O mar e suas ondas
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Passaram-se doze semanas desde aquela noite no quintal com Dylan Turner. Por sorte, nenhum dos supervisores havia tido sinal algum de que nós havíamos saído dos quartos naquela noite, exceto por uma pequena desconfiança da parte da Sra. Young, que havia comunicado ao diretor do colégio que pareceu ver umas sombras se mover enquanto ia até o banheiro naquela noite. Mas, como não havia indícios alguns de que fôssemos eu e Dylan os causadores das sombras, não houve nenhum problema.
Nas próximas dez semanas, eu e Dylan conversamos quase descontroladamente. Digo “descontroladamente” porque até mesmo durante as aulas tivemos de levar alguns sermões dos professores por não ficarmos calados em alguns momentos. Dylan me falou quase tudo o que ele sabia sobre astronomia, e me falou também sobre alguns livros de heroísmo muito interessantes que eu ainda não conhecia. E eu, falei o que me interessava, é claro, sobre algumas das minhas poesias favoritas.
Essas semanas de conversas foram uma coisa que me deixou com muito mais vontade de descobrir coisas novas, pois Dylan fez-me interessar por astronomia e me fez ter ainda mais vontade de ler outros livros sobre heroísmo.
Os finais de semana foram como os de sempre. Lauren foi até a minha casa e trouxe o meu segundo amigo, Bryan, o cachorro dela. Nós conversamos, eu fiz um resumo de como foi a semana toda no novo colégio (sendo que eu já havia feito um resumo de todos os dias por e-mail a ela), e por final ela disse que estava começando a achar que o que eu tinha com Dylan não iria dar somente em amizade. O que eu não dei a mínima importância, pois nunca havia pensado que eu e Dylan poderíamos ser mais que amigos que gostavam de Shakespeare, outros livros de poesia, livros de heroísmo, astronomia e que levávamos sermões dos professores por não ficar quietos.
Depois do último final de semana, na segunda-feira, Dylan não veio ao colégio. Na terça-feira, ele veio. Na quarta-feira, não. E assim ele foi faltando sucessivamente, saindo do colégio sempre que não faltava, com autorização dos pais. Os professores sempre perguntavam pelas faltas dele, mas sua desculpa era que havia um compromisso em casa – do qual não especificou – e que faria o possível para não faltar muito às aulas. Os diretores pareciam saber o motivo das faltas, pois não comentavam nada a respeito.
Mas o que mais me doeu nisso tudo foi perceber que depois de tudo o que havíamos conversado juntos desde que nos conhecemos, Dylan Turner estava me evitando. Durante as duas semanas seguintes, eu tentava conversar com ele. Mas tudo o que ele fazia era ignorar, ou então pedir para que eu não me aproximasse mais. E com isso, a preocupação veio, a confusão se aumentou e eu não consegui mais dormir direito à noite.
Tudo o que Dylan Turner parecia demonstrar de diferente nas poucas vezes em que vinha ao colégio era um rosto um pouco mais pálido, os olhos verdes inchados (como se ele tivesse acabado de chorar) e um olhar triste. Além disso, ele não se sentou mais ao meu lado. Ele se sentou nas carteiras da frente, enquanto eu, confusamente, continuei nas carteiras do fundo.
Nesses dias, tudo o que eu consegui pensar foi “como eu consegui me envolver com um garoto tão estúpido?”. Eu praticamente havia vivido um sonho. Um sonho que não parecia se tornar realidade. Perguntei-me várias vezes como eu tive a capacidade de pensar que Dylan Turner pudesse ser meu amigo. Meus amigos de verdade mesmo sempre foram Lauren White e Bryan. Não existiam pessoas melhores que eles para serem meus amigos. Porque um amigo verdadeiro não iria me ignorar como se nós nunca tivéssemos conversado antes, como Dylan Turner fez.
Na segunda-feira durante meu tempo livre, após terminar de escrever um e-mail para Lauren, fui até o meu quarto, subi até a cama de cima do beliche e peguei meu livro. O mesmo livro. A fuga das tardes de domingo. Decidi que eu não iria mais à biblioteca, aliás, ela não era mais a mesma sem Dylan Turner me mostrando seus livros favoritos sobre heroísmo. Além do mais, quando Dylan vinha ao colégio ele não ia mais até a biblioteca em seu tempo livre. Ele ficava sentado em um dos bancos de praça do quintal do colégio, olhando para a grama verde, por minutos. Aquilo, de alguma forma, doía dentro de mim.
Abri o livro até a página que eu havia deixado para ler depois. A história era bonita. Falava sobre um sargento que foi humilhado pelos seus soldados por uma injusta causa, e que depois disso deu a volta por cima e provou que eram os soldados quem estavam errados. Levei aproximadamente vinte minutos para finalizar a leitura do livro, e depois virei a última página em branco e fitei a marca borrada onde, um dia, a letra de Dylan havia sido escrita.
Senti um nó na garganta ao pensar que Dylan poderia estar chorando naquele momento. Como eu queria saber o que ele tinha... Qual era o problema dele? Por que ele havia me ignorado? Será que ele poderia ser tão estúpido a ponto de cansar de conversar comigo e simplesmente começar a faltar às aulas e, quando vinha, praticamente me ignorar? Eu não tinha respostas, mas queria muito ter. Tudo o que eu queria era ter um motivo, ter respostas... Saber por que Dylan Turner parecia estar sofrendo tanto.
Foi então que tomei a minha decisão. Peguei meu celular, disquei o número de telefone de Dylan e aguardei a linha de chamada. Aquela já era a terceira tentativa de ligar para ele, mas eu não iria desistir. Eu tinha que saber. Dylan atendeu no quinto toque:
– Eu não ia atender, mas fiquei nervoso e preocupado ao mesmo tempo. – ele disse, sem ao menos cumprimentar-me com um “oi” ou um “Sam!”, como sempre fazia. – O que há? Por que você continua me ligando? Eu já disse que não quero mais falar com você.
– Dylan, escute. – eu comecei. – A gente estava conversando como amigos por dias! Eu realmente considerei você como um amigo, sabia? E isso é muito difícil para mim. Mas foi o que aconteceu. Você não sabe o quanto é dolorido ter que ver você vindo até esse colégio da forma como você está vindo ultimamente, e não poder perguntar o que está acontecendo! Eu preciso saber. Por favor, sério, me diz o que está acontecendo. Eu lhe imploro.
A linha ficou em silêncio por alguns instantes.
– Eu não posso falar. – ele disse, finalmente.
– Não pode falar?! Como?! Eu não entendo! Até duas semanas atrás você estava feliz e estava tudo bem. De repente você começa a faltar no colégio, começa a me ignorar... E agora você não pode falar o que está acontecendo?! Você não tem ideia de como está a minha preocupação até esse momento!
– Sam, tente entender. Eu não posso falar. É uma coisa horrível, eu... – ele fez uma pausa. – Você quer mesmo saber?
– É claro que quero! – eu concordei de imediato.
– Tudo bem, eu... – ele pareceu respirar profundamente do outro lado da linha. – Me encontre sábado, no Mc Donald’s, às três da tarde. – e desligou.
Tirei o celular do ouvido e fitei a tela por alguns segundos. Em seguida, desliguei a chamada e fiquei olhando para o nada durante um tempo, talvez alguns minutos. Sábado. Sábado seria o dia em que eu descobriria. Sábado seria o dia em que eu teria respostas para todas as minhas perguntas. Eu não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo, mas sabia que queria muito saber.
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