O menino da van

2 História, nossa história


Notas iniciais
Oie, seja bem-vinda/bem-vindo/bem-vinde à continuação da história da Victória e do Davi. Eu acho tão gostosa essa fase de início de paixão! Às vezes até tenho vontade de sentir de novo. Espero que você goste de acompanhar esse desabrochar do amor neste capítulo. Beijos da Natasha

Seria muito mais fácil se já tivéssemos redes sociais e WhatsApp naquela época. Mas não. Eu precisava contar com a sorte de esbarrar com o Davi em algum momento na hora do recreio ou vê-lo passar de longe, já que sua sala era do outro lado do pátio.

Meus olhos ansiosos o buscavam incessantemente no intervalo. Meu coração acelerava quando o via, mesmo que estivesse distante.

Adorava quando ele vestia a sua camiseta cor-de-rosa, que era a minha preferida. Meninos não usavam muito rosa naqueles tempos. Alguns homens, mais tarde, vão descobrindo o segredo infalível de que vestir rosa chama a atenção das mulheres, mesmo em meio a uma multidão.

A minha atenção, ele chamava muito. Além da cor lhe cair bem, me fazia admirar a sua autenticidade.

Estávamos na mesma série. Eu entrei um ano adiantada na escola e ele fazia aniversário em outubro, o que explicava os quase dois anos de diferença de idade.

— Sabia que nós já nos conhecíamos? — ele perguntou certa vez na volta para casa.

— Não me lembro — respondi.

— No ano passado, você estava sentada num banco no pátio, na hora do recreio, e eu e meu amigo sentamos ao seu lado. Nós estávamos falando sobre como a Clarissa estava gorda e você imediatamente começou a defendê-la, falando que não devíamos julgar uma pessoa pela aparência, muito menos pelo peso. Você disse que ela era legal e não merecia que falássemos daquele jeito dela.

Clarissa era minha colega há anos. Por mais envergonhada que eu fosse, era bem possível que eu a tivesse defendido para estranhos. Desde cedo, nunca tolerei injustiças.

— Você estava certa — ele completou — é muito bonito uma menina que tem coragem de defender as amigas. Depois daquilo, eu passei a pensar duas vezes antes de falar algo sobre a aparência de alguém. Também conheci a Clarissa melhor e percebi que você tinha razão: ela é uma pessoa muito legal. Que nem você.

A palavra gordofobia nem existia naquela época. Tampouco havia a consciência que existe hoje sobre bullying. Fazer piada com qualquer característica alheia era normal. O bullying acontecia o tempo todo, era assim que as coisas funcionavam no dia-a-dia escolar. Felizmente, a sociedade vem evoluindo nas últimas décadas — embora ainda tenhamos um longo caminho a percorrer nesse sentido.

A volta para casa de van era o meu momento preferido do dia. Ou melhor, era meu momento preferido da vida. Nem sempre dava certo de sentarmos um ao lado do outro, mas, quando isso acontecia, eu era a pessoa mais feliz do planeta Terra.

Dependendo da rota que o tio Fernando escolhia, mudava a ordem em que chegávamos em casa. Eu preferia os dias em que o trajeto era mais longo, quando deixávamos muitas pessoas antes e, assim, eu podia ficar mais tempo com o Davi. Nesses dias, ele descia antes do que eu. Se eu tivesse a sorte de ele ter sentado ao meu lado, ao sair eu ganhava um beijo na bochecha.

Aquele beijo era a coisa mais mágica do Universo. Parecia que meu coração explodiria, ao mesmo tempo em que eu ficava vermelha de vergonha, para em seguida o êxtase dar lugar à tristeza infinita da sua ausência — porque adolescência sem exageros não é adolescência. Tudo perdia a graça e eu só queria chegar em casa. Na adolescência, todos os nossos sentimentos parecem ser elevados à décima potência. Pobres dos nossos pais, que precisam lidar com o nosso turbilhão de emoções. E pobres de nós, porque acabamos sofrendo mais do que seria necessário.

Com 12 anos, eu começava a experimentar essas sensações. Até então, tudo tinha sido bem mais fácil.

Assim era a minha rotina: esperar ansiosa pelos dias em que eu voltaria de van para casa e torcer pelo alinhamento dos planetas para que ele sentasse ao meu lado e ainda fizéssemos o trajeto mais longo.

Depois ficar em casa suspirando e tocando onde ele havia beijado meu rosto. Em minha ingenuidade juvenil, quase infantil, eu não queria muito mais do que isso.

Mas sonhava... à noite, nos meus sonhos nós dois dançávamos lambada, a dança da moda naquele ano. Mais uma vez, na minha ingenuidade, aquele era o máximo de sensualidade que eu conseguia conceber. Sempre ao som de "Chorando se foi", que era uma das lambadas famosas na época.

Notas finais
Acho muito triste como até hoje muitas pessoas usam a palavra "gorda" como ofensa. Ser gorda é só uma característica física e de forma alguma deveria depreciar alguém. Ainda precisamos evoluir muito como sociedade! Façamos a nossa parte, policiando nossos próprios pensamentos e ações. Beijos da Nat! Nos vemos no próximo capítulo!