O início de tudo

1 ................... O concurso de Bardos.


Na Grécia, no tempo dos deuses antigos, existia uma pequena cidade chamada Potedaia. Grande parte de sua população se dedicava a agricultura. A vida pacata da comunidade só era abalada com as festas, principalmente as dos solstícios de verão.

Os dias e noites do solstício de verão são de festas e alegria, são tempos para agradecer a deusa Deméter pela fartura da estação, quando a vida é mais fácil e há tantas horas de luz diurna que todas as tarefas são realizadas com tempo de sobra para o repouso e o divertimento.

Na cidade vivia um agricultor chamado Herodotus, era um homem bom apesar da fisionomia sempre carrancuda marcada pelas rugas profundas no rosto queimado de sol. As mãos eram grandes e calejadas devido ao trabalho árduo lavrando a terra desde criança.

Conheceu Hécuba em uma das festas de solstício. Casaram-se. Todos comentavam como ela resolvera se casar com um homem grosseiro e intratável como aquele, mas ela o amava e a chegada das filhas fortificou ainda mais os laços.

Tinham duas graciosas filhas, Lila e Gabrielle, e nessas comemorações encontramos a família do agricultor se divertindo com as danças, as músicas e o concurso de contos, onde inclusive Bardos de outras cidades se apresentam para deleite de Gabrielle.

Gabrielle era a filha mais velha. Uma jovem linda, os cabelos loiros e lisos contrastavam com os que se viam na sua própria família. Seus olhos de uma tonalidade verde esmeralda eram mais ternos e belos do que os mais bonitos das belezas da capital.

Gabrielle adorava contar histórias, seu grande sonho era um dia poder estudar na Academia de Atenas. Infelizmente os pais não tinham grandes conhecimentos para transmitirem as filhas, mas o acaso tinha favorecido a jovem Gabrielle.

Durante uma das festividades, em que acontecia o concurso de contadores de estórias, Femios famoso Bardo da ilha de Ítaca, que gostava de percorrer a Grécia cantando repertórios compostos de lendas, epopeias e tradições populares, cansado da viagem resolve pernoitar na pequena cidade já que Atenas ainda estava a muitos dias de viagem. A convite de Alcíno resolve participar do evento, achou que seria divertido ouvir os contos extravagantes daqueles iletrados aldeões.

Alcíno era o organizador do concurso, um velho corpulento, de poucos cabelos e barba grisalha. Filho de um próspero fazendeiro e que teve oportunidade de estudar na Academia de Atenas. Era um Bardo talentoso, mas não caíra no gosto dos Atenienses, não saiu da obscuridade.

Retornando a cidade natal, mas continuando ligado pelos laços da arte, ele cria o evento que com o correr do tempo passou a fazer parte das festividades da cidade.

Gabrielle sempre que terminava os afazeres domésticos e da lavoura, corria para cidade para se deleitar com as estórias contadas pelo velho Bardo. Algumas vezes ele falava à jovem de valentes guerreiros e príncipes curvados aos seus pés. Outras vezes fazia-lhe o sangue gelar aterrorizando-a com estórias das harpias, das bacantes, do poder dos deuses gregos e do submundo de Hades.

Tudo isso foi sendo gravado na memória de Gabrielle de tal modo que nem a idade, nem a maturidade puderam apagar aquelas imagens. Sua imaginação era cheia de recordações, num emaranhado de sensações de prazer e medo.

Alcíno insistia que Herodotus permitisse que Gabrielle participasse do concurso, pois via na jovem o dom para contar estórias. Desde criança ela o divertia com suas estórias recheadas de contos típicos da imaginação infantil, mas o lavrador era irredutível. Dizia que as filhas já tinham a educação necessária para camponesas, sabiam ler e escrever, o que mais podiam querer? Não tinham posses que permitissem melhorar a educação das meninas.

— De que serviria ela ser uma contadora de estórias, isso não alimentava ninguém. Além do mais isso não era coisa para mulheres! — Dizia. Eram camponesas e não passariam disso, assim decretava a sorte das filhas.

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Gabrielle sabia que estava contrariando as ordens de Herodotus, mas o apelo de seu coração era mais forte que o temor pelo pai. Em segredo inscreveu-se no concurso. Gabrielle queria sentir pelo menos uma vez como era a experiência mágica do palco, o nervoso dos bastidores. A jovem foi recebida com entusiasmo pelo Bardo; ela escolhe o tema.

Além do mais que chance teria competindo com candidatos mais experientes e letrados que eu? — Gabrielle pensou.

As apresentações seriam julgadas por Femios e pelo próprio Alcíno. Os juízes percebiam logo qualquer extravagância e erros dos candidatos no texto de uma epopeia. Bastava um simples murmúrio ou pigarrear dos jurados para fazer os concorrentes perceberem o desagrado dos juízes.

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Algumas horas depois o jovem Perdicas entra correndo eufórico na casa de Herodotus gritando: — GABRIELLE GANHOU O CONCURSO!

O homem se assusta com grito do rapaz e surpreso diz: — Quê? Como assim?

— GABRIELLE GANHOU O CONCURSO DOS BARDOS! — Repete o rapaz, mostrando uma alegria tão intensa que parecia ser ele o ganhador.

Herodotus se dirigiu furioso para o teatro da cidade. Ficou surpreso ao entrar, terminara a exibição, ele vê Gabrielle no palco e a plateia aplaudindo-a de pé, maravilhada com a jovem.

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Logo no início da apresentação, mesmo acostumada as zombarias do pai e da irmã, Gabrielle tremeu ao ver a plateia.

— Pelos deuses é uma mulher! — Alguém da plateia exclama em alto som.

Uma agitação de desagrado circulou por todo teatro inquietando seu coração. Sempre que se apresentava um novo candidato começava um murmúrio para depois explodir em vaias, assovios e risos debochados ou num silêncio significativo. A tempestade estava por um fio. A novidade da situação, a recepção dos espectadores, os cochichos maliciosos dos demais concorrentes, tudo gelou seu raciocínio. Ficou pálida e muda perante aquelas dezenas de olhares que a crivavam como se fossem fechas.

Naquele instante quando parecia que o chão lhe faltava, Gabrielle viu em pé junto a porta, uma mulher de incomparável beleza; traços marcantes, olhos de uma tonalidade azul nunca visto naquela região, alta, longos cabelos negros, de porte forte, com os braços cruzados sobre o peito impunha respeito a quem se aproximasse. Pareceu que despertara em sua imaginação uma daquelas vagas lembranças que ela acariciara em seus momentos de ilusões infantis. Continuando a olhá-la Gabrielle sentiu desaparecer o terror de se apresentar diante do público.

Reanimando-se Gabrielle começou a contar a “Odisseia de Ulisses”, sem saber que um dos jurados era o autor e o declamador da epopeia na corte de Ítaca. Apenas se ouvia a sua voz, clara e desembaraçada. Gabrielle esqueceu a plateia e o risco que a ameaçava, sentia como se a presença da estranha lhe desse um poder desconhecido. Aquele feitiço só acabou quando terminou a apresentação e viu seu pai parado junto à porta.

Femios não se movia. Toda plateia se levantou como se fosse uma só pessoa numa tempestade de aplausos. Gabrielle estava trêmula e em toda a plateia via só o rosto do pai. Seguindo a direção daquele expressivo olhar, Alcíno compreendeu o seu significado.

A expressão de Herodotus era de raiva e indignação. Ele não era um pai carinhoso, muitas vezes quando criança a sensibilidade de Gabrielle afastava-a do pai, indo chorar escondida na suposição de que ele não a amava e que sua predileta era Lila.

Alcíno conhecendo o temperamento rude do agricultor corre para Herodotus o segura firmemente pelo braço e diz:

— Homem escuta a plateia, tua filha é um êxito, uma artista, ela nasceu com o dom no sangue. Não a castigue, nem a atormente com tuas grosserias.

Femios se dirige para a jovem loira se desdobrando em elogios, aclamando-a como Diva. Emocionado ele se apresenta, Gabrielle se surpreende ao saber que estava na presença de um dos mais famosos Bardos do país.

A jovem desceu do palco e tentava passar por entre os admiradores. Procura pela mulher, até que seus olhares se encontraram. Gabrielle sentiu o sorriso dela chegar ao fundo do seu coração, para nele viver eternamente e despertar em sua alma sentimentos confusos.

Femios e Alcíno convidam Herodotus para conversar. Inicialmente tamanha era a irritação do lavrador por ter sido desobedecido que relutava em ouvir as razões que os dois mestres Bardos insistiam em mostrar sobre o talento de Gabrielle.

Quando ouviu a proposta de Femios custear os estudos de Gabrielle na Academia de Atenas, o agricultor teve um choque, a proposta foi como uma dádiva dos deuses. Finalmente alguém da família teria uma vida melhor, mais digna, com estudo e quem sabe até mais posses. Mas isso teria seu preço, perderiam Gabrielle para o mundo teatral.

Os pensamentos de Hécuba e Herodotus se remoíam em dúvidas e temores que se embaralhavam à vontade de permitir uma vida melhor a filha.

Gabrielle por sua vez estava amedrontada e insegura. Estaria em companhia de pessoas estranhas por um longo período, um mundo desconhecido, mas ela e seus pais sabiam que a oportunidade que surgiu seria única e pedindo que a deusa Atena a protegesse seguiu seu novo caminho.

................... A desconhecida.

Como era sedutor aquele mundo que se abria para Gabrielle. Era o único que parecia se harmonizar com seus pensamentos. Femios lhe dera os mestres mais afamados. Ia ler, estudar, aprender a descrever com gestos e olhares as estórias que iria contar para o público.

Frequentemente Gabrielle entrava nos jardins da academia, sentava-se a sombra da parreira, olhando pra o céu azul e as nuvens que se dispersavam com o vento até aparecer a primeira estrela nos crepúsculos do verão. De vez em quando o rosto daquela mulher desconhecida surgia na sua mente de maneira tão viva como na primeira vez que a viu.

A educação artística de Gabrielle terminou aos 18 anos. Femios declara que chegara o dia de escrever um novo nome na sociedade artística Ateniense e depois seguiriam pelo país encantando o público, mas ao mesmo tempo notava-se que o Bardo andava irritado com sua pupila. Frequentemente aconteciam divergência de opiniões entre eles que nem sempre terminavam bem. Um dia tudo terminou com uma forte discussão, Gabrielle não o acompanharia, tinha desfeito o contrato e retorna para casa.

Sem saber das dificuldades da relação entre Femios e Gabrielle, Herodotus repreendeu a filha e sempre que podia resmungava sobre o assunto, mas a família a acolheu festiva e carinhosamente.

Gabrielle costumava visitar Alcíno e os dois conversavam longamente sobre poesias, contos e sonhos não realizados. Quando não estavam conversando a moça gostava de olhar o céu. Enquanto ela estava com o pensamento divagando, passava pela rua uma mulher puxando pelas rédeas um belo cavalo amarelado de crina, cauda e patas brancas. Gabrielle espantou-se ao ver a desconhecida do teatro e sem pensar duas vezes a chama: — Oláááá moça!

A mulher vira-se olhando-a com certa surpresa. Depois de dois anos fora da cidade elas voltaram a se encontrar. Os olhos azuis se fixaram no lindo rosto da loira. Eram de tal maneira intensos que Gabrielle se desconcertou.

— Olá! — responde a mulher ensaiando um sorriso.

A loira estava totalmente embaraçada, sem saber o que dizer. Um longo silêncio pairou no ar, finalmente a mulher quebra o silêncio: — Você quer falar comigo?

— Ah é, bem é que eu queria lhe agradecer. — Diz a loira sem jeito procurando assunto para falar.

— Me agradecer pelo que? — Pergunta a mulher intrigada.

— Por uma coisa que aconteceu a dois anos atrás, um concurso de Bardos que teve por aqui durante o solstício de verão, mas que bobagem a minha, é claro que você não vai se lembrar.

— Está enganada eu lembro sim, você ganhou o concurso não foi? — Responde a mulher, abrindo o belo sorriso que encantou Gabrielle e que vivia em suas lembranças desde o dia que a vira pela primeira vez.

Gabrielle se surpreende com a resposta. — Você é de onde? — Pergunta a loira tentando continuar a conversa.

— Sou de Amphípolis, mas vivo na estrada, não tenho lugar fixo. — Responde a mulher e continua: — Qual o seu nome menina?

Gabrielle responde zangada: — Eu não sou mais uma menina, tenho 18 anos e meu nome é Gabrielle.

— Gostei de conhecê-la Gabrielle, meu nome é Xena, mas agora tenho que ir. — A mulher faz menção de continuar seu caminho, mas a loira está fascinada com aquela estranha.

— Para onde você está indo? — Pergunta a loira curiosa.

Um levantar de sobrancelha era sinal que a curiosidade da loira começava a incomodar.

— Vou à taberna beber alguma coisa, depois comprar mantimentos e partirei. — Xena responde secamente.

— Você já vai? Não vai ficar na cidade mais um pouco? — Gabrielle pergunta demonstrando seu desconforto com a partida da mulher.

Xena para e examina as feições delicadas da Barda e diz: — Escute, agora que o acaso nos colocou próximas quero te dar um conselho, eu não sou uma boa companhia. Acredite.

Gabrielle a encara compreendendo o conselho de Xena ela tenta dizer algo, mas sua garganta trava.

Xena a observa, inexplicavelmente sentia certo incômodo em deixar aquela jovem, mas ela tinha uma vida de guerreira errante, perigosa, solitária e já tinha se acostumado com isso.

Finalizando a conversa Xena diz: — Adeus Barda, sucesso no seu caminho!

— Adeus Xena! — Um impulso irresistível, um vago sentimento de perda e de esperança, faz Gabrielle insistir: — Não a verei mais em Potedaia não é?

— Não. Pelo menos por algum tempo. — Xena responde secamente e afasta-se lentamente.

Gabrielle permaneceu silenciosa e meditativa. Acompanhou Xena com o olhar como se quisesse detê-la. Sem dúvida daria tudo para vê-la voltar.

Xena seguiu pelo caminho que levaria a taberna, puxando tranquilamente o cavalo pelas rédeas.

................... Rapto frustrado.

Em uma noite de esplêndido luar, Xena está sentada junto à fogueira amolando a espada. Por mais que tente evitar, seus pensamentos se voltam para a jovem loira. A delicada beleza de Gabrielle parecia tê-la enfeitiçado. Seus olhos, o sorriso, seus cabelos dourados, tudo naquela jovem mexia com seus sentidos.

— Por Zeus, o que está acontecendo comigo? — Diz a si mesma. O desejo de rever Gabrielle era quase incontrolável.

Verifica se o cavalo está bem. — Boa noite amigo! — Diz enquanto acaricia o focinho do animal. Estende a manta próxima à fogueira e acomoda-se, mas não consegue dormir, olha o céu iluminado pela lua.

— Que será que ela está fazendo agora? — Pergunta a si mesma.

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— Você já se apaixonou por alguém Lila? Um amor de verdade que quando você pensa na pessoa, não pode se imaginar com outro alguém? — Gabrielle pergunta, tentando puxar conversa com a irmã sonolenta com quem divide o quarto.

— Huumm... Gabrielle vai dormir! — Responde Lila se acomodando melhor na cama.

A loira insiste, mas não obtém nenhuma resposta, passados alguns minutos ouve o ressonar da irmã. Gabrielle acomoda-se, mas não consegue dormir, andava dormindo pouco e quando dormia seu sono era agitado. Já tinha decorrido um ano desde que Xena tinha partido. Todos tinham esquecido dela, exceto o coração de Gabrielle. Frequentemente a loira sonhava com ela e acordava sobressaltada, suada. Eram sonhos tão reais como se Xena a estivesse realmente tocando; seu sorriso, seus olhos, seu porte, a lembrança daquela mulher não lhe dava sossego. Tinha que voltar a vê-la, mas como? Não tinha notícias dela, sem paradeiro e solitária.

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Novamente as festas de solstício de verão chegam. O concurso de Bardos se tronara conhecido em outras cidades e o número de candidatos crescia a cada ano. Gabrielle já era uma Barda conhecida em várias cidades. Nos dias de suas apresentações o teatro lotava, suas interpretações faziam derramar lágrimas ou inspiravam raiva. Não se poderia encontrar outra mulher que expressasse melhor em palavras os sentimentos de amor ou o ciúme.

Como de hábito, à noite Perdicas foi ao teatro. Por trás da cortina observava Gabrielle, que interpretava um dos mais belos contos gregos. A paixão pela loira era visível no rapaz. — Essa encantadora criatura ainda será minha esposa. — Pensava.

Concentrado em seus pensamentos, não viu a mulher que também observava Gabrielle por trás da cortina. Pouco depois a mulher desaparece dos bastidores.

A Barda interpretava o conto de uma pessoa que ama sem ser correspondida e sentia sinceramente sua interpretação. De repente ela sente seu coração quase parar quando vê Xena na plateia. O auditório escutava atento, mas os olhos da Barda buscavam somente uma espectadora.

Xena ouvia e observava a Barda com atenção, mas nenhuma emoção alterou o semblante frio da guerreira. Quando termina o conto, as lágrimas corriam pelo rosto da loira.

A plateia aplaudiu de pé o desempenho da Barda, muitas mulheres não continham as lágrimas. Gabrielle deixou o palco e Perdicas aproximou-se dela com flores e galanteios apaixonados, mas a loira não deu atenção às palavras do rapaz.

O público pede seu retorno ao palco; ela retorna mais pela ansiedade de ver Xena do que para atender ao apelo da plateia, mas não a encontra mais. A tristeza se abate imediatamente sobre seu coração. Curva-se em agradecimento e retorna aos bastidores não contendo mais as lágrimas. Todos acreditam que são lágrimas de emoção, pois nenhum mortal tem o poder de ver como seu coração está sangrando.

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— Por Zeus, esta jovem acendeu a paixão em minha alma. Ela será minha! — Exclamou o comerciante de Corinto que fazia da pacata Potedaia sua parada obrigatória para descanso de viagem. O homem faz sinal para o criado franzino que o acompanha.

— Philemon avisa os outros criados que hoje à noite irão raptar essa linda moça e levá-la para meus aposentos. — Ordena o comerciante.

O criado o olha espantado: — Senhor, quando ela voltar para casa vai falar sobre essa violência. Pense bem senhor.

— Como ousas discutir minhas ordens, faça o que estou mandando! — Esbraveja o homem.

— E se o rapaz acompanhá-la? — Pergunta o criado se referindo à Perdicas.

— Quem? Aquele imbecil? Encenem um assalto, tirem tudo que ele estiver levando e matem-no, agora vá. — Determina o comerciante.

O criado vai providenciar o que lhe foi ordenado. Nenhum dos dois percebe a mulher em pé as suas costas, que sai logo em seguida ao criado.

Gabrielle volta para casa acompanhada pela mãe, a irmã e Perdicas. A chama da tocha que o rapaz carregava, produzia sombras fantasmagóricas no caminho. Caminhavam pela parte menos habitada da cidade já iniciando a área rural. De repente o grupo foi cercado por homens armados de punhais e paus; três bem fortes e um mais franzino que se mantém afastado segurando os cavalos.

O mais forte deles agarra o braço de Gabrielle e a puxa do grupo. Hécuba e Lila tentam uma reação, mas são violentamente derrubadas pelos outros homens. Perdicas reage, mas um soco o atinge derrubando-o no chão. Os homens ameaçaram agredir os três a pauladas.

Gabrielle se debatia, tentando se soltar, mas seu esforço era em vão. O homem agarra Gabrielle pela cintura e a joga sobre o ombro como se carregasse uma saca de trigo e se dirige para os cavalos. De repente um vulto sai da escuridão com um urro aterrorizante. O primeiro homem é atingido com um violento chute nas costelas e logo em seguida tem sua garganta cortada, fazendo o sangue espirrar a distância; o outro reage tentando acertar o vulto que se movia e se esquivava dos golpes com uma agilidade inacreditável.

Lila e Hécuba socorrem Perdicas ajudando-o a se levantar. Olhavam espantados o vulto que atacava os homens com uma fúria bestial.

O segundo homem recebe um violento chute no joelho, grita de dor agarrado ao joelho, antes que ele atinja o chão recebe um chute no queixo, fazendo voar uma massa de dentes e sangue. O homem caiu com a mandíbula deslocada e o joelho partido. A espada gira em arco no ar e desce sem piedade no peito dele.

O homem franzino está paralisado de medo. O homem que carregava Gabrielle já estava próximo aos cavalos quando se ouve um zunido de alguma coisa cortando o ar em grande velocidade; um grito de dor e o homem desaba no chão com o tendão do calcanhar cortado profundamente por um disco de metal. Gabrielle tenta se desvencilhar do corpo pesado do homem. O vulto se aproximou do homem ferido que como último recurso tira o punhal do cinto e ameaça Gabrielle tentando usá-la como escudo.

Com a velocidade de um raio, o homem tem a mão do punhal decepada. Ele berra de dor, o sangue jorra por todos os ferimentos, mais um giro da espada e a barriga dele é traspassada sem piedade.

Perdicas, Lila e Hécuba ficam pasmos quando identificam que o vulto é a mulher que estava no teatro assistindo Gabrielle.

A mulher ajuda Gabrielle a levantar e pergunta: — Você está bem?

Quando ela se ergue se depara com Xena, sem responder Gabrielle a abraça. Por não estar acostumada a demonstrações de carinho, a princípio Xena fica surpresa e desconcertada, mas a proximidade do corpo de Gabrielle desmancham as defesas da guerreira. Ela abraça a loira com força, aconchegando aquele pequeno corpo ao seu, sentindo seu coração disparar. Agora ela não tinha mais dúvida quanto ao seu sentimento por Gabrielle.

................... Sentimentos inexplicáveis.

Xena acompanhou o grupo até a casa de Herodotus. Hécuba vai à procura do marido. Lila tentava puxar assunto com Perdicas, mas o rapaz mal lhe dava atenção, observava a admiração com que Xena olhava para Gabrielle.

Nesse instante Herodotus chega na sala acompanhado da mulher. Quando Gabrielle e Lila veem o pai correm para abraçá-lo. A mulher já o informara que foram atacadas. Ele abraça as filhas e se dirige à Perdicas para agradecer ter salvado suas três preciosidades. Lila e Hécuba se entreolham.

Gabrielle sente o rosto corar. — Não pai, você está enganado, quem nos salvou foi Xena. Se estamos todos bem foi graças a ela! — Diz a loira.

Herodotus olha surpreso para Xena examinando-a da cabeça aos pés. Com um seco “Obrigado”, ele agradece a guerreira. O ar na sala ficou tenso. Hécuba quebra a tensão com um riso nervoso, chama Lila e Gabrielle para ajudarem a preparar uma pequena ceia para comemorarem o dia que terminou com todos bem.

Perdicas, Herodotus e Xena se examinam discretamente. Apesar de conversarem, um clima desagradável pairava entre os homens e a guerreira que não estava acostumada a esse tipo de confronto; se sentia como um peixe fora d’água e isso a irritava.

Onde estou com a cabeça? — Pensou. Desculpando-se, Xena se despede.

Algum tempo depois Hécuba e as filhas voltam para a sala, trazendo frutas, uma saborosa polenta, pão e uma jarra de vinho. O sorriso de Gabrielle desaparece quando não encontra Xena.

— Onde ela está? Foi embora? O que aconteceu? — Pergunta a loira. — Um olhar entre Herodotus e Perdicas não passa despercebido da loira. Ela corre para fora da casa, procurando por Xena, olha aflita em todas as direções, mas sabe que não vai encontrá-la.

Perdicas a segue, surpreso com a reação da loira o rapaz tenta acalmá-la. Depois retornam para a casa com Gabrielle se esquivando do rapaz que insistia em abraçá-la para que se acalmasse.

Era uma comemoração simples, todos estavam alegres, conversavam e bebiam animadamente, Gabrielle participava, mas sem o mesmo entusiasmo dos outros.

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Gabrielle passou a noite em claro pensando em Xena, tinha que encontrá-la, falar com ela. Agradecer, mas na realidade era um pretexto para vê-la. Vai até a cidade, procurar por ela e encontra Xena ajustando os arreios no cavalo.

— Xena! — A voz de Gabrielle faz a guerreira virar-se, mas sua fisionomia é séria.

— Olá Barda, teve uma boa noite? — Xena pergunta friamente.

Gabrielle se aproxima e toca o braço da guerreira. O simples toque da loira estremece Xena, mas ela continua a arrumação para a viagem.

— Xena, por favor precisamos conversar. Olhe para mim. — A voz de Gabrielle é suplicante.

— Está bem mocinha, o que você quer falar? — Xena vira-se e se depara com aflitos olhos verdes e um rosto triste e abatido de quem passou a noite às claras.

— Olhe, eu não sei o que aconteceu ontem à noite ou que meu pai te disse, mas seja lá o que for quero pedir desculpas. — Diz a loira.

Xena vê no fundo daqueles olhos a pureza da alma e a sinceridade dos sentimentos daquela linda moça.

— Não houve nada demais, apenas conversamos um pouco. — Uma breve pausa e a guerreira continua. — Aquele rapaz... Perdicas, ele gosta de você, vai fazê-la feliz! — Xena engole em seco.

— Quê? — A surpresa de Gabrielle é visível. — Xena escute..., eu não amo Perdicas.

Gabrielle se aproxima, seu rosto mostrava a aflição de não conseguir expressar os sentimentos confusos que embaralhavam seus pensamentos. Não conseguia explicar a sensação de sentir seu corpo queimar, seu coração bater mais rápido quando estava perto de Xena e da sensação maravilhosa que teve quando se abraçaram na noite anterior, de aconchego, segurança, de sentir sua vida preenchida.

A guerreira interrompe a Barda: — Talvez você não o ame agora, mas vai amá-lo quando o conhecer melhor. Você será feliz e estará segura com ele, formarão uma bela família.

A loira recua aflita: — Nunca pensei nisso! — Gabrielle responde com energia.

A Barda fixa o olhar em Xena e continua: — Escute, não confunda o sentimento que tenho por Perdicas. Não sei o que sinto por ele, mas posso dizer que não é o mesmo que..., que sinto por você. — A loira enrubesce, a voz aflita denunciava o nervosismo. — Se o amor é como descrevem, como tenho lido, como tenho interpretado no palco, o que sinto por ele é apenas um afeto de amigo. O que sinto por você é diferente..., é como se fosse uma atração sobrenatural. Não sei explicar. — A loira sente o rosto em brasa, está trêmula e envergonhada.

Xena está surpresa com o que acaba de ouvir. Aquela jovem pura de corpo e alma estava abrindo seu coração de maneira tão sincera que estremece o coração da guerreira, mas sua vida era perigosa, errante, não pediria que Gabrielle a acompanhasse por mais que sentisse sua falta.

Num fio de voz Gabrielle pede: — Por favor, me leve com você. Essa vida não é para mim, eu quero que você me ensine tudo que sabe.

— Sabe o que está pedindo? Você não tem noção do perigo que vai correr! — Diz Xena.

Gabrielle não responde, num rompante ela abraça Xena se aconchegando em seu peito. — Sinto sua falta! Me leve com você. — Gabrielle murmura emocionada.

A guerreira sente como se o ar faltasse, com um esforço digno de Hércules, ela afasta a loira e diz:

— Gabrielle, meu destino é incerto. Se alguma coisa lhe acontecesse seus pais jamais me perdoariam. Por favor, não torne as coisa mais difíceis. Você viu do que fui capaz com aqueles homens ontem à noite. Pense bem, você seria capaz de conviver com isso? — Pergunta a guerreira.

A barda fica pensativa: — Eu quero seguir com você para onde você for. — Diz por fim.

— Gabrielle..., eu sou uma guerreira, minha vida é na estrada, é uma vida de perigos, privações, solidão e isso não é para você. Não posso tirá-la da sua família, do seu conforto, de ter um futuro tranquilo, seguro, bem melhor do que estando comigo.

Xena sente imensa ternura pela jovem, um sentimento até então desconhecido para ela. Procura forças no mais profundo de suas entranhas para resistir à vontade de abraçar e acariciar Gabrielle.

— Você está impressionada comigo, só isso. O melhor que você fará será me apagar da sua vida e do seu coração. — A voz da guerreira era firme e fria, totalmente oposta aos desejos de seu coração.

— Xena, não se mostre para mim como um presságio de tristeza e desgraça... — Gabrielle parou de falar, brilhavam lágrimas em seus olhos. Passados alguns segundos volta a falar com a voz trêmula:

— Pensa que se mandasse no meu coração teria escolhido sofrer por um sentimento não correspondido? — As lágrimas desciam pelo pequeno rosto, abaixa a cabeça e esconde o rosto entre as mãos. Não consegue mais falar, o choro não consegue mais ser disfarçado.

Xena sente seu coração bater mais forte, se aproxima de Gabrielle, levanta seu rosto molhado de lágrimas e as enxuga com delicadeza. Demorou-se examinando cada pedacinho daquele rosto angelical. Os olhos verdes esmeralda, o nariz, os lábios, o queixo, tudo era perfeito.

— Por favor, não insista. Eu vou partir e não sei se voltaremos a nos ver algum dia. Me esqueça. — A voz de Xena era amargurada. — Não me crie problemas. Volte para sua família e seja feliz! — A guerreira vira-se para o cavalo e volta a ajustar a cela. Um nó sufoca sua garganta, mas não voltará atrás.

Gabrielle sente uma dor aguda no coração. As palavras de Xena a atingiram como a profunda estocada de uma lança. Ela sai disparada chorando.

................... Surpresas inesperadas.

Já faziam oito meses desde que Xena partira novamente. Gabrielle não veria mais a princesa dos seus sonhos. À noite centenas de lembranças trazem a guerreira de volta a sua vida. Sentada do lado de fora da casa ela olhava o distante céu azul absorta em seus pensamentos.

Parada na porta Hécuba tentava conversar com ela.

— Filha..., Perdicas é um bom homem, trabalhador e ama você. Nós faríamos muito gosto que vocês se casassem. — Diz a mulher com a terna voz materna.

Gabrielle olha rapidamente para mãe e volta a olhar o céu sem responder. O coração de Hécuba sofria com a tristeza da filha que não era exposta com palavras, mas sentida no coração. Hécuba percebe que não adianta insistir, pois não terá resposta.

— Daqui a pouco seu pai vai chegar, vou preparar o jantar. — Dá uma última olhada para a filha e entra.

Enquanto estava perdida no seu mundo, aproxima-se um homem que tocando levemente seu braço diz: — Olá linda Barda! Posso me sentar?

Gabrielle vira-se ensaiando um sorriso ao ver Perdicas. Tomando o sorriso como consentimento ele senta-se ao lado dela.

— Gabrielle preciso que me escute... — Ele engole em seco, retorce as mãos de nervoso, sente o suor frio brotar na testa. Gaguejando Perdicas expõe seu desejo de tê-la como esposa.

A loira ouviu tudo sem mostrar surpresa e responde: — Perdicas não sou insensível aos seus sentimentos, sei que você é sincero, tenho um grande carinho por você, mas não me sinto capaz de te fazer feliz.

— Você é capaz sim. Você é a criatura mais doce que conheço. Eu gostaria de fazer a minha família, mas teria que ser com a mulher que eu amo e sempre amarei..., você. Eu te amo Gabrielle. — Perdicas levanta delicadamente o rosto da loira e beija seus lábios com ternura. Hécuba assiste a tudo pelas frestas da janela.

Mais alguns meses se passaram. A constante presença do rapaz vai aos poucos tranquilizando o coração da loira. Chegava a se sentir mais animada e alegre com suas visitas, mas seus sentimentos em relação à Perdicas ainda eram inseguros.

Despertando de um sono agitado Gabrielle sentiu desejo de escrever, um desejo nascido da alma, do coração. Resolveu expor em palavras seu sonho e pensamentos. Adorava o cheiro do pergaminho novo. Enquanto escrevia, suspirava e corava.

Quando termina, lê o que escreveu e percebe que o poema se inspirava numa certa pessoa e não era Perdicas.

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Em uma das ruas mais movimentadas de Corinto, fica o sobrado de um rico comerciante da cidade. Três grandes janelas deixavam entrar a claridade do sol, uma suave brisa arejava o cômodo. Uma mesa próxima a uma das janelas acomodava uma jarra com água, copos e uma bandeja com frutas. Uma grande mesa ocupava o centro da sala. Sobre a mesa um punhal usado para tirar os lacres de documentos e vários pergaminhos e nesse cômodo está o comerciante e seu criado Philemon.

— Tu me falhaste quando eu mais contava contigo. Além do prejuízo de ter perdido três escravos. — Disse o homem olhando com desprezo o criado, que permanecia de olhos baixos junto a uma coluna. Suas costas ainda doíam das chicotadas que levara.

— Tens certeza que não existe nada que possa identificar o miserável que prejudicou meus planos naquela noite? — O homem pergunta.

O criado se limita a balançar a cabeça afirmativamente sem levantar os olhos. — RESPONDE FILHO DE UMA BACANTE! — Berra o homem.

O criado tem um sobressalto e gaguejando responde: — Te... tenho sim senhor.

Philemon não se atreveu contar ao comerciante que o grupo foi quase todo exterminado por uma mulher que tinha a força de dez homens, que lutava com uma fúria bestial como se estivesse possuída por Ares. Mantinha a lembrança da mulher derrubando-o do cavalo e pressionando dois pontos em seu pescoço dizendo:

— Acabei de cortar o fluxo de sangue para o seu cérebro, você tem trinta segundos para me dar algumas informações, senão...

Ele vai engasgando com a própria saliva, o ar começava a faltar, ele se debatia tentando respirar, seu pescoço estavam inchando, suas têmporas latejavam, foi ficando com uma tonalidade arroxeada, seu cérebro estava prestes a explodir tamanha a pressão.

— Aaahhrr..., — Tentava gritar.

— O tempo está passando. — A mulher sadicamente o aterrorizava. — Vai logo seu miserável, conte tudo!

Ele delata todo o plano do rapto e seu mandante. Xena pressionou novamente os mesmos dois pontos no pescoço desfazendo a paralisia e lhe dá um potente soco. Ele desmaia instantaneamente.

A voz do comerciante o traz de volta à realidade. — Necessito de consolo pela perda de minha “querida” esposa e quem poderia me oferecer maior distração que aquela linda Barda? — Diz o homem com sarcasmo.

O criado pergunta: — Outra emboscada, senhor?

— Hoje tem uma apresentação da Barda em Potedaia. Quando a jovem sair do teatro quatro homens já estão esperando por ela e mais três armados acompanharão de longe, caso apareça algum herói tentando salvar a moça.

Um criado entra na sala e anuncia que uma mulher deseja falar-lhe. O comerciante acomoda-se na cadeira e ordena que a mulher entre. Philemon empalidece, seu corpo todo estremece ao reconhecer a desconhecida que matara seus três companheiros na noite do rapto fracassado. Ele se comprime contra a coluna, seu coração bate apavorado.

O comerciante examina a mulher com estranheza. Apesar da indiscutível beleza, o porte, o caminhar firme e o traje que usa não era característico das mulheres de Corinto. — Uma estrangeira. — Pensou.

— Pois não bela mulher, o que deseja? — Diz o homem cumprimentando-a. — Como é que se chama?

A mulher se aproxima da mesa. A voz é firme e ameaçadora. — Meu nome é Xena e vamos direto ao assunto. Parece que o senhor tentou molestar uma amiga. Quero preveni-lo que não torne a chegar perto dela novamente.

O homem espantado se recosta na cadeira. Philemon amedrontado se comprime ainda mais contra a coluna. O homem ordena ao criado: — Me traga água, estou com sede. Aceita água senhora?

Xena não responde, a ameaça em seu olhar o faz estremecer. O comerciante tentava evitar aquele olhar.

— Está havendo algum engano senhora, não sei do que está falando. — Diz o homem.

Xena espalma as mãos sobre a mesa e sem desviar o olhar ameaçador diz: — Afaste-se da Barda. Se alguma coisa acontecer a ela eu vou caçá-lo nos confins do Tártaro e nem os deuses vão lhe salvar.

O homem empalidece, se remexe na cadeira; tenta intimidar a guerreira: — Sua vadia, como se atreve, sabe quem sou eu?

Xena pega o punhal sobre a mesa e o crava firmemente no pergaminho em que o homem escrevia e finaliza a ameaça.

— Já foi avisado! — Ela vira-se e sai dando uma última olhada em Philemon que treme segurando a jarra de água junto à mesa.

Passados o choque, o homem furioso atira tudo que está sobre a mesa no chão. Depois de extravasar a raiva, ele diz a Philemon:

— Ninguém me ameaça e sai ileso, quero essa prostituta morta antes do dia acabar. Agora mais do que nunca quero aquela moça, nem que isso custe parte da minha fortuna.

Philemon murmurou algumas palavras: — Senhor..., não estamos na pequena Potedaia, aqui existem leis.

— Leis de ferro que se dobram ao poder do ouro. — Responde o comerciante, soltando uma estridente gargalhada.

................... Peso na consciência.

O comerciante era um homem poderoso, ninguém se atrevia a contrariá-lo. A vida humana não significava nada para o maldito, o que importava era que realizasse seus desejos asquerosos e aumentasse sua fortuna, não importando os meios que usaria para consegui-lo. Ele irritava-se ao pensar naquela mulher que o desafiara. — Prostituta miserável veremos se você consegue sobreviver ao veneno. — Pensou.

— PHILEMON! — Berra o comerciante.

O criado entra no aposento se curvando em obediência. — Sim meu senhor!

— Então já descobriste onde a prostituta está hospedada? — Pergunta o homem.

— Sim meu senhor, ela está na hospedaria das Dríades do outro lado da cidade. — Responde o criado.

— Dá esta moeda de ouro ao homem da taberna e mande-o colocar esse líquido numa garrafa de vinho e servi-lo a vagabunda. — Diz o homem entregando um pequeno frasco ao criado.

O veneno produzia dores, convulsões e sufocamento após alguns minutos de ingerido e se misturado ao vinho era imperceptível pela vítima.

Como ordenado Philemon foi à hospedaria. Viu Xena sentada em uma mesa no final da taberna. Subornou o taberneiro que se encarregou de envenenar o vinho e de longe com o rosto coberto pelo capuz do quitão observava a cena. Uma sensação de desprezo por si mesmo invadiu seu coração.

O taberneiro oferece o vinho como cortesia da hospedaria para os estrangeiros. Xena olha o taberneiro desconfiada, mas aceita a bebida. Serve-se, cheira e olha desconfiada para o conteúdo da caneca. Depois de alguns minutos resolve beber. Quando aproximava o vinho dos lábios, leva um violento tapa na mão, derramando o vinho sobre a mesa.

— Não beba, está envenenado! — Diz Philemon descobrindo a cabeça.

Instantaneamente Xena se levanta prestes a sacar a espada quando reconhece o criado. O segura pelo quitão sacudindo-o com força.

— Você quis me envenenar seu miserável? — A mulher esbraveja com os olhos cintilando de raiva. Philemon cai em prantos.

— Foi seu senhor que mandou não foi? — Diz e dá uma violenta sacudida no homem franzino. Xena o empurra para a cadeira e senta-se ao lado dele que chora de cabeça baixa escondendo o rosto entre as mãos.

— Se não quiser morrer aqui mesmo, é melhor me contar tudo! — Ameaça a guerreira.

Entre soluços Philemon conta os planos do comerciante de novamente raptar a Brada e que dessa vez ele tinha tomado precauções para não falhar e que Xena deveria salvá-la do destino terrível que seu senhor tinha para a jovem.

Xena retesa os músculos, os punhos se fecham, a fúria vai crescendo nas suas entranhas ao ouvir cada detalhe. — E porque você está me contando tudo? Seu senhor vai matá-lo!

— Estou cansado de viver. Há muito tempo minha vida foi destruída por aquele monstro, minha mulher e filha foram vendidas no mercado de escravos. Supliquei de joelhos que não tirasse minha família, mas o miserável enxergava apenas o lucro que teria com a venda das duas. Partiram num navio com destino à Índia e nunca mais soube delas. — Diz Philemon já tendo controlado o choro e continua: — Tenho em minha consciência o peso das mortes de inocentes, de virgens violentadas e vários outros tipos de crimes cometidos pelo meu senhor em que tive participação e não quero acrescentar mais mortes aos meus ombros.

Xena o ouve, a fisionomia de desespero do homem, não deixava dúvidas que ele estava sendo sincero.

— Me espere aqui. — Ordena a guerreira.

Xena corre no quarto, pega os apetrechos de montaria e retorna a tempo de ver várias pessoas em volta da mesa. Abre caminho e encontra Philemon caído no chão curvado, segurando o abdômen em convulsões violentas, uma baba espumosa branca escorria de sua boca. Xena o segura em seus braços somente a tempo de ouvir suas últimas palavras.

— Sa... salve a Bar...da. — Ele respirou fundo uma última vez, o corpo retesou, sua boca espumosa permaneceu aberta, a cabeça pendeu para trás e seus olhos não se abriram mais.

— O que aconteceu? — Xena perguntou.

— Não sabemos ele tomou um copo de vinho e depois começou a engasgar, caiu no chão, ficou se debatendo e começou a babar. — Responde uma mulher. — É alguma doença?

— Foi castigo dos deuses! — Disse outra mulher.

Xena coloca o homem no chão e responde: — Não é doença nem castigo, foi veneno.

Xena corre disparada para o estábulo, arruma os apetrechos no cavalo e monta de um salto. Argo dispara pelas ruas da cidade com a velocidade de um raio com destino a casa do comerciante do outro lado da cidade.

........... O sonho.

Gabrielle entra numa sala de onde saía um vapor leve e claro. Aos poucos, o vapor vai se dispersando. Então surgem sucessivas paisagens de vales e montanhas. Em um local distante ela vê Xena sentada em uma pedra. Gabrielle corre para os braços da guerreira que a acolhe com carinho num apertado abraço.

— Enquanto não te conhecia eu não sabia como era forte a união de almas. Eu pensava que era tudo imaginação, mas agora eu não suportaria que me dissesse para ser feliz com outro. — Diz a loira.

— Nem eu te diria isso. — Respondeu Xena.

— Mas às vezes eu vejo você triste. — Diz a Barda.

Xena suspirou e emudeceu, parecendo pensativa. — Você não deseja saber algo mais sobre mim?

— Você não tem que me contar tudo o que faz, eu respeito isso. — Responde Gabrielle.

— Você não tem medo do futuro? — Pergunta a guerreira.

— Para mim o presente e o futuro é você. — Gabrielle responde.

Xena sorri, levanta o rosto de Gabrielle e beija seus lábios de uma forma apaixonada, um beijo intenso como nunca sentira igual.

Gabrielle acorda de um pulo, sobressaltada, respiração ofegante. Sua cabeça dói, é então que percebe estar num quarto desconhecido. Sozinha naquele cômodo, vai se lembrando do ataque que sofrera.

Estava acompanhada de Perdicas e sua mãe, ao final da apresentação quando abriu a porta do teatro viu os dois serem empurrados com brutalidade por quatro homens de cabeças cobertas pelo capuz do quitão. Sentiu a mão enorme pressionando seu nariz e boca; ela se debatia, mas o ar começava a faltar. De repente uma espécie de névoa se movia ante seus olhos, por segundos quando abriu os olhos novamente viu-se amarrada e amordaçada; novamente uma nuvem escura e as imagens vão ficando distorcidas e o ambiente ao seu redor ficando escuro.

De repente a porta abriu-se e apareceu o comerciante.

— Olá doce criatura. — Disse o homem se aproximando da cama. Quis pegar uma das mãos de Gabrielle, mas ela se afastou. — Saiba que não tem para onde fugir, ninguém lhe salvará desta vez.

Gabrielle pula da cama ainda tonta, mas está disposta a lutar até a morte do que ser violentada por aquele homem asqueroso.

O terrível desconforto da tonteira tornava Gabrielle uma presa fácil de ser dominada. Sem grandes dificuldades o homem agarrou-a. A loira se debatia, esmurrava o homem sem resultado.

O pânico tomou conta de Gabrielle. O comerciante era grande e corpulento e ela se sentia sem forças, estava exausta ao extremo. O homem já tinha rasgado a blusa da Barda, mostrando seus seios rígidos e perfeitamente delineados. Desesperada ela grita.

— Grite minha ovelhinha, pode gritar à vontade, ninguém virá te socorrer! Você vai ser minha! – Diz o comerciante.

Ela rogava aos deuses com toda força de seu coração que sua vida fosse tirada naquele instante. Entre soluços não deixou de pensar em Xena.

...........................................

O potente coice de Argo escancara a porta do sobrado. Um criado corre para ver o que acontecia quando é puxado pela túnica, aproximando seu rosto do dele ela pergunta:

— Onde está a moça? — A voz da guerreira sai entre os dentes cerrados. O criado não consegue falar, se limita a apontar para um cômodo escadaria acima. Xena o empurra com violência desimpedindo o caminho.

O criado grita: — SOCORRO! ACUDAM! — No mesmo instante a sala é invadida por três escravos armados de paus, sendo dois deles de porte bem fortes.

— Saiam do caminho e ninguém vai se ferir! — Xena ameaça se dirigindo com a espada em punho para o local que o criado indicara.

Os dois escravos mais fortes se postam no início da escadaria para impedi-la de subir, enquanto o outro a cerca. É quando ouve os gritos de Gabrielle. O ódio explode nas entranhas da guerreira e ela avança. Os dois homens mais fortes partem para Xena, acreditando que sua força seria suficiente para impedi-la; ela apara o golpe de um e quase simultaneamente abaixa-se desviando do golpe do outro. Xena dá uma violenta pancada com o punho da espada no queixo do primeiro deles fazendo-o cambalear com o sangue escorrendo pela boca. Com um giro de corpo e espada, Xena faz um corte profundo no braço do segundo homem em seguida chutando seu peito, ele é jogado a distância.

O outro que a cercava olhava surpreso e antes que ele atacasse Xena com um salto e cambalhota em pleno ar, cai de pé junto a porta do aposento e chuta a porta com violência. A porta cedeu com a fechadura retorcida.

Gabrielle chorava desesperada. O comerciante vira-se assustado e se depara com Xena pressionando a ponta da espada em sua garganta. O homem empalideceu, seus lábios tremiam de medo.

Xena vê Gabrielle em prantos encolhida sobre a cama.

— Gabrielle! — A voz da guerreira é imediatamente reconhecida pela Barda que levanta o pequeno rosto lavado de lágrimas.

— Gabrielle ele..., ele... — As palavras saiam aflitas com receio da resposta. Por fim Xena perguntou: — Ele violentou você?

A loira responde entre soluços: — Não..., mas se você não chegasse agora eu não teria mais força para me defender. — Nesse instante Xena vê as roupas de Gabrielle rasgadas, seus seios expostos e os arranhões na pele branca da loira.

Xena pressiona ainda mais forte a espada. A fisionomia da guerreira era uma máscara de ódio, os dentes cerrados e os músculos retesados. A voz da guerreira é ameaçadora:

— MISERÁVEL! — O homem mal respira, o pânico é visível em seu rosto.

A besta negra emerge das entranhas da guerreira. Ela agarra o homem pela túnica e o arremessa contra parede como se fosse uma fruta podre; soca o rosto dele sem piedade enquanto diz:

— E agora, onde está sua valentia? Por que não enfrenta alguém que é capaz de se defender seu verme?

O homem tentava em vão se defender dos violentos golpes da guerreira. O rosto dele já se transformava numa massa disforme, o sangue escorrendo pela boca, nariz e por um corte profundo na sobrancelha esquerda, o olho esquerdo já não está mais visível. Xena o jogava por cima dos móveis como se sua força tivesse se multiplicado.

Apesar da raiva, do desprezo e nojo que sentia por aquele miserável, Gabrielle assistia a tudo chocada com a brutalidade da cena. Xena estava irreconhecível.

— XENA PARE! — Ela grita e corre para a guerreira, segurando seu braço e repete: — POR FAVOR, PARE, CHEGA! VOCÊ VAI MATÁ-LO!

— E VOCÊ ACHA QUE ELE NÃO MERECE MORRER PELO QUE FEZ A VOCÊ? — Xena responde descontrolada.

— Por favor, pare! — A loira pede.

Xena olha Gabrielle sem entender como ela pode se compadecer de um homem como aquele. Ainda com os olhos chispando fúria, ela larga o homem que quase desmaiado cai pesadamente no chão.

— Você está me pedindo para poupar a vida desse miserável? Ele tentou violentar você, ia desgraçar sua vida! — Disse a guerreira ainda tentando se controlar.

— Você já o castigou bastante, ele está quase morto. Chega..., por favor. — A voz suplicante de Gabrielle trás Xena de volta a razão. Num rompante a guerreira abraça Gabrielle com força, aconchegando a loira em seu corpo ainda trêmulo de raiva.

Tantas vezes estivera por desistir de tudo, mas agora sua vida passou a ter sentido. Como poderia agora viver longe da jovem que se aconchegava em seus braços? — A guerreira pensou.

Xena protege Gabrielle com um lençol evitando que a roupa rasgada e seus seios ficassem expostos. — Vamos sair daqui! — Diz a guerreira.

Xena sai do aposento protegendo Gabrielle com seu próprio corpo e segurando o comerciante pela túnica. O rosto do homem é uma massa de sangue. Ela vai descendo a escadaria pressionando a espada na garganta do homem e ameaça:

— SE ALGUM DE VOCÊS SE MEXER, EU MATO ELE!

Os criados estão imóveis, apenas acompanham as duas mulheres com o olhar. Elas seguem até a porta. Xena joga o homem quase morto no chão, acomoda Gabrielle na garupa de Argo, monta e disparam pelas ruas de Corinto.

........... Retornando para casa.

Enquanto cavalgavam retornando para Potedaia, Xena segue calada, mergulhada nos seus pensamentos. A loira estranha o silêncio da guerreira.

— Você está tão quieta. — Diz a Barda.

Mais alguns segundos de silêncio e Xena responde: — Estava pensando no que você falou sobre vir comigo. Pense bem Gabrielle, você não sabe nada sobre mim. Não tem medo de como pode ser seu futuro se me acompanhar? Você já viu do que sou capaz quando fico furiosa, você conseguiria viver com isso?

— Para mim o presente e o futuro é estar com você. — Gabrielle responde sorrindo.

A alegria faz o coração da guerreira bater mais forte, embora dúvidas ainda a atormentassem. Chegam à casa da loira.

— MÃE! — Gabrielle grita. Hécuba e Lila reconhecem a voz da Barda e saem da casa correndo para abraçá-la.

— Minha filha, ó pelos deuses você está bem? — Pergunta a mãe desesperada em prantos.

— Ela está bem sim, bastante abalada, mas está bem! Cheguei a tempo de evitar..., uma violência maior. Leve-a para descansar. — Diz a guerreira.

— XENA! — A voz de Herodotus soa grave.

A guerreira olha para o homem que se aproxima com a cara emburrada de sempre. Quando estão próximos eles se encaram por alguns segundos, até que ele lhe estende o braço, que é aceito pela guerreira.

— Obrigado! — Pela primeira vez demonstrando um sinal de emoção no semblante rude. Sem mais nenhuma palavra entra em casa seguindo as mulheres e fecha a porta.

Xena acaricia o focinho de Argo: — Vamos embora amigo, não nos querem por aqui! — Monta e puxa as rédeas, quando o cavalo vira-se para seguir a estrada, a porta se abre novamente.

— XENA! — É a voz de Lila, ela corre para junto da guerreira. — Você volta amanhã?

— Acho que não é mais necessário. Sua irmã está a salvo, agora ela só precisa de descanso. — Responde a guerreira.

— Tenho certeza que Gabrielle vai gostar de te ver. — Diz Lila com um sorriso matreiro.

Xena sorri da cumplicidade de Lila. Sem responder, ela instiga Argo a seguir pela estrada rumo à cidade.

...........................................

O dia amanhece com o cheiro de mingau e pão quentinho vindo da cozinha. Gabrielle acorda e se surpreende ao ver Lila sentada na cama observando-a. A loira se espreguiça e diz: — Bom dia..., o que foi?

Lila continua observando a irmã, até que responde: — Bom dia dorminhoca. Como você está?

Gabrielle olha o teto como se estivesse avaliando seu estado físico: — É..., considerando o que passei, acho que estou bem. — Responde com o rosto ainda enevoado de sono e dá um leve sorriso. Nova espreguiçada e senta-se na cama. Nesse instante Lila senta ao seu lado abraçando-a com força numa ternura poucas vezes mostrada. Lila tinha o temperamento parecido com o de Herodotus, sentia, mas não demonstrava.

Apesar de surpresa Gabrielle responde ao carinho e fica mais surpresa ainda ao ver lágrimas escorrendo pelo rosto da irmã.

— Ah Gabrielle nós ficamos apavorados com seu rapto, estávamos desesperados sem saber como te encontrar. Mamãe não parava de chorar, papai se mal dizia a cada instante, ele e Perdicas te procuraram por toda cidade, estavam arrasados. Graças aos deuses que tudo acabou bem.

— Graças aos deuses e a Xena. — Completa a loira. — Ela me salvou mais uma vez.

Gabrielle encara a irmã. Sente necessidade de confessar um sentimento novo e estranho que queima em seu interior, mas as palavras ficam engasgadas, com receio de serem ditas. Elas se olham demoradamente.

Lila percebe que a irmã tem alguma coisa importante para falar: — Vai Gabrielle pode confiar em mim..., fala.

A loira engole em seco, como procurando palavras para começar, gagueja, se sente embaraçada, mas finalmente fala: — Lila..., eu..., eu não sei o que há comigo, mas eu sinto que não posso me casar com Perdicas, pois meu coração pertence a outra pessoa e apesar de não poder estar com ela agora não posso ficar com mais ninguém. — Sente o rosto queimar envergonhada, baixa os olhos, mas continua: — Decidi ir embora com Xena.

Sem demonstrar surpresa Lila pergunta: — Você tem certeza? E nossos pais? E Perdicas?

— Nós temos família em que nascemos, mas às vezes as famílias mudam e temos que construir as nossas. Xena e eu temos uma ligação. É mais forte do que se pode imaginar, é como se fossemos almas gêmeas. — Gabrielle responde e continua: — Perdicas? Eu estive confusa em relação a ele, mas agora vejo que gosto dele apenas como amigo, eu não o amo. Eu não seria feliz nem o faria feliz.

Lila fica calada sem desviar o olhar da irmã. Gabrielle baixa os olhos constrangida com o olhar fixo da irmã. Após alguns minutos Lila rompe o silêncio: — Não é preciso ser adivinha para ver que você pertence ao mundo lá fora com Xena.

— Você sabia o tempo todo não é? — Pergunta a loira erguendo os olhos emocionada.

— Sim, você é minha irmã e eu te amo mais que tudo. Se é o que você quer..., te desejo toda felicidade do mundo. — Lila responde com a voz embargada. Ela e Gabrielle se abraçam emocionadas.

Enxugando as lágrimas Lila diz: — Papai não vai aceitar isso.

— Eu sei, por isso é que quero sair de madrugada, por favor, não conte nada a mamãe. Um dia eu voltarei para visitar vocês, eu prometo. — Responde a loira.

...........................................

Uma semana se passou desde o rapto e Herodotus decide o destino de Gabrielle.

As lágrimas da loira sensibilizavam o coração de Hécuba, que pedia que o marido reconsiderasse a decisão. — Um casamento sem amor não era uma boa maneira de começar uma família. Insistia a mulher, mas Herodotus estava irredutível. Gabrielle já estava na idade de casar, Perdicas a faria feliz e isso bastava.

— Se ela tivesse a proteção de um marido nada disso teria acontecido..., ela aprenderá a gostar dele com o tempo! — E assim o lavrador encerrava o assunto.

...........................................

Por iniciativa própria Lila foi procurar Xena. Ela se aproxima da guerreira que responde com um leve sorriso.

— Xena, preciso falar com você. — Diz Lila.

— Pode falar, estou ouvindo. — Xena responde.

— É sobre Gabrielle. Podemos conversar em outro lugar? Aqui é muito barulhento, quero te contar umas coisas. — Diz Lila.

Dirigem-se para um local mais afastado do comércio da cidade. Numa área próxima onde existia uma verdejante alameda, sentam-se numa pedra sob uma frondosa árvore e Lila começa a contar os fatos.

Xena ouve tudo com atenção, fica algum tempo em silêncio, pensativa. Lila observa a mulher, como se quisesse ler seus pensamentos. Finalmente Xena abre um sorriso, os olhos azuis brilham, pede que transmita a Gabrielle que irá conversar com ela e que tenha paciência.

Lila volta para casa eufórica para contar a novidade para a irmã. Ela corre para o quarto e encontra Gabrielle com o olhar perdido no céu azul que espia pela janela aberta. A loira se assusta pela maneira como a irmã invade o aposento. Lila começa a falar apressadamente, quase de um só fôlego. Gabrielle ouve a princípio sem entender, mas depois a euforia também vai tomando conta dela à medida que a irmã vai narrando a conversa com Xena. A loira agarrada ao travesseiro sufocava os gritinhos de alegria. Ao final da narrativa Gabrielle abraça Lila agradecendo e choram emocionadas.

...........................................

Perdicas cercava Gabrielle de atenções, quase diariamente ia visitá-la, sempre levando algum agrado para a futura esposa. Gabrielle se esforçava para se mostrar interessada nas conversas do rapaz. Estranhamente a loira não mostrava o abatimento de alguns dias atrás e muitas vezes ela e Lila eram pegas sussurrando pelos cantos da casa, um olhar de cumplicidade era comum entre elas. A relação das irmãs se solidificara de tal maneira que se tornaram quase inseparáveis.

Hécuba sentia que tinha acontecido alguma coisa para que Gabrielle mudasse seu comportamento dessa forma. Não havia mais vestígio de tristeza em seus olhos, seu sorriso era espontâneo como de uma criança. Por mais que tentasse, não conseguia que as filhas lhe confidenciassem o que viviam cochichando. Havia um pacto subentendido entre elas, do qual nem a própria mãe fazia parte. Mais cedo do que imaginava Hécuba saberia do que se tratava tanto segredo.

...........................................

Passadas algumas semanas as festividades de Solstício se iniciam. A pedido de Gabrielle, Alcíno anuncia por toda cidade que no dia de abertura do festival, terá um espetáculo especial ao final das apresentações dos jovens aspirantes a Bardos.

Como se esperava o teatro está lotado. Alcíno sobe no palco anunciando a tão esperada atração. O público aguarda com ansiedade a apresentação da Barda que mostrará uma face desconhecida do público até o momento, a de poetisa.

O palco é preparado solenemente. A plateia vai silenciando até não se ouvir mais qualquer ruído de vozes. Gabrielle entra, o público está paralisado. Por segundos fica calada, observando atentamente aqueles rostos, muitos deles conhecidos e mais ainda de desconhecidos. O silêncio impressiona. Ela encontra os olhos azuis que a observam com ternura. Com voz suave ela inicia a apresentação sem desviar os olhos da mulher de pé no final do teatro:

— Essa poesia se chama “Confissões do coração” e dedico a alguém de quem acredito que a minha existência não consiga mais se separar. Com um suspiro profundo ela começa a recitar a poesia que escrevera algum tempo atrás numa manhã de inspiração.

“É a luz do dia que me ilumina ou a lembrança da tua presença? Tudo que olho parece cheio da tua imagem. Tu invadiste minha alma e dominou meu coração! Minha alma deseja se unir a tua. Tudo que se passa em meu coração é misterioso, tão misterioso como é para mim a lua e as estrelas. Por que não luto para romper o laço que me prende a ti? Quem te deu o direito de dispor de mim? De minha alma? Me devolve a vida que eu tinha antes de te conhecer. Me devolve os tranquilos sonhos da minha infância e a liberdade do meu coração, que cantava quando estava alegre. Fizeste-me perder a ilusão de tudo que não se refira a tua pessoa.”

“Me recrimino por pensar em ti a todo momento, de desejar te ver; teu olhar queima minha pele. Esse sentimento que eu agora compreendo afasta de mim a dúvida e o medo. Sinto como se a felicidade tivesse derramado um sorriso sobre meu sonho.”

“Outro dia, outra folha caída da árvore da existência. O sonho desta noite trouxe-me ao coração uma calma incompreensível. Me sinto tranquila a respeito de nossas vidas. Sei que uni de modo inseparável as nossas existências e que não poderei separar minha alma da tua, mesmo que quisesse. Isso foi um sonho. Quando despertei, tive um misterioso sentimento de felicidade. Uma confusa recordação de algo agradável. O mundo volta a me parecer belo. Quando estou com você me sinto completa. Quando estou sem você, apenas desejo estar contigo. Agora nem a mais leve dúvida obscurece minha alma. Conheci o sentimento chamado AMOR.”

Gabrielle sorri e vê seu sorriso ser retribuído por Xena. A plateia permanece em silêncio total, como se paralisada por algum feitiço. Até que se ouve um leve soluçar, em seguida alguém bate palmas e as palmas vão contagiando o ambiente até que todo o teatro está de pé euforicamente aclamando a Barda.

........... A escolha.

— Você tem certeza que é isso o que você quer? — Pergunta Xena. — A vida na estrada é perigosa, não tem conforto, você não vai ter um lar. — Insiste a guerreira.

— Xena, um lar não precisa ser uma casa, pode ser uma pessoa. Meu lar é você. — Responde a loira.

Xena não se controlou mais, puxou-a contra seu corpo e abraçou apertadamente a pequena mulher; Gabrielle retribuiu o abraço da mesma forma. A Barda estava ali, nos seus braços, terna, doce, carinhosa e tão apaixonada quanto ela. A guerreira se inclina e segurando o rosto da loira entre as mãos, beija seus macios lábios que se entreabrem recebendo a língua ávida da guerreira. Um beijo longo, sufocante e apaixonado. A loira sentiu o corpo queimar, o rosto enrubescer, o peito arfando.

Xena se dá conta que tinha se precipitado, todas essas sensações eram novidade para a Barda: — Gabrielle eu... — Foi interrompida.

— Sssshhhh, não se preocupe, está tudo bem. — Disse a Barda colocando os dedos sobre os lábios da guerreira. Gabrielle sente as faces coradas. O olhar fixo de Xena a deixa perturbada, mas não desviam os olhos uma da outra.

Xena sabe que tudo tem sua hora e seu tempo e ela como uma mulher mais experiente saberia dar esse tempo a Gabrielle.

— Está pronta para partir? — Pergunta a guerreira tentando acalmar seu desejo.

— Sim, quando vamos? Quero partir durante a madrugada, não quero que meus pais vejam. — Diz a loira ansiosa.

Xena a olha surpresa: — Não vai se despedir da sua família?

— Acredite..., não seria uma boa ideia, meu pai nunca permitiria que eu seguisse com você.

— Está certo, então esteja pronta que virei te buscar amanhã pela madrugada. — Diz Xena. — A loira abre um alegre sorriso.

...........................................

Gabrielle junto com a irmã ajudou Hécuba com os últimos afazeres domésticos do dia. Evitava encarar o olhar da mãe, que já percebera algo diferente com a loira. Gabrielle já tinha confidenciado a Lila que fugiria de madrugada. Hécuba sentia que as duas se comportavam de modo estranho.

— Gabrielle..., está tudo bem filha? — Questiona Hécuba.

A pergunta pega a loira de surpresa, que gagueja ao responder: — Está..., está sim mãe, está tudo bem. — O olhar desconfiado da mãe a deixa desconcertada.

— É só uma indisposição, vou me deitar mais cedo. — Diz a Barda apressando em se recolher.

— Vou preparar um chá de ervas para você. — Diz a mãe.

— Não mãe..., não precisa, vou melhorar, não se preocupe. — Responde a loira abraçando Hécuba com força, beijando-lhe os cabelos e repete os gestos com Herodotus. Ambos estranham a atitude de Gabrielle, mas não fazem nenhum comentário.

A agitação de Gabrielle contagiou Lila, ambas sussurravam com receio de serem ouvidas pelos pais que continuavam conversando sentados à mesa na cozinha. As horas se arrastavam, parecia que justamente esta noite eles resolveram permanecer acordados.

Gabrielle esperava ansiosa, Lila por sua vez também estava nervosa. Por fim o silêncio se fez sentir em toda casa. A noite prossegue. Lila começa a ficar sonolenta, mas a excitação de Gabrielle não a deixa dormir.

— Pelos deuses onde ela está?! — Murmura a Barda.

Nesse momento ela ouve uma batida na janela. Gabrielle dá um pulo da cama, abre a janela com cuidado e recomenda silêncio.

— Meus pais estão dormindo no quarto ao lado. — Sussurra a Barda.

Gabrielle abraça Lila com força: — Obrigada minha irmã, nunca esquecerei isso.

Lila beija as mãos de Gabrielle e responde com a voz embargada: — Seja feliz minha irmã, eu te amo muito!

A loira pula a janela, recebe a saca com roupas e acena para Lila se despedindo. Xena e Gabrielle correm alguns metros e encontram o cavalo escondido entre as árvores que margeiam a estrada. Xena monta e segurando firme o braço da Barda a puxa para garupa e disparam num galope pela estrada.

Nuvens pesadas se acumulavam no céu. O vento frio da madrugada levantava as folhas do chão, raios enormes se ramificavam como galhos e trovões estrondosos ecoavam pelo ar. Era necessário procurarem abrigo antes que a tempestade caísse.

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........... A primeira noite.

O vento frio e cortante se torna mais forte, balançando os galhos das árvores sem piedade. Uma pequena caverna próxima a estrada servirá de abrigo. Desmontam e entram na caverna. O vento uiva do lado de fora.

— Vamos ficar aqui até o temporal passar. — Diz Xena.

Xena abre a bolsa grande amarrada à sela, tira a manta e agasalha Gabrielle. — Fique aqui, vou buscar galhos para a fogueira. — Diz a guerreira.

A caverna escura só é iluminada pelos rápidos clarões dos raios que riscam o céu. A guerreira retorna antes da chuva começar a cair; acende uma pequena fogueira. Xena retira os apetrechos de montaria do cavalo. Um trovão ressoa, Argo relincha inquieto, acariciando a cara e pescoço do animal ela diz: — Calma companheiro está tudo bem.

Gabrielle sentada numa pedra a observa. O olhar apaixonado se derrama sobre a guerreira que quando percebe, dá um sorriso. — O que foi? — Xena pergunta.

— Nada..., estava só olhando, como você é linda. — Responde a Barda.

A luz da fogueira não deixa Gabrielle ver as faces coradas de Xena que sorri desajeitada.

— Posso te perguntar uma coisa? — Diz a Barda, mas antes que Xena respondesse ela continuou: — O que aconteceu que você mudou de ideia de me trazer com você?

A guerreira alimentava a fogueira com alguns gravetos responde: — Alguns dias atrás Lila me contou que seu pai ia te obrigar a casar com Perdicas e que você estava se sentindo infeliz por casar com alguém que não amava. Então já que você estava disposta a me acompanhar...

Xena estende a grossa manta próxima à fogueira e diz desconversando: — O que acha do seu primeiro dia de aventura? — A Barda se limita a um pequeno sorriso.

Gabrielle fica alguns instantes em silêncio com o olhar perdido nas chamas. Xena percebe, senta-se ao lado dela, acaricia os cabelos da Barda e pergunta: — Você está bem?

Após um profundo suspiro a loira diz: — Minha mãe sempre quis que eu me casasse e tivesse filhos. Eu disse a ela que eu sempre seria grata pelo modo que me criou, mas não poderia esperar que eu pagasse isso com o meu futuro.

— Você está arrependida? — Xena pergunta.

A Barda abre um sorriso: — Não, de modo algum, eu quero seguir com você para onde você for. O mundo é muito grande, ficar num só lugar é desperdício de espaço.

Xena sorri com certo alívio. — Tivemos um dia cansativo, vamos dormir. — Diz a guerreira se acomodando e se cobrindo, mas percebe que Gabrielle continua sentada.

— Você não vai dormir? — Xena pergunta.

Gabrielle deita próximo a Xena, mas mesmo forrando o chão com o quitão da guerreira, as pedrinhas a incomodam. Ela se remexe, tentando se acomodar.

— Onde está sua manta? — Xena pergunta.

— Eu não tenho manta nem cobertor, na pressa esqueci de pegar. — Reponde a Barda.

Após alguns segundos de silêncio Xena diz: — Vem deita aqui, dá para nós duas.

Xena acomoda Gabrielle junto ao seu corpo. A barda deita a cabeça no ombro da guerreira, aconchegando-se, enquanto tem seus cabelos acariciados. A simples proximidade daquele corpo quente, a maciez dos cabelos e da pele faz o sangue correr rápido nas veias da guerreira.

— Xena... — Gabrielle murmura.

Xena tenta de todas as formas se controlar, mas sente o desejo crescendo dentro dela. — Hum? — Responde.

— Seu coração está batendo forte. — Comenta Gabrielle. — O meu também está assim.

Xena levanta ligeiramente o queixo de Gabrielle e a beija delicadamente. Um beijo suave e carinhoso.

Gabrielle enlaçou o pescoço de Xena num abraço amoroso. A guerreira apertou a jovem mais fortemente em seus braços, o beijo se aprofundou mais, suas línguas se tocavam e suas respirações já se alteravam.

Os beijos da guerreira foram descendo pelo pescoço e ombros de Gabrielle, a língua de Xena passeava pelo pescoço e orelhas provocando ondas de prazerosos arrepios na pele da loira. Xena foi despindo a jovem Barda, controlando-se para não deixar seu desejo apressar esse momento de encanto.

As mãos da guerreira deslizavam suavemente pelo corpo da parceira examinando cada curva dos seios, ventre e coxas. Beijava Gabrielle com ardor, seu corpo transpirava desejo, sentia seu sexo quente pulsando e sentia que Gabrielle também se entregara a esse êxtase.

— Gabrielle, eu quero você... — Xena sussurrou no ouvido da loira.

Xena queria a mulher mais excitada, mais entregue, mais desejosa de suas carícias. A língua passeava vagarosamente pelos seios da Barda. A nudez total de Gabrielle era encantadora, Xena não tinha mais nenhum pensamento a não ser possuir aquela linda criatura que estava em seus braços.

Completamente nua a guerreira deitou-se sobre a Barda, pressionando seu corpo forte contra aquela pele macia e quente. A cada carícia Gabrielle gemia baixinho sentindo ondas de arrepio. Xena foi descendo as carícias pelo ventre, sentindo a pele arrepiada de sua parceira na ponta da língua. Avidamente já procurava aquele lugar quente, úmido, escondido, onde estava brotando o néctar dos deuses. Sentia o sexo quente da loira molhando seus dedos.

Os gemidos de Gabrielle enlouqueciam ainda mais a guerreira. Sua boca e língua em contato com a carne quente, macia, pulsante provocava ondas em seu interior. A loira agarrando seus cabelos estava totalmente entregue a ela. Não teve mais dúvida, seus dedos entraram na gruta sedosa de sua amada ao mesmo tempo que sugava aquele néctar que brotava de suas entranhas.

A leve sensação de desconforto logo que Xena rompeu sua virgindade persistiu por mais algum tempo, mas o prazer era maior, ela estava entregando seu corpo e alma a sua amada princesa.

A guerreira também gemia de prazer vendo os movimentos frenéticos de sua amada. Rapidamente se levantou sem retirar os dedos daquela gruta de prazer e deitou-se sobre a loira, esfregando seu sexo contra os pelos encharcados da Barda, mergulhando as duas num estado de gozo total.

Um cansaço reconfortante e incomparavelmente maravilhoso caiu sobre ambas. Xena deitando-se de lado deu um profundo suspiro, beijou a franja molhada de suor de Gabrielle e aninhou a jovem mulher, a sua mulher, em seu peito. Com olhos fechados acariciando os sedosos cabelos de Gabrielle sorriu feliz.

— Agora vamos dormir, temos que acordar bem cedo amanhã. — Beijou carinhosamente a Barda.

— Xena... — Murmura a Barda após um suspiro.

— Huumm. — A guerreira murmura.

— Eu te amo.

Xena abraçou mais apertado a mulher, aconchegando-a ainda mais ao seu corpo. — Você é minha vida Gabrielle, eu também te amo. — Adormeceram abraçadas, o sono tranquilo das amantes.

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Quando os primeiros raios da manhã apareciam entre as árvores e o orvalho ainda cobria as folhas, Xena e Gabrielle despertavam.

— Dormiu bem? — Xena pergunta.

— Maravilhosamente bem. — Responde a loira se espreguiçando dengosamente nos braços da guerreira. — E você?

— Como se estivesse nos Campos Elíseos. — Xena responde sorrindo.

Gabrielle se debruça sobre Xena e fica admirando o rosto da mulher. Acaricia a face da guerreira ternamente. Com um sorriso malicioso a loira diz: — Você gostou de ontem à noite?

Xena responde ao sorriso com outro mais malicioso mordiscando o lábio: — Foi a melhor noite que tive em minha vida.

Xena não sabia como podia existir uma criatura tão doce e maravilhosa quanto aquela. Enquanto olhava aqueles olhos verdes esmeralda pensava em como era abençoada pelos deuses por essa jovem ter entrado na sua vida. Ela se tornara a sua razão de viver. Beijou delicadamente os lábios da Barda.

Logo que terminassem o desjejum prosseguiriam viagem. A loira pega a espada da guerreira e se admira como Xena manejava com tanta destreza e rapidez uma arma pesada como aquela. Ensaia uns golpes desajeitados, mas o peso da espada dificulta seus movimentos. Xena se aproxima, toma a espada e repreende Gabrielle.

— Isso não é brinquedo. — Diz enquanto guarda a espada na bainha às suas costas.

Gabrielle desconcertada diz: — Você tem que me ensinar a manejar a espada, assim eu vou poder te ajudar a se defender.

Xena se atenta para a inocência de Gabrielle. — Não confunda defender-se com o uso de uma arma. Quando você puxa uma espada, você tem que estar pronta para matar. — Diz a guerreira.

Gabrielle se surpreende com a rispidez de Xena. — Vamos, temos um longo caminho até à cidade mais próxima, temos que providenciar algumas coisas para você. — Diz a guerreira desconversando.

Gabrielle se acomoda na garupa de Argo e partem. — Vamos para onde? — Pergunta a loira.

— Corinto. — Xena responde.

........... Entre o medo e a confiança.

Durante a viagem as lembranças atormentavam Gabrielle, não se contendo mais ela questiona Xena.

— Por que temos que ir para Corinto? Não podíamos ir para outra cidade?

Xena percebe medo na voz da Barda: — Primeiro por que é cidade mais próxima, depois por que precisamos de mantimentos e cobertores e Argo está precisando de ferraduras novas. — Ela responde.

A desagradável experiência por que passara algum tempo atrás ainda queimava em sua memória; a loira insiste: — Mas e se...

Xena interrompe a frase. — Não se preocupe, ficaremos apenas um dia.

Cavalgando vagarosamente, entram na cidade. Gabrielle observava as pessoas, as habitações e o comércio. A cidade exalava prosperidade e riqueza, em cada recanto podia se notar a suntuosidade da arquitetura. Na praça central havia um local de banhos. Um prédio muito grande com colunas sustentando a arcada da entrada principal, com dizeres em relevo no frontão triangular.

Gabrielle olhou maravilhada o prédio extraordinário e se animou: — Xena seria ótimo um banho quente. Estamos empoeiradas da estrada e depois iríamos fazer compras. O que você acha?

— Hum não sei..., aqui é uma casa de banhos públicos, não me agrada a ideia de você ficar nua na frente de estranhos. — Xena responde com tom sério.

A loira a princípio se surpreende, mas insiste: — Ora, mas você também vai ficar nua.

— Ah, mas é diferente... — A frase da guerreira é interrompida.

— Aaahh quer dizer que eu não posso, mas você pode? ... Ah vamos, por favor. — Insiste a loira com voz dengosa.

Xena cede ao desejo de Gabrielle. — Está bem, mas primeiro vamos procurar um ferreiro.

Xena deixa Argo aos cuidados do ferreiro com a promessa de vir buscá-lo após três horas e depois se encaminham para a casa de banhos. A guerreira escolhe o salão mais privado possível, se despem e entram. Um grande buraco numa pedra distribuía água quente que vinha das fontes subterrâneas para as várias piscinas que existiam no local.

Eram apenas as duas na grande câmara. Xena acomodou-se onde a água jorrava de uma canaleta, deixando cair sobre os cabelos compridos e ficou ali imóvel, mas com os sentidos alertas e a espada e o Chakram sempre ao alcance das mãos.

A água quente por toda pele nua deu uma maravilhosa sensação de relaxamento nas duas. Após o longo banho, se vestem e se encaminham para o mercado.

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O comerciante passa em frente à casa de banhos exatamente quando Gabrielle e Xena saíam. Instintivamente ele coloca a mão sobre o tapa-olho que agora usava para esconder o olho esquerdo que ficara cego devido aos violentos golpes desferidos pela guerreira. As recordações fazem o ódio ferver seu sangue.

Da luxuosa liteira carregada por escravos o homem às observa à distância. — Nada é mais doce que a vingança. — Murmura para si mesmo.

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Corinto era uma cidade populosa e bem organizada, mas a distante periferia abrigava à população que era considerada a escória da cidade. Ladrões, prostitutas, mercenários, aleijados e doentes e nesse ambiente de degradados, por um punhado de Dinares se contratavam assassinos.

Alguns minutos antes da meia noite, o criado entra na taberna e se dirige ao balcão procurando um determinado homem. É apontado um homem gigantesco que envolto numa capa de lã preta bebia apoiado num pilar no fundo do recinto. Engolia a bebida em grandes goles, deixando escorrer pelos cantos da boca, molhando a barba.

O criado se aproxima temeroso do homem e pergunta: — Seu nome é Urbba?

Com um olhar penetrante o homem responde: — Quem quer saber?

— Meu senhor deseja contratar seus serviços. — Diz o criado.

— E quem é o seu senhor? — Pergunta o homem.

— Um rico comerciante da cidade, seus serviços serão muito bem pagos. — Responde o criado.

— Onde posso encontrar esse homem?

— Ele o aguarda em outro local, é só me acompanhar. — Diz o criado sendo acompanhado pelo gigantesco homem.

Urbba era carrancudo, tinha longos cabelos negros ensebados, uma comprida barba trançada, malévolos olhos azuis acinzentados e um aspecto peçonhento e sujo. Seus braços e pernas pareciam toras de madeira de tanta rigidez. Uma espada presa ao cinto e um machado preso às costas completavam sua aparência tenebrosa.

O serviço estava contratado, metade paga imediatamente e o restante quando Xena estivesse morta. Urbba recebe as informações necessárias e se dirige para o trajeto da vítima.

Está frio, mas isso não parece incomodar o gigantesco vulto que caminha pelas sombras da cidade adormecida. Escondido nas sombras de um beco próximo, ele observa e aguarda. Esperou pacientemente até uma faixa cinza clarear o horizonte. Ouviu vozes na hospedaria, minutos depois duas mulheres saem se dirigindo ao estábulo próximo.

O homem se aproxima por trás e golpeia a mulher alta, mas os sentidos da guerreira estavam alerta, ela ouviu os passos ás suas costas. Xena sentiu o impacto do golpe quando a espada penetrou o couro da bolsa que usou para se defender do ataque e chuta tentando atingir entre as pernas do homem, mas o golpe foi aparado com firmeza.

Gabrielle se assusta com o grito de Xena: — VOLTA PARA A HOSPEDARIA!

Xena desembainha a espada e revida os golpes violentos do assassino. A força do homem era colossal, os músculos da guerreira ressentiam a cada golpe defendido, era como se estivesse sendo atingida pelo martelo de Hefesto.

As espadas se chocavam com tanta força que por vezes podia se ver faíscas saindo das lâminas. Algumas vezes se aproximavam num contato de corpos, que eram imediatamente separados por socos ou chutes.

Numa aproximação ela sente o mau hálito do homem: — Depois de matar você, vou violentar sua amiga! Vou estripá-la sem piedade.

As estocadas mortais eram defendidas com agilidade. Num rápido movimento girando a espada, Urbba deu um corte no braço de Xena, próximo ao ombro esquerdo, o sangue escorreu pelo braço. Houve uma rápida separação dos lutadores como se estivessem se avaliando. Os olhares de ambos faiscavam de puro ódio. Xena sentiu a besta negra emergir de suas entranhas com uma fúria descomunal e atacou. Ela atacava sem dar qualquer chance de revide, empurrando o homem contra a parede de uma casa; Xena aplica um veloz golpe rasteiro nas pernas de Urbba derrubando-o. Ainda no chão num rápido golpe ele corta Xena acima do joelho. Ele se levanta com uma agilidade espantosa para um homem daquele tamanho, tenta acertar o tornozelo da guerreira que pula escapando do golpe e seus pés atingem o rosto e o peito de Urbba ao mesmo tempo em que crava a espada na perna dele. O gigante barbudo solta um grito pavoroso, com outro rápido giro da espada a guerreira corta o dorso da mão do homem que solta a espada.

Com um rugido de fúria Urbba se atira contra Xena, desta vez empunhando o grande machado, girando sua lâmina gigantesca, disposto a acabar definitivamente com a luta, tentando derrubar a guerreira com seu peso e força bruta. Xena salta para trás um segundo antes do machado girar onde suas pernas estavam. Ela golpeia acertando o homem no ombro, mas Urbba não pareceu sentir o golpe, o grosso colete de couro impediu que a estocada fosse profunda.

Urbba gira o machado para cima tentando estripar Xena do ventre ao peito. Com um salto e cambalhota no ar a guerreira saltou por cima do homem, caindo com os pés nas suas costas, derrubando-o e o golpeou uma, duas vezes, com toda força que ainda tinha. A lâmina rasgou profundamente o braço de Urbba acima da dobra do cotovelo. O braço que segurava o machado baixou sem força, mas ele não desistiu, trocou o machado para a mão ferida, tentando acertar Xena.

O sol já empurrava a escuridão quando Xena o golpeou profundamente no peito. Ele cambaleou com o sangue jorrando pelo ferimento, olhou a guerreira incrédulo.

Ele caiu de joelhos, ainda olhando a mulher. Tentou falar, mas nada saiu e a guerreira lhe dá o golpe fatal. A espada penetrou no pescoço do homem. Então Urbba estremeceu e se ouviu um ruído rouco do sangue borbulhando em sua garganta, como um último suspiro.

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Xena cambaleia até a hospedaria. O sangue escorria pelos ferimentos. Gabrielle se apavora ao ver seu estado.

— Pelos deuses..., quem era aquele homem? — Pergunta a Barda.

— Um assassino contratado. — Xena responde enquanto se apoia no ombro da loira e pula apoiada em só uma perna.

— Mas por quê? Será que...? Mas não vimos aquele monstro miserável! — Diz a Barda se referindo ao comerciante.

— Mas com certeza fomos vistas. — Responde a guerreira.

Gabrielle acomoda Xena no quarto, sai e volta com um balde com água e panos limpos. Tira a armadura da guerreira e as vestes ensanguentadas.

Lava cuidadosamente o rosto de Xena, a mancha arroxeada próxima ao olho direito agora se acentua e o lábio ainda sangra. Os hematomas nas costas e no abdome mostravam a ferocidade da luta.

Gabrielle vai delicadamente limpando o corpo da guerreira. Sente o olhar de Xena acompanhando cada movimento seu.

— O que foi? — Pergunta a loira, sentindo que algo incomodava sua amada.

Xena abaixa a cabeça pensativa, depois encara a Barda e após um profundo suspiro diz: — Está vendo o que eu quis lhe dizer quanto a me acompanhar? Nossa vida será assim, de perigos constantes, violência, lutas para sobreviver... Isso não é vida para você. Eu nunca me perdoaria se te acontecesse algo. Foi uma loucura te trazer..., seria melhor que você voltasse para sua casa.

Gabrielle interrompe Xena colocando os dedos sobre os lábios da guerreira. — Não diga isso, quero viver com você, quero te acompanhar por onde você for. Te amo e vou te amar para sempre e se você diz para alguém que vai amá-lo para sempre, isso significa para sempre, ouviu?!

Ensaiando um sorriso a guerreira responde: — Eu também vou te amar para sempre.

— Aaii. — Xena reclama, olhando para o corte no braço.

— Desculpe..., é que eu não tenho prática com isso. Temos que cuidar disso rápido, você perdeu muito sangue. — Diz a Barda enquanto examina os ferimentos.

— Ali na bolsa tem unguento, ajuda cicatrizar mais rápido. — Diz Xena apontando para a bolsa cortada por Urbba.

Gabrielle seca a pele de Xena, passa unguento e enfaixa cuidadosamente os ferimentos. Xena se acomoda na cama e diz: — Vamos ficar mais um dia, preciso descansar um pouco.

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Pela manhã bem cedo Xena levanta se veste, embainha a espada, prende o Chakram na cintura e ordena a Gabrielle. — Fique aqui, tenho que fazer uma “visita”.

— Xena por favor não vá, você está muito machucada! — Suplica a loira.

— Não se preocupe, não vou cortar a garganta dele, volto logo que resolver esse assunto. — Com um tom de voz firme, encarou Gabrielle com um olhar que assustou a mulher.

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Xena toma impulso e com um salto pula para a varanda do suntuoso sobrado e entra pela janela.

O homem é acordado com um metal frio pressionando sua garganta. Ele tenta falar, mas Xena com um dedo nos lábios recomenda silêncio.

— Vim lhe entregar isso! — Diz a guerreira cravando o machado de Urbba na cabeceira da cama a poucos centímetros da cabeça do comerciante. — Seu assassino não foi bem sucedido como pode ver.

O homem não se mexia tamanho o pavor que gelava seu sangue.

— Aconselho que nos esqueça e não se atreva a tocar em ninguém da família da Barda e eu prometo que não vou cortar sua garganta. — Ameaça a guerreira.

Xena se afasta e vira-se se dirigindo para janela, o homem começa a gritar: — ACUDAM, ACUDAM TODOS, SOCORRO!

Com a rapidez de um raio a guerreira se volta e pressiona dois pontos no pescoço do comerciante que imediatamente começa a sufocar, as veias do pescoço estufam como se fossem explodir, o nariz sangra e ele começa a arroxear, tenta inutilmente respirar, cai ajoelhado com os olhos esbugalhados.

— Eu só disse que não ia cortar sua garganta! — Diz a guerreira e salta a janela, deixando o homem se debatendo em seus últimos segundos de vida.

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Xena retorna a hospedaria, quando Gabrielle a vê sorri aliviada.

— Você demorou, estava preocupada. Está tudo bem? — A Barda olha Xena desconfiada.

Sem encarar Gabrielle, Xena responde: — Eu não cortei a garganta dele se é o que quer saber, agora vamos esquecer esse assunto!

No pouco tempo que se conheciam Gabrielle já reconhecia os sinais quando um assunto desagradava a guerreira, um levantar de sobrancelha era sinal que a insistência da loira estava se tornando irritante.

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Gabrielle e Xena tomam o rumo da saída da cidade e voltam para estrada em direção a uma vida de aventuras, juntas como duas almas que se amam e sentem que estarão unidas por toda eternidade.

Enquanto cavalgavam Gabrielle pensava que a vida era feita de fios que se entrelaçavam, nas pessoas que conheceu e que mesmo separadas sempre fariam parte de sua vida e que mesmo achando que fazemos escolhas, todo o nosso destino está nos fios das três fiandeiras.

— Hum..., isso seria um bom começo de estória. — Resmunga a loira.

— O que você disse? — Pergunta a guerreira.

— Hein? Não é nada..., estava só pensando alto.

E isso foi o início de tudo.

FIM

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