Notas iniciais
Boa leitura!

Mesmo após tantos anos, a vida não voltou a se mostrar para mim. As noites são longas, frias, triste e cruéis, me fazendo reviver aquele momento infinitas vezes.

Eu olho para o céu e não vejo nada além de estrelas apagadas e uma lua morta. Um eterno vazio, ao qual você impiedosamente me atirou.

Talvez eu seja egoísta, por querer-te tanto a ponto de jogar toda a culpa do meu fardo em ti ou talvez eu seja apenas mais uma mulher abandonada, lamentando incessantemente a minha perda.

Os amigos não cobrem a sua falta, a família não preenche o seu vazio. Nada pôde substitui-lo, então por quê? Por que eu ainda olho o céu, admiro os pássaros, sinto a brisa, se você, a quem tudo isso era especial, já se foi há tanto tempo?

Hoje eu choro em seu túmulo, como já fiz tantas outras vezes, e relembro nossos momentos. Penso nas brigas, nas risadas, nos sorrisos... Em tudo o que já fomos um dia e em tudo o que poderíamos ter sido.

Penso que te amei em vida, com o mesmo ímpeto de uma onda que se quebra em um rochedo, e que continuo te amando em morte, no mais formoso estilo sebastianista¹.

Mas, apesar de tudo, penso também que lhe amei com fervor. Fervor este que consumiu os meus olhos, mas que infelizmente se esqueceu de preencher meu coração, pois, aquilo que as minhas orbes iludia, ao meu coração ferozmente feria, pois meu amor era puro e o teu nem ao menos existia.

Notas finais
Sebastianismo¹: Uma crença portuguesa que surgiu nos meados do século XVI após o desaparecimento do rei D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir. Como o corpo não foi encontrado, acreditava-se que o rei retornaria como um novo messias e guiaria o reino de Portugal para outro apogeu de glórias e conquistas.
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