O lobo e a raposa

2 Lobo prateado


Capítulo 02: Lobo prateado


Encarei seus olhos e meu pequeno corpo novamente tremeu. Mas mesmo que estivesse com medo, precisava lhe responder.

— … Não posso… mexer — disse com dificuldade, esperando que fosse o suficiente para que ele entendesse que o motivo pelo qual ainda não saí, era porque não podia ir, e não era que não quisesse ir ou estivesse lhe confrontando.

Esperei que fosse o suficiente, mas não recebi resposta, só vi ele abrir a boca e se aproximar da minha cabeça. Nesse momento pensei: "Acabou, vou perder minha cabeça em uma dentada e minha vida chegará ao fim."

Mas a dor não veio, assim como a morte. Ao invés de me ferir, ele mordeu um pequeno pedaço de pele atrás do meu pescoço e me carregou. Meus olhos se abriram devido à surpresa e me senti um pouco estranho.

Era a primeira vez que eu era carregado desde jeito, então me senti como um filhote sendo carregado pelo pai, o que era um sentimento muito estranho se fosse considerado a minha situação atual. Mas mais estranho ainda, era não só o fato de ele não ter me matado imediatamente como também sobre o fato de ele ter me afastado apenas alguns passos e depois ter me largado, voltando para o que agora eu podia ver claramente ser uma caverna.

Estava confuso, me sentia um pouco estranho e até meus pensamentos não estavam sob meu controle. Porém, o ponto mais importante era que sobrevivi! Por isso, deitei e me encolhi em uma bolinha, fechando os olhos e aproveitando para dormir e descansar pela primeira vez em dois dias.

Quanto a descansar ali no meio da floresta. Bom, o lobo prateado não me devorou ou me machucou, mostrando que não tinha muito interesse em mim. E naquele lugar, outros não viriam causar problemas, então era o mais seguro onde poderia estar nesse momento. Sobre o que faria após acordar, deixei para pensar nisso após dormir.


***


Olhei novamente para a caverna, mas como antes, só podia ver escuridão. Suspirei profundamente e corri em direção ao rio.

Fazia quatro dias que havia acordado. Agora estava muito melhor e quase completamente recuperado de meus ferimentos. De início pensei em ir embora, mas depois de calcular a possibilidade de morrer em qualquer outro lugar daquela floresta, decidi ficar.

Era perigoso ir ou ficar, mas já sobrevivi uma vez ali e ao sair com ferimentos, seria mais fácil morrer, por isso decidi ficar.

Estava com medo de que ele viesse me colocar para fora ou se arrependesse de não ter me matado, ou me comido, então viria até mim. O que eu não esperava era que alguns dias já tivessem se passado e não o tivesse visto outra vez, nem sequer ouvi sua voz.

Corri até o rio e depois de observar a movimentação na água por um tempo, pulei e peguei um peixe. Repeti o processo algumas vezes e peguei oito ou nove peixes. Comi dois deles e depois fui procurar uma grande folha. Após pegar a folha, a trouxe e coloquei do lado dos peixes, usando minhas caudas para colocar todos os peixes embrulhados juntos. Quando terminei, segurei o pequeno fardo de peixes na boca e caminhei de volta até a caverna, me aproximando dela e colocando o embrulho de folhas ali em frente.

Após terminar essa série de ações, voltei para a pedra na qual costumava ficar, cerca de doze ou treze metros de distância daquela área e esperei. Como sempre, uma cauda peluda e prateada surgiu da escuridão e enrolou os peixes, puxando-os para dentro. Após confirmar que ele havia pegado, me deitei na pedra e aproveitei o sol, enquanto pensava naqueles últimos dias.

Após acordar, queria retribuir por ele não ter tirado minha vida, então colhi algumas frutas e trouxe um pouco para ele. Originalmente pretendia chamá-lo e entregar aqui fora, mas depois de chamar por um longo tempo, não obtive resposta. Em seguida tentei entrar na caverna, mas fui afastado por um rosnado irritado.

Não havia como entrar e ele se recusava a sair, então apenas deixei a comida na porta e me afastei, vendo pela primeira vez a cena dele pegando a comida.

Agora que alguns dias se passaram, havia finalmente entendido um pouco sobre ele. Embora todo esse território fosse dele, apenas a caverna era sua área mais particular. Desde que eu não me aproximasse ou o incomodasse, ele não parecia se importar com minha presença aqui, só não sabia se isso era apenas por eu ser uma criança ou se ele era mais tolerante com qualquer demônio que não tivesse intenções hostis.

Além disso, descobri que o motivo pelo qual ele não saia da caverna, era que provavelmente não podia sair ou era muito problemático se movimentar. Senti cheiro de sangue, às vezes fraco e às vezes muito forte, então se o sangue fosse dele, devia estar ferido.

— Se esconda — Pela primeira vez em muitos dias, ouvi sua voz mais uma vez e o susto foi tão grande que cai da pedra e bati com a cabeça no chão. Fiquei atordoado por alguns segundos, mas quando lembrei das suas palavras, me coloquei de pé o mais rápido possível e depois de subir em uma árvore próxima, me escondi entre as folhas.

Apenas tive tempo de controlar minha respiração para que ela não fosse facilmente ouvida, quando três vultos apareceram em uma velocidade que era muito próxima da minha e pararam em frente da caverna. Ao parar, vi suas formas e por um momento, parei de respirar.

Eram lobos, todos lobos. Um preto e dois marrons. Embora não fossem tão fortes quanto o lobo prateado, mas eram três e o lobo na caverna, estava ferido.

— Kakashi, saia! — O lobo preto gritou com raiva.

— Cuidado com suas palavras, Saru, aqui não é sua casa — Mesmo que estivesse em desvantagem, o lobo prateado não mostrou nenhum medo e saiu lentamente, caminhando passo a passo para longe da escuridão da caverna.

Essa foi a primeira vez que eu havia lhe visto claramente, ele era enorme, se eu estivesse ao seu lado, não alcançaria nem a metade da sua pata. O pelo prateado balançava ao vento e parecia muito confortável, era uma pena que estava manchado de sangue na lateral e nas costas.

Os olhos eram um de cada cor, assim como havia visto antes. Mas o que não havia visto, é que há uma aura misteriosa em seu olho vermelho, como se ele fosse especial.