O jardim
1 o jardim
As flores crescem sob o sol posto,
neste jardim que eu com tanto cuidado criei,e eu sento-me num banco de madeira a contemplar os sonhos.Lembro-me de quando falava as primeiras palavras e dava os primeiros sinais de vaidade.Vestia roupas espampanantes e fingia-me eu!E o quanto eu ria brincando com os outros,sendo os outros, vivendo os outros,e partilhando com eles a brincadeira que tomava por crescimento!Quanto recordo essas faces rubras,desenvoltas,livres,cavalgando sobre o vento sem pai nem mãe.Mas possuidor de pai e mãe.E eles estão cá, no jardim.Vieram visitar-me. Vieram contar-me as histórias que me contavam enquanto criança,à meia-noite.Vieram cantar-me as canções que eu próprio lhes gritava aos ouvidosna época de Natal.Vieram dar-me as prendas que nunca me deram e que fiquei ressentido por não receber(nunca por muito tempo).Vieram abraçar-me,vieram-me beijar,e o quanto eu me recordo de fazer o mesmo a eles!De me aproximar,de os beijar,de os abraçar...E ser-me eu.E eles serem-me a mim.Lembro que na ida para a escola, a primeira,não tive medo,e era um rebelde.Mas a minha mãe nunca o saberiaporque eu me esconderia bem.E ainda escondo.E minto quando a verdade parece farta.Mas a vida é mais que mentirase eles ensinaram-me isso.E ensinaram-me tanto mais,ensinaram-me tudo!Ensinaram-me a ser quem sou,com as responsabilidades que tenho,com os direitos que reclamo.Ensinaram-me a fazer-me como sou,pelas mãos que tenhoe por aqueles que amo.E muitos amei, apesar de não admitir.E todos eles me vêm visitar,agora,no jardim,enquanto estou velho.Vejo o melhor amigo que me falava do quanto amava os seus animais,e eu amava-o a ele por isso,por entre teatros e fantochadas.Vejo o estrangeiro que me tomou o coração pela simplicidade,que amava a sua pátria e eu o amava a ele,por ser diferente e bom naquilo que era.Vejo o amigo que me carregou aos ombros,que me ensinou a olhar-me e me ensinou a olhar os outros,que eu amo por ser ele e ele se ama por isso.Vejo o professor e vejo a professora.Juntos mudaram-me a vida em diferentes épocas, não sabendo bem como.Amo-os a eles tanto quanto depositavam amor nos seus ensinamentos.Vejo o irmãoque fui eu quando eu não pude,que foi tudo quando eu nada pude,que foi uma vida mais valiosa que a própria vida.E sempre será.Porque eu o amo a ele, e espero que ele me ame a mim.E no fim,vejo-a a ela.Sob mantos negros ou mantos brancos,véus de pérolas ou diamantes,vejo-a,tal como a recordo.Não deturpada.Não suja.Não mais me tapando os olhos.Vejo-ae ela vê-me a mim.A primeira vez em muito tempo que nos mostramos um ao outro.Só dói que ela tenha escolhido esta época em que,cansado e velho,espero a morte aqui no meu jardim.As lágrimas caem dos olhosporque eu ainda a amo a ela, e só queria que ela me amasse a mim.Agarro-me a esse sentimento,não me conseguindo imaginar não existindo,não me conseguindo conjeturar enquanto morto,não me conseguindo esquecer sem dor.Afogo-me nessas últimas mágoas que são a tristezae a cólera,e projeto-as no céu que antes nunca esteve tão azul.Choro. E rio.E eles aproximam-se.Agora todos,todos os que vieram.Dão as mãos e aproximam-se em meu redor,em redor do banco em que me sento no meu jardim.Aqui,no meu jardim.Onde choro o passado por não ter sido mais vividoe onde choro o futuro por este nunca ter existido.E mais choro.Choro porque os amava.Choro porque sempre vou amar.E choro porque não acredito que me amem a mim(hipócrita que nunca revelou seus sentimentos).Mas eles aproximam-se e eles me tocam.Sinto cada um dos seus dedos no meu cérebro,cada uma das suas palpações no coração.E dão-me um beijo,cada um deles onde acha mais correto,unindo lágrimas suas com as minhas.Eles choram.Não porque lhes pedi.Não porque lhes menti.Não porque lhes fui irrelevante.Mas porque me amam.E eu os amo a eles...E o batimento pára.A respiração cessa.E algo termina.Mas esse algo termina com todos se aproximando,com todos batendo asas num último abraço.Longe da terra,sempre presente no coração.A alma. Puxam-na para si,tomam-na como suae deixam-me viver mais uma vez,neles.Porque eu morri feliz.Porque eu os amei e agorasei que me amam de volta
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