Capítulo 04: Acordo


Quando abri meus olhos, estava muito escuro para ver meus arredores, então foi preciso esperar um pouco para que meus olhos se acostumassem, felizmente estava em minha forma animal, portanto, não demorou muito.

Logo percebi que estava dentro da caverna e para a minha surpresa, ele estava dormindo ali ao meu lado, a menos de um metro de distância.

Essa era a terceira vez que estava tão próximo dele, mas não sabia se deveria me sentir feliz. O cheiro de sangue permeava em toda a caverna e estava muito mais forte do que antes, me lembrando de seus ferimentos, incluindo aquele que ele sofreu por minha causa.

— Está acordado? — Sua voz soou baixa, mas não porque ele abaixou propositadamente sua voz, mas, porque estava perto. Ele estava deitado de barriga para baixo, com as duas patas dianteiras cruzadas e a cabeça apoiada sobre elas.

Abri minha boca para lhe responder, mas antes que tivesse a oportunidade de dizer algo, senti algo fofo, mas muito forte me atingir e fui jogado para fora da caverna. Devido à surpresa, não me preparei para a queda e assim, cai no chão e sai rolando, parando apenas quando acertei uma pedra e ficando de cabeça para baixo.

Não sei se foi porque rolei muitas vezes no chão ou se foi por ser acertado tão de repente, mas minha cabeça estava em branco, por isso, permaneci naquela posição estranha por vários minutos.

— O que é essa expressão atordoada? Você acha que não é suficiente ter ocupado parte da minha cama por uma semana? — questionou em um tom que não consegui entender. Não era raiva, mas também não era felicidade… Muito estranho.

Mas por mais estranho que fossem suas palavras, ao menos elas me deram uma explicação sobre suas ações. Ele estava esperando eu acordar para que pudesse me tirar da sua caverna, assim, no momento em que acordei ele me colocou para fora, literalmente.

Me arrumei e sentei enquanto olhava para a caverna e experimentava o sentimento de:"não sei se devo rir ou chorar."

Era compreensível que alguém tão dominador com seu território quanto um lobo, não quisesse que outro demônio ficasse tão perto por muito tempo. Mas ele não tinha outra opção?

Talvez pudesse pedir para que eu saísse. Talvez pudesse me expulsar, mas com palavras, em vez de usar ações. Até mesmo poderia ter me carregado como antes, claro, isso se pudesse andar, mas em resumo: havia muitas possibilidades! Por que me jogar para fora desse jeito?

Além disso, por que a frase:"ocupar parte da minha cama", parecia tão errada?

— Eles te chamaram de Kakashi antes… Esse é o seu nome? — criei coragem para perguntar, aproveitando que estava ali fora e vendo os arredores. Como esperado, não havia nada queimado, mas algumas cinzas ainda eram visíveis.

Fiquei sentado por vários minutos, mas não recebi nenhuma resposta. Não podia dizer que isso era o esperado, mas tinha a sensação de que ele não gostava muito de falar, por isso não foi uma surpresa quando ficou em silêncio.

— Obrigado por me salvar — Aproveitei para lhe agradecer. Embora não soubesse o motivo pelo qual ele fez isso e se lhe perguntasse, muito provavelmente não receberia uma resposta, mas ainda assim tive minha vida salva e precisava agradecer.

— Não perca tempo com palavras inúteis. Agora que está acordado, vá embora! Eles morreram aqui e não demorará para outros virem. Na próxima vez, posso não conseguir preservar nem sequer minha vida e não tenho tempo para me preocupar com a sua.

Ao ouvir essas palavras, fiquei muito surpreso. Ele claramente mostrou sua preocupação comigo e, além disso… Foi a maior conversa que já tivemos até agora!

— Por que você se preocupa com minha vida? Sou apenas uma raposa demônio que invadiu seu território, certo? — Estava realmente curioso sobre isso, mas ele não me respondeu novamente. Então desisti de conversar e deitei no chão, aproveitando a sombra fresca nesse dia de verão que estava terrivelmente quente.

— Por que você ainda não foi? — Finalmente falou outra vez, mas já eram duas horas mais tarde e não era uma resposta para a minha pergunta.

Diferente da sua preocupação, não dei muita atenção para essa questão e ainda deitado, lhe disse a verdade:

— Não consigo viver entre os humanos e em qualquer outro lugar dessa floresta, estarei correndo perigo. Não tenho família ou guardião, ainda sou jovem e não posso me proteger, portanto, não viverei muito sozinho. Se terei que morrer de qualquer maneira, prefiro ficar aqui e ter um pouco de companhia, assim posso fantasiar que finalmente tenho um amigo.

Pensei muito nessa questão já naqueles dias após escapar dos ursos. Nos últimos anos tem sido cada vez mais difícil viver e sem ajuda minha vida era cada vez pior. Embora tivesse medo de morrer, mas talvez fosse melhor apenas desistir, de qualquer modo, ninguém sentiria minha falta.

— É vergonhoso desistir dessa maneira — Ele comentou com um toque de repreensão na voz.

Não disse nada e apenas permaneci deitado. Em algum lugar de minha mente, me lembrei das muitas situações pelas quais passei nos últimos anos: fome, sede, perseguição, tortura, dor, solidão…

Não achava vergonhoso desistir e mesmo se fosse uma vergonha, a vergonha não era tão ruim quanto as outras opções.

— Quero viver, mas não posso. Você tem uma vida, então deveria dar valor a ela — Tentou me persuadir, o que atraiu a minha atenção para a caverna, porém, ainda não podia ver nada além da escuridão.

Mas mesmo que não pudesse ver nada, ainda olhei fixamente naquela direção e não pude deixar de comentar: — Você está falando bastante hoje.

Dessa vez, não houve resposta.

Continuei olhando para ele e repassei suas últimas palavras em minha mente, lembrando de algo e tendo uma ideia.

— Você quer viver? Então que tal fazer um acordo comigo? Irei te curar e em troca você cuida de mim e me faz companhia até a adolescência. Mais ou menos uns vinte, trinta anos. O que acha? — resolvi tentar.

— Você pode me curar? — questionou em tom duvidoso e ao ouvir esse tom, quase pulei e lhe xinguei por estar duvidando de mim. Porém, não era bom perder a paciência e apenas"explodi" meu pelo por alguns segundos e depois me controlei.

— Tenho certeza de que posso te curar!

— Então eu concordo.

— Concorda?

— Sim — confirmou e fiquei de boca aberta.

Foi tão fácil?

Embora já tivesse percebido que ele era diferente dos outros, mas como dizer?

Esse lobo prateado era… bastante acessível?