-se. Ele mais uma vez discutiu com Angélica pelo horário que chegara em casa na noite anterior. Assim que ela chegou em casa próximo à meia noite, tentou uma conversa com a filha à fim de descobrir à respeito do menino com quem tem saído, mas ela o desdenhou tanto que ele acabou ficando irritado e isso ocasionou uma discussão violenta entre os dois. Angélica abusou tanto de sua paciência que se não fosse pela intervenção de Sônia ele teria dado na filha uns bons tapas. Sentado em sua mesa ele fica à olhar uma foto em que está com Angélica e Sônia. Ele tem uma casa em Petrópolis e sempre que quer sair do corre-corre do Rio refugia-se lá. Na foto em que olha está lembrando dos poucos momentos de férias que pôde aproveitar com Sônia e a filha. Angélica tinha 13 anos e eles tinham ido à uma churrascaria à pedido dela que simplesmente adora carne. Abraçado à Angélica ele fica à pensar em como a filha pode ter mudado tanto. Ela sempre fôra fechada em relação à demonstrar seus sentimentos, quase não a vira chorar por qualquer motivo que fosse mas eles se entendiam bem. Angélica contava sobre o quanto os garotos da sua turma eram chatos, de como era difícil atingir determinadas notas no violino e principalmente do quanto detestava estar no curso de alemão que Ventura sempre fez questão que fizesse. Em seu tempo livre ambos ficaram por horas jogando RPG, Ventura ficava explicando toda a arte envolvida desde o enredo dos jogos até seu desenho enquanto Angélica cumpria as missões. Quando não estavam compartilhando vídeos de músicas ou pinturas no youtube eles estavam andando de bicicleta pela Lagoa ou caminhando no Jardim Botânico. Ela era fechada mas era uma menina extremamente sensível e demonstrava isso através de suas composições e poesias. Ventura era a única pessoa que ela permitia ser abraçada ou acarinhada. Não é possível que toda sua ausência tenha transformado a filha em uma menina tão rude e sem qualquer sensibilidade. Ninguém consegue mais se aproximar dela, nem ele. Uma batida na porta o tira de suas memórias.
Daniel: Ventura? Posso entrar? -Disse da porta-
Ventura: Oi Daniel! -Olhou-o- Você me assustou! -Colocou o porta-retrato sobre a mesa- Estava viajando.
Daniel: Aconteceu alguma coisa? -Entrou-
Ventura: Eu estava longe! -Divagou-
Daniel: Você chegou e se trancou no consultório.
Ventura: Estou um pouco chateado.
Daniel: Quer conversar? -Sentou-se na cadeira à sua frente-
Ventura: Nada demais. Problemas com Angélica. De uns tempos pra cá deu para me acusar de tê-la abandonado.
Daniel: Dá pra ver que ela tem por você um grande carinho. Lembro quando ela era criança, como era colada em você.
Ventura: Agora não é mais assim Daniel, Angélica mudou muito. Ficou mais fria, mais fechada. -Suspirou triste- Ás vezes penso que ela não tem sentimentos.
Daniel: Poxa Ventura, sinto muito tudo isso, mas Angélica é uma adolescente. Isso é uma fase que vai passar. -Consolou-
Ventura: Não acredito que seja uma fase Daniel. Tudo que eu fiz foi pensando no bem da Angélica. Quando a Soninha me disse estar grávida eu estava entrando no mestrado, fiz de tudo para conseguir uma bolsa para cuidar das duas e assim vivi a vida toda.
Daniel: Você sempre foi um homem muito dedicado à família.
Ventura: Não deveria ter me afastado tanto da minha filha.
Daniel: Fez o que era necessário Ventura. Angélica está magoada.
Ventura: Sabe que ela está com um namoradinho aí e não me falou? Descobri assim meio que sem querer.
Daniel: Ela não ia te contar estas coisas Ventura.
Ventura: O terreno amoroso é cheio de pedrinhas. Como vou orientar minha filha a transitar por ele sem se machucar se ela mal fala comigo?
Daniel: Acho que Angélica não seja tão criança assim para não saber caminhar nesse terreno como você diz.
Ventura: É, talvez. -Lamentou-
Daniel: Sempre quis me casar e ter um filho, mas ainda não foi possível.
Ventura: Porque não quis. Namoradas você teve várias e podia até ter um filho com alguma delas. Filhos dão vida ao casamento, são eles que nos dão força para continuar vivendo. Apesar da rebeldia de Angélica e das nossas brigas, não imagino mais minha vida sem minha pequena. Quando ela sai com as amigas à passeio ou excursão a casa fica tão vazia.É a luz que ilumina meu caminho. -Envaideceu-se-
Daniel: Você é um pai muito do coruja Ventura! Nunca vi igual!
Ventura: Eu sou apaixonado pelas minhas mulheres. Minha mulher e minha filha.
Daniel: Vamos? Senão vamos nos atrasar. O Leonardo já está nos esperando para almoçar.
Ventura: Vamos sim. -Levantou-se da mesa e pegou sua pasta-
Ventura e Daniel atravessam o corredor chegando à recepção onde estão as secretárias Helena e Elvira. A recepção ainda encontra-se um pouco cheia de pacientes que espera atendimento. Daniel e Ventura estão liberados mas outros médicos ainda precisam atender. Ventura aproxima-se da mesa da recepção.
— Helena, fechei por hoje. Qualquer coisa me localize no hospital.
Helena: Sim Doutor!
Elvira: O Doutor Leonardo disse que já foi e que espera lá no Vero.
Daniel: Obrigado Elvira. Até mais! -Saíram-
Ventura e Daniel são melhores amigos. Eles se conheceram na faculdade e por terem personalidades muito parecidas acabaram desenvolvendo uma grande amizade um pelo outro. Daniel acompanhou ao lado de Ventura todo seu entusiasmo por Érika e sofreu da mesma maneira quando terminaram. Daniel mais do que ninguém não desejara que o noivado dos dois acabasse da forma que acabou. Quando conheceu Ventura ele era apenas um rapaz que acabara de perder seu pai. Irradiava alegria mas era tristonho, até conhecer Érika. Como que em um passe de mágica ela conseguiu trazer alegria ao coração do amigo que estava despedaçado. Junto com Ventura ele também comemorou sua aprovação no mestrado e o nascimento de Angélica. Não resta dúvida de que aquela menina tão geniosa fôra um presente para aquele homem que sempre tentava sorrir após a morte de seus pais e o término repentino de Érika. Angélica foi quem trouxe toda a luz e alegria para sua alma e se hoje ele consegue dar algumas gargalhadas é graças à ela. Em uma conversa cheia de risos eles caminham até o Vero.
Cléris e Victor estão jogando vídeo-game no quarto. Victor vai ficar o dia todo por conta de Lucas, Olga só chega por volta de seis e meia e ele não aguenta mais ter que responder as demandas do irmão. Por ser criado sempre como muita proteção Lucas demanda muita atenção, às vezes ele precisa de ajuda para pegar um simples copo de água. Cléris que terminara de arrumar a mudança com sua mãe no apartamento próximo à casa de Victor foi conversar com o amigo. Ele ainda não teve tempo de informá-lo sobre seu relacionamento com Cibele. Estava mais interessado em arrumar garotas para o colega do que relatar sobre mais um de seus lances.
Casa da família Grégis
Victor e Cléris estão sentados na cama jogando Resident 6. Eles estão tentando matar um chefão à quase 1 hora sem sucesso. Cléris já havia pesquisado formas de destruí-lo no youtube mas Victor é ruim demais e não consegue fazer as jogadas certas. Enquanto tentam mais uma vez, Cléris fica à contar sua ficada com Cibele no show.
Cléris: É claro que eu fiquei. Ela estava me dando o maior mole.
Victor: Você não tem jeito mesmo. -Balançou a cabeça-
Cléris: Victor, qual o problema? Ela e eu estamos solteiros, descomprometidos e ela estava à fim, tanto que aceitou meu convite para o show.
Victor: Acho que ela fez isso porque estava apenas à fim de ir ao show e não porque estava à fim de você.
Cléris: Isso não é importante agora.
Victor: Você está sentindo algo por ela ou ficou por ficar?
Cléris: Fiquei por ficar. Sabe, não tem ninguém na fita, então... e você e a gata da Angélica?
Victor: O que tem ela?
Cléris: Já desenrolaram algo?
Victor: Pára de viagem Cléris! Só vi a Angélica aquela vez no La Porte.
Cléris: Mas eu vi seu entusiasmo quando ela se aproximou da mesa. Não tenta disfarçar Victor. Gostou dela não gostou? -Cutucou Victor com o cotovelo-
Victor: Para ser sincero eu não sei muito bem o que senti. -Pausou vídeo-game- Ela é bonita mas tem alguma coisa à mais que não sei o que é.
Cléris: É a sua sedução. -Concluiu- Olha, se vocês não estivessem de flerte eu até investiria nela.
Victor fez cara de tédio. Angélica seria mais uma garota à ser manipulada pelo amigo. Cléris que viu a reação do amigo continuou:
—É verdade. Se você sentiu isso aí que não sabe o que é não perderia a oportunidade. Vai que ela é uma garota legal?
Victor: Vou pensar.
Cléris: Vai por mim cara. Sou quase que voz da sua consciência.
Victor riu. Cléris não valia nada em relação à mulheres mas sabia reconhecer quando valia à pena investir em uma.
Victor: Vamos jogar vamos. -Deu play novamente começando a jogar-
Já é final de tarde. Clara e Mariane passaram a tarde toda juntas fazendo um trabalho para o módulo de ciências físicas e naturais que deverá ser entregue na manhã seguinte. Mariane não é muito boa com números, já Clara, é uma das melhores alunas e por isso não deixou de pedir à amiga que fizesse o trabalho com ela. Angélica também foi convidada à fazer parte já que são da mesma turma mas ela se recusou por preferir fazer trabalhos sozinha. Angélica não faz qualquer trabalho em grupo que não seja dentro da escola. Seu jeito dominador e competitivo não permite que ela se envolva em atividades desse tipo, é confusão na certa.
Casa da família Guimarães Diáz
Clara está sentada com Mariane em sua cama onde tem algumas folhas espalhadas que usaram para fazer as anotações das pesquisas que conseguiram. Elas estão estudando fluidoestática e foram incumbidas de procurar na internet vídeos ou figuras que falem sobre o assunto e sua aplicabilidade na vida diária para apresentarem na aula. As duas ficaram quase 1 hora montando um vídeo repleto de figuras em um programa específico para esse fim no notebook de Clara. Enquanto Clara termina de dar o toque final na edição Mariane fica à comentar sobre os novos vizinhos. Ela estava reclamando da forma como as meninas se dirigiram à Cléris sem sequer conhecê-lo.
Clara: Por quê eu fui a única que ainda não conheci esses meninos?
Mariane: Porque você nunca mais saiu de casa.
Clara: Ultimamente eu tive muita coisa pra resolver. E esse Victor? É um grosso como as meninas disseram?
Mariane: Eu não achei. Ele é meio misterioso. Conversamos um dia no La Porte. Veio de São Paulo porque sua mãe conseguiu um emprego aqui.
Clara: Assim? No meio do ano letivo? -Espantou-se-
Mariane: Pelo que me disse conseguiu fazer uma prova e terminou o ano letivo antes, mas sei la, eu achei ele meio esquisito.
Mariane parece ter um radar sensitivo. Por ter passado por várias situações de violência ela consegue captar à distância qualquer situação que não esteja bem definida. Ela e Victor conversaram por pouco tempo no La Porte e por não ter dado muitas informações corriqueiras à respeito de sua vida foi o suficiente para que Mariane desconfiasse de que esconde alguma coisa à respeito de si. Seu pai também agia da mesma forma quando tinha algo à esconder.
Clara: Esquisito? Como assim?
Mariane: Meio misterioso, não deu muito detalhes da vida dele. Parece que está escondendo alguma coisa. Sei que a Angélica é a pessoa mais próxima dele. Ficaram até amigos.
Clara: Como você sabe?
Mariane: Esse tal de Cléris contou.
Clara: E o que você achou deles?
Mariane: Não sei. Se está perguntando isso com segundas intenções digo que não me interessei por nenhum deles.
Clara: Mas por quê? Não são bonitos?
Mariane: São, mas você sabe Clara, não me sinto segura para me relacionar com ninguém.
Clara que estava editando o vídeo que fizera no computador olha para Mariane.
Clara: E como está o clima lá na sua casa?
Mariane: Igual. O Rogério querendo ir na minha festa.
Clara: Você já sabe o que penso disso, mas você faz o que achar melhor. -Voltou-se para o notebook-
Mariane: Não falemos disso. Meu vestido já ficou pronto.
Clara: Deve ser a coisa mais linda! Você tem foto aí no celular?
Mariane: Tenho mas será segredo até a festa.
Clara: Mari você não vai casar. Vai fazer 15 anos.
Mariane: Mesmo assim. Não vou te mostrar. Ficará curiosa!
Clara: Ai como você é chata. -Jogou-lhe uma almofada- Vem ver se o vídeo ficou bom.
Mariane sentou-se ao lado de Clara que começou a mostrar as edições que fizera. Clara tem muita facilidade em manipular toda a tecnologia e por isso ganhou destaque no módulo de ciências tecnológicas do colégio. Se ela caprichou no vídeo que acabara de fazer com certeza ganhará a nota total no trabalho.
Um táxi estaciona na portaria do condomínio. Angélica dá ao motorista o dinheiro da corrida e retira-se do carro. Ela está voltando de sua aula de violino que acontece toda segunda às 14 da tarde. Geralmente ela tem 1 hora de aula por semana mas como está ensaiando para um concerto de fim de ano tem tido à quase 2 meses 4 horas de aula. Ela irá tocar junto com outros músicos e precisam agora ensaiar todos juntos. São 6 horas da tarde e começa a anoitecer, mesmo gostando do contato com a música sente-se cansada e seu braço direito dói bastante por ficar segurando o arco por tanto tempo. Nessas situações seu pai sempre a fazia tomar um anti-inflamatório e com suas mãos fazia uma bela massagem até que se sentisse completamente relaxada, mas como não está falando com ele terá que segurar sozinha a dor. Em um gemido ao mexer seu braço direito para colocar o estojo nas costas onde carrega seu instrumento e demais apetrechos ela passa pela portaria. Depois de um ensaio pesado ela quer é deitar em sua cama e assistir uma série qualquer na televisão.
Praça dos Amores
Victor que estava caminhando pela praça já que Cléris saíra de sua casa à algum tempo, aproveitou que sua mãe chegou para cuidar de Lucas e foi dar uma volta. Ao ver Angélica entrando no condomínio carregando seu estojo de violino aproximou-se dela. Só uma menina muito sensível para tocar um instrumento como aquele.
Victor: Oi Angélica! -Cumprimentou-
Angélica: Oi! -Sorriu-
Victor: Você toca violino? -Perguntou ao vê-la carregando estojo-
Angélica: Como sabe?
Angélica estranhou a pergunta de Victor. Nenhum menino com quem se envolveu sequer ousou fazer-lhe esse tipo de pergunta.
Victor: É um violino que você está carregando aí não é?
Angélica: É.
Victor: Eu manjo de instrumento. Fiz aula de piano por 3 anos mas tive que sair.
Angélica: Por quê?
Victor: Ahhh... Uns problemas aí. -Despistou-
Victor não podia contar à menina que acabara de conhecer o motivo real para ter se afastado de suas aulas de piano. No mínimo Angélica podia achar que ele era um perigo e afastar-se dele completamente.
Angélica: E cadê o seu amigo?
Victor: Foi pra casa. Ele muda de vez só no final de semana. Aliás, me desculpe pela brincadeira que ele fez ontem com você. O Cléris tem umas cantadas baratas que são muito sem graça.
Angélica: De boa. Eu já estou acostumada com esse tipo de garoto.
Victor: Está à fim de dar uma volta?
Angélica: E aonde iríamos?
Victor: Ahh não sei. Você acabou de chegar. Deve estar cansada. -Observou-
Victor conseguiu captar todo o cansaço de Angélica escondido atrás de sua cabeleira preta e sua maquiagem muito bem feita. Ela estava muito feliz mas também, extremamente cansada.
Angélica: Mais ou menos. Eu vim de táxi. Vamos caminhar pela Lagoa. Eu gosto muito de lá, acho que você também vai gostar.
Victor: Show! -Alegrou-se- Vai levar o violino? -Perguntou ao vê-la prosseguir com ele nas costas-
Angélica: Vou.
Victor: Então vamos. Se quiser eu levo para você.
Angélica: Tá.
Angélica retirou o violino que carregava nas costas e deu para que Victor segurasse e curiosa começou a indagar sobre suas aulas de piano. Victor começou a lhe contar que seu pai era pianista até antes de montar a empresa que acabou falindo por má administração e que sempre quis que um de seus filhos desse seguimento ao instrumento. Ele e Victor até chegaram à tocar juntos algumas vezes em alguns casamentos de parentes próximos. Lucas ainda estava na aula de musicalização e não tinha um instrumento definido apesar de sempre relatar gostar de bateria. Victor sentiu- se mais solto para falar sobre sua vida e Angélica mais segura para compartilhar um pouco de seu mundo secreto que quase ninguém consegue compreender e Victor parece estar se saindo bem nesse quesito.
Isabel sai de sua casa localizada entre o apartamento que Cléris irá morar e uma outra casa de uma vizinha não muito próxima. Ela está indo à casa de Mariane para conversar sobre os convites da festa de seu aniversário, enquanto caminha avista Angélica e Victor saírem juntos do condomínio. Ela não é uma garota fofoqueira mas a proximidade dos dois chamou-lhe a atenção. Não seria nenhuma novidade que Angélica estivesse se envolvendo com Victor já que nunca poupou nenhum garoto bonito mas deixar que ele carregasse seu instrumento musical era no mínimo estranho. Angélica nunca deixou que qualquer uma de suas colegas tocasse em seu violino. Com 16 anos, Isabel parece ter muito mais do que aparenta em termos de maturidade emocional. Desde muito pequena teve que aprender a conviver e a se defender de toda a hostilidade e preconceito por conta de sua opção sexual. Não tem quaisquer problemas com suas colegas de condomínio mas os pais de algumas delas como os de Mariane e Cibele acham que ela pode ser má influência para as filhas. Os próprios pais de alguns alunos do colégio onde estuda chegaram à fazer um abaixo assinado para que Isabel se retirasse da escola por ser homossexual. Camille obviamente não permitiu tamanha discriminação e com ousadia solicitou que os pais que estivessem incomodados retirassem seus filhos do CVM. Ela não se importou em perder prestigio social dos pais afortunados que ajuda a manter a escola, ela não poderia era ir contra toda ideologia humanizada e não discriminatória do colégio. Isabel é ruiva e seus cabelos curtos junto com seus olhos verdes a torna uma garota extremamente bonita mas no seu caso a beleza não é algo tão importante. Isabel só quer um espaço para que possa sair com a namorada e viver como vivem os casais heterossexuais sem qualquer discriminação. Ter que ficar fingindo uma amizade frente à uma sociedade preconceituosa quando na verdade ela quer é dar um belo beijo na boca é para ela muito penoso.
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Mariane está lendo deitada em sua cama enquanto Anabela está vestida com as roupas de sua mãe e passando batom frente ao espelho. Ela mais uma vez está brincando de ser modelo com as roupas da irmã. Mariane não se incomoda que ela pegue suas roupas para brincar desde que Anabela guarde-as da forma que pegou dentro do guarda roupa, o que nunca acontece.
Anabela: Esse combina mais não combina? -Perguntou após ter passado um batom vermelho-
Mariane: Não gosto de batom vermelho.
Anabela: E essa roupa ficou boa? -Deu uma voltinha em torno de si-
Mariane: Você vai acabar caindo com esse salto alto da mamãe. -Alertou-
Anabela: Eu sei andar nele. Olha! -Disse desfilando pelo quarto-
Mariane: Lindo! -Voltou-se para o livro-
A campainha toca e Cristina que ajeita os pratos na cozinha vai atender. Todos já terminaram de jantar e ela ficou responsável por deixar a cozinha em ordem já que Mariane lavou as louças enquanto Anabela e Rogério foram brincar na sala. Como Rogério decidiu dormir, Anabela foi brincar com as roupas da irmã no quarto.
Cristina: Oi Isabel! Entra! -Disse ao abrir a porta da sala-
Isabel: A Mariane está aí?
Cristina: Está no quarto com a Anabela que colocou aquelas roupas malucas e está desfilando pela casa achando ser uma modelo.
Isabel: Posso ir lá?
Cristina: Pode. Fique à vontade!
Isabel dirige-se ao quarto onde estão Anabela e Mariane e Cristina voltou-se novamente para a cozinha. Ainda tem uma pilha de pratos para lavar.
Isabel: Oi! -Entrou-
Mariane: Oi Isa! Não te esperava. -Fechou o livro-
Isabel: Desculpa não ter avisado. Você não sabe quem eu acabei de ver saindo do condomínio. -Sentou-se na cama ao lado de Mariane-
Mariane: Quem?
Isabel: Angélica e Victor.
Mariane: Jura? -Admirou-se-
Isabel: Acredite.
Mariane: Mas ela não está ficando com o André?
Anabela: O que é ficar? -Intrometeu-se-
Mariane olhou para Isabel e solicitou que Anabela fosse brincar em outro lugar. A conversa estava tomando um tom que não era adequado para crianças.
Mariane: Aninha, vai mostrar o seu novo estilo para a mamãe. Acho que ela vai adorar.
Anabela: Tá, já vou. -Saiu-
Isabel continuou:
Isabel: Sei lá. Nunca achei que o André fizesse o jeito dela. Angélica é toda descolada e ele um bobo grudento.
Mariane: Ah, mas parece que eles estão se entendendo né. Também, quem não se entenderia com um solitário caro?
Isabel: Angélica não é dessas garotas que se rendem por um presente caro. Sabe-se lá o que a faz estar tanto tempo com o André, mas também não importa. Na verdade eu nem vim aqui falar dela, mas de mim.
Mariane: De você?
Isabel: Sabe a Letícia do 3 ano?
Mariane: Sei.
Isabel: Então, a gente está meio que namorando entende e eu queria saber se você não se importaria se eu à levasse na sua festa.
Mariane: Claro que não! Inclusive estava pensando até em chamar o André e o Cléris já que eles estão se relacionando com as meninas né. Me dá o nome completo que eu aviso na portaria.
Isabel: E o clima aqui como está?
Mariane: Por enquanto sem sinal de fogo.
Isabel: Que permaneça assim até o fim do ano.
Mariane: Duvido, mas milagres sempre acontecem né? Me conta de você e a Letícia. Eu nem sabia que vocês tinham ficado.
Isabel: Foi no show mas a gente já estava trocando mensagem antes...
Isabel começou a narrar sua trajetória amorosa com a companheira. Elas se conheceram à uns 4 meses atrás e trocaram seu primeiro beijo às escondidas no show em que foi com as meninas. Não que ela tenha qualquer receio sobre o que irão dizer à respeito dela, mas a família de Letícia não sabe da sua orientação sexual ainda e com isso preferiu manter o relacionamento em segredo, pelo menos, até a festa de Mariane.
Angélica e Victor chegam à Lagoa, já é noite, enquanto caminhavam eles conversaram sobre tudo. Angélica tagarelou sobre seu gosto por poesia e música erudita enquanto Victor reclamou das aulas de teoria musical que teve por quase 4 anos. Ele não esperava encontrar uma menina que pudesse ter gostos tão parecidos com os dele e Angélica finalmente parece ter encontrado um garoto com quem pudesse compartilhar tudo aquilo que ela sempre tentou mas nunca conseguiu desde que se afastou de seu pai. A semelhança de ambos é tamanha que descobriram gostar do mesmo estilo de jogo de vídeo-game e do mesmo gênero de leitura. Victor não gosta muito de ler mas é inteligente o suficiente para acompanhar Angélica em seu discurso sobre gêneros literários, ele inclusive é fã numero 1 de Clarice Lispector assim como Ventura.
Lagoa
Angélica e Victor sentam-se na areia, apesar de ser uma noite bem quente é possível sentir o vento fresco tocar o rosto. Angélica fica à contemplar a lagoa, ela acha muito bonita a paisagem à noite. Conforme vai escurecendo, as águas vão trazendo mais leveza ao seu coração. Victor que trazia o violino da colega coloca à seu lado e fica à olhá-la por alguns momentos enquanto o vento balança seus longos cabelos.
Victor: Por que você optou por estudar violino?
Angélica: Eu não optei. Meu pai sempre achou bonito e me matriculou no curso. Eu acabei gostando e estudo até hoje.
Victor: E o que você sabe tocar?
Angélica: Toco o que quiser.
Victor: De verdade? -Surpreendeu-se-
Angélica: Sim. Eu toco em nível profissional. -Envaideceu-se-
Victor: Sabe tocar A flauta mágica?
Angélica: Claro!
Victor: Eu tocava ela no piano mas já tem tanto tempo que nem sei se ainda lembro.
Angélica: Música é igual andar de bicicleta. Não dá para esquecer.
Victor: Você se importa de tocar pra mim?
Angélica: Sério que quer ouvir? -Estranhou-
Nenhum menino com quem Angélica saiu havia pedido que ela tocasse qualquer coisa no violino, ao contrário, eles sequer suportavam o som estridente daquele instrumento. Os que demonstraram algum interesse em ouvi-la o fez na tentativa de uma aproximação apenas para trocar alguns beijos e não por interessar-se de verdade em vê-la tocar.
Victor: Eu adoro violino. -Sorriu-
Angélica: Está bom! -Fitou-o com docilidade-
Angélica pegou o estojo ao lado do colega, retirou seu violino e se arrumou para tocar. Victor não parecia ser mais um menino interessado apenas em dar-lhe um beijo como todos os outros, ele gostava mesmo de música. Ela conseguia perceber isso na forma como ele falava e se expressava. Angélica posicionou o violino sobre os ombros, fechou os olhos e começou a tocar. A dor no braço não foi um impeditivo para aquele que tanto se mostrou interessado em vê-la tocar, atitude que nenhum outro houvera tido até então. Enquanto desliza o arco pelas cordas fazendo doces melodias Victor fica à observá-la deslumbrado. Ele conhecia a melodia no violino e Angélica tocava-a com tanta perfeição que chegou a emocioná-lo. Angélica tocou por quase 4 minutos e ele ficou a sentir aquela melodia tão bela tocada por uma garota tão bela quanto. A noite fresca, o luar e a bela paisagem da Lagoa junto à melodia o fizera sentir tão leve que por alguns minutos esquecera de toda angústia que traz no coração por tudo que já viveu. Angélica era a descrição de uma garota verdadeiramente perfeita, nunca havia se sentido assim ao lado de ninguém.
Victor: Nossa! Ficou perfeita! -Disse deslumbrado após Angélica ter parado de tocar-
Angélica: Eu desafinei no final. -Colocou o violino em seu colo e esticou o braço para que amenizasse a dor-
Victor: Um pouquinho só. -Disse gentil-
Angélica: É que eu já estou com o braço doendo. Depois de 4 horas de ensaio a passada do arco não é mais a mesma. -Justificou-se massageando o braço-
Victor: Desculpa. Se tivesse me falado antes eu não teria feito você se esforçar sem necessidade.
Angélica: Eu gostei de ter tocado para você. Deu para perceber que você sentiu de verdade a música. -Fitou-o gentil-
Victor: Eu sempre gostei desse instrumento. Me dá seu braço, se importa se eu fizer uma massagem?
Angélica: Se você conseguir eu vou adorar. -Esticou o braço-
Victor: Eu vou tentar. Se doer é só gritar. -Brincou-
Angélica deu um sorriso. Victor com toda sua delicadeza começou a massagear o braço da colega com o polegar, não pode de forma alguma machucar aquele braço tão delicado e que proporcionou à ele momentos de extrema satisfação. Ele não entende nada de massagem, mas não quer deixar de agradar aquela menina tão bonita que gentilmente toco para ele. Enquanto Victor desliza suavemente suas mãos pelo seu braço Angélica continua a conversa.
Angélica: O que te levou à vir morar no Rio se você era um milionário?
Victor: Depois que meu pai morreu, minha mãe não conseguiu mais manter a empresa e acabou decretando falência. Depois de 3 anos, a Elisa, amiga dela, conseguiu um emprego pra minha mãe na empresa da família e viemos pra cá.
Angélica: Entendi.
Victor: Você gosta de mais o quê além de música e poesia?
Angélica: De tudo que você vai achar estranho para uma garota da minha idade.
Victor: Como assim?
Angélica: Gosto de arte, pintura, literatura, trilha, skate. Essas coisas.
Victor: Eu adoro arte! -Admirou-se-
Angélica: Verdade? Ou é mais um garoto querendo me enganar? -Suspeitou-
Victor: De verdade. Eu fiz 2 anos de arte moderna em um curso lá em São Paulo mas aí aconteceu tudo isso que te contei e eu tive que sair. Eu não tenho porquê te enganar.
Angélica: É que todos os garotos que se aproximam de mim acham tudo que eu faço muito legal e dizem gostar de tudo que eu gosto e aí quando vou ver eles não entendem nada de nada. Tão pouco entendem do assunto. Tudo foi só um pretexto para sair comigo.
Victor: E não deve ser muito difícil alguém não querer sair com você né?
Angélica baixou seu olhar chateada, às vezes ser uma menina bonita tem seus momentos ruins. Todos que a vêem acham que não tem quaisquer problemas já que pode ter o garoto que quiser, mas toda a beleza de Angélica faz com que à cada dia tenha mais dificuldade de relacionamento. O título de não levar ninguém à serio é justamente por ainda não ter encontrado alguém com que pudesse compartilhar seu mundo. Sem querer responder a pergunta de Victor ela fica em silêncio até que ouve um toque em seu celular. É Sônia querendo ter notícias por SMS da filha que saiu para a aula de violino e ainda não regressou.
Angélica: É minha mãe. -Disse ao abrir a mensagem- Acho melhor irmos. Já é tarde. Vão acabar se preocupando. Me dá seu número de celular para a gente conversar. -Guardou o celular no bolso da calça-
Victor: Eu não tenho celular.
Angélica: Por quê? -Perguntou guardando o violino no estojo-
Victor: Me roubaram em São Paulo e eu ainda não tive tempo de comprar outro. -Mentiu-
Como ele poderia dizer para aquela garota linda a verdade sobre sua vida e que já não tinha celular à mais de 1 ano por conta das inúmeras ameaças de morte que já recebeu?
Angélica: Eu já teria ido comprar outro imediatamente. Meu celular tem tudo que eu preciso. Como alguém vive sem celular no mundo de hoje?
Victor: Á mim nunca fez falta.
Angélica: Eu não saberia viver sem o meu.
Victor: Amanhã posso te chamar na sua casa pra gente conversar?
Angélica: Pode.
Victor: Então vamos. Não quero que se zanguem com você. -Levantaram-se-
Continua...
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