O jogo do Amor

1 Capítulo 1


Notas iniciais
:*

Três dias...

Faz exatamente três dias que não recebia alguma indireta dos meus pais sobre casamento e estava começando a ficar preocupada.

Algo estava acontecendo.

Conheço muito bem o senhor Jorge e a senhora Ângela para não temer o silêncio de ambos. Esses dois querem que eu “desencalhe” a qualquer custo, o que é um absurdo considerando que só tenho 21 anos.

Só porque eu estou focada na faculdade e não tenho tempo para namorar não significa que nunca me casarei. Veja bem: Eu só não tenho tempo, ou paciência, ou disposição ou saco, ou vontade de me relacionar agora. Faltam dois anos para eu me formar e estava (antecipadamente talvez) enrolada com minha monografia, ou como é conhecido popularmente, o terrível TCC.

Se numa semana comum de aula eu já me estresso, durante o período de provas eu surto, ninguém consegue me aturar, nem eu mesma. Só saio do quarto para ir até a cozinha ou para o estágio – sem remuneração — no escritório Villas Boas. Agora imagina ter que dividir meu precioso tempo com alguém? Principalmente se for um garoto chato querendo atenção.

Em pleno século XXI é praticamente impossível acreditar que as mulheres ainda têm medo de “ficar para titia”, Na minha cidade é assim que funciona, toda vez que uma garota completa 22 anos (no máximo) sem casar vira piada.

Eu escolhi a faculdade.

Nunca me importei com as fofocas, escolhi estudar Direito. Sempre sonhei isso e mesmo tirando as melhores notas e sendo a melhor estagiária, sou alvo de risos porque nunca “apresentei um namorado a sociedade”. Essa não é a coisa mais machista que leu hoje?

—Maya, com licença querida. ­– pediu mamãe batendo na porta, eu que estava jogada na minha cama apenas murmurei entra a contragosto. Era sexta-feira à noite eu tinha acabado de redigir um artigo gigante sobre feminicídio.

Ela entrou e estava junto de meu pai. Algo de ruim estava por vir. Certeza.

Ângela era a típica mulher bonita de meia-idade. Alta e magra, todos percebiam quando ela chegava ao local, fosse por seus olhos absurdamente azuis e brilhantes, fosse por seus cabelos loiros – que ela jura ainda ser natural, tá bom — ou fosse por sua gargalhada angelical. Sua beleza e personalidade lhe renderam o título de Miss Agro Fest por cinco anos seguidos. Até que ela engravidou e parou de competir na festa da cidade.

Meu pai não ficava atrás. A pele, os olhos e os cabelos eram escuros. Alto e musculoso sempre foi considerado um dos melhores – se não o melhor — partido da cidade em sua juventude. O fato de ter o sorriso mais bonito que já vi e de ser extremamente engraçado com certeza contribuíram para isso. Era praticamente impossível resistir ao seu charme.

Meu pai a conquistou no primeiro ano do ensino médio, e estão juntos desde então. Casaram assim que terminaram a escola. Ele logo ingressou na vida politica, foi vereador por muitos anos e posteriormente prefeito, era querido por toda a população e exerceu muitos mandatos. Quando se aposentou, abriu uma adega na cidade onde vende os melhores vinhos da região.

Não me leve a mal eu amo meus pais com todo o meu coração, mas a mania de me arrumar pretendentes me tira do sério. Principalmente no período “pré-provas” que estou.

—Oi querida, nós temos uma coisa para lhe contar! – a voz dele soou mais grave que o normal. Respirei fundo, isso definitivamente não era um bom sinal. Sentei-me na cama e os encarei.

—Sua prima Ayla vai casar em julho, com o filho dos Anjos. – disparou mamãe. Minha vontade era de perguntar e porque isso era um problema meu, Mas mordi minha língua e desviei o olhar. Interiormente estava rindo. Denis dos Anjos era o oposto do que o nome dizia. Poderia até ser considerado o mais mulherengo da região se conseguisse de fato executar seus planos. Flertava com qualquer mulher, mas ninguém dava bola para ele, Só a idiota da Ayla para fazer uma loucura dessas. Não que ela seja a melhor pessoa do mundo.

Francamente ela nasceu para essa cidade. Tem se preparado para casar desde que me lembro. Isso não a tona má, eu sei, talvez um pouco idiota, mas não má. Porém o fato de ela espalhar mentiras sobre os outros e não medir esforços –inclusive passando por cima de amigas- torna. E eu era seu alvo favorito.

—Belo casal. – minha indiferença era perceptível, o que posso fazer se sinceramente não ligava para isso? Meu pai sentou na beira da cama e minha mãe bufou.

—Não tem graça Maya! Ela é bem mais nova que você. Vai deixar ela te passar a perna desse jeito? –ela parecia querer subir pelas paredes. Entre dentes disse:

—É só um ano de diferença mãe.

—Detesto quando resmunga. Fale direito comigo! — corrigiu.

—Olha minhas provas começam daqui a alguns dias eu preciso estudar e...

—Maya, por favor, esqueça isso por um minuto e pense no seu futuro! – Fui interrompida aos berros por dona Ângela. Tive vontade de gritar também. Eu dava meu sangue na faculdade exatamente por esse motivo. Já tínhamos brigado tantas vezes por essa razão. Da ultima vez que a enfrentei fora dois anos atrás.

“- Mãe eu não quero namorar, estou na faculdade e preciso me concentrar nela agora.

—Já chega Maya. Você esta com 19 anos e nunca nem namorou, isso é uma vergonha. Arrume alguém, senão diga adeus à faculdade.

—É federal, você não a paga. – disse segurando as lágrimas.

—Mas pago seu transporte.

—O dinheiro é do papai. – rebati gritando.

—Ele faz o que eu mando. Quer pagar pra ver? — gritou de volta”.

Minha faculdade ficava a duas horas de nossa cidade. Meu pai pagava a passagem porque achava muito perigoso dirigir na pista a noite.

Ele a convenceu a me deixar continuar com meus estudos, mas quanto mais o tempo passava menos paciência ela tinha.

Não conseguiria enrolar por mais tempo. Precisava pensar rápido.

Se eu continuasse solteira ela acabaria convencendo meu pai de que a faculdade estava me impedindo de arrumar alguém.

Só tinha uma saída: mentir.

—Mãe estou namorando! – resmunguei.

—O que? – ela perguntou confusa.

— Estou namorando, não contei porque não queria criar expectativas em vocês. Queria apresentar quando estivéssemos mais firmes. – gaguejei ao falar e ela me encarou.

— Quem é ele? – perguntou papai.

—É querida, quem é? Traga-o aqui para conhecermos. – pude sentir a ironia em suas palavras, ela não esta acreditando.

—Segredo. Por favor, esperem mais um pouco para conhecê-lo. – olhei para o chão ao dizer isso, odiava mentir.

—Você está blefando. – afirmou ela.

—Não estou! – fingi espanto – Se fazem tanta questão o trago aqui no domingo ok – a mentira saiu mais fácil dessa vez. – Agora se me dão licença vou sair para encontra-lo, então me deixem sozinha.

Antes que mais perguntas fossem feitas abri a porta e os empurrei para fora. Assim que a fechei, sentei no chão e abracei meus joelhos.

Não tinha escolha. Precisava sair e arrumar algum maluco que aceitasse namorar comigo por um tempo. Se durasse pelo menos até o casamento da Ayla... Ele poderia terminar comigo depois, com isso eu fingiria estar de coração partido e ganharia tempo.

Depois de um rápido banho, sai do banheiro e comecei a procurar algo para vestir. Precisava me esforçar para conseguir alguém. Meu futuro dependia disso – a curto prazo, claro -.

Optei por uma calça preta de verniz cintura alta, coloquei um top amarelo que apesar de não ser decotado no busto era cavado nas costas. Para finalizar coloquei coturno com salto preto. Apliquei delineador, rímel e batom. Não fazia ideia de há quanto tempo não me arrumava assim.

Olhei no espelho, Sou uma mistura perfeita dos meus pais.

Possuía olhos grandes e azuis um pouco mais escuros do que o da minha mãe, assim como o cabelo ondulado, só que o meu era castanho. Do meu pai eu herdei os lábios grossos e as covinhas na bochecha. De acordo com todos, tínhamos o mesmo sorriso. Minha pele era um meio termo entre a deles. Diferente do corpo esguio de mamãe puxara minha avó paterna e tinha seios fartos, quadris largos e cintura fina. Obvio que dona Ângela dizia que eu era privilegiada por isso e devia me valorizar mais. Como se um corpo bonito trouxesse sentimentos genuínos.

Peguei minha bolsa, coloquei uma jaqueta de couro porque estava frio e sai do quarto. Quando eu completei 18 anos meu pai me deu um carro popular, que eu amava, com a condição de que eu jamais dirigiria pela pista sozinha. Então liguei a Bonnie, sim tinha nome, e fui em direção ao Ernest’s, o único Pub da cidade, local de encontro para quem quer beber e flertar.

Basicamente é um salão amplo dividido por cortinas de plástico. A primeira “sala” tinha o bar e varias mesas. A segunda era um espaço livre para dançar com um palco improvisado ao fundo e a ultima sala era separado das demais, é um espaço aberto para fumantes. Se eu quisesse arrumar um namorado, seria ali que encontraria.

Assim que entrei no local vi que estava todo decorado com as cores e a bandeira do Leikers, sim você não leu errado. Leikers é o time de vôlei da cidade que todos dizem ser o orgulho do município. Realmente é bom, esta na liga A.

Muitas pessoas olharam abismadas para mim, como filha do ex-prefeito era conhecida por todos, assim como minhas recusas em sair de casa ou de namorar.

Procurei uma mesa vazia e ao fundo vi vários rapazes com o uniforme do time tomando cerveja. Foi ali que encontrei minha solução distribuída – muito bem, admito – em 2 metros de altura.

Notas finais
se gostou comente :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.