O labirinto de ilusões
2 Seguir em frente?
Já estava escurecendo e Pâm havia ido embora. Entrei em casa, minha avó estava na sala assistindo a novela, fui para o meu quarto e liguei meu notebook. Era ele, meu único passa-tempo naquele lugar onde não havia vizinhos, apenas uma casa em construção ao lado. Passava a maior parte do meu tempo ali, pesquisando, jogando e escrevendo textos. Gostava de criar histórias, principalmente de madrugada para ocupar as noites de insônia, que eram quase todas. As vezes fico três ou quatro dias sem dormir e de vez em quando acabo sendo vencido pelo cansaço.
Era hora da janta mas aquela conversa com a Pâm havia tirado toda a minha fome ou qualquer outra necessidade fisiológica e eu precisava continuar minha história. Era sobre a aventura de uma menino com a sua mãe, eu não entendia muito bem desse assunto mas gostava de fantasiar essa vida de ter uma mãe.
Estava concentrado em minhas palavras quando escutei um latido seguido de um vento forte próximo a minha janela mas ela estava fechada, achei meio estranho mas talvez seria alguns daqueles cachorros de rua. Olhei no relógio e percebi que já estava perto do nascer do sol. Desliguei o notebook e deitei em minha cama na esperança de não pensar em nada e apenas dormir, mas eu estava errado, aquelas cenas percorriam pela minha cabeça, ainda escutava os gritos de dores de meu pai, eram tão nítidos e assustadores que eu olhava ao redor do quarto para ter certeza de que estava mesmo em casa. Era uma tortura tentar dormir, não contive o choro e abafei-o no travesseiro, queria que aquilo jamais tivesse acontecido, eu agora era preso pelo meu arrependimento, como seria o meu futuro com esse peso em minha mente me desgastando?. Cessei as lagrimas e os pensamentos foram sumindo, em segundos meus olhos se fecharam e inesperadamente cai em um sono.
Acordei com a minha avó me chamando para almoçar, um fio de felicidade percorreu o meu rosto, eu havia dormido, mas logo ele se transformou quando eu olhei para a panela, era peixe, eu detestava peixe mas não culpo minha avó, ela já era de idade, então peguei algumas bolachas e fui comer no quintal.
O sol estava forte, eu balançava no pneu preso nos galhos altos da árvore e pensava em como as coisas seriam se minha avó não estivesse ali parar me abrigar, eu tinha dezessete anos e sem emprego, um dos motivos da minha discussão com o meu pai, ele não entendia que eu não poderia frequentar o curso, a escola e um trabalho, era exaustivo e me deixava com apenas cinco horas parar dormir. Sempre gostei de sair com meus antigos amigos, tinha uma queda por festas, principalmente aquelas em que eram na casa de alguém com bebida de graça. Esquecer os problemas de casa para causar problemas em outra. Nunca fui de beber até cair mas chegava muito perto disso.
Fui interrompido dos meu pensamentos quando outro latido ecoou pela pequena estradinha de terra que dava fim em um matagal, repetiu-se o latino mais algumas vezes e eu fui verificar. A medida em que eu me aproximava o vento parecia ficar mais forte, admito que senti um pouco de medo, era estranho aquela ventania surgindo do nada no meio da paisagem ensolarada. O latido estava cada vez mais perto, o vento mais forte à cada passo que eu dava. Em frente vi um arbusto em movimento, observei-o por alguns segundos e decidi olhar dentro, ao abri-lo o vento sessou imediatamente e eu não avistava nada, nenhum cachorro ou qualquer outra coisa que estava mexendo ali.
Voltei para casa pensativo, procurando alguma solução lógica para o que havia acontecido, poderia ter sido algo da minha cabeça misturada com os problemas psicológicos ou talvez... talvez eu esteja ficando louco?.
Cheguei em casa e sentei no sofá, o telefone tocou e fui atender.
—Alô, quem fala?
—Oi Pietro, aqui é a Yasmin, vou visitar o pai nesse final de semana, gostaria de ir comigo?
—NÃO! Digo, não podemos ainda, no começo da recuperação ele tem de ficar sozinho.
—Eu liguei na clínica e o telefone esta inexistente, estou preocupada.
—Yas, você o abandonou indo morar com a tia Louise, não acho que ele iria gostar da sua visita nesse momento.
—Se você acha melhor eu não ir, então tudo bem, não vou. — Essa foi por pouco, não sabia até onde chegaria com essas mentiras, mas se contasse iria me prejudicar ainda mais, resultando até mesmo em prisão, não poderia fazer isso.
—A melhor coisa a fazer. — Finalizamos a conversa e desliguei o telefone aliviado, foi muito difícil chegar até aqui, um assassinato sem deixar pista alguma, por enquanto estava tudo sobre controle, mas eu tinha medo, medo de algo dar errado, tinha que planejar mais mentiras e rápido.
Era hora do jantar mas não havia comida alguma na cozinha, estranhei, minha avó nunca deixou de fazer a comida. Chamei-a mas sem respostas, fiquei preocupado e fui em direção ao quarto dela, avistei-a na cama e fui para acordá-la.
—Vó a senhora esqueceu a janta— Ainda sem respostas, entrei em pânico.
—A senhora esqueceu da janta vó. Me responde por favor! — Ela não me respondia, coloquei o ouvido em seu peito e não escutei o seu coração bater. Descontrolado, comecei a chacoalhá-la. Pelo meu rosto escorriam as lagrimas que logo em seguida pingavam no vestido de flores rosas dela. Não poderia ser verdade, ela não poderia me abandonar, era a única que se importava comigo, agora oque seria de mim?
pesquisei na internet o número do SAMU, disquei 192 no telefone e pedi com urgência uma ambulância até a minha casa. Liguei para a tia Louise e contei o ocorrido, ela me dissera que viria imediatamente para cá. Sentei no sofá e aguardei, com a minha avó morta no quarto ao lado. Meu olhar era fixo e nulo somente para dar espaço aos pensamentos, eram muitos, de como e porque isso foi acontecer, talvez seja uma maldição pelo erro que cometi, mas não foi minha culpa, agi por impulso e minha avó, que culpa ela teve? Nasci para ficar sozinho.
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