O lobo e a raposa

18 Vila sem nome


Capítulo 18: Vila sem nome


Minha bagagem era apenas uma mochila pequena, com algumas roupas, um pouco de dinheiro e comida. Já Kakashi, tinha uma grande mochila e dentro dela havia um pouco de tudo, incluindo uma barraca, panelas para fazer comida em acampamento e dinheiro, muito dinheiro.

Não pude deixar de ficar curioso sobre como um demônio que viveu recluso em uma floresta por tantos anos, tinha tanto dinheiro, mas ele não me disse como o conseguiu.

Naquela noite pegamos um ônibus que viaja até a maior cidade das redondezas e a viagem durou até o anoitecer. Paramos em um hotel e alugamos um quarto com duas camas de solteiro para passar a noite. Na manhã seguinte a viagem seguiu para outro lugar mais longe, assim como o dia seguinte e o dia depois deste. No total, quase um mês se passou.

Durante esse tempo viajamos durante o dia, pegando diferentes tipos de transporte, como: carro, ônibus, trem, metro e até fizemos uma pequena viagem de barco. Fiquei surpreso por termos ido para tão longe, mas não fiz perguntas e apenas o segui, de qualquer modo, desde que ele estivesse comigo, não me importava muito com o lugar onde estávamos.

Durante a noite paramos em hotéis na maioria das vezes, algumas poucas vezes ficamos acordados ou dormimos na natureza. Mas mesmo quando dormimos em uma floresta ou caverna, ainda mantivemos a forma humana, principalmente eu. Kakashi havia pedido para que não usasse minha forma de raposa com frequência, para que assim, outros não pudessem saber minha localização. Achei que era cuidado demais, mas não me neguei a aceitar seu pedido.

Depois de quase um mês viajando, nós finamente nos estabelecemos em uma pequena vila sem nome, embora fosse um lugar temporário. Kakashi parecia ter um destino em mente, mas não me falou qual seria, então só poderia seguir obedientemente.

Essa vila era realmente pequena e remota, havia menos de cinquenta casas e quase metade delas estava vazia. Dentre as casas ocupadas, a maioria dos ocupantes eram velhos ou mulheres sozinhas e com crianças. Havia poucos homens e jovens, então nossa presença logo chamou a atenção e alguns moradores até pareciam hostis a nossa presença.

Pensei que seria impossível ficar ali, mas depois que Kakashi conversou sozinho com um velho que era o líder dessa vila, fomos aceitos e de um momento para outro, todos deixaram de lado suas suspeitas e sorriram para nós.

Mais tarde, quando já estávamos na pequena casa de dois cômodos que nos foi alugada, perguntei a ele o que estava acontecendo nessa vila. Para a minha surpresa, a resposta foi que todos ali eram demônios de diferentes tipos e que sua hostilidade no início era por pensar que somos humanos. Como demônios que por diferentes motivos temem humanos e resolveram se distanciar deles, eles temem e odeiam mais os humanos. Após saber que éramos do mesmo tipo, essa hostilidade naturalmente deixou de existir.

Sentado na única cama disponível, revigorado depois de um banho com água quente que o próprio Kakashi esquentou, deixei que minhas orelhas e caudas aparecessem, enquanto balançava as caudas de um lado para o outro atrás de mim. Estava feliz por finalmente ter um "lar"! Feliz por estar com Kakashi! E feliz por ter apenas uma cama! Muito feliz.

— Vamos apenas dividir uma cama e nada mais — Me lembrou calmamente, saindo do pequeno banheiro com os cabelos levemente molhados e ainda vestindo roupas pretas, dessa vez uma calça e uma regata.

— Eu sei — garanti, mas mesmo sabendo, minha felicidade não diminuiu. Uma hora mais tarde, depois de comer algo e descansar, nos deitamos na cama para dormir.

Era apenas uma cama de solteiro, então o espaço era limitado e era impossível não senti-lo deitado ao meu lado. Além disso, a vila era muito silenciosa e isso deixava mais evidente a sua respiração que estava próxima. Por algum motivo, essa situação me deixou nervoso e me virei várias vezes na cama tentando achar uma posição confortável para dormir, mas nunca conseguindo pegar no sono e me movendo outra vez.

De repente um par de braços longos e fortes me abraçou pela cintura e interrompeu meus movimentos frequentes. Estava de costas para ele e com sua força, meu corpo se aproximou mais do seu, me deixando um pouco envergonhado.

— Pare de se mexer e vá dormir — ordenou, mas seu tom não se parecia em nada com uma ordem, pois ele usava aquele tom preguiçoso com o qual estava tão acostumado.

— Não vou conseguir dormir assim! — sussurrei irritado. Já era difícil dormir na mesma cama com ele, então se ele me abraçasse, era impossível dormir.

— Se acostume — disse por fim e se recusou a me soltar, me deixando com mais raiva, porém, já era noite e não queria fazer barulho e assim acordar os outros, então resolvi aguentar e brigar com ele no dia seguinte.

No meio da noite, depois de algumas horas acordado, o silêncio parecia ainda maior e além do silêncio do lado de fora da casa, o que era mais evidente era sua respiração perto de meu ouvido. Estava irritado por não conseguir dormir, mas não podia negar que gostava muito desse momento. Estar em seus braços e próximo o suficiente para ouvir sua respiração lenta e suave, me trazia uma grande sensação de segurança.

Enquanto pensava nisso, ouvi uma leve batida na porta. No início não me importei, mas logo o barulho se repetiu e me levantei, olhando estranhamente para a porta, pensando em quem viria fazer uma visita no meio da noite.

— O que foi? — Kakashi questionou quando me levantei.

— Alguém bateu na porta. Você não ouviu? — perguntei em resposta e antes que ele pudesse responder, o som soou novamente, dessa vez também chamando a sua atenção. Se ele não havia ouvido antes, o que eu duvidava, agora certamente havia ouvido.

Ele se levantou e caminhou calmamente até a porta, abrindo-a e olhando do lado de fora, mas não parecia haver ninguém, então ele simplesmente fechou a porta e voltou para dentro. Nem um de nós viu nada lá fora e também não podíamos sentir nem uma presença demoníaca ou humana, mas depois que ele fechou a porta e estava prestes a deitar na cama, o som soou mais uma vez.

Minha cauda e orelha que havia retraído antes, saltaram para fora e todos os meus pelos se arrepiaram enquanto eu saltava da cama para meu companheiro e ficava pendurado em suas costas.

— Qual é o problema? — questionou pacientemente.

— F-fantasma… Deve ser um fantasma — respondi com dificuldade e ele riu.

— Não vi nem um fantasma — respondeu a minha acusação com humor.

— Fantasmas não podem ser vistos! É por isso que se chamam fantasmas! — retruquei irritado e ele riu. Quando estava prestes a brigar com ele novamente, o toque na porta soou mais uma vez.

Kakashi outra vez foi abrir a porta e dessa vez fui junto, já que me recusava a sair de suas costas. Quando a porta foi aberta, revelou… um corvo?