O inferno, em meu sonho
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O INFERNO, EM MEU SONHO
Não lembro de ter aceitado o dinheiro da minha avó, nem de ter mudado o trajeto do trabalho, muito menos de ter encontrado com um rapaz. E, apesar de não ter visto o tiro me acertando, me lembro, sim, do ruído da bala lançando-se contra o meu rosto. Esse som ecoou durante um instante infinito, no qual eu me senti leve, bem, feliz. Porém, essa contemplação acabou tão logo percebi a inevitabilidade da minha morte. Implorando para algo ou alguém me permitir mais uma chance. Senti, como se não fosse nada, a existência estremecer e eu cair.
Despenquei em algum quarto obscuro e sujo, o qual fedia desesperança. No meio dele, havia um buraco preenchido com um líquido – cinza, pegajoso, sem fundo. E, escondida no canto direito, havia uma televisão de tubo, presa na parede por um suporte. O aparelho mostrava a imagem encarcerada de um homem – com barba longa e olhos pintados de sangue. A sua voz melodiosa ressoava os crimes cometidos pelos visitantes, nesse dia havia um menino e uma mulher.
Numa sequência viciante, esse casal escutava exaustivamente os seus próprios horrores, por nenhum outro motivo senão por crueldade – uma descomplicada, bem repugnante e muito convidativa crueldade. Entretanto, sabia que os visitando não tinham chegado ali juntas, pois antes de tudo enxerguei o menino sentado no chão ladrilhado e imundo do quarto. Ele suava e chorava e se balançava, gritando um som inaudível. Somente depois, a mulher submergiu da água cinzenta. Eu, como nunca havia visto uma mulher-cadáver, fiquei curiosa e fui encará-la. Ao me aproximar o suficiente, pensei “Coitada, acabou de morrer”, e no segundo seguinte reparei ser o meu reflexo nela.
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