O juiz de vidas

6 Quinta Alma: Rose M. Gilford


Notas iniciais
Bom, eu decidi que rumo a história vai tomar, li todas minhas anotações da época que eu estava planejando a história e replanejei várias coisas, uma delas fora o rumo que a história vai tomar no final, não espere nada épico, mas prometo que irá surpreender a todos.

Rashid me largou, ficou me olhando e perguntou:

— Por que?

Não respondi, não parecia que Rashid tinha visto as mesmas coisas que eu, eu fiquei esperando ele parar de olhar para mim, me julgar com os olhos.

— Eu não sei o que lhe fez tomar essa decisão... — Rashid olhava fixamente para mim. — Mas não vou julgá-la...

— Então está tudo bem? — Deixei a pergunta escapar.

— Não, — Respondeu Rashid. — Quando chegarmos em casa quero que você pegue tudo que lhe pertence e nunca mais apareça na minha frente.

— Está nos expulsando? — Eu me afastei de Rashid, esperando que ele fizesse coisa pior.

— Não, — Ele apontou para mim. — Eu estou te expulsando!

— O qu- que? — Gaguejei.

— Kin poderá ficar conosco, ela não tem culpa de sua decisão e precisa de ajuda para se tornar uma juíza melhor, uma juíza que possa julgar almas.

— Es- espera! — Gritei. — Por favor Rashid, me desculpe, mas eu julguei como achei que devia!

— Por que?! — Ele correu para mim e me segurou pela gola da minha camisa branca. — Ele era uma ótima pessoa! Sofreu muito! Mas mesmo assim... mesmo assim... você o julgou como uma pessoa má!

— Foi por causa da mul- — Antes de eu terminar de falar, senti um aperto no peito, vi o rosto da misteriosa mulher loira, não conseguia terminar de falar.

— Está falando de minha filha?! — Gritou Rashid.

— Espera, — Sentia meu peito apertando cada vez mais, mesmo não estando vivo conseguia sentir minha vida saindo do corpo.

Rashid me largou.

— Nem ouse voltar para o apartamento! — Gritou Rashid enquanto saia daquele lugar, me deixando sozinho.

— Ou quase sozinho... — Ouvi uma voz feminina falar, era a loira misteriosa, com seu vestido vermelho a destacando, ela estava sentada bem ao lado do corpo. — Olá Benjamin, não achava que ia me ver tão cedo, não é?

— Ah! — Gritei. — Você já estava aí?

— Não me notou? — Ela perguntou enquanto levantava e se aproximava de mim. — Você é mais vivo do que eu pensava...

— O que é você? — Perguntei gaguejando.

— Sou uma juíza, igual a você! — A loira me respondeu. — E eu tenho nome!

— O que? — Perguntei, não estava meio distraído.

— Foque em mim! — Ela falou. — Meu nome é Marina D’Arc!

— Alguma parente de Joana D’Arc? — Fiquei um pouco intrigado.

— Bom, meus pais sempre disseram que eu era guerreira, mas não, — A Loira, ou melhor, Marina, sorria calmamente para mim. — Mas temos que discutir uma coisa meu caro Benjamim.

— Hum?

— Você não pode, em hipótese alguma fale de mim para qualquer um! — Ela se aproximou de mim, senti um aperto no meu coração. — Principalmente para Rashid, — Eu não conseguia responder de tanta dor. — Eu posso fazer você desejar morrer...

Eu senti meu coração voltar ao normal, um alívio imediato.

— Até mais Benjamim, nos vemos por aí! — Marina desceu as escadas e me deixou sozinho com o corpo.

Comecei a vagar pela cidade a pé, sair da área industrial demorou horas, minha roupa que já estava bem gasta agora estava suja de poeira, fiquei alegre que no mesmo no centro da cidade, ninguém me notava, no máximo quando esbarravam em mim, estava andando de uma maneira desengonçada demais, aquela dor que senti no coração era muito, estranha, senti como se eu pudesse... morrer, mesmo já estando morto, quem era aquela mulher, Marina... pensei que depois de morto as mulheres iam parar de brincar com o meu coração....

Sentei em um banco na frente de uma cafeteria, procurei em meus bolsos e achei algumas notas de dinheiro, sempre aparecem após julgar uma alma, não é muito, mas dá para pagar os cafés que tomava.

— Hey, você está bem? — Ouvi uma voz masculina falar comigo, quando levantei a cabeça, vi uma cabeleira loira, por um segundo achei que Marina tinha trocado de sexo ou conseguiu uma voz bem macha, mas no fim era Leonard, a paixão de Kin.

— Boa tarde Leonard, — Eu fiz um esforço para sorrir enquanto o cumprimentava. — Como vai?

— Estou começando a perseguir mais uma alma, — Leonard fixou o olhar em minhas roupas. — Mas o que aconteceu com você? Suas roupas estão todas, destruídas!

— Ah, isso? Eu tive alguns problemas...

— Não posso deixar isso! — Leonard me puxou pelos braços. — Hoje você vai sair comigo e comprar umas roupas!

— Eu não tenho dinheiro para isso, — Eu me esforçava para voltar ao banco, mas Leonard era mais forte do que aparentava. — E além do mais, você não está seguindo alguém?

— Esta pessoa está indo exatamente para seu emprego de meio período em uma loja de roupas góticas, sempre passo lá para comprar alguma coisa! — O sorriso dele era reconfortante, ver alguém tão vívido mesmo na nossa situação era admirável. — E além do mais, eu tenho dinheiro suficiente para de dar algumas roupas de presente!

— Muito obrigado... — Desisti de ficar sentado, aliás, por que estou me fazendo tanto de vítima? — Mas depois eu tenho que te pagar! — Tentei me animar.

— Tudo bem! Aposto que achamos umas roupas de caveira que vão cair perfeitamente em você! — Leonard sorria e mexia os braços, tentando me animar, era como aquele cara misterioso que conquistou Kin se tornasse alguém totalmente diferente, alegre e descontraído, um amigo que estou necessitando.

Começamos a andar, não demorou muito para chegarmos na loja, era um lugar com luzes brancas, entretanto pelas decorações a iluminação ficava um pouco roxa e azul, várias blusas, calças, jeans, sobretudos, casacos e uma infinidade de roupas com caveiras e moda gótica em geral, bom... eu acho que posso chamar isso de moda. Havia três mulheres, por volta dos vinte anos, trabalhando na loja, uma atendente cheia de piercings e cabelo roxo, outra com cabelos cacheados loiros e uma maquiagem de dar medo em palhaços e uma terceira mulher, essa tinha cabelos escuros lisos, totalmente naturais, um sorriso calmo no rosto e uma maquiagem pouco exagerada, era exatamente ela que tinha uma bola azul crescendo em seu peito, ainda pequena, mas não duraria muitos dias...

— Qual o nome dela? — Perguntei meio sem jeito para Leonard, que olhava melancolicamente para ela.

— Vai cortar todo o mistério se eu dizer o nome de uma pessoa que vou te apresentar! — Ele sorriu e me aproximou para a única mulher normal daquela loja, ela não nos notou. — Hey, honey! — Leonard falou diretamente com ela, numa reação rápida ela virou a cara para nós.

— Leo?! — Ela se assustou e depois sorriu. — Mal vi o senhor entrar na loja!

— É normal, eu ando silenciosamente... — Leonard ria enquanto falava com ela, mas ela me notou e viu minhas roupas.

— O que aconteceu com seu amigo? — Ela olhava para mim como se eu tivesse levado uma surra, bom, foi bem isso que aconteceu.

— Ah, ele precisa de roupas novas, — Leonard olhava para mim enquanto falava com a mulher. — Esse estilo de camisa branca e calça jeans já está muito batido.

— Totalmente! — Ela sorriu para mim e segurou minha mão, fiquei avermelhado, algo bem estranho para alguém da minha idade. — Meu nome é Rose N. Porteiro, pode me chamar só de Rose!

— Tudo bem Rose, — Não escondia a vergonha do meu rosto, para uma mulher por volta dos vinte as curvas de seu corpo eram muito nítidas, mas contrastavam com a bola azul crescendo em seu meio. — Realmente eu não entendo esse estilo de roupa em geral, mas o Leonard me arrastou para cá...

— Poxa Leo! — Ela gritava enquanto sorria com Leo, uma mistura de emoções, tão vividas. — Não pode ficar arrastando os amigos para suas coisas estranhas!

— Sim, mas bem que ele precisa de uma mudança de visual! — Ele sorria para mim. — Vamos para o provador!

Leonard e Rose me arrastaram para uma cabine fechada, onde começaram a jogar roupas em cima de mim, coloquei a primeira e saí para mostrar para eles, sem muito animo...

Era um sobretudo vermelho com uma gola de pelos pretos, me sentia uma mistura de Lúcia com Leonard...

— Ficou ótimo! Incrível! — Leonard me aplaudia.

— Que isso Leo, você só gostou por causa da gola... — O sorriso de Rose era muito verdadeiro para uma vendedora. — Acho que ele tem que tentar alguma roupa menos pesada, talvez algo mais que combine com o clima cemitério em dia de primavera!

— Isso é um estilo? — Perguntei meio sem jeito.

— Tudo pode ser estilo na moda! — Ela respondeu enquanto corria para pegar roupas para mim, depois de alguns segundos ela voltou. — Tome essas!

Voltei para o provador, a nova roupa era bem mais complexa de ser arrumada, era uma camisa de couro fechada por cintos nas costas, um bracelete que também fechada com uma fivela, botas que eram mais metais que do que couro e uma calça de couro preta com mais de oito cintos! Fechei alguns errados mas sai, dessa vez me esforcei para fazer um sorriso, mas todos me olharam para minhas roupas, até mesmo as outras as outras vendedoras da loja.

— Essa roupa não combinou muito em você... — Comentou Leonard.

— Acho que o problema foram os cintos, espere um momento, — Rose correu e pegou mais algumas roupas para mim. — Acho que essas ficaram perfeitas!

Voltei para a pequena sala com paredes curtas na qual eu deveria trocar todas minhas roupas, mais conhecido como o pior lugar de uma loja, comecei a olhar a roupa, ainda eram de couro, mas era um couro fosco, sem muitos detalhes, ao invés de cintos e fivelas, tudo tinha zíperes, incrivelmente, eram bem fáceis de vestir, eles se fechavam exatamente onde eu queria, era incrível como tudo encaixava.

Sai do provador meio avermelhado, eu estava usando uma jaqueta preta, com zíperes que fechavam do meu braço até o pulso e um zíper no meio quase fechado, mostrando um pouco de uma camisa branca, uma nova camisa branca, a calça era um jeans preto, com o detalhe que todos os bolsos tinham zíperes e os sapatos, ou melhor dizendo, botas, eram incrivelmente confortáveis, fáceis de abrir e fechar com somente um zíper principal, seria ótimo tanto para correr ou descansar.

— Isso... — Leonard começou a falar.

— Ficou... — Rose também.

— Perfeito! — Os dois completaram com lágrimas nos olhos, me deixando um pouco envergonhado e feliz.

— Que isso gente, haha! — Eu ri, eu realmente ri, na verdade gargalhei junto com Leo e Rose, não sei se já tinha rido alguma tão verdadeiramente nesses últimos tempos, me sinto vivo.

— Bom, agora é só pagar! — Leonard tirou a carteira do bolso direito e começou a contar moedas. — Será que não poderia dar um desconto?

— Ah, Leo, sempre querendo se aproveitar, — Rose bateu no bolso esquerdo de Leonard. — Acha que eu já não sei que você guarda a carteira verdadeira no bolso esquerdo?

— Você... você se lembra disso? — Leonard parou de sorrir e olhou fixamente para Rose.

— Claro que sim! — Rose ainda sorria. — Você tentou dar essa artimanha da última vez, eu quase caí!

— Claro! Claro! — Leonard voltou a sorrir. — Tudo bem, dessa vez vou pagar tudo, mas insisto desconto na próxima!

— Vamos ver isso na próxima! — Ela sorriu e começou a olhar para mim. — Eu acho que você não vai tirar a roupa para nós passarmos no caixa, né?

Não notei, mas eu já estava me agarrando nas roupas.

— É que... — Fiquei um pouco envergonhado. — Se quiser ainda posso colocar as roupas surradas de antes.

— Não precisa, — Ouvimos a voz de Leonard de longe, mal tinha percebido, mas ele já estava pagando para a caixa, do outro lado da loja, depois voltou para perto de nós. — Já paguei.

— Que ótimo! — Rose não parava de sorrir, mas parecia realmente alegre.

— Temos que ir indo... — A cara de Leonard escureceu.

— Já? — Rose fez uma voz manhosa, tentando deixar Leonard na loja por mais um minuto.

— Já está tarde e temos trabalho a fazer... — Leonard desviava o olhar para Rose, a bola azul em seu peito cresceu ainda mais, pelo pouco que vi não daria nem mais dois dias para ela.

— Espera, vocês dois trabalham juntos? — Rose olhava tanto para mim quanto para Leonard.

— Bom, podemos dizer que trabalhamos no mesmo ramo... — Comentei.

— Vamos indo! — Leonard começou a me puxar pelo braço em direção para a porta.

Quando ele colocou a mão na maçaneta, ele largou meu braço e correu para cima de Rose, dando um abraço nela, Rose estava assustada, enquanto ele a abraçava dizia:

— Rose, vou sentir sua falta...

— O que foi Leo? — Ela perguntava com medo em sua voz e o sorriso um pouco abalado em sua cara.

— É que, que... — Leonard tentou se recompor. — Eu vou viajar por um tempo, então não terei como visitar a loja.

— É isso? — Rose voltou a sorrir, realmente ela era uma luz em meio a todo aquele cenário gótico. — A loja sempre estará aqui quando você voltar.

— Tem razão... — Leonard deixou escorrer as primeiras lágrimas em seu rosto, que foram seguidas de uma torrente delas, ele se virou de costas e veio ao meu lado.

— Vamos indo Ben... — Ele abriu a maçaneta, me deixou sair primeiro e deu uma última olhada para Rose.

— Espere! — Gritou Rose, correndo em direção a porta, mas Leonard a fechou antes de ela conseguir alcançar.

— Este é o nosso problema Ben, — Leonard secava suas lágrimas. — Nós sempre temos que fechar a porta...

Depois de pouco mais de um minuto parados lá, Leonard reabriu a porta, mas dessa vez entramos sem fazer barulho, todos lá estavam normais, Rose com um sorriso esperava clientes, as outras duas atendentes conversavam entre si, Leonard sinalizou para eu ficar em silêncio, nos sentamos em um sofá preto com alguns espinhos na ponta.

Vimos Rose atendendo clientes, sempre com um sorriso que fazia mesmo aqueles que se vestiam totalmente de preto se sentissem confortáveis.

— Me largue! — Ouvimos as outras duas funcionárias da loja brigarem.

— Se acalma querida, — Uma das atendentes, loira e com uma maquiagem exagerada segurava nos braços da outra, uma gótica cheia de piercings. — Nós só temos que ir lá atrás e tirar tudo de lá.

— O que está acontecendo aqui? — Rose se aproximou das duas, que ficaram quietas por um momento.

— Não é nada Rose, — A loira maquiada começou a falar. — Mas temos vários pedidos da internet que precisam ser embalados e enviados...

— E hoje é o dia dela! — A atendente com piercings não parava de olhar para a cara de Rose.

— Mas é muita roupa! — Retrucou a loira.

— Todas temos uma quantidade parecida de roupa para empacotar e enviar, faça seu trabalho! — A garota com os piercings estava quase pulando encima da loira.

— Se acalmem... — Rose olhou para seu relógio de pulso. — Vamos fechar a loja vinte minutos mais cedo, assim nós três podemos empacotar as encomendas, que tal?

— Ótimo! — A loira se animou e sorriu para rose.

— Também digo ótimo, — A jovem dos piercings começou a olhar para loira. — Agora teremos que fazer o trabalho dela.

— Não demorará nada! — Rose sorriu para as duas, foi até a porta da loja, olhou para ver se não tinha nenhum cliente esperando lá fora e então virou a placa de aberto para fechado. — Se fizermos direitinho conseguimos terminar até mesmo antes do fim do expediente e sair mais cedo!

Nós as seguimos para a parte de estoque para loja, supreendentemente elas já estavam terminando em pouco mais de dez minutos, mas Rose foi quem fez a maior parte da tarefa.

— Que coisa, né? — Leonard puxou papo comigo. — Ela sempre é muito esforçada, cuidadosa e eficiente...

— Você é muito amigo dela? — Tentei continuar o papo.

— Mais ou menos, — Leonard olhava para a bola azul entre as curvas de Rose, deixou até uma lágrima cair. — Eu a conheci logo quando virei juiz, ela era só uma criança... — Leonard parou de olhar para ela. — Naquela época, eu também era...

— Como assim? — Questionei.

— Um juiz demora muito para aprender que deve distanciar seus sentimentos e o seu... trabalho.

— Ei Leonard... — Fiquei um pouco sem jeito. — Se quiser, eu posso jugar ela...

— Não! — Ele gritou. — Esse é meu dever.

— Como juiz?

— Como amigo dela.

Nós dois vimos ela terminar de empacotar a última roupa, uma jaqueta vermelha que zumbis usariam.

— Bom, este é o último! — Rose sorria animadamente para as duas.

— Yey! — As outras duas fizeram uma comemoração, a loira estava realmente animada e agradecida enquanto a com piercings usou seu “Yey” como uma sátira.

— O que foi Purr? — Rose se direcionou para a garota com piercings, chamando ela carinhosamente com o apelido de Purr.

— É que... — Purr suspirou tão forte que até os seus piercings balançaram. — É que você fez todo o trabalho...

— Isso é motivo para ficar triste? — Perguntou a loira maquiada.

— Que isso Purr, — Rose chegou mais perto de Purr. — Foi um trabalho em equipe!

— Pare com isso Rose! — Purr se afastou de Rose. — Você sabe que ela te usou!

— Como assim? — O brilho do rosto de Rose diminuiu.

— Ela sabia que você a ajudaria a empacotar tudo isso, então jogou toda a tarefa encima de você! — Purr gritava.

— Isso não é verdade! — Retrucou a loira.

— Não pense dela assim, — Rose tentou acalmar Purr. — É um trabalho difícil empacotar, então é sempre bom ajudar-

— Ajudar? — Purr recuava cada vez mais. — Ajudar? Ajudar?! Você fez todo o trabalho Rose!

— Isso foi uma ajuda coletiva! — Rose olhava determinada para ela. — Se nós três não trabalhássemos juntas, talvez a loja nem estaria aberta hoje!

— Pare com isso! — Gritou Purr, agora com ódio em sua voz, avançou para cima de Rose. — Pare de querer ser tão boazinha, pensar o melhor do mundo e de que as pessoas vão se ajudar para todas serem felizes! — Purr segurou a gola da roupa de Rose. — Não percebe que o mundo é triste? Você trabalha numa loja onde só as pessoas mais tristes do mundo vem comprar coisas, com seu um salário furreca para sustenta sua vida! — Purr largou a gola da roupa de Rose e recuou. — Não importa o que você faça, saiba de uma coisa, no fim, todos morremos sozinhos em um canto, provavelmente molhado e com arrependimentos!

Todos ficaram quietos lá, inclusive nós, era uma situação tensa.

— Purr, desculpe por isso, — Rose voltou a falar. — Mas realmente acho que o mundo é um lugar lindo onde as pessoas podem se ajudar! — Rose sorria, mais forte do que nunca. Rose não era inocente ou desorientada da realidade, ela notava que a diferença entre um mundo triste e um mundo perfeito, era só um pouco mais de esforço.

Purr saiu da loja, sem falar mais uma palavra, a loira maquiada se despediu e saiu logo após isso, sobrando somente Rose e nós dois. Ela pegou uma vassoura no canto e começou a varrer, mesmo sem ter ninguém lá, ela ainda mantinha uma leve elevação em suas bochechas, um sorriso calmo.

— Sabe de uma coisa Ben? — Leonard olhava fixamente para Rose, mas dessa vez sorrindo. — Eu sou juiz a muito mais tempo que você, nós aprendemos alguns truques depois de tanto tempo. — Leonard fez um movimento com sua mão, crescendo a bola azul em Rose a um tamanho enorme, ela estava prestes a morrer.

— Você acelerou a morte dela?! — Gritei com Leonard.

— Não, — Ele me respondeu friamente. — Depois de um tempo, nós aprendemos a manipular o tamanho da bola que aparece, para não chamar a atenção de outros juízes.

— Fez isso para ela não ser caçada? — Estava intrigado.

— Não, — Ele começou a lagrimejar novamente. — Fiz isso para eu não saber o momento exato da morte dela, — Ele parou de falar por um momento. — Achei que ela ia morrer aqui, nesta amada loja, mas olhe. — Rose guardou a vassoura, pegou sua bolsa e desligou as luzes da loja. — Ela já está prestes a sair...

Nós a seguimos para fora da loja, já era tarde, a lua dominava o céu e começava a chuviscar, mas nada que necessitasse um guarda-chuva, mas incomodava um pouco. Rose começou a andar.

— A casa dela é só a três quadras daqui... — Comentou Leonard, nós sabíamos que ela não viveria até lá.

Passamos pela primeira quadra normalmente, Rose sorrindo e nós a seguindo. A segunda quadra fora mesma coisa, mas não estávamos mais sozinhos. Chegando na terceira e última quadra, o sorriso de Rose continuava, ela ia tirando as chaves de sua bolsa, mas rapidamente um lunático apareceu, tentando retirar a bolsa dela.

— Pare! Pare! — Rose gritava.

— Cale a bolsa e passe para cá a boca! — O ladrão estava tão nervoso com os gritos de Rose que confundia as palavras, então em um movimento retirou uma faca do bolso e deu uma, duas, três facadas em Rose, a ponto de ela não ter forças mais para se manter em pé. — Desculpe moça... — O ladrão comentou essas duas palavras enquanto saia correndo de lá, com a bolsa.

A chuva aumentara e não passava mais ninguém por lá, era o fim de Rose, ela mesmo já aceitara isso.

— Quem diria... — Rose começou a falar sozinha. — Amanhã provavelmente vai ser um belo dia, essa chuva vai renovar o parque da cidade, terá muitas flores nele.

Nós dois ficamos calados.

— A Purr estava certa, — Rose tentava fazer pressão em um dos buracos que jorrava sangue. — Eu vou morrer sozinha em um canto molhado com arrependimentos... — Rose começou a chorar. — Me desculpe Purr... mãe... Leo...

— Aguente Rose! — Leonard começou a pressionar uma das feridas.

— Leo...? — Rose olhava para Leonard.

— O que você está fazendo?! — Gritei com Leonard, ele estava tentando salvar a vida de uma pessoa que já ia morrer.

— Aguente firme Rose! — Leonard me ignorou e continuou a falar com Rose, segurando sua mão. — Você não vai morrer em um canto sujo e sozinha!

— Mas Leo... — Rose tinha um sorriso em meio as lágrimas e chuva. — Eu não estou sozinha...

Leo chorou enquanto via o azul se transformar lentamente em laranja, ele tirou sua faca e deu o último golpe em Rose, não para pegar sua alma para julgar, mas para ser o golpe de misericórdia, ele pegou sua faca e então com mais um golpe pegou a alma de Rose, deixando tudo em minha volta preto.

A escuridão, demorou alguns segundos para as primeiras linhas aparecerem, quase como se alguém estivesse segurando elas.

Comecei a me ver em uma posição parecida a que eu estava, mas tinha uma torrente de água caindo do céu e uma criança correndo, a reconhecia, era Rose, com um cabelo curto e um corpo bem magricelo, molhada pela chuva.

— Mãe! Mãe! — Ela gritava para uma mulher que andava lentamente, se cobrindo por um guarda-chuva. — Será que podemos passar na sorveteria hoje?

— Se acalme querida... — A mãe de Rose revelou seu rosto, já era uma mulher de idade, demonstrando várias rugas e fraquezas. — A sorveteria está fechada essas horas.

— O que?! — Rose apontou para o pulso da mãe. — Você me disse que a sorveteria só fecha quando o ponteiro pequeno estiver no número seis! — Rose fazia birra, mas sua mãe encostou levemente a mão na cabeça de Rose, fazendo um cafuné.

— Ora Rose, a sorveteria não fecha mais cedo quando chove muito. — O cafuné e o sorriso da mãe de Rose eram aconchegantes.

— Ok mãe! — Rose respondeu e saiu correndo novamente pelas ruas, mesmo com a chuva a molhando.

Ela se adiantou e correu mais de um quarteirão, mas notou que sua mãe não estava perto dela, pobre mulher, tento uma filha com tanto pique.

— Mãe! — Rose gritava animadamente enquanto corria de onde tinha vindo, mas se deparou com sua mãe no chão, sangue em sua volta, e, encima dela, um homem. — Mãe...

— Odeio isso... — O homem saiu de cima do corpo da mãe de Rose, era um loiro que olhava penetrantemente para Rose, era Leonard! Leonard era o assassino da mãe de Rose? Impossível. — E ainda por cima o cara deixou uma criança traumatizada.

— Saia de cima da minha mãe! — Rose empurrou Leonard, este não reagiu e caiu no chão.

— Vo- você... — Leonard gaguejava. — Voc- está m- me vendo?

— Mãe! Mãe! — Rose mexia no corpo de sua mãe de um lado para o outro, depois ela olhou para Leonard. — O que você fez com minha mãe?!

Leonard ficou sem palavras, Rose direcionava sua atenção para o corpo de sua mãe e para Leonard, o culpando.

— Me escute garota, — Leonard tentou conversar com ela. — Eu não tenho nada a ver com isso, só achei ela caída e tentei ajud-

— Calado! — Rose gritava. — O que você fez com minha mãe?! — Enquanto Rose gritava só pude admirar a cara de Leonard, ele estava com medo, mas toda essa memória fora consumida pela escuridão.

Demorou ainda mais para a próxima lembrança aparecer, mas estava em um lugar diferente, totalmente rosa, uma sorveteria, com vários desenhos de sorvetes na parede, mas meu foco ia para uma mesa, com Rose, ainda criança, provavelmente só um pouco mais velha e Leonard, tomando sorvetes juntos, sorrindo e cotando piadas.

— Então Rose, — Leonard comia seu sorvete lentamente. — Como foi a escola?

— Foi ótima! — Rose gritava animadamente, aquele sorriso já a seguia desde de criança. — Conheci uma menina chamada Mally que tem uma coleção gigantes de bonecas, e advinha! Diferente das meditas do resto da minha classe, ela divide com as garotas, inclusive comigo!

— Isso é sério? — Comentou Leonard.

— Sim! — Rose tentava falar enquanto comia sorvete. — Ela disse que não tem graça brincar sozinha, então é melhor quando todo mundo se diver- Minha cabeça tá doendo!

— Hahaha! — Leonard riu. — Não coma sorvete tão rápido, se não seu cérebro vai congelar.

— Não! — Rose largou a colher e gritava alegremente.

— Mas que fofura... — Ouvi uma voz feminina se aproximando, uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar...

— O que está fazendo aqui? — Leonard olhava fixamente para a mulher e perguntou novamente. — O que você quer aqui, Marina!

— Ora meu querido, — Marina encostou a mão na cabeça de Rose, ela já usava seu vestido vermelho e tinha uma cara assustadora. — Só vim ver como está meu parceiro.

— Parceiro?! — Deixei escapar, Marina e Leonard são parceiros?

— Marina, agora não... — Leonard segurou a mão de Marina que estava na cabeça de Rose.

— O que foi? — Marina sorria para ele, aquele sorriso lunático dela. — Tem medo que eu desfaça meu truque?

— Truque? — Rose perguntou para Marina.

— Isso mesmo querida... — Marina começou a falar com Rose.

— Pare... — Leonard apertava o braço dela.

— Criança, como você é amiga desse homem? — Marina perguntou calmamente.

— O Leo? — Rose olhou para Leonard, que soltou o braço de Marina.

— Por favor Marina, pare com isso... — Leo começou a lagrimejar.

— Isso mesmo, — Marina falava perto do ouvido de Rose. — De onde você conhece o Leo?

— Ele me pega na escola, me dá comida, brinca comigo, papeia coisas que assistimos na televisão... — Rose ficou pensativa.

— E... — Marina sussurrava no ouvido dela.

— E... — Rose começou a falar. — Eu o vi encima do corpo morto da minha mãe...

— Isso mesmo! Hahaha! — Marina riu enquanto se afastava dos dois, Leonard ficou em silêncio, chorando. — Dessa vez ela disse de uma maneira que você só não pareceu assassino quando necrófilo!

— Ah? — Rose começou a lagrimejar. — Por que eu estou chorando?

Marina ria freneticamente enquanto Leonard mantinha a cabeça baixa.

— Senhor? — Rose se direcionou para Leonard. — O senhor está bem?

— Lógico que ele está, garota ele tem a maior sorte de todas! — Marina ria enquanto falava com Rose. — Por ter uma parceira tão experiente e genial como eu, ele finge que se redime ajudando uma pobre garota sem família!

— Pare com isso! — Leonard se levantou e começou a avançou para cima de Marina. — Por que você faz isso?!

— Pare! — Marina gritou, fazendo com que Leonard se retraísse, ele estava sentindo o que eu já senti, o aperto no coração que só Marina causava.

— Por que você tem que ser tão má? — Leonard resistia, avançando lentamente para cima de Marina.

— Ela é mais um teste meu, tenho que ver até onde ela aguenta. — Marina falava calmamente, Leonard avançou seu punho para cima de Marina, mas não conseguiu dar um soco nela.

— Ah! Ai! — Rose caiu no chão e começou a se contorcer no chão.

— Melhor tomar cuidado, — Rose sorria com um sorriso maquiavélico. — Talvez você não morra, mas ela, ela morre.

Leonard soltou Marina, todos pararam de sentir o aperto em seu coração.

— Ótimo, — Marina limpou um pouco das suas roupas, depois tirou um pequeno globo de neve de seu bolso. — Eu vou de dar um presente, só porque você é meu mais novo parceiro...

— O que é isso? Uma lembrancinha? — Leonard olhava para o globo de neve.

— Estas são as memórias falsas que eu para Rose. — Marina olhava para o globo de neve. — Foi difícil, mas consegui.

— Ela vai esquecer do passado dela?! — Leonard olhava para o globo.

— Não, — Marina respondeu enquanto brincava com o globo na mesa. — Mas isso garantirá que as coisas que ela faça na vida sejam guiadas por escolhas boas.

— Então é como um guia? — Leonard estava focado no globo de neve.

— Podemos dizer que sim, mas há um problema; — Marina pegou o globo e colocou na frente do rosto de Rose. — A partir de quando essas memórias forem introduzidas, ela não vai ter memórias claras, tanto sobre nós, quando sobre qualquer coisa que aconteça na vida dela...

— Então ela esquece de tudo? — Leonard perguntou.

— Não, ela vive o momento! — Marina levou o globo até as mãos de Leonard, esse que o segurou firmemente. — Essa é uma escolha sua! Ou ela vive amaldiçoada com memórias ruins ou ela vive o momento da melhor maneira possível!

Tudo ficou preto novamente, mas ao começar do aparecer de algumas linhas na minha frente, outras iam sumindo, elas não ficavam tempo suficiente para formar uma imagem, mas conseguia ver ela crescendo com um sorriso no rosto, Leonard tinha feito a escolha...

Voltei a ver Leonard, encima do corpo de Rose, balançando a sua faca rapidamente, sinalizando quão boa ela era.

— Rose M. Gilford, julgada.

Notas finais
Esse capítulo não demorou um ano para sair! Yey!