O jardim das flores
1 Pétalas
Era uma vez uma pobre idosa chamada Amélia que vivia numa casa em um lugar povoado. Na frente da casa havia um jardim de flores no qual cresciam Rosas, Tulipas e Margaridas. A senhora cuidava de seu quintal com muito cuidado e zelo, conversando com suas flores todos dias.
Amarela Margarida era delicada e detestava brincadeiras, principalmente aquelas do bem-me-quer, mal-me-quer em que suas folhas eram retiradas por apaixonados que apareciam passeando por ali. Vermelha Rosa também não gostava de pessoas apaixonadas, porque já havia ouvido boatos que sua espécie era retirada do solo para dar de presente, morrendo em poucos dias. Já Roxa Tulipa não se importava com nada, gostava mesmo de uma boa conversa.
Uma noite, quando elas estavam juntas dormindo calmamente, escutaram um barulho.
— Vejam tem um senhor na frente da janela com um violão e ele está cantando uma serenata de amor! — Exclamou Margarida.
— Oh não! Um pretendente! — Completou a Rosa.
— Que bom para a nossa vovó, ela ficou sozinha por muito tempo desde da perda do falecido marido – respondeu a Tulipa querendo voltar a dormir.
– Bom que nada! Isso é péssimo! Sabe o que significa? Que vamos morrer – desesperou-se Margarida.
— Eu sempre soube que um dia isso ia acontecer... – falou Rosa – Pena que não sou de plástico...
Então o senhor se aproximou, e ambas se mortificaram pouco a pouco com medo do fim.
— Que flores feias! – comentou o homem, retirando a Tulipa da terra para o terror de suas amigas – Essa fica boa pra ornamento.
Ao ver a cena Amélia que o observava da janela entrou para dentro da casa e voltou com balde de água fria, jogando a água em sua direção. O homenzinho estremeceu ao ser molhado e mordeu os lábios não entendendo o que estava acontecendo. A mulher o xingou e o amaldiçoou, enquanto chorava.
— Querida, mas é para você! – tentou se explicar – Ela vai ficar melhor enfeitando seu lar, do que aqui do lado de fora. Eu te amo!
— E eu amo minhas flores! – retrucou a idosa o expulsando para longe.
Alguns dias mais tarde, uma nova muda foi plantada ao lado de Rosa e Margarida, junto com uma plaquinha com a mensagem de nunca e em hipótese nenhuma mexer nas flores, mas isso não dava a sensação de mais segurança para quem habitava o jardim.
Amarela Margarida e Vermelha Rosa estavam traumatizadas desde o episódio e com isso tinham perdido suas cores gerando preocupação a idosa, que as regava todas manhãs, na mesma hora, não sendo diferente no dia de hoje.
— O que aconteceu com vocês? – indagou Amélia, chegando perto com o regador – Estão tristes? O que posso fazer por vocês?
As flores reagiram, balançando o que podiam, assustando um pouco a senhora, que depois do susto atribuiu o movimento delas ao vento.
— Nós vamos encontrar uma solução, eu vou chamar alguém para nos ajudar.
Em seguida ela pegou o celular ligando para um número muito conhecido, e, após esperar um tempo, finalmente abriu um largo sorriso quando o Jardineiro chegou montado em uma bicicleta azul antiga, aro 26, como em um passe de mágica. O senhor de oitenta anos acenou com a cabeça para Amélia, tirando o chapéu, indo imediatamente em direção a Rosa, Margarida e a nova tulipa.
— Digam-me o que sentem – falou o Homem.
— Estamos com medo – responderam ambas em sincronicidade.
— O que elas disseram? – perguntou a senhora, se aproximando do jardineiro.
— Elas estão com muito medo da morte, algo natural para as flores que geralmente tem uma vida tão curta.
— Fale para elas, por favor, que a tulipa foi feliz apesar de falecer tão jovem.
O Senhor ouviu o pedido e logo passou as palavras as flores, acrescentando que a vida de todos ali era curta e que ele também em um dia próximo partiria.
— Para onde se vai quando parte? – perguntou Vermelha Rosa.
— Eu não sei – respondeu o velhinho – Dizem que alguns vão para um lugar muito bonito e alguns para um lugar muito feio, mas não sei exatamente a onde e como é.
— A Tulipa foi pra qual lugar? – questionaram.
— Tenho certeza que agora ela faz parte do lugar bonito, ela teve uma vida radiante.
— E nós... para qual dos dois lugares iremos?
— Irão se juntar a ela, mas peço que fiquem mais um pouco conosco. Nós gostamos muito da companhia de ambas.
— Vamos ficar mais um tempo pouco então... – garantiu Amarela Margarida – Pelo menos nessa primavera.
O homem então agradeceu e explicou para Amélia tudo, que o convidou para tomar um chá em sua casa; a partir daquele dia, repetidamente, estreitando os laços entre os dois; virando algo maior até o final de suas vidas.
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