O menino da van
2 História, nossa história
Notas iniciais
Seria muito mais fácil se já tivéssemos redes sociais e WhatsApp naquela época. Mas não. Eu precisava contar com a sorte de esbarrar com o Davi em algum momento na hora do recreio ou vê-lo passar de longe, já que sua sala era do outro lado do pátio.
Meus olhos ansiosos o buscavam incessantemente no intervalo. Meu coração acelerava quando o via, mesmo que estivesse distante.
Adorava quando ele vestia a sua camiseta cor-de-rosa, que era a minha preferida. Meninos não usavam muito rosa naqueles tempos. Alguns homens, mais tarde, vão descobrindo o segredo infalível de que vestir rosa chama a atenção das mulheres, mesmo em meio a uma multidão.
A minha atenção, ele chamava muito. Além da cor lhe cair bem, me fazia admirar a sua autenticidade.
Estávamos na mesma série. Eu entrei um ano adiantada na escola e ele fazia aniversário em outubro, o que explicava os quase dois anos de diferença de idade.
— Sabia que nós já nos conhecíamos? — ele perguntou certa vez na volta para casa.
— Não me lembro — respondi.
— No ano passado, você estava sentada num banco no pátio, na hora do recreio, e eu e meu amigo sentamos ao seu lado. Nós estávamos falando sobre como a Clarissa estava gorda e você imediatamente começou a defendê-la, falando que não devíamos julgar uma pessoa pela aparência, muito menos pelo peso. Você disse que ela era legal e não merecia que falássemos daquele jeito dela.
Clarissa era minha colega há anos. Por mais envergonhada que eu fosse, era bem possível que eu a tivesse defendido para estranhos. Desde cedo, nunca tolerei injustiças.
— Você estava certa — ele completou — é muito bonito uma menina que tem coragem de defender as amigas. Depois daquilo, eu passei a pensar duas vezes antes de falar algo sobre a aparência de alguém. Também conheci a Clarissa melhor e percebi que você tinha razão: ela é uma pessoa muito legal. Que nem você.
A palavra gordofobia nem existia naquela época. Tampouco havia a consciência que existe hoje sobre bullying. Fazer piada com qualquer característica alheia era normal. O bullying acontecia o tempo todo, era assim que as coisas funcionavam no dia-a-dia escolar. Felizmente, a sociedade vem evoluindo nas últimas décadas — embora ainda tenhamos um longo caminho a percorrer nesse sentido.
A volta para casa de van era o meu momento preferido do dia. Ou melhor, era meu momento preferido da vida. Nem sempre dava certo de sentarmos um ao lado do outro, mas, quando isso acontecia, eu era a pessoa mais feliz do planeta Terra.
Dependendo da rota que o tio Fernando escolhia, mudava a ordem em que chegávamos em casa. Eu preferia os dias em que o trajeto era mais longo, quando deixávamos muitas pessoas antes e, assim, eu podia ficar mais tempo com o Davi. Nesses dias, ele descia antes do que eu. Se eu tivesse a sorte de ele ter sentado ao meu lado, ao sair eu ganhava um beijo na bochecha.
Aquele beijo era a coisa mais mágica do Universo. Parecia que meu coração explodiria, ao mesmo tempo em que eu ficava vermelha de vergonha, para em seguida o êxtase dar lugar à tristeza infinita da sua ausência — porque adolescência sem exageros não é adolescência. Tudo perdia a graça e eu só queria chegar em casa. Na adolescência, todos os nossos sentimentos parecem ser elevados à décima potência. Pobres dos nossos pais, que precisam lidar com o nosso turbilhão de emoções. E pobres de nós, porque acabamos sofrendo mais do que seria necessário.
Com 12 anos, eu começava a experimentar essas sensações. Até então, tudo tinha sido bem mais fácil.
Assim era a minha rotina: esperar ansiosa pelos dias em que eu voltaria de van para casa e torcer pelo alinhamento dos planetas para que ele sentasse ao meu lado e ainda fizéssemos o trajeto mais longo.
Depois ficar em casa suspirando e tocando onde ele havia beijado meu rosto. Em minha ingenuidade juvenil, quase infantil, eu não queria muito mais do que isso.
Mas sonhava... à noite, nos meus sonhos nós dois dançávamos lambada, a dança da moda naquele ano. Mais uma vez, na minha ingenuidade, aquele era o máximo de sensualidade que eu conseguia conceber. Sempre ao som de "Chorando se foi", que era uma das lambadas famosas na época.
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