Notas iniciais
Olá, espero que gostem da leitura!

Morávamos em uma pequena casa, no vilarejo chamado Gaia. Eu, Celene Beck, era a mais nova menina de uma família formada por guerreiros nórdicos. Sempre nas noites claras, buscávamos ervas medicinais e carvão.

Durante uma dessas noites, encontrei um livro velho embaixo de uma árvore próxima de um rio, sem pensar duas vezes o levei para casa.

Depois de ajudar minha mãe a lavar a louça do jantar fui para o quarto, abri o livro e observei várias palavras estrangeiras nas primeiras páginas, o comparei com um exemplar que tinha e como suspeitava, não era um livro comum. Algo especial predominava nele e eu estava determinada a descobrir.

— Que língua é essa? Não parece ser atual. — resmunguei.

Fechei o livro e o coloquei de baixo do travesseiro, me aconcheguei em minha cama encarando as estrelas feitas com plástico penduradas em cordões no teto, quando o vento as tocava, elas rodopiavam. Lembro-me que meu pai me contou no meu aniversário de cinco anos que as estrelas foram colocadas dessa forma em meu quarto desde que eu começara a chorar no berço, assim, apenas observando-as cessava o choro e mergulhava em um sono profundo e calmo.

Senti as pálpebras pesadas e minha mente foi invadida por lembranças referentes á noite de hoje, um calor se espalhou embaixo do meu travesseiro, mesmo sentindo um leve desconforto, livrei minha mente de qualquer devaneio e adormeci.

Os primeiros raios de luz entraram no quarto pousando em meu rosto, abri os olhos incomodada com a claridade, me sentei na cama esfregando os olhos com as mãos, ao ficar acostumada com a luz do sol, calcei minhas sandálias e caminhei em direção á cozinha.

Sentados á mesa, meus irmãos mais velhos, minha mãe e minha avó comiam calmamente o seu café da manhã, cercados por diversos lanches. Puxei uma cadeira sentando rapidamente nela, peguei um copo á minha frente e derramei uma boa quantidade de leite dentro dele, em seguida peguei uma maçã e a mordisquei.

— Bom dia, querida. Quer pão com mel? — perguntou gentilmente minha mãe, segurando uma faca e um pão.

— Obrigada. Mas não estou com vontade, mãe. — respondi de modo delicado.

— Claro. Tudo bem, querida. — soltou ambos, os pondo em cima da mesa de madeira.

Fui atingida por um leve tapa na cabeça, resmunguei em indignação e logo encarei o responsável pelo ato, Héktor, o mais velho de meus três irmãos, sorria brincalhão.

— Coma bastante, senão irá permanecer pequena e fraca. — disse num tom de deboche.

— Está bem, engraçadinho. — concordei irritada, voltando a morder minha maçã.

— Hoje nós vamos pegar pesado com o treinamento! São hoje as escolhas. — anunciou Fenris animadamente.

— Este ano chegou mais cedo do que o anterior. — comentou minha avó impressionada, sobre o fenômeno.

Esse acontecimento trata-se de uma avaliação realizada pelos anciões á cada ano no décimo dia do mês de março, onde apenas guerreiros participam. Mas, por algum motivo desconhecido, ela chegara antes nesse ano, em pleno primeiro de março.

Sua finalidade é classificar quem estará qualificado para atravessar o continente e enfrentar os mais diversos monstros protetores de uma caverna misteriosa, coletando toda a riqueza que o lugar proporcionou, transportando-a para sua pátria. E ás vezes, dando de presente a cabeça da criatura mais feroz ao líder dos anciões.

De acordo com as palavras do líder, é um sistema criado há milhares de milhares de anos atrás, que durará pela eternidade, sem ser modificado por ninguém. Afinal é o nosso meio de vida.

Balder passou o braço sobre o pescoço de Fenris, o envolvido pelo braço tentava o retirar, Balder soltou uma fraca risada, se divertindo com a brincadeira, sorrindo largamente disse:

— Nós iremos conquistar aquela caverna e esmagar as criaturas horríveis que a habitam!

Expressei um pequeno sorriso, era inspirador ver a alegria deles, esbanjando confiança e sem medo na voz, gostaria que algum dia eu agisse como meus irmãos.

Virei lentamente a página do livro, realmente ele fora escrito inteiramente com aquela língua estranha, suspirei decepcionada, de repente o ânimo voltou para mim com a idéia que se acendeu em minha mente. Abri meu guarda-roupa retirando do cabide um vestido azul longo, deslizei os dedos sobre a seda, estava acostumada a usar vestidos de tecido leve e fino, pois assim eu senti-me livre como um pássaro, parei de apreciar o vestido e o vesti rapidamente. Olhei-me no espelho da penteadeira localizada em cima do criado-mudo, meus cabelos negros e longos possuíam grandes ondulações em sua extensão, alguns fios de cabelo caiam em minha testa, afastei-os um por um deixando que ficassem agrupados para trás, com paciência e cuidadosamente penteei mecha por mecha, afim de não desmanchar minhas ondas naturais, terminado o processo, fui para o banheiro me lavar.

— Onde pensa que vai, mocinha? — indagou minha avó desconfiada.

Desviei o olhar para os meus irmãos, que ilustravam suas armas, Gleipnir virou o rosto em minha direção e sorriu, retribuí o sorriso, não o tinha visto no café da manhã porque ele estava ajudando nosso vizinho noite passada até o amanhecer á caçar alces, finalmente eu encarei minha avó, seus cabelos apesar de brancos brilhavam de tão bem cuidados por ela.

— Vou á biblioteca da cidade. — lancei um rápido olhar para o livro em minhas mãos, depois o voltei para os seus olhos.

— Garotos, um de vocês levará sua irmã. — ordenou.

Instantaneamente todos me fitaram, Héktor levantou-se do tapete onde tinha se sentado com os demais, caminhando em minha direção, seus olhos mantinham um brilho de determinação como de costume.

— Tudo bem, eu vou acompanhá-la. Entre meus irmãos, minhas habilidades são mais avançadas, por isso não precisarei me preparar muito. — disse com seriedade.

— Não é necessário! — exclamei ligeiramente. — Não é tão longe e sei me cuidar sozinha, além disso, acredito que ninguém faria algum mal para mim. — sorrio.

— Ingênua. — afirma vovó de forma brusca e rude.

Viro meu corpo em sua direção e lhe observo boquiaberta e com os olhos arregalados, vovó coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha, soltando um suspiro a seguir, ela desvia o olhar para a janela.

— Saiba que as coisas não são baseadas no seu ponto de vista, Celene. Vá, mas da próxima vez pense direito antes de dizer algo. — disse severamente.

Pisquei os olhos compreendendo que sua repreensão foi feita zelando o meu bem, levantei os cantos dos lábios em um sorriso quase imperceptível, avancei longos passos e num ritmo devagar até a porta, lancei um olhar sobre cada um na sala, recebendo como despedida vários sorrisos, porém minha avó apenas dirigiu-me um olhar demorado, que pude ver amor e preocupação dentro de seus olhos azuis, juntei o polegar e o dedo indicador fazendo o símbolo considerado em nossa língua como “eu te amo”, após isso abri a porta a fechando ao sair de casa.

O calor trazido pela luz do sol espalhou-se em meus braços descobertos, realmente, o clima ao ar livre estava mais quente, nas estradas muitas pessoas trabalhavam, alguns carregavam galhos e os entregavam á alguém, outros vendiam suas mercadorias, enquanto um grupo de homens lapidavam armas, cortavam madeiras e reformavam armaduras. De fato, faziam os preparativos para a avaliação que ocorrerá ao por do sol.

Cruzei a estrada seguindo em linha reta, passados alguns minutos, parei em frente ao portão da biblioteca, seu prédio era enorme e de um tom claro de cinza, bati duas vezes no portão e não demorou muito para que um homem de aparentes trinta anos, com barba por fazer, os abrisse.

— O que deseja, senhorita? — perguntou de forma baixa.

Mostrei o meu melhor sorriso, desde que eu era um bebê fui ensinada pela minha mãe que se tratarmos as pessoas ao nosso redor com gentileza, a receberemos em dobro.

— Por favor, gostaria de conversar com a senhora Eira. — disse calmamente.

Ele concordou com um chacoalhar de cabeça, gesticulando que eu entrasse, adentrei o local, apressada, passei os olhos por cada canto, era a primeira vez que eu entrei na biblioteca e como os boatos que ouvia dos vizinhos da vila, impressionante, a palavra que lhe descrevia. Aproximei-me de uma grande estante, com muitos livros alinhados em fila, de cores quentes, frias e vibrantes, capas e tamanhos diferentes, peguei o que chamou mais minha atenção, “O amor perdido em uma canção”.

— Por aqui, senhorita. — chamou.

Rapidamente guardei o livro em seu devido lugar, acompanhei os passos do homem, na maior parte do trajeto olhando para as estantes de livros, percebi que estava distraída então arrumei minha postura e prestei atenção ao caminho.

— Chegamos. — anunciou num tom de voz baixo.

Em cima de uma escada prateada, uma mulher de curtos cabelos castanhos e aparência rechonchuda, organizava alguns livros na estante, o homem ao meu lado bateu na mesa posta no centro de onde nos encontrávamos, o barulho pareceu não surtir efeito, ele bateu novamente, mas a mulher continuou a fazer sua tarefa tranquilamente.

— Senhora Eira! — gritou.

Ela assustou-se com seu grito deixando cair no chão os livros que segurava e quase perdeu o equilíbrio, ajoelhei-me próxima á eles e os ajuntei, a senhora Eira desceu degrau por degrau de maneira lenta, andou poucos passos ficando em minha frente, levantei e entreguei os livros á ela com um sorriso, senhora Eira retribuiu o ato de forma tímida.

— Desculpe por isso.— disse o homem em um tom de voz triste.

O fitei com um olhar amigável, balançando a cabeça em reprovação.

— Não é necessário se desculpar, obrigada por mostrar o caminho.

Seu rosto se iluminou, ele fez uma reverencia, deixando escapar um sorriso largo, em seguida caminhou afastando-se de nós.

— Presumo que você queira conversar comigo. — afirmou Eira animadamente.

— Sim! — concordei eufórica. — É sobre este livro que estou carregando, a língua que foi escrito é estrangeira e eu soube por boatos que a senhora é capaz de a identificar e traduzi-la. — disse ansiosa.

Colocou uma mão em meu ombro, através de seus olhos enxerguei compaixão, desviei o olhar, senhora Eira puxou meu queixo fazendo-me encará-la.

— Acalme-se criança! — ordenou. — Irei ajudá-la com certeza. A propósito... Seus olhos são diferentes.

Ah! Como não pensei que as pessoas notariam facilmente? Preciso ser mais prevenida!

Quando mamãe soube que a criança que ela aguardava em seu ventre era uma menina, a felicidade tomou conta de si, pois sempre sonhou em ter uma filha, no dia do meu nascimento minha família esperava ansiosamente para mim abrir os olhos, mas, ao abrir os olhos, a surpresa os dominou, uma médica da vila foi chamada e depois de me examinar... Informou que eu havia nascido com uma anomalia, uma doença aparentemente inofensiva que deixara a cor de meus olhos diferente, um azul e o outro verde.

Por causa desta condição, eu sou tratada de maneira especial, sempre a mais protegida da família, intitulada como a “delicada”, bastando apenas uma batida para me quebrar. Sinceramente, rejeito os meus olhos por criarem esses pensamentos em suas cabeças.

— Ah... — sussurrei tristemente, olhando para baixo. — É uma anomalia genética. — limitei-me a continuar a explicação.

— Entendo... — murmurou. — Mas são muito bonitos! — exclamou docemente.

A senhora Eira não retirava o olhar das palavras do livro, ajustei minha postura na cadeira para que eu me sentasse mais ereta, finalmente seu olhar pousou no meu, ela falou:

— Não entendo.

Arregalei os olhos, levei as mãos á cabeça, sem compreender como que a melhor tradutora de línguas poderia falhar, minha mente foi inundada de lembranças dos momentos em que lia o livro, da noite onde o encontrei e finalmente da sensação de calor que eu sentira instantes antes de adormecer.

Eu preciso descobrir! Eu sei que existe uma explicação!

— Fique calma, criança. — disse gentilmente, interrompendo meus pensamentos.

Retirei as mãos da cabeça, erguendo os olhos para encontrar com os seus, sentia uma estranha sensação de que a senhora Eira sabia de algo que decidiu esconder de mim, cuja revelação seria atordoante demais para raciocinar.

— Eu quis dizer que não entendia como um livro desses foi encontrado.

Notas finais
Chegamos ao fim! Comentem o que acharam deste capítulo, semana que vem terá mais um.