As flores crescem sob o sol posto,

neste jardim que eu com tanto cuidado criei,

e eu sento-me num banco de madeira a contemplar os sonhos.

Lembro-me de quando falava as primeiras palavras e dava os primeiros sinais de vaidade.

Vestia roupas espampanantes e fingia-me eu!

E o quanto eu ria brincando com os outros,

sendo os outros, vivendo os outros,

e partilhando com eles a brincadeira que tomava por crescimento!

Quanto recordo essas faces rubras,

desenvoltas,

livres,

cavalgando sobre o vento sem pai nem mãe.

Mas possuidor de pai e mãe.

E eles estão cá,

no jardim.

Vieram visitar-me.

Vieram contar-me as histórias que me contavam enquanto criança,

à meia-noite.

Vieram cantar-me as canções que eu próprio lhes gritava aos ouvidos

na época de Natal.

Vieram dar-me as prendas que nunca me deram e que fiquei ressentido por não receber

(nunca por muito tempo).

Vieram abraçar-me,

vieram-me beijar,

e o quanto eu me recordo de fazer o mesmo a eles!

De me aproximar,

de os beijar,

de os abraçar...

E ser-me eu.

E eles serem-me a mim.

Lembro que na ida para a escola, a primeira,

não tive medo,

e era um rebelde.

Mas a minha mãe nunca o saberia

porque eu me esconderia bem.

E ainda escondo.

E minto quando a verdade parece farta.

Mas a vida é mais que mentiras

e eles ensinaram-me isso.

E ensinaram-me tanto mais,

ensinaram-me tudo!

Ensinaram-me a ser quem sou,

com as responsabilidades que tenho,

com os direitos que reclamo.

Ensinaram-me a fazer-me como sou,

pelas mãos que tenho

e por aqueles que amo.

E muitos amei, apesar de não admitir.

E todos eles me vêm visitar,

agora,

no jardim,

enquanto estou velho.

Vejo o melhor amigo que me falava do quanto amava os seus animais,

e eu amava-o a ele por isso,

por entre teatros e fantochadas.

Vejo o estrangeiro que me tomou o coração pela simplicidade,

que amava a sua pátria e eu o amava a ele,

por ser diferente e bom naquilo que era.

Vejo o amigo que me carregou aos ombros,

que me ensinou a olhar-me e me ensinou a olhar os outros,

que eu amo por ser ele e ele se ama por isso.

Vejo o professor e vejo a professora.

Juntos mudaram-me a vida em diferentes épocas, não sabendo bem como.

Amo-os a eles tanto quanto depositavam amor nos seus ensinamentos.

Vejo o irmão

que fui eu quando eu não pude,

que foi tudo quando eu nada pude,

que foi uma vida mais valiosa que a própria vida.

E sempre será.

Porque eu o amo a ele, e espero que ele me ame a mim.

E no fim,

vejo-a a ela.

Sob mantos negros ou mantos brancos,

véus de pérolas ou diamantes,

vejo-a,

tal como a recordo.

Não deturpada.

Não suja.

Não mais me tapando os olhos.

Vejo-a

e ela vê-me a mim.

A primeira vez em muito tempo que nos mostramos um ao outro.

Só dói que ela tenha escolhido esta época em que,

cansado e velho,

espero a morte aqui no meu jardim.

As lágrimas caem dos olhos

porque eu ainda a amo a ela,

e só queria que ela me amasse a mim.

Agarro-me a esse sentimento,

não me conseguindo imaginar não existindo,

não me conseguindo conjeturar enquanto morto,

não me conseguindo esquecer sem dor.

Afogo-me nessas últimas mágoas que são a tristeza

e a cólera,

e projeto-as no céu que antes nunca esteve tão azul.

Choro. E rio.

E eles aproximam-se.

Agora todos,

todos os que vieram.

Dão as mãos e aproximam-se em meu redor,

em redor do banco em que me sento no meu jardim.

Aqui,

no meu jardim.

Onde choro o passado por não ter sido mais vivido

e onde choro o futuro por este nunca ter existido.

E mais choro.

Choro porque os amava.

Choro porque sempre vou amar.

E choro porque não acredito que me amem a mim

(hipócrita que nunca revelou seus sentimentos).

Mas eles aproximam-se e eles me tocam.

Sinto cada um dos seus dedos no meu cérebro,

cada uma das suas palpações no coração.

E dão-me um beijo,

cada um deles onde acha mais correto,

unindo lágrimas suas com as minhas.

Eles choram.

Não porque lhes pedi.

Não porque lhes menti.

Não porque lhes fui irrelevante.

Mas porque me amam.

E eu os amo a eles...

E o batimento pára.

A respiração cessa.

E algo termina.

Mas esse algo termina com todos se aproximando,

com todos batendo asas num último abraço.

Longe da terra,

sempre presente no coração.

A alma.

Puxam-na para si,

tomam-na como sua

e deixam-me viver mais uma vez,

neles.

Porque eu morri feliz.

Porque eu os amei

e agora

sei que me amam de volta

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!