O inaudível
1 I
Notas iniciais
O Inaudível
–Queres vir a possuir o que avalias como ornamento máximo da vida, mas qual poltrão viver em tua estima, deixando que um “Não ouso” vá ao rastro de um “Desejara”, como o pobre gato to qual fala o provérbio?
Se eu ainda possuísse algum fôlego, eu o teria prendido. Era hipnotizante assisti-la, ainda mais de tão perto. Tão perto que bastaria dois ou três passos e estender o braço para poder tocar em seus cabelos dourados presos em um coque elaborado. Isso só me fez apertar ainda mais meu grosso portfólio preto contra meu peito.
Eu já podia imaginá-la vestindo o vestido azul anil cintilante ao qual Félikis dedicava quase tempo integral em nosso apartamento – em minha imaginação, ele continha uma luxuriosa cauda de pavão, que se arrastava quando ela andava. Seu cabelo loiro claro escorria em suas costas naquele momento, mas se eu fechasse os olhos e pensasse que já era dia da estreia, ele estava em um coque elaborado.
A iluminação e a mescla entre minha imaginação e a realidade apenas parecia tornar sua face ainda mais perfeita e inalcançável. O andar altivo, a fala confiante, o olhar intenso... Ela não estava interpretando Lady Macbeth. Ela era Lady Macbeth naquele momento, e eu duvidava que qualquer um, mesmo o Sr. Bonnefoy e todas as suas críticas e exigências, poderiam colocar qualquer defeito nela. A estreia seria em uma semana, mas Natalya já estava pronta desde o momento que proferira a primeira fala durante a primeira leitura do texto.
Poderiam repetir centenas e centenas de vezes que ela era uma mulher frívola, – Carlos, por exemplo, reviraria seus olhos e resmungaria com seu forte sotaque que eu aprendera o quão ela poderia ser dura em primeira mão, mas continuava idolatrando-a como um perfeito idiota – mas, ao vê-la atuando, eu compreendia que isso era impossível, não do jeito com que ela transmitia tão apaixonadamente as falas de Shakespeare para o público. Foi isso que me atraiu em Natalya, em primeiro lugar: a paixão franca pelo que fazia.
O meu velho avô lituano me disse uma vez que a pior coisa que podia acontecer a um homem era se apaixonar por uma mulher consciente de seu magnetismo e beleza. Pode-se dizer, enquanto eu suspiro atrás das coxias negras, que eu não dei a devida atenção a suas experientes palavras ao me apaixonar pela Primadonna da Companhia.
– Psst. Toris... Toris.
Um sussurro macio e tímido fez com que meus devaneios desaparecessem como a névoa da máquina de fumaça ao meu lado. Com o susto, me virei para o aparelho. Será que eu me descuidei como naquele outro ensaio e acabei ativando a fumaça no momento errado?
–Eu vou perder o meu emprego, eu vou para o olho da rua, o Sr. Kirkland vai usar meus olhos como saquinhos de chá...
–Toris... Está na hora de trocarmos de lugar. Er... Se você não se importar, claro.
O toque incerto de mãos delicadas em pontos específicos e sensíveis de minhas costas me livrou da paranoia. A máquina de fumaça estava desligada, como deveria estar. Relaxei minha postura e me virei para meu interlocutor com um sorriso desconcertado, enquanto coçava minha nuca atrapalhadamente com minha mão livre.
– Desculpe, Matthew, eu não percebi que você estava aí. Obrigado pelo lembrete!
O homem de cabelos loiros claros sorriu docemente para mim, mais com os olhos por trás de seus óculos de armação fina do que com os lábios. Mergulhei na escuridão, mas fui impedido de continuar andando pelo braço alvo e rechonchudo de meu colega.
– Você se esqueceu de me entregar o texto. – ele inquiriu, com um tom divertido. Não era segredo para nenhum dos meus colegas que pensar em Natalya me deixava estranhamente aéreo. Eu deveria ter aprendido na primeira vez, quando...
Balancei a cabeça, afastando os pensamentos ruins e procurando me concentrar em minha tarefa. Transferi o portfólio grosso e pesado, mas não antes de dizer:
– Você fala como se realmente precisasse disso para saber todas as falas! Você estava com o texto na ponta da língua mesmo antes do primeiro ensaio!
Mesmo estando escuro, eu podia imaginar as bochechas redondas e pálidas de Matthew adquirindo um tom róseo; conhecia-o por tempo suficiente para saber que ele era o tipo de pessoa modesta que nunca aceitava qualquer tipo de elogio inafetadamente.
Modéstia a parte ou não, era inegável o fato de que ele decorava as falas e as rubricas naturalmente, como se ele próprio tivesse escrito a peça. Poderiam argumentar que ele era um amante de Shakespere, mas ele fez exatamente o mesmo com Mòliere e Christopher Marlowe. Era um talento.
– São os ossos do ofício. Bem... Ravis está um pouco... ehh.... Então, só para confirmar, vocês entram em duas falas.
Com passos ágeis e silenciosos me espremi no pequeno espaço entre a rotunda e o muro de segurança – um tropeço e eu poderia me estatelar na oficina de cenários que se encontrava abaixo do palco, podendo quebrar as duas pernas ou pior – e em segundos, estava do outro lado do palco. Esperando por mim, estava Ravis. Como de praxe, o rapazote magricelo e baixinho dos cabelos dourados encaracolados estava tremendo de nervosismo, como se fosse a vez dele entrar no palco. E era, de certa forma.
As últimas palavras da cena foram proferidas, e a escuridão que se seguiu era a nossa deixa.Como duas sombras invisíveis, saímos rapidamente de trás das coxias, os panos negros que nos protegiam das vistas da plateia. Por estarmos literalmente na reta final para a grande estreia do espetáculo que ensaiamos por meses afinco, nós já ensaiávamos com todos os objetos cenográficos. Ensaiaríamos com os figurinos prontos também, se não fosse o grande perfeccionismo de Félikis, nosso figurinista e meu “colega de apartamento”. Primeiramente, levantamos conjuntamente uma pequena – mas mais pesada do que aparentava – cama, levando-a novamente para os bastidores. Arrastamos com delicadeza uma pequena imitação de fonte para o local demarcado com um “x”. Em seguida, deveríamos espalhar alguns vasos de plantas pelo espaço, criando a impressão de que os personagens agora se encontravam em um delicado pátio no castelo.
O roque-roque das cordas descendo um novo cenário me fez olhar para cima, para Carlos,seus dreads e suas pesadas mãos desenrolando a corda. Seu rosto retorcia-se não de dor, mas de abstinência de seus fedorentos charutos. Senti um sufocante aperto no peito, minhas mãos trincaram, meus lábios tremeram e por um segundo, não havia mais nada no mundo, senão eu e aquelas escadas metálicas que nos levavam até o teto acima do palco e suas inúmeras cordas e roldanas rangentes.
Foram os inconfundíveis passos pesados de Sadik que davam tanta dor de cabeça ao Sr. Kirkland que me despertaram daquele pesadelo letárgico. E bem a tempo, visto que uma trêmula luz branca começava a despontar de um dos holofotes acima de mim.
Para um contrarregra, ver a luz é um péssimo sinal. É o sinal de que você está no lugar errado, na hora errada. Segundo o Sr. Kirkland, nosso diretor e dono do Teatro da Ribalta, é uma forma de estragar a experiência teatral da plateia, que certamente não pagou pelo assento para assistir um bando de palermas com problemas de pontualidade arrastando a droga desses móveis, estragando todo o meu trabalho para fazer o idiota do Antonio decorar as falas!
Por mais que eu detestasse dar voz a Gilbert, um velho amigo do Sr. Kirkland e o indivíduo mais desprezivelmente egocêntrico e infuriante que tive o desprazer de cruzar o caminho, ele tinha razão a respeito de nós, os contrarregras. Nós éramos como ratos: correndo de um lado para o outro no escuro, temendo a luz; espremendo-nos em espaços claustrofóbicos a todo instante e evitando qualquer barulho para não sermos descobertos. Éramos invisíveis e inaudíveis; nossa existência deveria ser ignorada pela plateia.
Mal retornamos para a negritude habitual das coxias e a luz dos holofotes já estava acionada, brilhando acima dos atores devidamente posicionados.
– Hoje foi por pouco! – sussurrei para Ravis. – Espero que o Sr. Kirkland não tenha visto nada lá da sala de sonoplastia!
Não obtive resposta alguma, no entanto. Meu colega apenas assentiu cabisbaixo e sentou-se no chão de madeira, apático.
– Você quer conversar sobre alguma coisa depois? Talvez no bar do Mathias, com o Eduard?
Ele balançou a cabeça, negando. Sua recusa foi algo estranho, ainda mais se tratando de um assunto: bebida. Ele poderia parecer um rapazote recém-saído da puberdade, mas se ninguém o contivesse, ele seria capaz de consumir um bar inteiro em minutos.
Ravis e eu éramos bons amigos e nos juntamos à companhia na mesma época. Por isso, deveria ter insistido e perguntado o que havia de errado. Mas no meio tempo em que me perdi examinando meu colega, Natalya entrou em cena novamente, e nada mais importava.
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Estava exausto.
Pela manhã, atuei como faz tudo na velha casa quebrada de meu vizinho Ivan, carregando móveis para lá e para cá, trocando lâmpadas e janelas quebradas e encerando o chão. Desde que os tempos áureos da Companhia do Rei se findaram, eu trabalhava fazendo alguns bicos pela vizinhança. Estávamos no tempo das vacas magras. Mas nenhum dos espectadores poderia afirmá-lo com certeza, não com aquela fachada pomposa de pedra. Observando todas as cortinas vermelhas aveludadas limpas, os carpetes impecáveis, os assentos com o estofado verde escuro quase novo e os detalhes dourados reluzindo acima do palco, alguém de fora se encantaria com aquele lugar magnífico. Até hoje eu me maravilhava com a magia do local. Mas ao contrário dos espectadores, eu sabia o que estava acontecendo.
Nos seus primeiros anos como herdeiro do teatro da avó e diretor da Companhia do Rei, Arthur Kirkland foi uma estrela em ascensão, sua reputação dia após dia se espalhando por toda Europa. Eu me lembro da fila que enfrentei para pedir o emprego – talvez se não fosse a ajuda de dentro que consegui de Félikis, anda estaria limpando latrinas no exército. Mas o caso é: de uns tempos para cá, ainda mais com a economia difícil como esta, menos pessoas passaram a assistir peças de teatro. A dramaturgia aos poucos foi sendo substituída pelo cinema, com suas falas simples e rápidas e seus barulhentos efeitos especiais. Purista, o Sr. Kirkland não se reinventou, e como resultado, foi considerado obsoleto. Todos nós sofremos com o resultado da decadência repentina.
Mas o caso é que eu havia passado a manhã toda fazendo o trabalho pesado para meu vizinho e a tarde toda ajudando nos ensaios. Tudo que eu queria era ir para casa, tomar um banho quente – ou não tão quente, dependendo do humor do meu chuveiro – e me enfiar debaixo dos edredons. Entretanto, fim do ensaio não significava o fim do nosso dia de trabalho.
Eu não era o único cansado. Sentados na plateia, alguns atores bebericavam café de cinco em cinco minutos, outros se espreguiçavam e bocejavam. Heracles, por exemplo, já havia adormecido e recaído sobre os ombros de um visivelmente incomodado Roderich. As únicas pessoas que pareciam medianamente dispostas eram Emma Anri, a maquiadora belga – que ao me ver descendo pelas escadas laterais do palco, acenou para mim, indicando que já tinha reservado assentos para que todos os contrarregras permanecessem juntos – e Sr. Kirkland, o único que se encontrava sentado em uma cadeira localizada no palco, com as pernas cruzadas e um jornal dobrado no colo. O diretor batia a perna que estava no chão em uma cadência cada vez mais rápida, sua face claramente incomodada.
Tomei o assento entre Eduard – o sonoplasta e iluminador do teatro – e Ravis, que continuava tremendo. Eduard empurrou a ponte dos óculos com um dedo só, como sempre fazia e me encarou, indagando o porquê do estado de nosso colega com seus olhos azuis escuros. Dei de ombros e ele pareceu aceitar o gesto como resposta.
O Sr. Kirkland se levantou da cadeira, pousando o jornal no assento. Bateu algumas palminhas, buscando encerrar a conversa paralela.
– Bom, acho que todos já estão aqui. Fiquem calados, seus palermas! Me escutem, droga! Vamos agir como pessoas civilizadas, não como um bando de hienas brigando pela carniça! Eu quero voltar para casa e assistir a uma boa e velha reprise de Downtown Abbey, como todos vocês. – sua voz era autoritária e ácida; o sotaque britânico apenas o conferia uma maior rigidez, que era acentuada pelas sobrancelhas grossas e negras que contrastavam com os indomáveis cabelos cor de areia.
– Vai sonhando. Programa de gente velha. – rosnou Sadik, revirando os olhos.
– Eu ouvi isso, seu imbecil! Por que você não pega um kebab e vai... – retrucou o diretor, sua voz alcançando notas inacreditavelmente altas que fizeram com que eu me encolhesse na cadeira. Emma riu melodiosamente, e isso pareceu fazer com que o inglês se acalmasse.
– Sei que todos aguardam ansiosamente pelo descanso do dia. Mas não que ele seja merecido, não depois da performance odiosa realizada por vocês! Será que vocês não percebem que esta é a última semana de ensaios antes da estreia da maldita temporada de... ahem, da peça escocesa! Céus, que vergonha seu tropeço, Vladmir! E Elizaveta, por que diabos você apareceu em cena como lady Macduff ainda com a barba de bruxa? E não, não pense que eu me esqueci de você, Toris Laurinatis! Lá da sala de som eu consegui ter um vislumbre das suas malditas pernas durante a troca de cenário! E, aliás, já que você parece ser a droga da única pessoa no mundo capaz de conversar por quinze minutos com o Félikis sem ficar com uma terrível dor de cabeça, você deveria pedir para aquele preguiçoso se adiantar para a prova dos figurinos!
“O som, Eduard, estava péssimo, distorcido. Mas péssimo mesmo é o volume da entonação de suas falas Michelle! Pare de falar para dentro! E Antonio... Onde diabos está aquele comedor de churros imprestável?”
Encolhido em meu assento, me virei para procurar a figura morena e esguia de nosso Macbeth. O burburinho recomeçou; ele não estava em lugar nenhum.
Antonio era uma pessoa engraçada e amável de se ter ao redor... Mas era preguiçoso e um pouco caprichoso, exigindo centenas de coisas fúteis para seu camarim – miniaturas de tomates, para citar – e faltando vários ensaios sem fim.
– Arthur... Digo, Sr. Kirkland. – Emma Anri levantou-se num sobressalto, os olhos verdes brilhando de culpa. – Como vo... o senhor me instruiu, pedi para que o Berwald não deixasse ninguém escapar do teatro antes do feedback da noite, mas o Antonio já havia saído. Peço mil, mil desculpas!
– Emma, por favor, sente-se. – ele suspirou, mas não foi o suspiro cansado ou de desdém que normalmente ele geralmente dispensava aos empregados. – Já que Antonio não quis nos dar o prazer de sua companhia, não faz sentido que eu continue as críticas. Quero discutir certos pontos na presença de todos, e é irritante ter que me repetir. Espero vocês amanhã, pontualmente,Heracles.
Imediatamente os atores começaram a deixar o teatro. Mas ainda não era o fim do nosso dia.
– Para variar, nenhum dos almofadinhas vai nos ajudar a limpar a bagunça. – Carlos resmungou em seu forte sotaque cubano. Levantou-se da cadeira acolchoada e pegou nas mãos delicadas de Matthew. – Não era exatamente como eu planejava passar nossa noite, mas parece que o mais romântico que vamos conseguir é a companhia das piaçavas, varrendo poeira a luz da lua.
O loiro deu um tapinha carinhoso no braço musculoso do namorado.
– Não seja assim tão dramático!
– To-toris. – a figura trêmula de Ravis invadiu meu campo de visão. – Você pode trocar de lugar comigo, limpando os bastidores? Eu... Eu realmente pre-preciso... conversar com o Sr. Kirkland, e não sei se ele vai sair do teatro hoje, então...
Ele se calou, subitamente. Esperei que ele continuasse, mas ele foi diretamente acompanhar o casal de contrarregras, sem sequer ouvir minha resposta. Com um suspiro cansado, concordei. Libertei meus cabelos castanhos ressecados do rabo de cavalo frouxo e fui até o fosso, onde uma porta de madeira camuflada na base do palco me guiaria até os bastidores.
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O trabalho nos bastidores estava quase todo feito. Se não estivesse silencioso demais, poderia até imaginar que o desprezível Gilbert teria vindo hoje – era natural para o albino, usar como desculpa a necessidade de prestigiar o trabalho do amigo só para meter o focinho onde não era chamado, criticando cada passo que dávamos e rearrumando meticulosamente todos os textos, cenários e araras de roupa. Entretanto, ao invés de uma voz estridente como a de uma gralha, a única coisa que eu podia ouvir era o cantarolar baixinho de Emma, na direção dos camarins.
Perpassando pelos corredores, logo topei com a minha colega, que estava sentada em um banquinho em território proibido, terminando de arrumar uma enorme maleta de maquiagens. Ela encontrou meus olhos no espelho e abriu um sorriso convidativo.
O território proibido era o camarim de Natalya, é claro. Mas não eram as madeixas loiro platinadas e os olhos azuis impenetráveis da atriz que me encaravam no espelho. Eram os cabelos castanho-dourados e os olhos verdes maternais de Emma Anri.
– Eu não mordo, Toris! – ela sorriu, terminado de trancar a maleta, já com alguns lenços em mão prestes a limpar a bancada. – Você poderia esvaziar a lixeiras, por favor? Bem que eu e Ravis vivemos na necessidade de um braço forte para nos ajudar a carregar o latão!
Sorri de volta. E fiz o percurso por todos os camarins, recolhendo desde papeis de bala até garrafas inteiras de vinho para depositar no grande – e mais pesado do que eu me lembrava – latão que deixaríamos do lado de fora para a coleta seletiva.
– Quem diria que produzimos tanto lixo. Ugh... – minhas costas pareceram ceder por um minuto, o que fez com que a loira se levantasse imediatamente e fosse me ajudar a colocar o latão no chão.
Aquilo fez com que eu me sentisse desnecessário. Eu sabia que um dos grandes motivos que levaram o Sr. Kirkland a me contratar era os meus músculos, definidos por um longo ano no exército. No primeiro ano que trabalhei na Companhia, eu e Carlos éramos encarregados de levantar peso, carregar móveis e cenários, subir e descer cordas... Até o grande acidente, claro. Depois disso, jamais subira novamente até o teto do teatro para desenrolar e enrolar roldanas.
– Toris, eu sinto muito, muitíssimo mesmo, eu sempre me esqueço das suas costas! Elas já estão melhores?
Olhei para o alto, evitando o assunto. Eu sabia que talvez jamais fosse o mesmo depois de todos aqueles cortes e do tombo que levei.
– Às vezes eu gostaria de não sentir o que sinto pela Natalya. Eu sei mais do que ninguém que minha paixonite causou muito estrago, e que todos estão cheios disso, mas...
– O Carlos adora provocar todo mundo, e você sabe disso. Quanto a mim, pelo contrário; acho que até é saudável, manter uma paixão platônica. – Ela deu uma risadinha e pegou a maleta de maquiagem e apagou as luzes, imergindo-nos na escuridão. – Entretanto, só acho que você tem que encarar tudo isso de cabeça erguida, ao invés de procurar por migalhas de afeição onde nunca vai encontrar.
Ela me ajudou a levantar o peso e andamos em conjunto até a porta que nos levaria ao fosso do teatro, para perto novamente de nossos colegas de trabalho. Antes de abrir a porta, ela hesitou e completou seu raciocino, baixinho:
– É o que eu faço, pelo menos.
Ao sairmos do fosso e nos deslocarmos até a plateia, encontramos os contrarregras restantes reunidos ao redor de um ponto no carpete. Emma soltou uma exclamação ao ver o que se passava, derrubando tanto a mim quanto a lata.
Me levantei devagar, ainda me recuperando do tombo, para finalmente perceber o Sr. Kirkland sentado de forma estirada e decomposta no carpete vermelho, em profundo estado de choque.
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Berwald e Carlos ajudaram a transportar o Sr. Kirkland para fora da área de espetáculos, deitando-o em um divã cor de pêssego no foyer do teatro, o local onde os espectadores esperavam até a plateia ser aberta. Era um salão largo próximo as bilheterias, repleto de divãs vindos de antiquários e imitações de estátuas de mármore gregas. Lá perto também jazia o esqueleto abandonado de uma bonbonière, que costumava funcionar quando ainda tínhamos um grande público.
– Não acredito que aquele pequeno idiota teve a coragem de fazer isso! Sem nenhuma carta, sem nenhum aviso prévio. Ugh! Estou cercado por idiotas. Idiotas! Menos você Emma. – o Sr. Kirkland deu mais uma bebericada na xícara em suas mãos. – Muito obrigado pelo chá, querida.
Carlos resmungou. Matthew fungou. Emma ensaiou um sorriso amarelo. Eduard empurrou os óculos pela ponte do nariz. Berwald não esboçou emoção alguma, como de praxe.
E eu estava em profundo estado de choque por Ravis ter pedido sua demissão tão subitamente, sem avisar ninguém. Nem sequer a mim, que passei as últimas horas no teatro com ele!
– Será um caos! Definitivamente um caos! A ordem foi perturbada... Eu mantive o mínimo de empregados suficiente para manter o teatro funcionando! Sem uma peça, a engrenagem não pode girar adequadamente!
Arthur Kirkland levantou a cabeça, mas seu olhar era completamente derrotado.
–Eu tentei... tentei esconder o fato de que estou mais quebrado do que Down Jones em 29...
–Conte alguma coisa que a gente não saiba, chefe. – Carlos retrucou, grosseiramente. Matthew bateu carinhosamente a mão na boca do namorado, procurando repreendê-lo, mas já era tarde demais.
O diretor mediu-nos com os olhos, um a um. Por um segundo, eu pude perceber uma faísca de raiva invadir os olhos cor de esmeralda, mas ela logo se esvaeceu. Ele tremia assim como Ravis tremeu antes de pedir demissão. Nunca havíamos visto nosso bravo e intrépido diretor, que nunca estava satisfeito com nada, que sempre tinha uma resposta pronta para tudo, que se comportava como um lorde, agir de forma tão frágil.
Ele sempre ficava no alto; na sala de sonoplastia, no extremo oposto do palco, pronto para julgar todos nós. Agora cá estava ele sentado, enquanto nós os rodeávamos, ovelhas procurando a orientação do pastor.
–Vocês deveriam ter ido embora quando tiveram a chance. N-não que eu me importe com vocês, mas droga, eu me importo, e sei que o Berwald é chefe de família, Emma é mãe solteira, Carlos precisa de trabalho para continuar no país, mas...
Emma tirou a xícara e o pires das mãos do inglês, passando-os para as minhas. Ela sentou-se ao lado dele, tomou a cabeça do Sr. Kirkland no próprio colo e acariciou-a, novamente cantarolando baixinho e balançando para frente e para trás. Ficamos em silêncio por alguns instantes, observando aquela cena. Inacreditavelmente, o primeiro a quebrar aquela atmosfera tensa foi o monossílabo Berwald, o sueco alto e reservado que trabalhava na maioria das vezes como segurança do teatro, mas que por vezes também nos ajudava nas coxias.
– Arrumaremos alguém novo. Substituiremos Ravis.
– Exatamente! A peça esta tão perto de estrear! E se me permite dizer, Sr. Kirkland, você está sendo muito exigente com toda a equipe. Estamos na nossa melhor forma! Podemos ajudar Antonio a decorar as falas e vai dar tudo certo. – Eduard tagarelava confiante, enquanto eu e Matthew concordávamos com a cabeça incessantemente, dando-lhe apoio.
O inglês se levantou do colo da belga, não sem antes dar-lhe pequenos tapinhas nas mãos da moça. Logo mais a faísca da determinação reacendeu seus olhos verdes. Arthur Kirkland, o grande diretor e líder, estava de volta. Ele passou a andar de um lado para o outro, marchando no mármore do foyer como um general no campo de batalha.
– Emma, assim que tiver algum tempo, ligue para o nosso protagonista vendedor de paella e diga que precisamos conversar e é urgente. Matthew, eu espero que você não se importe de chegar e sair um pouco mais cedo para ajudar Antonio com as falas. Isto é, se o seu namorado chaminé ambulante não ficar reclamando no seu ouvido, como de costume...
– Chaminé é a mãe!– Carlo gritou, já tirando um charuto do bolso lateral de sua bermudona caqui.
– ...ainda hoje ligarei para Gilbert. Ele foi de excelente ajuda na montagem de “Fausto” do ano passado e todos já o conhecem, de forma que...
Gilbert. Gilbert! Só de me imaginar passando duas horas ao lado daquele mesquinho, convencido, presunçoso e pedante, dando ordens para todo lado, gritando bobagens entre gargalhadas asquerosas...
– Toris!
Saído dos meus devaneios, percebi que meus lábios estavam encrispados e meus punhos tensionados. No chão, jazia um pires e uma xícara de chá quebrados. Imediatamente me ajoelhei para recolher os pedaços que restavam da louça. Mal me atrevi a encarar o Sr. Kirkland, que se não estivesse em uma situação tão delicada, tenho certeza de que já estaria demitido.
Emma também foi ao chão para me ajudar a recuperar os fragmentos de porcelana, balançando a cabeça e estalando a língua.
– Toris, Toris... você sabe que é a única opção.
Arthur Kirkland cruzou os braços na altura do peito, parecendo autoritário.
– Por acaso tem algo podre no reino da Dinamarca?
Não olhei para cima, mas pude pressentir que Eduard havia empurrado os óculos com o dedo, visto que ele estava prestes a começar uma longa explicação.
– Veja, Sr. Kirkland, Toris e Gilbert não se dão muito bem. Na realidade, Toris não se dá bem com Gilbert, e como os dois teriam de trabalhar conjuntamente, acredito que a atmosfera ficaria pesada. Mas falo pelo meu colega, é claro. Não me sentiria desconfortável em trabalhar com Gilbert novamente.
– Você só fala isso porque fica na sala de som e não tem que passar duas horas ao lado dele!
Sr. Kirkland revirou os olhos e estendeu mão para Emma, ajudando-a a se levantar. Logo depois bufou e postou as mãos na cintura.
– Não é do seu feitio usar esse tom molenga, Laurinatis. Quem você sugere então, o Félikis?
– Ele já está atolado de trabalho...
Meus ombros desabaram. Eu mesmo acabara de frustrar minha única esperança de não ter de lidar com o albino arrogante.
Em qualquer outra ocasião, meu grande amigo seria uma boa saída. Apesar de sua ansiedade social perto de estranhos, ele já era familiarizado com todos os contrarregras e boa parte dos autores; em um ou dois dias, já trataria as pessoas a quem mal dirigia o olhar como amigos perdidos de infância. Entretanto, o vestido, o lindo vestido de lady Macbeth de Natalya consumia suas horas, com seus bordados, pérolas e cauda.
Por mais que eu detestasse a simples menção de Gilbert, eu precisava fazer isso pelos meus colegas. Causara problemas demais, eu, minha distração e a minha paixão pela paixão de Natalya pelo palco.
Estava pronto para me resignar ao mais terrível dos destinos quando “Living on a Prayer”, sucesso do Bon Jovi, começou a tocar estridentemente. Seria mais um toque de celular, entretanto o famigerado mene da cabra que grita substituía as notas altas do cantor. Eduard tentava segurar o riso enquanto o resto de nós se encarava, procurando o dono do aparelho de gosto musical tão... singular. Para a surpresa de todos, o doce e delicado Matthew tateou os bolsos de seu moletom vermelho e retirou o celular, revelando-se o destinatário da ligação. As faces tão coradas quanto o tom de sua roupa, ele deu costas para nós e atendeu:
– Quando foi que você mudou... Uh, não importa. É, eu ainda estou no trabalho, coisas complicadas... Al, não tem como assistirmos “Zombeavers” amanhã? Alfred F. Jones, não...! Eu ainda estou falando com você!
Carlos deixou o charuto cair no chão com um baque seco, estarrecido.
– Alfred?!Alfred F. Jones?! Puta merda! Madre de dios, eu juro que fui à igreja todos os domingos, rezei para todos os santos que eu conhecia antes de dormir... Mas Alfred não! É isso, desisto, sou oficialmente ateu!
A porta principal do Teatro da Ribalta foi escancarada logo em seguida, um baque ensurdecedor de alguém que certamente não sabia medir a sua força.
– Yo, Mat! Não acredito que seis meses fora foi o suficiente para fazer você se esquecer de que segunda feira a noite é o nosso tempo especial de irmãos! Ou de meio-irmãos, se você preferir, mas você sabe que eu considero o seu pai quase como um pai também, afinal, ele me criou, mas não importa, porque temos a mesma mãe e...
A figura que falava sem sequer parar para respirar tinha feições muito parecidas com as de meu colega de trabalho. Entretanto, era um homem mais alto, de ombros mais largos. Seus cabelos loiros não caíam pelos ombros em cachinhos, mas eram curtos, lisos e escorridos.Atrás da armação dos óculos, o tom de azul dos olhos era mais vivo. Talvez eu pudesse me arriscar e dizer que o tom de pele do estranho era um pouco mais escuro.
Não deixavam de ter uma semelhança assustadora. No entanto, eu me assustei em constatar que o considerava mais atraente. Bem mais atraente.
Fechei meus olhos e balancei minha cabeça de um lado para o outro e movimentos curtos e rápidos. Eu estava cansado, com sono; deveria bloquear esse tipo de pensamento.
– ... mas o importante é que eu vim te buscar no trabalho hoje! Uff! Você não vai falar nada comigo, ou me apresentar para a galera? Han? Han?
Matthew estava claramente desconcertado e sem palavras com a presença do tagarela que havia entrado sem nenhuma cerimônia no foyer. Ele parecia olhar de um lado para o outro, envergonhado.
– Hã... esse é o meu meio irmão mais velho, Alfred.
Eduard se aproximou de mim, com uma pergunta óbvia no olhar: se eu sabia que Matthew tinha um meio-irmão. Franzi a testa para indicar ao meu colega que, como ele, não estava a par dessa informação.
O diretor se aproximou vagarosamente do intruso.
– Aaah, Alfred... Muito prazer. Sou Arthur Kirkland, o dono do teatro que você, hã... acabou de invadir, seu bárbaro descontrolado!
O dono do teatro apontou o indicador para o rosto do rapaz, parecendo não notar que era no mínimo duas cabeças mais baixo do que aquele que estava ameaçando. Entretanto, o meio-irmão de Matthew apenas abriu um grande sorriso, enquanto levantava os braços em sinal de rendição.
– Wooa, cara! A porta estava aberta! E da última vez que eu chequei, isso era um país livre! Ah! E adorei suas sobrancelhas tingidas. Muito maneiro o pessoal da sua idade que assume uma vida mais punk!
Eu segurei minhas mãos atrás das costas para não cair no riso. As expressões faciais do diretor passaram de incredulidade, espanto, raiva e ira completa em menos de três segundos. Não tinha dúvidas de que ele iria avançar no visitante, se não fosse pela mão de Emma em suas costas. A loira tentou ser conciliatória.
– Mil perdões, aaahn... Alfred. Levamos um baita susto, não estávamos esperando ninguém agora.
Arthur Kirkland lançou um olhar mortífero para Berwald, que deveria ser o responsável pela porta, ao passo que o mais alto apenas sustentou o olhar com sua assustadora cara de paisagem, o que foi suficiente para que o britânico apenas resmungasse algo sobre suecos e suas caras sinistras.
– Sou Emma Anri, e esses são Eduard, Berwald, Toris e...
– Carlos! Bro, como é que vai! A gente não se vê desde, desde...
– O natal do ano passado. – Carlos disse, entre baforadas de um novo charuto, de forma ríspida e presunçosa. – Ainda bem.
– Você anda cuidando direitinho do meu irmãozinho? Por que se não estiver, eu juro que vou entrar no meu modo heroico e...
Carlos levantou os olhos para o céu, exasperado.
– Você não devia estar, sei lá, do outro lado do mundo, bem distante de mim?
Alfred pareceu não levar as palavras do cunhado a sério. Sinceramente, ele parecia sequer ter considerado o comentário como uma ofensa.
– Eu voltei do Japão há uns... dois ou três dias. O Matt não te contou? Voltei, e agora para ficar!
Carlos fez um muxoxo, enrugando toda a sua testa.
– Então você não deveria estar descansando na sua mansão de três andares, com sauna, três salas de jogos, cinema, piscina e massagistas ucranianas?
Matthew finalmente saiu de seu transe e se pronunciou, envergonhado.
– N-não exagere!
O namorado deu de ombros.
– Ok, eu retiro o que disse sobre as massagistas. Elas são taiwanesas.
Alfred jogou a cabeça para trás, gargalhando um riso animado e contagioso. Riu tanto que chegou até mesmo a limpar lágrimas por trás dos óculos.
– Eu tinha me esquecido do quanto você era engraçado! – ele dobrou os braços atrás da cabeça, descontraído – Eu fiquei em casa por um tempo sem nada para fazer, achei chato ficar sozinho depois de um tempo. Eu estava até pensando em limpar o sótão para me distrair, mas fiquei com preguiça. Aí eu pensei: ah, o Matt já devia ter saído do trabalho, estou doido para assistir “Zombeavers”! Peguei o carro e vim para cá.
Algo nas palavras de Alfred produziram um estalo em minha mente.
– Espere um segundo, senhor Alfred. Você está desempregado no momento?
As palavras jorraram de minha boca, antes mesmo que eu pudesse perceber o que estava fazendo.
Ele havia acabado de voltar do Japão. E estava sem nada para fazer.
O que, por sua vez, significava que possivelmente ele estaria livre para trabalhar por uma semana no teatro, como contrarregra, no lugar de Gilbert.
O Sr. Kirkland imediatamente percebeu onde eu queria chegar com aquela frase. Exasperado, ele começou a contorcer seu rosto e a balançar a cabeça negativamente de forma desesperada:
– Não! Nem pensar, Toris Laurinatis!
Alfred F. Jones virou-se para mim, provavelmente notando minha presença pela primeira vez. Ele abriu um sorriso radiante, daqueles que mostram todos os dentes, que saem da boca e se estendem pela face inteira. Seus olhos azuis pareceram se iluminar por um instante. Isso, ou foi reflexo das lâmpadas fluorescentes ou do sono em minha vista.
– É, cara, pois é! Depois que eu me formei na universidade resolvi tirar um ano sabático... Que acabou virando dois, três... Mas para ser sincero, eu só não estou trabalhando porque não consegui um emprego tão legal como o do Matt!
Matthew deu um risinho nervoso que logo se transformou num acesso de tosse. O Sr. Kirkland afobou-se:
– Muito, muito interessante, mas já está na hora de fecharmos e...
– Alfred, o que você acharia de trabalhar conosco, aqui na Companhia? Apenas por uma semana, nos ajudando com os ensaios? Uma vaga acabou de surgir, e como você é irmão do Matthew, já temos uma referência! Precisamos de sua ajuda!
Fiquei em estado de choque. Não só Eduard havia interrompido o diretor, como teve a coragem de dizer aquilo que eu me remoia para expressar. Olhei para ele, incrédulo. Ele me respondeu com um meio sorriso, que certamente dizia que mesmo sem se importar com a presença de Gilbert no teatro, ele estava fazendo aquilo em nome de nossa amizade.
Alfred deu um soco no ar, animado, e correu para perto do irmão, pegando-o pelos ombros e sacudindo-o animadamente.
– Bro, nós vamos ser colegas! Isso vai ser o máaaaximo!
Carlos apagou o charuto e levou a mão ao rosto.
– Uggggh! Isso só pode ser um pesadelo!
– E-e-ei! Espere um segundo! Você não pode sair contratando as pessoas assim, Eduard, seu imbecíl! Será que não passou por um segundo na sua cabeça de ervilha o fato de que eu sou o diretor, e eu mando aqui?
Eduard encolheu-se, assumindo uma postura defensiva.
– Be-bem, como Toris se sente desconfortável na frente do Gilbert, eu pensei que...
– Você não é contratado para pensar, mas para ficar na cabine de som, quietinho, seu...
Emma se colocou entre os dois. Ela sorria, mas não era seu típico sorriso animado e maternal, mas mais um rosnado de leoa cansada.
– Senhores... por favor! Eu estou exausta, sem chocolate, e pago minha babá por hora. Vamos resolver isso de maneira rápida, sim?
Kirkland balançou a cabeça, concordando com um muxoxo.
– Que tal uma votação, Sr. Kirkland?
– Eduard Von Bock, se você abrir sua boca mais uma vez, eu juro pela princesa Diana que vou...
– É justo, Arthur. Afinal, nós é que iremos trabalhar com ele.
O inglês baixou os ombros, rendendo-se as palavras da mulher.
– Tudo bem... Quem pensa que ele deve ficar, levante a mão.
Eu e Alfred levantamos as mãos quase que no mesmo momento. Ele se virou para mim, com um sorriso bobo e grato no rosto, ao qual não tive outra saída a não ser retribuir com um sorriso constrangido. Eduard o fez logo em seguida, ainda pálido devido às ameaças do patrão. Berwald, que ficara apenas observando a confusão durante todo aquele tempo, levantou a mão.
Emma o imitou. Matthew olhou ao redor e, devagarzinho, fez o mesmo também. Éramos a maioria esmagadora
Até mais ver, Gilbert.
Carlos apagou o charuto e colocou as mãos nos olhos, resmungando sobre o quão ingênuos nós éramos. Alfred, por sua vez, deu um longo abraço no irmão e foi logo apertar as mãos de um chocado Arthur Kirkland.
– Obrigado, obrigado, muito obrigado, senhor sobrancelhas! Prometo que não vou decepcionar...
– É Sr.Kirkland para você, garoto. Não estou com cabeça para isso agora, portanto trataremos dos detalhes da sua contratação amanhã. Esteja aqui dentro as seis da tarde em ponto, ou você estará fora, fui claro o suficiente?
Alfred balançou a cabeça afirmativamente, radiante. O inglês virou-se para me encarar, apontando um dedo em minha direção:
– E você, Toris Laurinatis.
Meu sangue congelou.
– Estamos fazendo isso por sua culpa, portanto você será o responsável pelo treinamento do novato. Boa sorte. Você vai precisar.
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Cinco horas e cinquenta minutos da tarde do dia seguinte, Arthur Kirkland me encarava com um sorriso lateral de escárnio.
– Matthew, tem certeza que você ligou para o seu irmão?
– E mandei várias mensagens, Eduard!
Meus dois colegas sussurravam, esperando inutilmente que eu não fosse ouvir. Meus olhos esverdeados subservientes sabiam que a batalha contra as esmeraldas brilhantes do meu diretor já estava perdida. Minha esperança se encontrava na vinda de alguém que entrara como um furacão na teatro na noite passada; alguém sem experiência nenhuma, sem a quietude e a passividade necessárias a um contrarregra... E eu fora o primeiro a dar a entender que ele deveria ser contratado. Eu era mesmo muito ingênuo.
O Sr. Kirkland bateu com os dedos no relógio de pulso e levantou dois dedos.
Dois minutos para que Gilbert fosse chamado e eu tivesse de suportar não apenas ele, mas comentários do meu patrão. Eu jamais teria voz dentro do teatro novamente, nem mesmo para sugerir que os camarins fossem limpos com a minha escova de dente.
O Sr. Kirkland levantou as duas sobrancelhas, com desdém.
A porta do teatro se abriu num estrondo, e mesmo estando de costas para ela, ver o sorriso confiante do dono do teatro se esmorecer em um segundo foi o suficiente para que eu soubesse quem havia acabado de chegar.
Ao me virar, deparei-me com Alfred, com uma caixa de rosquinhas da delicatessen da esquina debaixo do braço, com uma das iguarias açucaradas enfiada pela metade em sua boca. Ele acenou, entusiasticamente.
–Mmmh mmmmmmmh, mmmaha, teatro! Mmmh, mmhmh, de creme com confeitos! Demais!Mmmah?
O recém chegado pegou a caixa e a abriu em frente ao diretor, oferecendo-lhe comida.O Sr. Kirkland dispensou a oferta com um aceno desdenhoso de mãos.
–Alfred! Você me matou de preocupação! Você não atendeu o celular, não respondeu minhas mensagens... Pensávamos que você não viria!
Matthew tinha algumas rugas legítimas de preocupação em seu roto rechonchudo. Seu irmão terminou de engolir o doce, limpou a boca com a manga de seu casaco e respondeu, tranquilo:
–Ué, mas o sobrancelhudo não disse que era para chegar as seis em ponto?
O diretor fez uma careta carrancuda, e já estava prestes a abrir a boca para retrucar qualquer coisa, mas Emma Anri postou uma mão em seu ombro, compreensiva. Ele suspirou, e bateu duas palmas.
–Certo, certo, estamos todos aqui – não contando Carlos, que está no banheiro agora. Alfred, Toris vai fazer um tour pelo teatro com você enquanto o resto de nós realiza as tarefas da semana previamente combinadas. Brevemente o convidarei para a sala de som, para acertarmos a papelada. Vamos, vamos, não temos tempo a perder!
Emma e Matthew desceram a rampa do teatro até o fosso, por onde entrariam para os bastidores enquanto o diretor e Eduard subiram para a sala de som.
Finalmente sozinhos, Alfred se virou para mim e agarrou minha mão direita, sacudindo-a incessantemente, com um grande sorriso no rosto.
–Muito, muito prazer...Toris, né? Eu nunca tinha ouvido esse nome antes? É estrangeiro?
Com a proximidade, pude observar seu rosto com detalhes. E constatar que durante a noite passada, não havia sofrido efeitos do cansaço ou das luzes: os olhos do irmão de Matthew eram claros e elétricos, brilhantes.
–Er... sim. É lituano. Meus avós paternos são de lá.
–Maneiro! Eu sou americano, mas meu sotaque entrega, né? Nunca vou saber como o Matt faz para esconder o dele tão bem. Ah! Que falta de educação a minha! Rosquinhas?
Sorri desconcertado, mas a tentativa de ser amigável parecia legítima. Estendi a mão para a caixa, agarrando uma daquelas iguarias igualmente gosmentas e deliciosas.
– Com certeza.
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– Aqui é o proscênio, a extrema beirada do palco... Senhor Alfred, não passe da linha de fita crepe!
Agarrei meu aprendiz pelo casaco de couro, impedindo-o de seguir a diante. Como uma criancinha em uma excursão da escola, ele já estava prestes a se ajoelhar no proscênio e encarar o fosso, logo abaixo dele.
– Fosso? Tipo aquelas coisas medievais? Por que vocês tem um fosso no meio do teatro, afinal de contas? É onde o cara das sobrancelhas guarda os esqueletos dos funcionários?
Revirei os olhos, mas um sorriso não pode me escapar dos lábios. A comparação entre o loiro a minha frente e uma criança era até bem propícia.
– Não, é onde a orquestra se posiciona. Ou se posicionava.
Alfred esfregou alguns dedos no queixo, pensativo, para depois levantar o dedo, como um verdadeiro aluno do primário. Achando o gesto divertido, assenti para que ele fosse adiante com a pergunta.
– Eu não perguntei exatamente o que vocês estavam apresentando aqui! Já que tem uma orquestra e tudo mais, é um musical, não é? Alguma coisa bem broadway, talvez Chicago? Com certeza Chicago! Matt e eu sabemos cantar “Cell block tango” e “Mister Cellophane” inteirinhas! É, faz sentido!
Senti minha cabeça involuntariamente se curvar para a esquerda. Franzi a testa, não incomodado, mas curioso.
Como Emma havia dito, claramente Alfred jamais havia comparecido a alguma de nossas apresentações. Eu certamente teria notado um homem parecido com Matthew, porém trajando uma excêntrica grande jaqueta de couro no estilo aviador. O que não se encaixava era o fato dele aparentemente desconhecer o ofício do irmão. Matthew havia o escondido de nós ou ele não havia demonstrado interesse no teatro?
– Toris? Toris, por que você está me olhando desse jeito? Eu fiz alguma coisa de errado? Cara, eu sempre faço alguma coisa de errado!
– Não, não, Sr. Alfred! É que... nós não apresentamos musicais. O Sr. Kirkland se especializa no teatro elisabetano inglês, apesar de por vezes também nos aventurarmos com Molière. Sem a orquestra, esse espaço é apenas uma forma rápida de entrar para os camarins. Temos três formas de entrar nos bastidores: pela garagem, pela rampa no fundo no palco e através de uma porta camuflada lá em baixo.
Abaixando seus ombros e sua cabeça, Alfred certamente parecia decepcionado, porém tentou, sem sucesso, esconder o que sentia através de um sorriso apenas com os lábios. Um sorriso comedido, que não parecia pertencer a ele.
– O que vocês estão ensaiando então? Romeu e Julieta? Alguma peça bem pomposa e refinada do tipo?
Uma risada escapou dos meus lábios, talvez mais alta do que deveria.
– O teatro começou como forma de diversão do povo, sabia? E, bem, não é Romeu e Julieta, mas é Shakespeare. É a peça escocesa.
Ele me encarou, indagando-me com os olhos.
– Você sabe, a peça shakespeariana com as bruxas.
Ele olhou para cima, franziu a testa e fez um biquinho.
– A peça amaldiçoada? – tentei mais uma vez.
O olhar vazio que obtive como resposta era a prova cabal de que, ao contrário de seu meio-irmão, o mago das falas, Alfred F. Jones não entendia uma gota sobre teatro elisabetano. Eu não o culpava; olhando para a camiseta com dizeres japoneses que ele usava por debaixo da jaqueta, para seu corte de cabelo descolado e para seus jeans desbotados com algumas correntes nos bolsos, ele não se parecia com alguém com o mínimo entendimento de teatro elisabetano.
– Ei Carlos! Oi!
Alfred acenou, todo amigável para um visivelmente incomodado Carlos, que acabara de sair do fosso. Ele trazia um portfólio negro nas mãos, o texto da nossa peça.
– Carlos, você poderia me emprestar o seu texto, só por um minuto, por favor?
O cubano resmungou, mas concordou. Eu ajoelhei no proscênio e ele ficou na ponta dos pés para me entregar a pasta.
– Talvez você reconheça a peça escocesa por esse nome. Mas, Sr. Alfred, por favor, não leia o nome em voz alta.
Entreguei-lhe a pasta aberta e ele ajustou os óculos de armação fina.
– Aaah! Porque você não disse logo que vocês estavam trabalhando em Mac...
– Não se atreva! – Carlos gritou, sua voz áspera e agressiva.
Alfred deu de ombros, divertido.
– Não entendo porque tanto medo de um nome bobo, Carlos. É só Mac...
– Sr. Alfred, por favor, não fale esse nome dentro do teatro!
Tentei censurá-lo de forma mais educada, mas ele pareceu me ignorar e continuava a indagar o cunhado diretamente, fazendo beicinho:
– Por quê eu não posso falar isso? É uma coisa tão boba. Mac...
– É uma superstição teatral, Sr. Alfred. – expliquei, tentando retirar a pasta de suas mãos. – Desde os tempos de Shakespeare, todos os atores que pronunciam o nome dessa peça acabam atraindo má sorte e...
– Mac...
Carlos perdeu a paciência.
–ACEITE O FATO DE QUE VOCÊ NÃO PODE FALAR A PALAVRA “MACBETH” AQUI DENTRO, DROGA!
Uma janela do teatro se abriu subitamente, deixando o frio cortante do início da noite penetrar no ambiente. Três baques surdos se seguiram: três lâmpadas seguidas do lado direito do teatro se estilhaçaram. Encarei Carlos, assustado. Ele mesmo parecia incrédulo.
– Eu juro que depois que eu terminar de dar três voltas no teatro inteiro, comprar lâmpadas novas e tirar uma cópia do seu texto, Alfred F. Jones, eu vou acabar com você! Com vocês dois! Lá vamos nós: “Bons pensamentos e horas felizes sempre te acompanhem”.
E Carlos subiu a rampa do corredor principal da plateia em direção da porta ainda recitando os versos da felicidade de “O Mercador de Veneza”. Assim que ele estava distante o suficiente, Alfred deu de ombros:
– ... eu só ia dizer Macdonald’s, cara.
Afundei o rosto em minhas mãos, sem saber se eu devia me exasperar, rir ou chorar.
– Mas então... qual é o problema do Big Mac? Pra que essa superstição bobinha?
– Um teatro sobre bruxas, naquela época, já era motivo para desconfiança. E como você pode ver, não é só uma superstição bobinha, a maldição acontece de verdade! É melhor prevenir do que remediar, ainda mais tão perto da estreia!
– Mas e na hora de falar o nome do personagem? Não tem problema? Vocês tem que chamar o cara de Ronald, ou algo assim?
– O problema é a peça, não o personagem. – cocei a garganta, mudando de assunto. – Bom, vamos continuar o tour. A sua direita e a sua esquerda nós temos as primeiras coxias. As coxias são a última parte dos bastidores e nossos domínios aqui no Teatro da Ribalta.
Caminhei com meu aprendiz atrás de mim até a coxia da esquerda. Finalmente imersos na escuridão, continuei minha explicação:
– Na primeira coxia da esquerda temos algumas caixas de som, e...
PHÉEEEEEEEEEEEEM!
O barulho de uma campainha ressoou por todo o teatro, fazendo com que eu desse um pulo e virasse para trás, apenas para encontrar Alfred também tão assustado quanto eu.
– Caaaaaara, eu fui ajeitar a manga do meu casaco e acabei encostando nessas coisas daqui e eu nunca pensei que algum dia na minha vida eu irai encontrar um interruptor de luz tão barulhento como...
– Que diabos?! Toris Laurinatis, pare de brincadeira com o novato!Não sei o que está acontecendo aí dentro, mas é bom que voltem ao trabalho! Quase me mataram do coração, seus animais!
A voz ácida do diretor adquiriu um tom metálico por ter sido amplificada através de um ruidoso microfone. O fato de que ele estava gritando também não ajudava os nossos ouvidos recém feridos.
– Waaaah! – gritou o rapaz alto e loiro ao meu lado, dando um pulo e me puxando violentamente para si. – De onde está vindo isso?
– Da sala de som, seu Yankee acéfalo! – Arthur Kirkland alfinetou. – Acabem logo esse maldito tour para que possamos fixar contrato, compreenderam?
– Sim, senhor, Kirkland, senhor! – gritei o mais alto que pude.
Alfred riu um pouco de minha atitude, tentando gargalhar um pouco mais baixo, sem sucesso. Foi aí que percebi que meus braços colados ao lado do meu corpo resetado.
– Você tem a mania de chamar todo mundo de senhor, não é Toris? Senhor Kirkland, senhor Alfred... aposto que você chama até mesmo a moça loira de senhor também!
Dei um sorriso amarelo desconcertado.
– Recaídas do exército.
Ele me mediu de alto a baixo.
– Você, no exército?
Ele não me indagou com o mesmo tom de incredulidade que Carlos usou ao fazer-me a mesma pergunta, ou o tom desconfiado de Arthur Kirkland em minha entrevista de emprego. Foi um tom cheio de admiração. Devo admitir meu ego se encheu ao ouvir o fascínio com que ele proferira as palavras. Pela primeira vez, alguém não duvidava das minhas experiências.
– Cabo Laurinatis, ao seu dispor. – bati uma continência zombeteira.
– Caaaaara! Isso é tão heroico! Soldado, bombeiro e policial são as profissões mais maneiras de, tipo, todos os tempos! Se eu não fosse tão fã de junk food... – ele apertou o próprio abdome, a procura de gordurinhas que claramente não existiam.
– Mas é passado. Como não fui para a faculdade, precisei buscar um emprego depois do colégio. Não encontrei vocação em nada, então me alistar pareceu a coisa certa a fazer naquele momento. – dei de ombros – Saí porque... nenhum dos meus colegas de regimento parecia apaixonado pelo ofício, mesmo aqueles que, ao contrário de mim, se uniram ao exército por escolha.
– E você é apaixonado pelo que faz agora?
Fechei os olhos, matutando a pergunta. Assim como no exército, eu estava trabalhando na Companhia do Rei porque foi a oportunidade que me aparecera, não por conta de vocação. O salário já não era tão bom como antes também. Entretanto, quando eu via Emma Anri transformar rostos que eu via diariamente em célebres desconhecidos com o poder da maquiagem, Matthew ajudar os atores paciente e subservientemente com as falas, Félikis passar noites em claro para transformar pedaços de pano em figurinos deslumbrantes, Eduard sempre inovar com novas mixagens e Natalya, Natalya e sua paixão pelo palco... Eu me sentia rodeado por pessoas que faziam coisas incríveis com tanto gás, perfeccionismo e interesse que eu me sentia no dever de ser tão aplicado quanto eles, para que o suor dos meus colegas não tivesse sido derramado em vão.
– De certo modo, sim. Bem, continuando. Você acabou de conhecer uma das várias campainhas de efeitos especiais. Como você vai ficar exclusivamente nas coxias do lado esquerdo, é bom que você se mantenha bem longe delas.
“Se você se aventurar um pouco mais para o fundo – não se preocupe, Sr.... Alfred, todos se acostumam rápido com a escuridão – você encontrará esse estreito corredor com mais cinco coxias. Ao passar por aqui, tente não encostar nos panos pretos das coxias; apesar de estarem presas no teto e com pesos na base, movimentos bruscos denunciam nossa localização. Lembre-se de andar por aqui de maneira rápida, mas com passos leves. Entre a parede e as coxias, devemos ser invisíveis e inaudíveis.”
– Então é como se nós fossemos parte da CIA ou da Scotland Yard, certo? – ele gritou, fazendo um movimento de “Yes” com o punho fechado. – Caramba, que maneiro!
Eu sorri. Ser comparado com um agente secreto era definitivamente bem melhor do que ser comparado a um rato.
– Aqui, na segunda coxia, nós temos o mecanismo para se abrir a cortina. – agarrei a pesada corda dourada e coloquei-a nas mãos do meu mais novo colega. – Experimente.
Afobado como um garotinho querendo impressionar o pai, ele assentiu e puxou com força a grossa corda.
– Vai enrolando nos braços... Sem pressa... Isso.
As cortinas pararam com um tranco.
– Podemos trabalhar na delicadeza depois, mas muito bom, Sr. Alfred. Não se preocupe com isso, no entanto; é parte do trabalho do Carlos.
– Você me mostra como fazer algo maneiro e depois tira isso de mim? Você é um professor cruel, Toris!
Ele fez um muxoxo com um biquinho gozado. Tentei segurar a risada, tampando os lábios com a mão, sem sucesso. Ao invés de se irritar com minha atitude, ele se juntou a mim, sem tentar esconder suas gargalhadas.
– Ei, ei! Parem de rir como garotinhas do primário e vão trabalhar! – a voz metálica de Arthur Kirkland resoou novamente.
Eu e Alfred nos encaramos, como dois cúmplices no meio da escuridão, e eu pude jurar que em algum momento, ele mandara uma pequena piscadela em minha direção.
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– Esse pano no fundo é a rotunda. Entre a rotunda e o muro de segurança, há um caminho bem espremido que nos leva de um lado a outro do palco sem precisarmos passar na frente da plateia. Como você ficará responsável em tempo integral por esse lado das coxias, você não precisará usá-lo. Mas não o bloqueie; como você viu, fica bem escuro aqui e muitos de nós precisamos de passar por aqui diversas e diversas vezes.
Apontei para cima.
– E esta escadinha de ferro aqui do meu lado leva até a área das roldanas e cordas para mudar o cenário...
De repente me vi falando comigo mesmo. Virei-me para um lado e para o outro, sem encontrar nem um mísero sinal de meu colega. Alfred era uma pessoa barulhenta; o súbito silêncio me assustou.
– Alfred... – sussurrei, procurando o mais novo contrarregra por entre as coxias que havíamos acabado de visitar.
Dei uma olhada novamente atrás da rotunda. Imaginei que ele a curiosidade de passar por aquele corredorzinho poderia ter falado mais alto. Comecei a suar frio, só de imaginar que ele talvez poderia ter medo de altura e podia ter sentido vertigem ao observar a oficina e os camarins lá embaixo... Mas não, ele não estava empacado no meio do caminho.
Então, pensei que ele poderia realmente ter atravessado a rotunda e chegado até o outro lado. Só de imaginar as mãos curiosas do meu aprendiz na velha, complicada e temperamental máquina de fumaça, me espremi em um rompante pelo espaço atrás da rotunda, chegando até o outro lado do palco, nas coxias da direita. Nem sinal de Alfred.
– Alfred? Alfred!
Caminhei até o meio do palco, sussurrando. Encarei a larga janela de vido na parede oposta ao palco, para verificar se o Sr. Kirkland não notaria que eu havia acabado de perder Alfred de vista. Se ele percebesse, com certeza comentaria sobre minha façanha de não saber onde a pessoa mais escandalosa da terra se encontrava. Droga, Laurinatis, seu cabeça de vento imprestável!Mas meu patrão estava de costas para a janela da sala de som, felizmente.
– Alfred? – arrisquei um pouco mais alto.
– Yoo, Toris!
Olhei para um lado e para o outro. Corri até o proscênio, me arriscando ao debruçar-me imprudentemente acima do fosso, procurando o loiro. Mas eu não consegui identificar de início de onde a voz de Alfred vinha.
– Aqui em cima!
Levantei-me daquela posição, minhas costas rangendo de dor. Olhei para cima.
E lá estava Alfred, sem uma proteção sequer, dependurado de cabeça para baixo nas escadas do teto do teatro, onde pendurávamos os cenários, do lado das roldanas e cordas.
Dependurado como um garotinho em um trepa-trepa no parquinho da escola, exatamente no mesmo ponto em que eu havia mergulhado em uma quase morte.
Minha boca secou. Meus punhos trincaram. Arregalei os olhos. O pavor me invadiu de tal modo que fui incapaz de proferir um som, por mais insignificante que fosse.
E eu precisava. Eu precisava mais do que nunca de dizer alguma coisa, de me fazer audível. Mas eu simplesmente não conseguia abrir a boca para falar, gritar, avisar, impedir que o meu mais novo colega estabanado não se acidentasse. Impedir que a história se repetisse novamente.
Quando menos percebi, estava correndo de volta para a escuridão das coxias. Retirei meus mocassins pretos surrados e posicionei minhas mãos uma de cada lado da escada metálica. Agarrei com força aquelas barras, tanto com as mãos quanto com os pés, impulsionando-me para cima, com força e vitalidade. Meus membros já não eram mãos e pés, mas garras, garras de ratazana que me impulsionavam cada vez mais para cima e para o escuro, onde nenhum holofote estava ligado.
Chegando ao teto do teatro, engatinhei rapidamente por entre a escada do teto – finalmente eu pude sentir a umidade em minhas mãos finalmente se formando e o meu coração surrando o meu peito como um boxeador faz com um saco de pancadas – e tudo que eu conseguia pensar é que eu precisava evitar um desastre antes que fosse tarde demais. Eu me esgueirei entre as cordas, tomando cuidado para não bater a cabeça nas roldanas pesadas de ferro, até finalmente deparar-me com o lugar em que Alfred se encontrava, dependurado displicente como um morcego.
Sentei-me de perna aberta entre suas pernas. Com a mão esquerda, agarrei o mais fortemente que pude o lado da escada. Respirei fundo, sabendo que se olhasse para baixo, tanto eu quanto ele nos acidentaríamos naquele chão de madeira e que não teríamos as cordas – as cordas que rasgaram minha pele nas costas e no pescoço – para nos segurar. Inclinei-me e o agarrei pelo colarinho da camisa, erguendo-o até que ele também se sentasse na barra.
Meu mais novo colega me encarou, surpreendido. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas eu não pude ouvir som nenhum. Tudo que eu podia fazer era encarar o chão, o chão a metros de distância de mim, e me lembrar das cordas, se enrolando como cobras constritoras em meu pescoço, e dos gritos de pavor dos atores abaixo de mim, e como Carlos correu com o canivete, para evitar que eu acabasse por me enforcar... e eu não pude ver mais nada.
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Levantei a blusa até a minha cabeça e me virei de costas.
– Só estou fazendo isso porque você insistiu. Eu sei que ainda está bem feio, mas acho que vou ter que conviver com isso a minha vida toda e... ah!
Gemi baixinho ao sentir alguns dedos roçando vagarosa e carinhosamente pelas minhas costas, pelas minhas cicatrizes ainda vermelhas. Era um misto estranho de dor com arrepios na espinha. É masoquista da minha parte dizer que eu realmente estava gostando de ter Alfred F. Jones roçando os dedos pelos meus machucados?
Fazendo uma recapitulação de tudo que se passou: minha pressão abaixou subitamente, o que culminou em um desmaio meu. Alfred desceu comigo a tiracolo do teto do teatro e foi até os bastidores, onde Matthew e Emma me deitaram em uma cama cenográfica e me alimentaram com um pouco de sal, até que eu me recuperasse.
Até o Sr. Kirkland desceu de seu pedestal na sala de sonoplastia para me visitar, e segundo a Emma, ele ficou irado, tanto com a minha atitude sacrificante, já que ele havia me proibido expressamente de subir até o teto do teatro, quanto com a displicência de Alfred. Acho que ele só não o demitiu de imediato porque eu acordei e o defendi até a morte. Afinal, ele podia ter subido até lá por conta própria, mas eu não havia prestado atenção o suficiente no meu aprendiz para repreendê-lo antes que ele fizesse sua grande artimanha! E eu também tinha subido, contrariando as ordens de meu patrão, ao invés de simplesmente gritar para que Alfred simplesmente descesse!
No final das contas, nenhum de nós foi demitido, mas tivemos de ouvir poucas e boas.O ensaio teve início, mas eu ainda estava me recuperando no camarim de Antonio, que possuía um sofazinho. Alfred fez questão de ficar ao meu lado até que eu me sentisse totalmente forte para participar das atividades da noite, e aproveitei todo esse tempo que tivemos sozinhos para poder compartilhar a história – sobre minha obsessão nada saudável por uma garota e como isso continuava me metendo em enrascadas.
E agora, cá estava ele, observando os grandes talhos em minhas costas.
– Eu vi essa tal de Natalya. Ela até que é bonitinha. Quer dizer, para quem gosta desse tipo de coisa. Mulher, eu quero dizer. Para quem gosta de mulher... Não que eu seja misógino, não, nada disso! Eu tenho amigas ótimas! Mas...
Eu podia observar sua face através do espelho, enquanto eu abaixava a blusa e a alinhava-a novamente em meu corpo. Ele parecia ligeiramente incomodado: estava mordendo o interior das bochechas e de braços cruzados.
– Por favor, Toris, permita que eu agradeça seu ato heroico de alguma forma.
Virei-me para ele, a testa franzida, enquanto prendia meus cabelos em um rabo de cavalo frouxo. Ele não conseguia olhar para o meu rosto, mas sim para os próprios pés.
– Você venceu o seu medo para evitar que eu fizesse alguma besteira. Eu sempre faço besteira; por isso que o meu próprio irmão tem vergonha de mim, eu acho. Então... é estranho, porque geralmente sou eu que faço o papel de herói no meu dia a dia. Uma vez eu ajudei uma senhora a... argh! Isso é mais difícil do que eu pensei!
Ergui uma sobrancelha.
– ... Alfred?
– ... só me deixe pagar um jantar para você depois do ensaio, está bem?
Ri, comedidamente.
– Muito obrigado pela oferta mas...
Ele finalmente tirou os olhos dos próprios tênis e ergueu a cabeça para me encarar.
– Eu insisto, Toris.
Aqueles olhos brilhantes e azuis me impediram de negar qualquer coisa que ele me pedia. E eu tive a impressão de que isso se repetiria diversas outras vezes mais.
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Estava arrumando minha mochila para deixar o teatro quando fui abordado por Emma Anri.
– Loiros dos olhos azuis, não é?
Eu levantei a cabeça, confuso. Ela apenas riu, melodiosamente.
– Seu tipo.
Antes que eu pudesse contestar e dizer que eu e Alfred mal havíamos nos conhecido e que ela estava tirando conclusões extremamente precipitadas, Natalya apareceu atrás dela.
– Se importa, Emma? Preciso falar com ele pessoalmente.
Sua voz ainda era fria e gélida para comigo. Engoli seco ao ver minha colega contrarregra se afastar.
– Estou muito feliz que você tenha me superado, Toris. – ela abriu um pequeno sorriso com o canto dos lábios. – Sei que as pessoas acham difícil aceitar que alguém não se interesse por relacionamentos, mas é o que acontece comigo. Sinto muito por qualquer outra coisa, mas me permita dizer que vocês dois... são um casal muito fofo.
Abri e fechei a boca, como um peixe diversas vezes enquanto a avistei se afastando de mim. De onde as pessoas estavam tirando todas aquelas conclusões?
– Toris! Vamos nessa! Bora comer um Big Mac em homenagem ao nosso Big Mac!
Alfred já estava recostado na porta principal, esperando por mim, com o casaco jogado nos ombros e um sorriso estampado no rosto inteiro. A analogia de que meu coração era um saco de pancadas retornou a minha mente, dessa vez mais intensamente, enquanto eu deixava que meu estômago caísse em queda livre com a mera visão daquele rosto.
No fim das contas, eu apenas podia esperar que meu estômago não se esborrachasse no chão... e que as batidas do meu coração se tornassem tão inaudíveis quanto eu, durante meu horário de trabalho.
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