O mais baixo amor
9 Capítulo 9
Notas iniciais
“Jade estava em local cheio de paredes esverdeadas e uma luz branca que insistia em ficar piscando. A garota estava também com uma espécie de macacão comprido e todo branco, onde as mangas e pés da roupa estavam costurados.
– Onde estou?- Perguntou para si mesmo.”
Cobra adentrou o hospital juntamente com os enfermeiros e Jade em uma maca. Assim que o garoto chamou os médicos, rapidamente uma ambulância chegou ao local e levou a garota ao médico, em nenhum momento ele a deixou.
– Jade, eu tô aqui!- Gritava Cobra ao lado da garota.
– Senhor, não pode entrar com ela.- Dizia um enfermeiro tentando segurar o rapaz que se esquivava e corria até a garota.
– Jade!- Mais uma vez o barraram.- Ela é minha namorada!
– Eu sinto muito, acesso apenas para os médicos.- O enfermeiro tentava explicar.
Por fim, Cobra acabou atendendo a ordem do enfermeiro, mesmo contrariado. Enquanto esperava nos corredores do hospital, a atendente do balcão o chamou e perguntou se queria contatar os pais de Jade.
– Droga!- Praguejou o rapaz.
Ele tinha que chamá-los, o pai de Jade tinha o direito de saber o que aconteceu com a filha, mas como contar isso ao padrasto? Nem ele mesmo conseguia acreditar que Jade tinha sido atropelava enquanto corria atrás do carro dele. Foi tão estupido ter entrado no carro e sair. Era um idiota.
– Será que você podia fazer isso?- Perguntou para a atendente.- Eu… Eu não sei como contar.- Cobra colocou as mãos na cabeça totalmente desolado.- A culpa é minha…
– Ok, tudo bem, eu posso chamá-los.- Disse a balconista indiferente com tudo o que estava acontecendo.
Cobra passou o número dos pais de Jade para a moça e foi se sentar nos bancos acolchoados do hospital. Sempre odiou hospitais, seu pai foi fatalmente pego pelo câncer no pulmão (o velho adorava fumar), e passou mais tempo lá do que em casa. Cobra não vinha muito vista-lo, mas as vezes que veio, aquele cheiro de hospital impregnou no seu nariz. Irônico como aquele ambiente sempre estava sugando as pessoas que amava.
“
– Onde estou?- Sussurrou Jade para si mesmo enquanto corria os olhos pela sala.
– No seu pior pesadelo, minha querida.- Jade ouviu a voz da mãe.
– Mãe?!- Gritou Jade procurando a mãe.- Cadê você?!
Jade ouviu a risada da mãe e depois um “aqui”, a garota se levantou da cama e começou a procurar com os olhos pela mãe.
– Aqui…- Sussurrou no pé do ouvido da garota.
– Mãe…- Jade se virou, mas não tinha ninguém.
– Aqui…- Outro sussurro pelas costas da garota e quando se virou, mais uma vez ela não estava.
– Aparece, mãe!- Gritou Jade.
– Eu tô aqui, meu amor…- A voz da mãe veio do corredor e Jade viu um vulto passar do lado de fora do cômodo.
A garota correu mais uma vez atrás da mãe, mas como antes, não a achou. Jade estava na sala da sua casa, e viu Cobra com seus doze, treze anos de idade a encarando, rindo dela. Ela conhecia aquilo, não era uma imagem, era a lembrança do seu primeiro beijo.
– Cobra.- Chamou Jade se aproximando do garoto.
– Você é uma vadia mesmo.- O garoto falou aquilo com um sorriso no rosto, deixando uma Jade confusa.
– O que?
– Eu sempre te amei, sempre a quis e sabe o que eu ganhei em troca?- Perguntou com uma expressão de ódio no rosto.- Um maldito pé na bunda!
– Isso não é verdade!- Jade apertou os olhos para não chorar, não podia chorar.
– É verdade sim.- O garoto se aproximou e de repente Jade era apenas uma garota de treze anos.- Você sempre me esnobou, nunca deixou que chegasse perto de você. E por que disso? Medo que eu dilacerasse seu coração?
Cobra segurou o rosto de Jade nas mãos e beijou seus lábios. O beijo foi amargo, já que a garota sentia o gosto de suas lágrimas inundando seus lábios. Mas além disso, ela se sentiu destruída, essa era uma lembrança boa, que estava se transformando em ruim. Não era justo.
Assim que se separaram, Cobra a olhou nos olhos e disse lentamente.
– Pois saiba que é impossível, você nunca teve um coração.”
Cobra ainda estava sentado nos bancos, não tinha noção que horas eram, nem quanto tempo estava ali. Vagamente lembra da balconista lhe informando que o número que havia passado a ela, ninguém havia atendido. Até ligou do seu celular para o padrasto, mas a moça da operadora informou que o número chamado havia bloqueado as ligações do celular de Cobra. Estavam levando a sério que ele e Jade teriam que se entender sozinhos.
A medida que o tempo ia passando, as pessoas iam circulando pelo corredor. A namorada de um acidentado se sentou ao lado de Cobra, ela estava aos prantos, entre choro e gritos, extremamente nervosa. Cobra apenas se encostou no banco e fechou os olhos. Podia ter a acalmado, mas ele não se importava, no final mesmo, todas as conversas furadas de hospital, só são conversas furadas.
Depois de algum tempo, Cobra escutou barulhos de tênis contra o piso branco do hospital. Quando olhou, notou quatro pares de all star gastos e um pouco sujos. Era impossível não conhecer. Karina e Pedro.
Sem cerimônias, a garota se sentou ao seu lado e Pedro continuou de pé.
– Como ela está?- Perguntou Karina e Cobra balançou a cabeça negativamente.
– A polícia encontrou o cara que atropelou, teve uma testemunha e…- Pedro falava, mas Cobra começou a chorar.- E ela contou… ela tava dentro do carro…
– A culpa é minha.- Falou Cobra silenciando Pedro.
– Não, não é sua culpa.- Consolou Karina.
– É minha sim, fui eu quem brigou com ela, foi atrás de mim que ela veio.- Karina tentou acariciar os cabelos de Cobra, mas ele segurou suas mãos.- Eu sou um monstro, Karina, um monstro!- O rapaz gritou, que a moça que estava descontrolada por conta do namorado, se encolheu.
– Cobra…
– Se ela…- Ele não conseguia terminar a frase.- Se ela morrer, eu me mato. Eu juro que me mato.- Dito isso, Cobra se levantou e se afastou da amiga.
Karina fez menção de segui-lo, mas Pedro a segurou. Cobra não precisava de apoio, precisava de tempo, de ar.
“Jade caminhava com seus treze anos de idade por um corredor comprido, com várias portas, no entanto, nenhuma delas se abria, até que uma em questão se abriu. Jade se deparou com o ateliê de dança da mãe, o que a garota costumava treinar exaustivamente. Aquilo fez com que a garota tremesse, ela se aproximou da barra de ferro e se viu no espelho. Magra, os cabelos negros posto em um coque que, puxava tanto o seu cabelo, que chegava a da dor de cabeça. Suas pernas eram magras demais, o que ficava parecendo dois gravetos. Seus pés sempre estavam doloridos, mas a mãe da garota nunca ligou para isso.
– Jade! A musica, vamos!- Ouviu o grito estridente da mãe e então Jade notou que ela estava sentada em seu lugar de costume, próxima a porta, onde podia observar melhor a garota.
– Mãe!- Jade correu até a mãe e a abraçou.- Eu senti tanta a sua falta.
Lucrécia passou as mãos pelas costas da filha, em um carinho. Aquilo não era uma lembrança, mas sim uma cena real.
– Você cresceu tanto…- Então Jade não tinha mais treze anos, mas sim sua idade normal, com as roupas brancas novamente e não era mais o ateliê, sim a sala com as paredes toda esverdeada.
– Mãe, onde eu estou? Me tira daqui, eu não gosto daqui.- Pediu a garota em desespero.
– Sinto muito, querida, mas você me decepcionou, não vou poder te ajudar.- Lucrécia sorriu e se levantou da cadeira, caminhou para longe da filha.
– Mãe!- Jade gritou e tentou acompanhar a mãe, mas estava tão cansada… não conseguia caminhar, até que ela foi escorregando pelas paredes e…- Mãe…”
Passado mais um tempo, Cobra veio se sentar com Karina e Pedro no banco de espera. O rapaz não tinha certeza, mas acreditava estar amanhecendo o dia. Ele tentou ligar para o pai de Jade pelo celular de Karina, depois de Pedro, mas mais uma vez, foi inútil. Era provável que haviam bloqueado qualquer ligação do DDD de sua cidade. No fundo, Cobra estava aliviado que eles não haviam atendido.
O médico se aproximou de Cobra, Pedro e Karina, que se levantaram ansiosos para ouvir o que o doutor tinha a dizer.
– Olá, eu sou o doutor Kleber, vocês devem ser a família dela, correto?- Perguntou cordialmente e assentiram.
– Então doutor, ela tá bem?- Se apressou Cobra sentindo sua testa suar de nervoso.
– Olha, o caso dela não é grave…
– Graças a Deus.- Soltou os três em couro.
– Mas também não é estável.- Concluiu o médico deixando todos muito nervosos.
– Como assim não é estável?!- Soltou Karina antes que Cobra falasse.
– Bem, devido a batida, ela teve um edema cerebral.- Notada a confusão nos rostos dos jovens, o médico prosseguiu.- Significa que ela teve um inchaço no cérebro.
– E isso não é grave, né doutor?- Perguntou Cobra bem alterado.
– Temos que esperar o cérebro dela desinchar para saber. Com vários medicamentos isto é possível. Mas no momento…- Kleber respirou fundo.- Ela está em coma.
A notícia fez com que Cobra caísse no chão de joelhos, Karina e Pedro se agacharam para poder tentar consolar o rapaz, mas este apenas chorava.
Fale com o autor