O mais baixo amor
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Quando alguém passa por um longo tempo de tortura e depois se ver livre por algum tipo de milagre, a pessoa tem que lidar com a pergunta “como aguentou tudo isso?” e as respostam são sempre as mesmas, “eu não sei”.
De fato a pessoa não sabe mesmo, pois ela não viveu aquilo, ela sobreviveu aquilo. Criou outros mundos em sua cabeça, se agarrou a outros pontos de alegrias e esperanças. Essa é a forma que o ser humano tem de se defender, mas e quando todo o sofrimento e monstros estão em sua cabeça?
– Apareça, minha Dama.- Cobra andava pelo corredor com sua voz carregada de ódio e deboche chamando pela garota.- Prometo não te machucar.- Falou mais uma vez, depois deu um murro na parede.- Anda, aparece!
Duas semanas haviam se passado desde o ocorrido na sala de hospital, desde então Cobra estava proibido de ver Jade. O correto era que qualquer pessoa pudesse visitar a garota no horário de visitas, já que a mesma é maior de idade, mas claro, o dinheiro sempre abre ou fecha portas.
Desde então o grande Ricardo Cobreloa, nada mais era que um bebum escorado em uma mesa de bar entornado dose atrás de dose. Nunca foi muito de beber, sempre muito cuidadoso para não ter que dar escândalo e sair na mídia, mas no momento, pouco se importava. Dane-se se o padrasto iria ficar furioso com as notícias, achava era pouco.
O dono do bar bateu com o guardanapo no pescoço desnudo de Cobra que levantou a cabeça para encará-lo.
– O expediente acabou.- Puxou o copo do rapaz de cima do balcão.- Volte amanhã.
Cobra, como sempre, se levantou e saiu se arrastando os pés pelo bar enquanto puxava do bolso um cigarro e isqueiro (hábito que estava se tornando frequente nas últimas semanas). Assim que deu a primeira tragada, a nicotina fez efeito e sentiu seus músculos relaxarem. Tinha sempre que estar sobre efeito de algo ou a realidade o pegaria.
– Cobra.- Uma voz masculina veio de trás do bar e o rapaz pendeu a cabeça para ver quem era.
– Henrique.- Cobra revirou os olhos e deu as costas para o rapaz andando pelas ruas sem dar atenção.
– Eu fiquei um tempo esperando você.- Henrique andava atrás de Ricardo sem se atrever a erguer os olhos do chão, ele não era digno.
– Sério? Que honra a minha um almofadinha, como você, me esperando.- Debochou o moreno enquanto dava outra tragada no cigarro.
– É a Jade.- Falou Henrique e escutou os passos de Cobra cessarem.- O acidente aconteceu por minha culpa.
– Não foi atrás de você que ela saiu correndo.- Cobreloa limpou a garganta.
– Ela mentiu.- Henrique suspirou e ergueu o olhar para espiar Cobra.- Ela estava dizendo que o amava, mas eu fui egoísta e quando vi você lá...- Ele não conseguia terminar a frase.- Eu sinto muito.
Nessa hora Cobra assentiu, suspendeu o cigarro atrás de uma das orelhas e se virou para Henrique em tempo de lhe acertar um soco na cara derrubando assim o rapaz. Ricardo o pegou do chão e pós contra a parede do bar, pressionando suas costas contra o cimento áspero.
– Qual é o seu problema, Henrique?! Qual é o maldito do seu problema?!- Cobra gritou para o rapaz que já chorava.
– Eu queria que ela me amasse.- Tentou justificar Henrique em meio as lágrimas.
– E não considerou que talvez ela me amasse?- Cobra bateu com as costas de Henrique de novo na parede.- Não podia respeitar?
– Sabia que ela te amava. Sempre soube.- Henrique olhou para Cobra.- Eu só queria que ela me amasse também, mas nunca houve espaço. Sempre foi você, eu era apenas o figurante.
– Jade nunca foi feita para figurantes, sempre foi a protagonista.- Cobra tirou o cigarro de trás da orelha e colocou dentro da boca do rapaz o prendendo.- Engole.
Henrique se debateu tentando soltar, mas Cobra apenas reforçou o apertão. Sem saída, o rapaz engoliu o cigarro, satisfeito, Ricardo o soltou o garoto, que caiu tossindo e cuspindo. Cobra se virou para ir embora.
– Eu preciso que você me perdoe.- Cobra se virou para Henrique e observou o moço no chão o encarar.
– Te perdoar?
– Se a Jade morrer, eu não vou saber conviver com isso.- Limpou a garganta.- Eu preciso do seu perdão.
– Quem perdoa é Deus.- Cobra o encarou com desprezo.- E se a Jade morrer, você também morre. Lide com isso.
Cobra finalmente se foi deixando um Henrique caído e desolado no chão.
Jade estava sentada em uma sala escura, chorando, enquanto vozes ecoavam pela casa. Não queria mais aquilo, queria ir embora, sumir, desistir... Era complicado demais para tentar lidar, resolver, lutar contra. Porque não se entregar?
– Eu não aguento mais.- Choramingou.
– E você pretende desistir?- Escuta sua mesma voz aos doze anos, logo a pequena Jade aparece em sua frente.- Faça isso mesmo, sempre soube que você era uma fraca.
– Uma fraca?- Jade limpou as lágrimas que ameaçavam cair.- Eu lutei contra os meus sentimentos por causa de uma vingança boba que você criou. Eu saí como a vilã, enquanto você, a garotinha que perdeu a mãe e está aprendendo a lidar.
– Pelo menos eu não desisti.- Disse com bico que Jade costuma fazer quando é contrariada. Isso fez com que a mais velha risse.
– Ah não?- Provocou Jade.- Vejamos, você se alto culpou, depois culpou todos a sua volta e por último, deu a facada final, condenou aquele que mais amava. Isso não é desistir?
– Eu não...- A garota balançou a cabeça.
– Era doloroso demais pensar, que talvez, a suprema e inabalável Lucrécia, não suportou tudo e se foi.- Jade sorriu de forma libertador.- É isso.
– Por que ela me deixou?- Perguntou a menininha chorando.
– Porque ela precisou.- Jade ergueu o queixo da menina em sua frente.- Olha, eu sei que dói e, honestamente, nunca para de doer, você nunca vai deixar de sentir saudade. Mas você ninguém tem culpa, ninguém.
– Ela não me amava.- A garotinha choramingou.
– Ela te amava como ninguém.- Jade limpou as suas próprias lágrimas.- Ela só não se amava demais.
Depois disso, a garotinha sumiu e Jade se viu em outra sala. Sala não, quarto. Esse era o quarto de Lucrécia. Era inesquecível o cheiro do perfume da mãe.
Karina escutou batidas na porta e quando abriu, Cobra adentrou a sala, o cheiro forte de bebida infestando o lugar. A garota bufou, todos os dias assim.
– Bom dia, gatinha.- Falou dando um beijo no rosto da garota que o afastou.
– Não gosto que me chame assim.- Disse fechando a porta.
– Qual foi? Quando namorávamos, você adorava.- Cobra se jogou no sofá e passou as mãos atrás da cabeça.
– Eu nunca gostei.- Insistiu jogando os pés do rapaz de cima do sofá.- Eu troquei essa capa hoje. Aliás, vai tomar um banho.
Cobra bufou, mas fez o que a garota mandava. Assim que Cobra entrou debaixo da água morna, as palavras de Henrique vieram em sua mente. Maldito engomadinho. Ele os convidou pra festa, armou aquilo e por culpa dele brigaram. Jade só estava naquele hospital por culpa de um idiota que não aceitava o fim do relacionamento.
Ao concluir isso, Cobra percebeu que ele não tinha culpa. Então deveria estar se sentindo melhor, já que não foi ele quem causou tudo isso. Respirar aliviado e, até mesmo, sorrir.
Porém, não se sentia nem um pouco melhor, nada mesmo. Ele não estava se martirizando por culpa, e sim porque a cada minuto, sentia falta de Jade. Sentia falta do seu cheiro, da sua voz, até do seu riso de deboche. Sentia falta de querer matá-la e ama-la ao mesmo tempo. Ele só a queria de volta. Só se sentiria melhor, se ela voltasse.
Assim que Cobra saiu do banheiro, já vestido, Karina o avisou que a mãe de Ricardo havia ligado. Desde a briga com o padrasto, o rapaz havia saído de casa e não pretendia voltar. A mãe ligava todos os dias e todos os dias ele evitava a atender. Ele não queria dizer que estava tudo bem, pois não estava e ela saberia que estava mentindo. As coisas já não estavam fáceis para ela e o padrasto, que estavam brigados.
– Hum.- Cobra assentiu tomando grandes goles de café preto sem açúcar.- Depois eu retorno.
– Você nunca retorna.- Argumentou a garota enquanto terminava seu café e se levantava da mesa.- Estou indo visitar a Jade, quer que eu diga alguma coisa a ela.
– Como se ela ouvisse.- Riu sem humor.
– Sabe Cobra.- O encarou e notou que o rapaz tinha um olhar vazio, como se nada o afetasse.- Esquece, você não é o Cobra.
Karina saiu e Cobra revirou os olhos.
Jade encarou o quarto da mãe e deixou que algumas lembranças lhe inundasse a mente. Apesar da mãe ser muito rude, sempre tinham o costume de assistirem filmes todos os sábados, juntas, no quarto da mãe.
– A filha ingrata sempre volta.- Escutou a voz de Lucrécia atrás de si.
– Eu nunca fui embora.- Jade disse com doçura a encarando.
– Não? E aquela mulherzinha imunda que trouxe para casa? Aposto que foi correndo entregar meu quarto a ela.- Atacou a mulher com amargura.
– Foi por isso que se matou?- Jade estreitou os olhos.- Você não queria ter que dividir.
– Não seja leviana, eu jamais desistiria da minha vida por conta de você e suas preferências.- Rebateu Lucrécia.
– Mas desistiria por medo.- Jade deu um passo à frente.- Medo que eu a amasse menos por conta de outra. Não é, dona Lucrécia?
– Você não seria capaz.- Blefou.
– E você tinha total certeza disso?- Questionou Jade se aproximando cada vez mais da mãe.- Quitéria era muito doce comigo.
– Mas eu te amava Jade, te amava do jeito torto, mas te amava.- Lucrécia estava prestes a chorar.
– E por que quis me punir tanto? Por que deixou uma carta para mim, me culpando?- Jade estava muito próxima de sua mãe.- Nunca foi sobre o papai, você sempre soube que ele poderia deixar de ama-la e até conviveria bem com isso, desde que eu estivesse com você.
– Porque você é a minha filha, me deve amor!- Lucrécia se desesperou e caiu no choro.
– E eu te amo, sempre te amei.- Jade a olhou nos olhos.- Mãe, eu chorei todos os dias sentindo sua falta, por que você não confiou em mim?
Jade começou a chorar profundamente e a mãe a abraçou acariciando suas costas.
– Me perdoa, Jade, a culpa nunca foi sua, meu amor.- Lucrécia ergueu o rosto da filha para olhá-la.- Eu só não queria que você os amasse, eu fui egoísta.- A mulher encheu o rosto da filha de beijos.- Eu te amo, Jade.
Jade fechou os olhos e sentiu como se tivesse algo pousando sobre ela, abriu os olhos e Lucrécia não estava lá, nem era mais o mesmo ambiente. Estava em seu quarto, e havia várias borboletas azuis pousada sobre si. Jade não entendia muito de símbolos, mas sabia que borboletas eram um mal presságio. Iria enfrentar algo que fosse de vida, ou morte.
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