O lado vazio do sofá
1 O Jovem Julieu
Notas iniciais
Soltou um suspiro sôfrego por entre os lábios rachados, exausto. As maçãs do rosto eram proeminentes, os cabelos negros desgrenhados e abaixo dos olhos olheiras arroxeadas faziam moradia — se eram permanentes ou não, Julieu não sabia dizer.
Tirou as chinelas amarelas sujas e desgastas, jogando-as por qualquer canto do apartamento. As paredes verde-abacate da sala de estar encontravam-se sem vida, quase como se anos houvessem se passado desde o último café das quatro.
Mas a verdade era que haviam se passado somente duas semanas. Duas malditas e vazias semanas.
Julieu odiava aquilo. Odiava o vazio.
Com uma dor fina, porém agonizante e excruciante no peito, ele se dirigiu até a cozinha.
Pegou duas xícaras do armário de madeira de carvalho: uma pequenina azul com rosas pintadas à mão de magenta e outra, maior e mais rústica na cor marrom.
Foi até a cafeteira, encheu as duas xícaras e sentou-se no sofá.
Era um sofá pequeno, ideal para duas pessoas, mas Julieu era um jovem magrelo e não tão comprido — não conseguia ocupar os dois espaços nem se quisesse, sempre sobraria um espaço. Um vazio.
Pegou a xícara maior nas mãos, não sentindo a típica quentura na porcelana. Sentia somente a superfície fria na palma da mão. O café não fumegava, não tinha o cheirinho gostoso de recém coado. Era somente um café frio, amanhecido e esquecido na cafeteira.
Julieu tentou se convencer que o café não estava gostoso só porque estava ali já a algum tempo, mas ele sabia que aquela não era a verdade.
Café nunca foi seu forte, estando quente ou frio.
O café das quatro com Alice era muito melhor, porque era ela quem o fazia.
Alice fazia um café perfeito, sem ser muito forte ou muito fraco, muito quente ou muito frio. Era somente e simplesmente ideal.
Mas o lado vazio do sofá, o silêncio do apartamento e a xícara artesanal intocada eram um lembrete: Alice não estava mais lá.
E no lugar dela, sobrou somente um vazio horrível que mais parecia com um soco na boca do estômago.
O coração de Julieu doía, mas era uma dor ardente, dilacerante.
Ele odiava aquilo tudo. Odiava o quão injustas certas situações podiam ser.
Julieu, logo ele, que tinha o nome cujo era uma junção de dois amantes. Julieu, cujo coração frágil era trancado a sete chaves. Julieu, o jovem Julieu, que pagou o preço de deixar-se envolver e machucar.
Naquela tarde, como em tantas outras desde que Alice lhe deixara, ele chorou.
Chorou com os braços em volta do joelho, desesperado e em dor. Chorou sabendo que o outro lado do sofá estava vazio. Chorou deixando que a dor do peito se esvaísse conforme ele soluçava.
Ele dormiu, sentindo o vazio lhe abraçar.
Mas acordou, sabendo que uma hora seu coação iria sarar e que, por mais que Alice tivesse ido embora, ele ainda tinha seu café da tarde — que não era lá essas coisas, mas era o suficiente.
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