O jogo do Diabo
1 Bem vindo ao jogo
Notas iniciais
Espero que gostem de narrativas maravilhosas (hahaha).
Em uma manhã chuvosa na cidade de Santa Monica, Estados Unidos, Alex Murphy, depois de uma longa patrulha bem sucedida pela cidade, voltava para a delegacia exausto junto a seu parceiro, esperando, ao menos, uma promoção depois de tantos anos prestando seus serviços.
Ao chegar na delegacia, foi imediatamente à sala de seu superior relatar o sucesso da missão animado, pensando na possibilidade de seu tão esperado aumento.
- Senhor, a missão foi um sucesso. Nada fora do normal acontecendo na cidade por hoje. – Murphy disse.
- Ótimo, pode ir descansar um pouco para sua próxima missão, você parece abatido. Obrigado por me informar. – O delegado disse distraído.
- Obrigado, Senhor... An... Senhor, faz muitos anos que eu trabalho aqui no mesmo cargo e sempre tive resultados bons comparado aos dos outros policiais. – Alex falou, mas foi interrompido por seu chefe:
- Onde quer chegar com isso?
- Eu estava pensando se o Senhor não poderia me promover a um cargo mais elevado. – O policial disse nervoso.
- Como assim? – O superior indagou confuso. – Não está feliz com seu emprego?
Alex, já suando frio, pensou durante alguns segundos sobre a resposta.
- Sim, mas no momento minha família está passando por necessidades, meu filho está doente e o meu salario não é o suficiente para atender suas necessidades médicas. – Respondeu receoso da interpretação de seu chefe.
- Murphy, me desculpe mas no momento não posso fazer nada. Me peça daqui a uns 2 meses talvez, me desculpe mesmo. – O delegado falou entristecido.
Com isso, Murphy saiu nervoso da sala, indo para o vestiário pegar suas coisas e ir para casa. Quando já estava saindo, ouviu alguns de seus companheiros comentando sobre algo.
- E então ele apareceu na frente do cara. — Um deles disse. — Eu não acreditei quando ele disse, mas quando ele me falou sobre a diferença demoníaca no olhar , eu decidi acreditar.
- Deixe de besteira! — Falou outro policial — Isso é apenas mais uma lenda urbana, não é possível alguém se encontrar com o diabo.
Murphy, curioso sobre o rumo da conversa, resolveu participar: — Como assim? — Perguntou — Se encontrar com o diabo? Como isso funciona?
O primeiro policial virou-se para Murphy e sussurrou:
- Você não conhece o jogo do Diabo? — perguntou — É um jogo onde você se encontra com o Diabo para um jogo de perguntas e respostas.
- Como funciona? — Murphy perguntou interessado.
- Eu vou explicar tudo que sei para você. — O colega começou — Você vai precisar ir a uma igreja vazia à meia noite, pode ser feito em qualquer dia. Existem alguns itens que você irá precisar levar, como uma lata cheia de sal, sete velas vermelhas, algo para acender as velas, um comprimento de corda vermelha comprida e um espelho grande. — Suspirou e continuou preocupado — Você não terá permissão para trazer quaisquer dispositivos eletrônicos ou de cronometragem. Isto inclui celulares, smartphones, tablets, mp3 players, PDAs, calculadoras, relógios de pulso, relógios de bolso, temporizadores de cozinha, relógios de areia, etc. Se levar uma lanterna, deixe-a do lado de fora. Além disso, não traga qualquer tipo de parafernália religiosa para protegê-lo. Se você estiver usando qualquer tipo de símbolos sagrado, o Diabo vai simplesmente se recusam a aparecer.
Alex, assustado com a quantidade de restrições, pensou alto: — Quanta coisa..
O policial riu e continuou a explicação: — Uma vez que você tem certeza que você tem todos os itens com você, faça o seu caminho para a igreja e encontre um lugar para configurar. Isso pode ser feito em qualquer lugar do santuário. Configure primeiramente o espelho, este é o lugar onde o diabo vai aparecer quando você chamá-lo. Primeiro, coloque o espelho de pé dentro de um círculo interrupto de sal. — Fez uma pausa para respirar e continuou. — Em seguida, enrole a corda vermelha ao redor do espelho várias vezes. A cor vermelha é um símbolo de proteção no folclore de muitas culturas e religiões. Tanto que as velas são vermelhas para isso mesmo. Falando das velas, configure-as do lado de fora do círculo (ou semicírculo) de sal, espaçadas em intervalos relativamente iguais. Acenda as velas em sentido horário, tomando cuidado para não fazer alguma abertura com o sal, se você quebrar o círculo, você vai ter que começar tudo de novo. Depois de todas as velas acesas e queimando fortemente, as alas de proteção estão completas.
O Outro policial completou: — Daí é só chamar o Diabo três vezes que ele aparecerá ao espelho em sua frente. Pode perguntar o que bem entender, mas ele pode mentir e ele sabe quando você mente, fique esperto.
Murphy, atento, se lembrou de seu superior e seu filho doente, agora se perguntava o porquê da vida ser tão injusta com ele. Por que nada dava certo? Ele tinha feito algo de errado?
Afastou os pensamentos, pigarreou e disse:
- Caramba, e pode perguntar qualquer coisa?
O companheiro, saindo, respondeu:
- Qualquer coisa que dê para responder com sim ou não. Já vou indo, boa sorte com seu filho!
- Obrigado – Alex sorriu triste e saiu da delegacia pensando no jogo. – Será que eu devo...? Não, e se ocorrer algo de errado? O que direi a meu filho?
Decidiu resolver isso mais tarde, pois teria de conversar com seu filho sobre os medicamentos.
Passaram-se algumas horas e, depois de ter conversado com o filho e pesquisado mais sobre o tal jogo, decidiu enfrentar o Diabo e descobrir a razão se sua vida. Comprou o necessário e esperou na frente de uma igreja isolada do resto da cidade até todos saírem. O policial já havia preparado tudo em seu carro, agora apenas bastava esperar a meia-noite.
Dado o horário, Murphy pega as coisas e ruma para a entrada lateral da igreja em meio ao frio cortante que batia em sua face.
- Aqui é mais frio do que eu esperava, mas agora não tenho como voltar atrás. – Trêmulo pelo frio, arromba a porta com um chute e adentra a igreja escura e silenciosa, morta.
Conforme se aproximava do altar, tinha a sensação de ouvir ruídos vindos dos santos presos pelas asas nas paredes, cochichos e risadas que enlouqueciam sua mente.
Chegado onde desejava, arrumou tudo cautelosamente, tentando lembrar-se de tudo e não cometer nenhum erro. Tudo teria de correr perfeitamente. Pensando nas consequências, riu nervoso e disse para si mesmo:
- Nada vai dar errado, Alex. Acalme-se é apenas um jogo de perguntas e respostas. – Dito isso, acendeu as velas ao redor do círculo de sal e chamou aquele que tanto temia: — Diabo. Diabo. Diabo.
Uma brisa gélida passou rente à sua nuca, causando-lhe arrepios. Murphy encarou seu reflexo temeroso e viu-se com um sorriso macabro e os olhos vermelhos. Era ele, o Diabo.
O policial queria sair dali e voltar para sua família, mas não era mais possível. Encarou seu reflexo mais uma vez e, para seu desespero, o Diabo começou a falar:
- Quem é você?
Murphy saiu de seu transe quando ouviu a voz e , definitivamente, aquela voz não era nada parecida com a sua.
- Você sabe muito bem quem eu sou — Disse corajosamente apesar do medo — Eu sou Alex Murphy.... E você?
- Oras... Você sabe quem eu sou... – O reflexo disse com um sorriso que o homem não sabia decifrar. – Se não soubesse, não teria me chamado, não é mesmo?
- Não me venha com gracinhas. Você sabe porque eu vim aqui, certo? – Perguntou o homem, observando os olhos vermelhos do reflexo.
O demônio olhou seriamente para o policial, porém logo desfez a carranca e sorriu aparentemente feliz para o mesmo.
- Claro que sei, eu sei de tudo o que acontece com tudo e todos. Ou por acaso está me chamando de burro? – Os olhos encheram-se de ódio e raiva, adquirindo um brilho sem igual.
Alex, temendo por sua vida, afrouxou o nó da gravata que usava e respirou fundo, respondendo:
- Não, Senhor. – suspirou derrotado e o Diabo sorriu malicioso. – Certo, vamos ao que interessa. As pessoas me odeiam? – Perguntou.
- Não – O reflexo respondeu sério. – Teme a morte?
-Sim, Senhor. Eu temo a morte, temo deixar meu filho sozinho.. Ele está doente e eu não tenho o suficiente pra atender suas necessidades médicas.
O Diabo o encarou com o mesmo sorriso macabro e disse:
- Então não teme a morte, mas teme deixar seu filho sozinho...
Aquele silêncio voltou a reinar a igreja, apenas ouvia-se o barulho do vento e de uivos que mais pareciam com gritos agoniantes.
Passados alguns minutos agonizantes, Murphy volta a perguntar:
- Eu posso morrer com esse jogo?
O Diabo riu sonoramente, assustando o policial, fazendo um frio correr por sua espinha, arrepiando-o.
- Mas é claro que não. – O reflexo passou as mãos pelo vidro do espelho enquanto observava Alex. – Já pensou no que faria se seu filho morresse? Iria me culpar por isso?
O homem paralisou com aquela pergunta. Não se mexia, apenas pensava:
- Que raios de pergunta é essa? – Suava frio. – Lembre-se de que ele pode blefar a qualquer momento, não se prenda a esse tipo de coisa, Alex!
Depois de muito pensar, respondeu apavorado com a situação:
- Claro que não, ele está doente. É algo que só a ciência pode determinar, não tenho como culpá-lo. – Mentiu descaradamente.
O Diabo apenas riu cinicamente de sua mentira, mas resolveu deixar as coisas como estavam e perguntou sorridente:
-Sério? Você não me culparia de seu filho morresse? — Insistia na pergunta e Murphy apenas concordava.
-Será que não podemos mudar de assunto? — O policial perguntou visivelmente incomodado.
- Você veio aqui para saber sobre seu filho, não é mesmo? – O reflexo continuou no assunto incômodo.
- Sim. – Murphy respondeu derrotado. – Por que meu filho adoeceu? – Alguns momentos depois, ouviu vozes vindas de trás, em seu ouvido. Virou-se para procurar a origem do som mas não encontrou nada.
- Eu não sei, mas acho que deve ser culpa do destino. – Ria enquanto gesticulava com as mãos, inquieto. Com isso, Alex perdeu o controle e gritou:
- Foi você seu desgraçado! Foi você quem fez da minha vida um inferno! — Gritava descontroladamente.
O demônio, falsamente ofendido e tentando segurar o riso, fechou a cara e olhou nervoso para o homem, dizendo:
- Não arrume briga com o Diabo, ou pode acabar se queimando. – Aponta para trás do homem, que sente um calor repentino e um cheiro horroroso parecido com enxofre.
Alex, aterrorizado, perguntou temendo que o pior acontecesse:
-O que está acontecendo?
O Diabo gargalhou loucamente e disse:
- Ora... Acabou seu tempo, Alex – Com os olhos com um brilho descomunal, encarou o homem. – Ou achou que eu iria ficar aqui o tempo que você bem entendesse?
Murphy não acreditava no que ouvia, não era possível ter passado dos sessenta e seis minutos impostos no começo do jogo. Não, ele havia calculado tudo mentalmente, era impossível. O policial já não conseguia raciocinar, apenas pensava em como sair daquele lugar e fugir daquele monstro.
Em um momento de loucura, tentou sair correndo mas antes que tentasse fugir, sentiu sua mão sendo segurada firmemente e aos poucos, rasgando devido às garras daquele que o segurava. O sangue pingava ao chão, Alex tentava sair do lugar, mas seu cérebro não o obedecia. A cada arranhão, um novo grito se formava na garganta do policial, arrancando risos maldosos de quem o machucava. Ele estava ali, apenas observando deleitosamente a dor que causava. Se orgulhava do que fazia, influenciava indiretamente as pessoas a tentarem a sorte em seu jogo de azar, o jogo que não havia vencedores.
- Se não houvesse dito seu nome no início, quem sabe se não estaria saindo daqui tranquilamente. – Na face, estampada uma falsa tristeza e preocupação. – Bem vindo ao inferno. – Empurrou Murphy em direção ao espelho, fazendo com que sua alma abandonasse seu corpo e adentrasse no bloco de vidro. – Seu corpo me será útil. – Riu divertido. – Espero que seu filho pense o mesmo. Aproveite bem sua estadia aí, pois não irá sair tão cedo. – Ao terminar a frase, possui o corpo do humano, que antes estava desacordado, apaga as velas e sai andando, como se nada tivesse ocorrido ali.
Alex, desesperado, fazia de tudo para quebrar o vidro a sua frente. Queria sumir, nunca ter entrado no jogo daquele ser imundo. Estava lá, sentado, observando a imensidão negra a sua volta, pensando em seu filho que nunca mais veria, em sua mulher, seu emprego, porém seus pensamentos foram abruptamente interrompidos por um intenso calor vindo de todos os lados.
- Eu não quero morrer! – Berrava de dentro do espelho, mas ninguém o ouvia. – Desgraçado!
A velha igreja acendeu toda a vizinhança durante algumas horas, consumida em chamas, transformando-se em cinzas. E ele observava de longe seu feito, em sua opinião, o mais belo de todos. A criatura sorria enquanto deixava a vizinhança, esperando encontrar a criança para levá-la de encontro a seu pai.
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