O mais baixo amor
12 Capítulo 12
Notas iniciais
O ódio, ele é dilacerador, monótono e te seca por dentro, destrói, te reduz a pó. O amor, ele cura, te preenche e é cheio de inconstâncias, e mais do que isso, ele te transforma...
Cobra escutou passos se aproximando e não precisava se virar no sofá para saber quem era.
– Eu sei que você está acordado.- Anunciou Karina.
O garoto bufou e se virou no sofá ficando de frente para a garota, que estava devidamente arrumada em um jeans não muito colado e uma camiseta que Cobra podia jurar ser de Pedro e um tênis. Karina não era muito feminina e isso nunca o incomodou, nem a Pedro pelo visto.
– Como você sempre sabe quando estou fingindo?- Questionou.
– Melhores amigos são para isso.- A garota deu de ombros.- Aliás, eu sei até o que você está pensando.- Provocou Karina.
– Aé? Então fala.- Cobra se sentou no sofá e cruzou os braços.
– Está pensando que eu jamais vou acertar o que você está pensando.- Zombou a garota caindo na risada e logo sendo acompanhada pelo amigo.
– Trapaceira!
– Ok, mas não vim aqui para mostrar minhas habilidades psíquicas.- Começou a garota parando de rir gradativamente.- Eu vou visitar a Jade, você quer que eu diga alguma coisa para ela?
Cobra desfez o sorriso. Era complicado tocar nesse assunto, ele nunca se esquecia da situação de Jade, mas as vezes, ele conseguia fingir que ela estava bem, o odiando como sempre fazia.
– Ela não pode escutar.- Lembrou Cobra.
– Energias positivas sempre ajudam.- Karina o incentivou.
– Só peça para ela acordar. Somente isso.- Pediu Cobra e Karina assentiu dando um beijo no topo da cabeça do amigo e saindo pela porta que dava para a rua.
Jade fazia o menos dos movimentos para que as borboletas não saíssem, apesar de ser um mal presságio, elas eram lindas. Então um barulho de saltos ecoando pelo chão fez com que as borboletas voassem. Os barulhos dos saltos vinham do lado oposto de Jade, onde se aproximava sua cópia.
– Olá queridinha.- Disse parando há alguns metros de Jade.
– O que você quer de mim?- Perguntou Jade.
– Eu? Eu não quero nada.- Sorriu.- Apenas que você desapareça.
A cópia se aproximou de Jade e a pegou pelos cabelos.
– Sabe o que eu senti quando você guardou aquela foto do maldito do Ricardo na sua cômoda?- Perguntou sem esperar a resposta.- Eu me senti uma puta traidora!
A garota bateu a cabeça de Jade na parede, fazendo com que ela sentisse uma dor imensurável e seu nariz começasse a sangrar.
– Ou quando você deu o nosso primeiro beijo a ele?- Fez uma pausa.- Você é uma fraca!- A garota mais uma vez bateu a cabeça de Jade.
– Para com isso.- Pediu Jade com dificuldade em falar.
– Parar? Mas agora que iriamos chegar na melhor parte.- Riu de forma maldosa.
– Por que você está fazendo isso comigo?- Questionou Jade claramente abalada.
– Porque eu quero.- Respondeu.- Sabe o que eu senti quando você deu para aquele marginal?- Questionou a cópia.
Nesse momento Jade não queria ouvir e então deu uma cotovelada na barriga da garota e se virou rapidamente acertando um murro no nariz da cópia. A garota caiu no chão e Jade a observou de cima.
– Eu não sei o que você sentiu e nem quero saber.- Fez uma pausa.- Eu sei que eu,,, Eu amei.
A garota não tentou se levantar, apenas ficou encarando o teto cheio de borboletas e Jade sentou a par da garota.
– Eu sei que na época da morte da minha mãe, eu estava muito abalada e precisava de ajuda. Infelizmente achei o pior refúgio. Deixei que você nascesse, tomasse conta de mim, de meus sentimentos e atos. Deixei que ditasse regras e machucasse as pessoas que eu mais amava, apenas para não mostrar que sou fraca e que as vezes preciso de colo. Virei telespectador de mim mesma.- Jade suspirou e deixou que uma lágrima escorregasse de seus olhos.- Mas você não precisa mais ficar “cuidando” de nós.- Jade fez aspas com os dedos.- Eu sei outras formas de nos manter bem.
Jade encarou a garota que estava imóvel como uma estátua e lhe deu um beijo na testa fria.
– Eu te liberto.
Falado isso, cópia se desfez em milhares de borboletas e Jade entendeu que parte dela havia morrido ali.
Cobra escutou um barulho de porta bater e logo ouviu a voz alegre de Pedro cantarolando alguma música tomar o ambiente. Pedro era o único que sempre estava feliz, independente do que fosse, ele sempre estava sorrindo. As vezes era irritante, mas no momento, era bom ver que alguém ainda ria na casa.
– Acorda, cara!- Gritou Pedro da cozinha.
– Ah, Pedro, me erra, eu cheguei hoje de manhã.- Pediu o rapaz tampando os ouvidos com o travesseiro.
– Nada disso, já são onze horas e tá na hora de começar a fazer o almoço.- Chamou Pedro.
– Como se ninguém soubesse que você comprou metade da comida já pronta.- Atacou Cobra.
– Ninguém precisa saber, agora levanta daí e vem me ajudar.- Chamou Pedro.
Cobra se levantou a contragosto, já que sabia que a próxima etapa seria ligar o rádio no volume máximo. Chegando na cozinha, havia sacolas do restaurante próximo e Pedro estava colocando a comida em pratos separados.
– Você sabe que ela jamais acredita nisso.- Cobra apontou para a comida.
– Sim, mas ela nunca reclama.- Pedro deu de ombros.- Falando na Karina, onde ela está?
– No hospital.- Disse tentando não transparecer que aquele assunto o incomodava, no entanto, Pedro era palhaço, brincalhão, mas nunca insensível.
– Hey, ela vai sair dessa.- Pedro segurou no ombro do amigo.- Eu sei que a situação é complicada, mas eu sei que ela vai voltar.
– Por que?
– Porque ela te ama e você a ama.- Pedro fez uma pausa.- Amor atraí amor.
Cobra não respondeu nada, apenas assentiu. Era da natureza do rapaz ser otimista, mas ele não tinha toda essa certeza.
Jade não precisava abrir os olhos para saber onde estava, só pelo cheiro podia afirmar que era o quarto de Cobra. Jade se levantou e, tinha razão, era o quarto de Cobra, mesclado em tons de branco, preto e cinza. Ela sempre soube que ele odiava aquela decoração por ser muito impessoal, mas também nunca trocou. Ricardo Cobreloa era assim, lhe incomodava, mas se era suportável, ele suportaria.
Logo Jade achou Cobra em frente do grande guarda roupa jogando todo o conteúdo em volta do quarto, sem se importar com a sua importância.
– O que está acontecendo?- Questionou Jade.
– Ah você acordou, que ótimo!- Provocou Cobra.- Como se sente mais uma vez arruinando a minha vida?
– Do que você está falando?
– Que eu vou embora, cansei de você arruinando minha vida!- Gritou Cobra.
– Não!- Jade se levantou da cama e veio até Cobra.- Você não vai embora, eu te amo.- Disse olhando em seus olhos com toda a intensidade, no entanto, o rapaz a sua frente parecia frio a tal revelação.
– Se me ama mesmo, por que quer me matar?- Questionou.
– Te matar?- Jade franziu a testa, não fazia sentido.
– A faca.- Cobra apontou para a arma branca na mão direita da garota.
– Eu... Eu não peguei isso.- Balbuciou incrédula.
– Vai Jade, me mate. Isso aconteceria mais cedo ou mais tarde mesmo.- Disse estufando o peito, como se o colocasse em evidencia.
Jade não sabia o que fazer, já passou pela sua cabeça diversas vezes a possibilidade de matar Cobra, mas agora com a arma em mãos, teria coragem?
– Não.- Jade disse firme e pegou a mão do rapaz.- Se alguém vai morrer aqui, que seja eu.- A garota colocou a arma na mão de Cobra e levou a ponta da faca até seu peito.- É só você empurrar e acabar com tudo.
Cobra a encarou sem pestanejar, mas ela sabia que ele vinha travando uma guerra contra si mesmo. Provavelmente ele também sempre a quis matar, mas entre o querer e o fazer, eram duas coisas bem diferentes. Por fim Cobra soltou a faca e a deixou tilintar no chão frio do quarto.
– Eu não consigo.- Resmungou.
– Por que não consegue?- Jade o desafiou.
– Porque eu jamais seria capaz de te machucar.- Cobra passou a ponta dos dedos ásperos pelo rosto delicado da garota.- Eu te amo.
– Eu sei.- Jade o puxou e o beijou.
Um beijo urgente e sem pudor, sem proibições ou culpa, apenas desejo mesclado em amor. Jade o amava e isso não era errado, agora ela sabia disso. Cobra pegou Jade no colo e a levou para cama beijando seu pescoço.
– Eu senti tanto a sua falta.- Sussurrou Cobra em meio aos beijos.
– Eu também, que lugar é esse?
– Isso aqui não é real.- O rapaz tomou o rosto de Jade em suas mãos e a olhou nos olhos.- Volta pra mim.- Cobra a beijou e Jade sentiu como se algo a sugasse aos poucos para longe dali.
Karina encarava a garota deitada na cama e se recusava a acreditar que ela não estava dormindo por algumas horas. Ela também não sabia o que dizer e nem gostava muito de ficar lá, era deprimente aquele quarto com apenas os roncos de Antônio e o barulho das maquinas atravessando o silencio. Olhou no relógio e a àquela altura Pedro já tinha sumido com as embalagens de comida, era hora de ir embora.
– E você não acordou de novo.- Sussurrou Karina.- Olha, sei que você talvez não queira voltar e que eu estou me estou me esforçando muito para cuidar do Cobra.- Karina fez uma pausa e suspirou.- Sem você eu não consigo. Ele não quer viver se você não estiver lá.- Ela deixou que algumas lágrimas caíssem.- Se você se for, ele também vai, então se você o ama, volte por ele. Por favor.- A garota saiu da sala antes que Antônio acordasse e a pegasse ali irritando a filha.
Assim que Karina saiu, as máquinas começaram a apitar e Antônio acordou assustado temendo que o coração da filha tivesse parado, mas não, o zigue e zague monótono estava lá. Então ele se aproximou da filha e quase desmaiou.
– Jade?!- Ele chamou a abraçando.
Jade estava com os dois olhos abertos encarando o teto e lágrimas escorriam pelos seus olhos. Ela havia voltado.
Fale com o autor