O jogo das velas
1 Medo
Era um grupo de seis amigos: Layla vivia num mundinho só dela, Kate sabia se divertir, Bonnie era a mais inteligente, Charlie o mais extrovertido de todos, David nunca ficava sem uma namorada e Peter era conhecido como O corajoso. Esses jovens eram amigos desde a infância. Eles sempre sonharam em viajar juntos para as ruínas de Detroit e, quando alcançaram os dezenove anos eles resolveram passar um fim de semana na casa de William Livingstone, na Brush Park.
Eles se instalam na sala de estar – ou o que restou dela – e Kate resolve deixar as coisas mais interessantes.
– Gente, eu acho que nós podemos fazer um joguinho para passar a nossa primeira noite aqui. Só para não ficarmos entediados.
– E o que você tem em mente? Eu não gosto muito das suas ideias, geralmente tem algo paranormal nelas. – reclama Layla.
– Só porque você acha que é sensitiva, não significa a gente não pode se divertir.
Todos concordam em jogar, fazendo Layla se render.
– Então explica como é esse seu jogo.
– Bom — ela abre uma mochila e começa a tirar coisas dali e entregar aos amigos -, eu andei pesquisando há alguns dias e li num livro que nós precisamos sentar em círculo, cada um com uma vela — ela dizia enquanto todos faziam o que era determinado — e damos a mãos e dizemos umas coisinhas.
[N/a: galera, não me responsabilizo por nada que acontecer a partir daqui. Não leiam as seguintes palavras em voz alta, vai que o capiroto aparece]
Kate abriu o livro e começou a falar:
In nomine dei nostri satanas luciferi excelsi!
Em nome de Satan, o soberano da Terra, o rei do mundo, eu comando as forças das trevas para conferir o seu poder infernal sobre mim!
Abram totalmente os portões do Inferno e venham adiante do abismo para me saudar como seu irmão e amigo!
Concedam-me as indulgências de que falo!
Eu aceitei o seu nome como parte de mim!
Eu vivo como o animal do campo, exultando na vida da matéria!
Eu favoreço o justo e amaldiçoo o corrupto!
Por todos os deuses do Inferno, eu ordeno que todas estas coisas de que falo venham a se realizar!
Venham adiante e respondam seus nomes pela manifestação dos meus desejos!
OH! ESCUTEM OS NOMES!
OH! ESCUTEM OS NOMES!
OS NOMES INFERNAIS
Abaddon Adramelech Ahpuch Ahriman Amon Apollyn Asmodeus Astaroth Azazel Baalberith Balaam Baphomet Bast Beelzebub Behemoth Beherit Bilé Chemosh Cimeries Coyote Dagon Damballa Demogorgon Diabolus Dracula Emma-O Euronymous Fenriz Gorgo Haborym Hecate Ishtar Kali Lilith Loki Mammon Mania Mantus Marduk Mastema Melek Taus Mephistopheles Metzli Mictian Midgard Milcom Moloch Mormo Naamah Nergal Nihasa Nija O-Yama Pan Pluto Preserpine Pwcca Rimmon Sabazios Sammael Samnu Sedit Sekhmet Set Shaitan Shamad Shiva Supay T’an-mo Tchort Tezcatlipoca Thamuz Thoth Tunrida Typhon YaotzinYen-lo-Wang
– Agora abrimos a porta da casa para que ele entre e quando o jogo começar, nós acendemos as velas. Elas não podem se apagar de forma alguma! O jogo vai durar até às cinco da manhã. Fechem todas as janelas para impedir correntes de ar.
– E o que acontece se a vela se apagar? – indaga David.
– Dizem que se a vela se apagar, a pessoa que a estava segurando morre da maneira que ela mais teme. Como eu estava dizendo, nós precisamos de um sensitivo, para receber as respostas do além.– diz Kate, arrancando risadas dos amigos, menos de Layla, que sabe que será “o alvo” — Então Layla, você tem que brincar, podemos começar?
Com medo, porém curiosa, Layla aceita jogar.
Sentados, em suas posições com todas as velas acesas, o jogo começa.
– Layla, é você que vai interpretar o que o nosso amiguinho espírito quer, ok?
– E eu tenho escolha? – Ela fecha os olhos com a cabeça baixa e quando volta a abri-los e olha para a frente, fica totalmente pálida, como se estivesse vendo um fantasma. — Bom, eu posso ver que cada um de vocês está acompanhado de um vulto. O que está ao meu lado diz que, para começar, cada um tem que dizer seu maior medo em voz alta.
– Até parece que você tá vendo alguma coisa, você deve estar brincando com a gente!
– Charlie, cala a boca e faz o que ela mandou! — repreende Peter – Bom, eu começo. Tenho medo de cobras. Bonnie, sua vez.
– Eu tenho medo de me afogar, eu não gosto de entrar na água. – ela olha para Charlie.
– Eu não gosto de cães, sempre acho que eles vão me atacar. — todos riem – Eu sei, é ridículo. De qualquer forma, é sua vez, David.
– Eu tenho medo de fogo, de morrer carbonizado. – ele diz aquilo encarando a chama da vela, segurando-a com cuidado — Kate.
– Eu tenho medo de ser sequestrada, é o que mais me assusta. Layla.
– Eu tenho medo de enlouquecer, de que as pessoas pensem que eu sou louca. – ela fecha os olhos para se concentrar. – O vulto está me dizendo que vocês podem perguntar o que quiser.
– Agora a brincadeira está ficando boa! Eu quero saber qual o nome da entidade que está falando com a Layla. – diz Peter.
– Ele disse que é mais conhecido como Medo.
– O que… Medo fazia quando era vivo?
– Ele gostava de assustar as pessoas e matá-las. – seus olhos se arregalavam e suas mãos tremiam mais a cada palavra — Ele sentia prazer em fazer isto.
Eles passam várias horas fazendo perguntas que eram respondidas através de Layla, que estava cada vez mais assustada. E então quando Charlie pede que os espíritos se mostrem para eles, não há resposta por muito tempo.
– Essa brincadeira está chata. Que horas são? – Bonnie está impaciente e os dedos doem.
– Quatro e cinquenta. – responde Logan, olhando o relógio. – Está com medo?
Após essa pergunta, a atmosfera fica tensa: a vela de Peter se apaga. Ele vai ao banheiro para pegar o isqueiro que havia ficado lá e assim que ele entra uma cobra pequena sai pelo ralo da pia do banheiro, sem que ninguém perceba e pica Peter no pé. Foi uma picada que teria passado despercebida, caso Peter não tivesse visto o animal. Ele começa a gritar, o veneno está fazendo efeito, pois ele está ficando tonto, quase não consegue se manter em pé.
– Ninguém, se mexe, vocês não podem ajudar, se as suas velas apagarem vocês também irão morrer – Todos olham para Layla. – É o que Medo está dizendo.
– Mas ele está morrendo! Tem sangue saindo da boca dele! Nós precisamos ajudar! – berra Charlie.
– Medo disse para não ajudarem, ele vai morrer e não há nada que possamos fazer. Agora vocês acreditam nele?
– Que horas são? Eu quero que isso acabe logo, nós precisamos ajudá-lo! – Kate está chorando.
– São quatro e cinquenta e cinco, já está acabando. – Logan tenta manter a calma.
O som de passos é ouvido pela casa, o ambiente fica frio repentinamente e as janelas do segundo andar começaram a bater. Três velas se apagam inexplicavelmente, como se uma súbita corrente de ar atingisse o aposento. As únicas velas acesas são as de Layla e Kate. As duas se abraçam, temendo que aconteça algo, fecham os olhos e começam a chorar.
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Conta-se que Bonnie foi encontrada às margens do rio Detroit, com os pulmões cheios d’água. Charlie foi encontrado morto no meio de uma avenida, coberto por mordidas de cão. A casa pegou fogo enquanto David estava lá dentro. Os restos de seu corpo foram encontrados e reconhecidos com muita dificuldade. Kate jamais fora encontrada. Ela foi vista pela última vez nos fundos de um posto de gasolina onde comprava cigarros, e dois homens encapuzados a levaram para dentro de um carro preto sem identificação. Layla não morreu, mas foi condenada a passar o resto de seus dias num manicômio, pois enlouqueceu completamente.
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