O mar e suas ondas
4 Capítulo 4
Às vinte e duas e quarenta e três, momento em que as luzes dos quartos tanto masculinos quanto femininos apagaram e todos deveriam tentar dormir, Alice Wood foi até sua cama, ficou aproximadamente uns dez minutos atraída em seu celular e depois o colocou em cima do pequeno bidê e se ajeitou para dormir.
Logo que tudo ficou quieto, eu fui até a minha mochila e peguei o livro de heroísmo A fuga das tardes de domingo. Guardei a mochila perto da cama, acendi a minha pequena lanterna que eu trouxe comigo quando entrei no colégio e a liguei. Direcionei a luz para as páginas do livro e comecei a folheá-las antes de iniciar a leitura.
Folheei todas as páginas. Algumas delas mostravam desenhos de pessoas morrendo, sangue, armas, balas de armas, pessoas sendo esfaqueadas... Coisas desse tipo. Algumas delas eram horrorosas, mas eu não prestei muita atenção. Na verdade, a minha intenção em folhear as páginas era somente ver se, de alguma forma, Dylan tinha marcado alguma frase do livro ou escrito alguma mensagem em alguma página. É claro que isso não aconteceu, afinal, é proibido marcar os livros ou escrever qualquer coisa neles, pois são da biblioteca.
Quando cheguei à última página, a qual estava em branco pelo fato de que o livro havia acabado, bem no canto, havia uma escrita em lápis. Uma letra inclinada e pequena, porém era caprichada o bastante para que fosse legível. Estava escrito: “meu telefone”, um número de celular, depois uma frase assim “acho bom você apagar isso depois de ver, pois a Srta. Lynn não iria gostar nem um pouco!” e então a assinatura como “Dylan Turner”. Abri um sorriso.
Salvei o número de Dylan rapidamente em meu celular e em seguida peguei minha mochila e retirei de dentro dela um apagador de lápis. Esfreguei-o no papel e apaguei a mensagem. Ainda era possível ver algumas escritas, mas estavam borradas e era impossível identificar. Em seguida, folheei as páginas novamente até o início e tentei me concentrar na leitura, mas tudo o que eu conseguia pensar era: o que será que Dylan Turner estava fazendo em seu quarto naquele momento? Será que ele estava dormindo, ou acordado? Será que estava pensando em seus livros sobre heroísmo?
Vinte e quatro minutos depois, desisti de ficar tentando impedir a mim mesma de não telefoná-lo. Todos os meus intuitos me diziam para telefoná-lo. Talvez isso fosse causado pela felicidade em saber que eu havia acabado de conseguir o número dele, embora isso fosse estranho de se dizer, pois é normal alguém passar seu número de telefone para outra pessoa sem a menor das intenções.
Peguei meu celular, disquei seu número e esperei pela linha de chamadas. Dylan Turner atendeu no último toque.
– Alô?
– Oi... Aqui é a Samantha. A garota do livro de Shakespeare.
– Samantha Money! – pude ouvir uma estranha alegria na voz dele ao falar o meu nome. – A quê devo o prazer de seu telefonema?
– Ahn, eu queria saber se... Se você estava dormindo, eu...
– Eu estava justamente aguardando para que você pegasse o livro e visse o meu número para me telefonar.
– Como sabia que eu lhe telefonaria?
– Eu palpitei. Geralmente, meus palpites nunca falham. – ele respondeu. Parecia estar sorrindo enquanto falava, mas não pude confirmar, afinal, eu não estava lá para ver.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Senti um nervosismo dentro de mim, pois eu estava percebendo que aquela conversa não estava tendo rumo nenhum e que a minha ideia de ligar para ele no momento em que todos deviam estar dormindo para acordar às seis e quarenta e cinco no dia seguinte era completamente idiota.
Eu já estava me arrependendo pela milésima quinta vez, quando ouvi a surpreendente voz de Dylan do outro lado da linha:
– Samantha?
– Eu?
– É, você. – ele riu. – Você quer mesmo dormir agora?
– Bem, até onde eu saiba, vinte e duas e quarenta e três é o momento em que todos têm de dormir. – eu disse. – Mas... Se quiser que eu seja bem sincera, não estou nem um pouco a fim de dormir neste momento.
– Que bom, porque eu também não estou. – ele disse. – Quer sair?
– Sair?! – fiquei completamente confusa. – Como?
– Sair. – ele repetiu. – Sair do quarto, ir até o quintal do colégio, conversar.
– Ahn, isso não é permitido! – retruquei.
– Que se danem as regras! – ele disse, com um tom de voz um pouco mais alto. – Você sabe que os supervisores de dia do colégio são muito idiotas. Com os da noite é a mesma coisa, ou até pior.
– Você tem certeza disso?
Eu fiquei muito insegura. Afinal, nunca tinha quebrado alguma regra que não fosse a do celular naquele colégio desde que entrei, e em meu colégio anterior eu jamais quebrei alguma regra. Não sabia o que iria acontecer comigo. E se fôssemos pegos por um dos supervisores?
– Claro que tenho! – ele confirmou. – Eu vou até aí, ok? Confie em mim, vai dar tudo certo. Fique na linha.
Meu coração começou a disparar. Ele iria até o meu quarto. “Oh, Deus!”, pensei desesperada. Lentamente, tentando controlar os batimentos fortes e rápidos do meu coração, desci pela escadinha do beliche e espiei Alice, na cama de baixo. Ela estava coberta pelos cobertores e seu corpo rechonchudo transparecia através das dobraduras do cobertor. Estava totalmente envolvida num sono profundo, o que foi um alívio para mim, pois eu não estava nada a fim de ter que dar explicações para onde eu iria, ainda mais com quem eu iria.
O telefone permanecia colado ao meu ouvido. A linha estava silenciosa, era possível apenar ouvir um chiado de quem estava se movendo e, às vezes, alguns sons de passos caminhando pelo chão. Enquanto eu aguardava impacientemente por algum sinal através da linha, tomei um susto com a voz baixinha de Dylan pelo telefone:
– Estou chegando aí. – ele disse.
Fui até a porta e respirei fundo antes de puxar a maçaneta. “Ok, está tudo bem”, pensei, e então abri a porta. Espiei para fora lentamente. Dylan, pela primeira vez, não estava vestindo o uniforme masculino do colégio. Ele estava com um pijama azul folgado no corpo e usando apenas meias brancas. Os cabelos castanhos e cacheados estavam embaraçados, mas o sorriso e a forma natural de olhar para mim continuava a mesma.
Só então, percebi que eu também estava de pijamas. Eu vestia uma camisola rosa desbotada, uma camisola que eu tinha desde os meus treze anos, quando ganhei de presente do meu pai. Pelo fato de que eu já estava com dezesseis anos, a camisola ficava um pouco mais curta comparado à forma que ela ficava quando eu tinha treze anos. Mas servia perfeitamente, afinal, eu não tinha crescido muito desde os treze. Apenas alguns centímetros. Mesmo assim, não pude deixar de ficar envergonhada.
Meus cabelos escuros estavam um pouco embaraçados. Eu usava um par de pantufas de panda que eu havia ganhado de aniversário de meu pai quando completei dezesseis anos. E é claro que Dylan não deixou de olhar para essas partes do meu corpo. As minhas pernas estavam nuas, não havia nada que as tapasse. A única coisa que eu vestia era a minha camisola. Senti o meu rosto corar quando ele se aproximou.
A única coisa que eu consegui fazer foi desligar a linha de telefone, a qual ainda estava ligada. Percebi que Dylan fez o mesmo. Antes de fitar o meu rosto, ele espiou por cima do meu ombro, provavelmente para ver Alice Wood, dormindo profundamente na cama debaixo. Em seguida, fitou-me e lançou o seu sorriso típico.
– Oi. – ele disse.
Não consegui impedir que meu coração disparasse ainda mais.
– Oi. – cumprimentei, sem conseguir esconder a minha timidez.
– Bela camisola.
Tenho que confessar que aquilo me deixou ainda mais envergonhada.
– Ahn, obrigada. – agradeci, tímida.
Embora que eu me perguntei várias vezes no que a minha camisola poderia ser bonita, não pude deixar de ficar lisonjeada. Afinal, a minha camisola era como se fosse o meu ursinho de pelúcia. Eu dormia com ela todas as noites, e nunca na vida havia pensado em me desfazer dela. Ficava feliz em saber que ainda a achavam bonita.
– Vamos? – ele perguntou, e pegou minha mão.
E então eu senti. Pela primeira vez. A mão de Dylan era quente. Mas não era quente do tipo, fervia. E nem quente do tipo, quase fria. Era meio a meio. E eu só sabia que independente que se ela fosse fria ou quente, ela era confortante. Era como se quando eu o tocava, uma paz entrava em mim. Mas é claro que não foi o bastante para me tranquilizar do nervosismo.
Dylan me puxou rapidamente para fora do quarto. A única coisa que consegui fazer foi fechar a porta do quarto. Quando chegamos até final do corredor dos quartos femininos, Dylan parou de correr e nós dois ficamos de encosto à parede, como se fosse aqueles agentes do FBI tentando encontrar o bandido. Nesse caso, nós dois tínhamos de ser os bandidos e os supervisores da noite do colégio os agentes, mas era exatamente o contrário.
Dylan espiou pelo canto da parede lentamente, em seguida voltou na posição anterior e me fitou.
– Está livre. – ele disse.
Segui Dylan pelo corredor de salas de aula rapidamente. Quando estávamos prestes a chegar até o quintal, vimos por perto de uma das portas do corredor uma luz branca, tipo as de lanterna, surgir. A luz se movia de um lado para o outro, tremia um pouco, e parecia ficar maior de maneira em que a pessoa que a segurava se aproximava.
Dylan me fitou com os olhos arregalados, e a partir de então fiquei desesperada. Logo ao lado de onde estávamos, havia uma porta que dava para a sala das faxineiras do colégio, onde elas guardavam os objetos de limpeza. Eu puxei a maçaneta rapidamente, e eu e Dylan entramos de imediato.
Era um ambiente de quatro paredes bem pequeno, onde todos os panos, vassouras, produtos de limpeza etc. estavam completamente organizados. Não dei muita bola para o cheiro horrível de algum dos produtos de limpeza pairando pelo local. A única coisa que eu conseguia fazer era espiar pela fechadura da porta e ver quando o supervisor passasse.
– Samantha? – Dylan me chamou, e eu o fitei. – Posso ver?
– Claro.
Saí de frente da porta, em seguida Dylan abaixou-se para espiar pela fechadura. Fiquei observando-o por alguns segundos, e nesse meio-tempo não pude impedir uma rápida observação pela forma em que ele havia se abaixado. Seus joelhos dobrados esticavam um pouco o tecido do pijama azul, o que demonstrava uma pequena parte de suas pernas por baixo do tecido. Os cabelos cacheados permaneciam bagunçados, mesmo assim ele não deixava de ser bonito nem por um instante.
– Ela passou! – disse Dylan, um pouco mais alto, o que me provocou um pequeno sustinho.
– Ahn... Quem? O-o supervisor do colégio? – gaguejei confusa.
– Era a Sra. Young. – ele argumentou. – Não sei o que ela poderia estar fazendo numa hora dessas.
– A Sra. Young?!
– Pois é. Estranho, não é?
Enquanto saíamos da sala de faxineiras, fiquei pensando a respeito do motivo que a Sra. Young estava perambulando pela casa, sendo que já era praticamente vinte e três da noite, horário em que todos deveriam estar dormindo. Aquilo estava começando a me assustar. Já não bastava que a Sra. Young era estranha durante o dia inteiro, ela era estranha à noite também. Perguntei-me se ela realmente era um ser humano que dormia.
Chegamos ao quintal alguns minutos depois. O chafariz do quintal do colégio permanecia em sua forma de sempre, saiam gotas de água de dentro dele o tempo todo, e elas caíam para baixo. A grama verde balançava com o vento da noite, a lua quase cheia iluminava a escuridão levemente.
No quintal do colégio interno em que meu pai havia me colocado havia bancos de praça, os quais alguns dos alunos sentavam durante o dia em seu tempo livre para ler, fazer as lições de casa ou conversar com os amigos. Nesse caso, eu e Dylan usamos um deles para se sentar. E ficamos sentados ali por um tempo. Não posso dizer quanto, mas eu acho que foi um bom tempo.
– Posso te chamar de Sam? – ele perguntou, de repente, sem me fitar.
– Não parece nome masculino? – perguntei, sem conseguir evitar fita-lo.
– Parece. – ele concordou. – Mas sabe o que é? Podem existir dois sexos diferentes da nossa espécie, que são o homem e a mulher. Mas isso não quer dizer que temos que ter nomes ou apelidos que sejam masculinos ou femininos. Aliás, lá no fundo, todos nós somos iguais nesse sentido.
Fazia sentido. Eu meneei a cabeça, como se estivesse dizendo “é, você está certo”, porém não tinha coragem de dizer através dos lábios.
– Tudo bem. – concordei. – E eu posso lhe chamar de...?
– Não sei, me diga você. – ele disse, e depois riu e me fitou.
– Dylan! – eu disse, sem conseguir evitar um sorriso. – Dylan Turner.
Dylan deu uma risada, em seguida fitou a lua.
– Você é capaz de formar algum desenho na lua? – ele perguntou. – Não sei, é que eu... Bem, eu consigo.
– Algumas pessoas dizem conseguir ver um cavalheiro montado em seu cavalo. – comentei.
– É, mas eu não consigo. Eu consigo ver uma coisa diferente. Sei lá, talvez um... Ahn, um pássaro. – ele disse.
Fitei a lua por vários segundos, tentando formular algo parecido com o desenho de um pássaro. Não consegui, de forma alguma. Fiquei me perguntando de que forma Dylan Turner conseguia enxergar um desenho de um pássaro naquelas fórmulas escurecidas e claras que a lua cheia refletia.
– Eu não consigo ver. – confessei.
– É que não é um pássaro comum. – Dylan disse. – Ele é meio esquisito. Para enxergá-lo você têm de passar dias observando a lua.
– E você passou dias observando a lua? – perguntei, e fitei-o.
– Passei. – ele me fitou. – Quer dizer, além da minha fascinação por livros de heroísmo, sempre fui fascinado por essas coisas espaciais. Adoro estudar astronomia. Um dos meus sonhos é ser astrônomo. Acho uma profissão muito interessante.
– Que ótimo! – eu disse. – Sempre admirei astrônomos. Acho que têm de ser muito profissional para conseguir um cargo desses.
E era verdade. Eu nunca fui muito fascinada por astronomia, mas sempre achei interessante a profissão que constitui os cientistas astrônomos. Afinal, é muito legal essa coisa de estudar corpos celestes e tentar descobrir coisas novas nesta área. Não sei por que, mas sempre achei isso extremamente interessante.
– Mas e você? – Dylan perguntou. – Você não consegue ver nada na lua?
– Eu consigo identificar o desenho do cavalheiro montado em seu cavalo. – eu comentei, fitando a lua. – Mas nunca consegui identificar nada, além disso.
– Talvez porque você nunca parou para observar. – ele disse, e depois abriu seu típico sorriso. – Eu já consegui identificar muitos. Falei o do pássaro porque é o meu favorito.
– Sério? – tudo o que eu consegui fazer foi ficar surpresa. – Mas... Como?
– O segredo é ter paciência para observar, Sam. – ele disse, chamando-me pela primeira vez pelo apelido que inventou. – Faça isso um dia, eu tenho certeza de que irá conseguir.
Ficamos em silêncio mais uma vez. Foram alguns segundos, os segundos mais estranhos de toda a minha vida. Meus sentimentos eram esquisitos. Talvez fosse porque eu estava ao lado de um garoto do qual eu havia conhecido a pouco tempo e que eu já era amiga (pelo menos eu achava que era), em meu novo colégio, no quintal, às vinte e três horas e dez minutos, a perigo de que um dos supervisores nos encontrasse.
Mesmo assim, naquele momento não eram os meus sentimentos que mais importava. O que mais importava era que eu estava conversando com outro amigo que não fosse Lauren White pela primeira vez, e eu estava muito feliz por isso.
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