O jogo do amor

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Espero que gostem ^-^ Tem um pouco de Lime.

Ash não se sentiu solitário no caminho até o Aeroporto Internacional de Viridian, e nem mesmo nas seis horas dentro do avião até Kalos. Sentou-se na janela, e um casal apaixonado se sentou nas cadeiras ao lado.

Ficou polindo as pokébolas vazias que levava consigo, e a única com um pokémon era a de Charizard. Sabia que Sycamore lhe perguntaria o motivo de não ter levado Pikachu, então tentava pensar numa desculpa boa. Dormiu pensando na sua festa de aniversário surpresa, que acontecera alguns meses atrás. Antes de tudo isso.

Era maio, e assim que chegou em casa foi recebido com gritos animados. Pikachu pulou de seu ombro e foi cumprimentar todos os dez convidados. Ash deu um sorriso aberto, como sempre, e correu para abraçar a pessoa que provavelmente tinha planejado aquilo: sua mãe.

— Obrigado! — gritou, antes de sair do abraço.

— Agradeça à Misty, a ideia foi dela. — respondeu Délia, dando uma risada tímida. Misty encarava a reunião familiar de longe. Antes que Ash fosse embora para falar com ela, Délia continuou a falar — Achei que o Cilan viesse também.

— Ele preferiu seguir viagem… — disse Ash, se afastando para falar com Misty. Atravessou a sala, falando com seus vizinhos, e também Brock e o Professor Carvalho. Quando finalmente alcançou Misty, ela encarava a parede do outro lado, com a cara meio fechada e o queixo empinado. — Oi.

— Não sabia que você vinha. — disse Misty, com sarcasmo.

— Minha mãe disse que foi você quem organizou isso, como você não sabia se eu vinha? — respondeu Ash, lerdo como sempre, com sinceridade. Pikachu se aproximou e saltou para a mesa ao lado dos amigos de infância.

— Ah, Ash! — Misty não resistiu e abraçou ele. Sabia da derrota humilhante que ele sofrera na Liga Unova, e queria confortá-lo apesar de tudo.

— O que…?

— Você vai conseguir na próxima, eu tenho certeza! — disse Brock, dando um soquinho no braço de Ash com mais força do que deveria. Tinha dezenove anos agora.

— Do que vocês estão falando? — perguntou Ash, desviando sua atenção entre os dois antigos companheiros de viagem.

— A Liga Unova, ué — declarou Brock. — Você perdeu pra um Lucario recém-evoluído! — Pikachu saiu de perto com uma velocidade impressionante. Não queria ouvir ninguém falando sobre aquilo. Sobre a derrota humilhante que tinha adicionado à sua lista de derrotas humilhantes causadas pela estupidez de seu treinador.

— Não foi nada demais, eu aprendi muita coisa lá!

Ash, Misty e Brock conversaram pelo resto da festa, e um por um os vizinhos foram embora. A festa começara às 16h, mas Gary só chegou as 18h. Não entrou de imediato, ficou observando o movimento pela janela. Ash parecia muito perto de Misty.

Olhou mais uma vez para o pequeno embrulho em sua mão, e pareceu hesitante. Ash o viu ali, parado, e pediu licença para os amigos.

Saiu pela porta de trás para não causar suspeitas, deu a volta na casa, e cumprimentou Gary de longe. Pediu para ele se aproximar.

— Por que não entrou ainda, cara? — Ash fingiu não ter percebido o que ele escondia nas costas. Olhou no fundo dos olhos de Gary, olhos castanhos. — O que é isso aí atrás?

— Não é nada, eu… argh, toma. — entregou o presente num único empurrão. — Se não gostar, devolve! Isso foi caro. Na verdade, nem era pra você. Eu comprei pra uma outra pessoa, mas… — resmungava mentiras, enquanto Ash abria o presente. Tinha um colar com corrente de prata e o símbolo de um coração com estampa de pokébola, quebrado pela metade. Ash olhou de volta pra Gary, e agradeceu. Viu no pescoço dele uma corrente da mesma cor, mas não teve coragem de perguntar se era a outra metade do coração-pokébola.

Agora, aquela lembrança parecia mais feliz do que confusa. Foi só alguns meses antes de Pikachu quebrar a própria pokébola e fugir de volta para a Floresta Viridian. Não era um mal entendido, Pikachu realmente não queria ser mais seu pokémon. Ash não chorou, não o seguiu. Arrumou suas coisas e preparou sua próxima viagem.

Acordou quando já estava em Kalos. Desceu do avião pela escada, foi de ônibus até o aeroporto e lá encontrou Alexia. Sorriu falso para ela, e pegou uma carona até seu hotel. Tinha levado apenas uma mala com roupas, e sua mochila, antiga companheira de outras jornadas. Na semana seguinte começaria sua jornada por Kalos. Sim. Um novo começo para Ash Ketchum.

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Quando abriu os olhos pela manhã, o sol que invadia o quarto pelas frestas da cortina fazia os grãos de poeira dançarem. Esfregou os olhos, trocou de roupa, e desceu para tomar o café da manhã no buffet do hotel.

Enquanto preparava seu prato, viu um rosto conhecido do outro lado do salão. Gary. Ele enchia seu prato de frutas de todos os tipos. Pensou em ir lá falar com ele, mas lhe faltou ânimo. Comeu em silêncio numa mesa no canto.

Tentou passar despercebido pelo garoto o resto da semana, mas, na quinta feira, bateram à sua porta. Ash não checou o olho mágico, e abriu a porta com velocidade. Seu coração parou quando viu Gary de pé ali, olhando para o lado.

— Você esqueceu isso perto da piscina. — Gary entregou a pokédex de Ash. Ele nem tinha dado conta que sumira. Foi embora logo em seguida, mas o moreno o chamou de volta:

— Gary. — disse, torcendo para que ele não ouvisse. Ele ouviu, e se virou. — Quer entrar? — Gary se virou novamente, e voltou para seu quarto. Ash não podia dizer que não ficou incomodado com aquilo.

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No sábado, Ash resolveu ir para a sauna. Estava estressado com o tédio, e entediado do estresse. Aquele vazio pesava. A dor de saber que seus amigos o consideravam um verdadeiro fracassado.

Gary entrou na sauna onde ele estava, mas assim que o viu deu meia volta. O vapor encobriu as lágrimas de Ash, que achou ter lido errado os sinais. Chorou baixinho, abraçando os joelhos. Mas Gary voltou. Trancou a porta da sauna e usou a própria toalha pra manter a maçaneta imóvel.

A toalha de Ash foi arrancada de seu corpo por Gary. Estava abraçando as pernas ainda, então apenas uma parte sua estava visível. O calor fazia ambos corpos suarem.

— Não somos mais crianças, Ash. — disse Gary, agarrando o cabelo do outro com força. Ash desceu do banco e ficou ajoelhado conforme a vontade de Gary. Conforme o movimento, ele gemia.

No fim, Ash se jogou no chão, se sentindo menos vazio. Gary pegou a toalha, e a barraca ainda estava armada.

— Em que quarto você está? — Ash perguntou. Gary respondeu, jogou a toalha de Ash sobre o ventre de seu dono, e saiu.

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Mais tarde, ainda no sábado, Ash bateu à porta de Gary três vezes. Ouviu o barulho dele se movendo numa cadeira, mas a porta não se abriu. Não teve vontade de chorar, mas não entendia o porque disso.

O primeiro movimento foi de Gary, quando o deu aquele pingente.

O segundo foi de Ash, que o chamou para entrar.

O terceiro foi a sauna, que ele não sabia dizer de quem fora.

Ligou para Íris, e contou toda a situação. Toda mesmo, com os mínimos detalhes. Ela não disse nada sobre Pikachu, mas disse algo que o ajudaria com Gary. Ela disse que o amor não é um jogo.

Era três da manhã quando eles desligaram a chamada. Ash foi até o quarto de Gary, encostou a cabeça na porta e murmurou o nome dele, cada vez mais alto. Até que a porta se abriu.

Uma garota loira. Não era o quarto de Gary, ele havia mentido.

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No domingo, Ash tentou ligar para o celular dele — caixa postal. Não deixou mensagem; perguntou por ele no saguão — ninguém parecia ter visto-o, e a secretária se negava a dar informações sobre os clientes.

Dando a busca como uma falha terrível, chamou o elevador para voltar para seu quarto e curtir seu último dia de férias antes da próxima jornada. Gary estava lá dentro, o encarando como se soubesse que estaria lá. Puxou-o para dentro, apertou o botão do térreo e eles não trocaram uma única palavra no caminho vertical.

Gary abriu a porta dupla de ferro que dava passagem para a cobertura, e a fechou quando Ash passou. Avançou para beijá-lo, mas o moreno o empurrou.

— Isso não é um jogo, Gary! Me diz o que você quer! — Seus olhos se encheram de lágrimas, e o outro bufou.

— Eu quero você. Agora. — Ash pegou uma pokébola quando ele tentou se aproximar novamente.

— Pare de dar sinais controversos. Você me deu o número errado de quarto.

— Eu não estou hospedado neste hotel. Só vim pra cá porque soube que você estava aqui. Merda! Você é egoísta demais pra pensar em mim, não é? Só porque sua maldita vida é perfeita. Todos te aceitaram quando você disse que gostava do Cilan. Todos entenderam o romance de vocês. E eu? Eu vivi a minha vida cercado de garotas, e cresci com um pai ausente homofóbico. Minha irmã é a única família que eu tenho, e ela não se importa comigo. — Gary encarava o céu quando terminou de falar. Ash viu uma lágrima escorrer por sua bochecha e entrar no seu ouvido. Estava boquiaberto, mas não queria se desculpar. Ele dissera que sua vida era perfeita, mas estava tão ruim quanto.

— Pikachu desistiu de mim. — declarou, pela primeira vez em voz alta. — Brock, Misty, Cilan, todos me acham um fracassado. Eu perdi a Liga Unova, Gary. É a liga mais fácil do planeta! Minha vida é perfeita? Como você acha isso perfeito! Argh! — Ash empurrou Gary na porta de ferro, e ele caiu com a mão na nuca.

Era noite. Ash não disse mais nada, e Gary também não. Quando deram conta, estavam juntos num cobertor marrom. Um não tinha pensado no outro.

— Se nossas vidas separados são péssimas… — começou Gary, antes que Ash dormisse em seu ombro. — Talvez uma vida juntos seja perfeita. — Ash gostou da ideia. Sorriu, e ali se despiram. Ali se amaram intensamente, Gary com as costas no chão frio e Ash com estocadas firmes e rápidas. Adormeceram lado a lado.

No dia seguinte, realmente foi um novo começo para Ash Ketchum. Para Ash Ketchum e Gary Carvalho.

Notas finais
Comentem, eu sempre respondo ^-^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!