O homem que eu amo
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Tonny acordou e percebeu que estava sozinho na cama. As memórias das últimas horas do dia anterior invadiram sua mente e bufou frustrado. Olhou para o relógio no criado mudo que marcava 10h37 da manhã. “Nossa, não acredito que dormi tanto”, pensou. Talvez fosse culpa do cansaço emocional. Levantou-se, foi até o banheiro e preparou a banheira para um banho, sentia que precisava relaxar.
Enquanto deixava a água quente acalmar seu corpo, Tonny pensava o quanto aquela briga toda havia sido desnecessária e absurda. Era apenas um momento de diversão em família, aquela cena tinha sido ridícula. Poderia ter mentido se quisesse e com certeza teria a ajuda da sogra para isso, ela não se importaria. Quem sabe fazê-la leva-lo pra casa dela com alguma desculpa e fingir que dormiria na casa da mãe Elisa. Mas não. Tinha escolhido ser honesto, não gostava de mentiras. Além do mais, alguém poderia tirar uma foto dele e publicar com a manchete “Sem o marido Carlos Gutierrez, Anthony curte a noite com desconhecido”. Mas até isso teria solução: só era falar no dia seguinte que tinha decidido sair de última hora com o irmão e o primo e preferiu não ligar pra avisar porque já era tarde. Quando a notícia saísse, se é que iria sair mesmo, certamente ele iria surtar com os boatos, mas aí já tinha passado, chorar pelo leite derramado não adiantaria nada. Tonny se sentia idiota. “Deveria ter mentido. Eu sou mesmo um idiota por ser sempre tão honesto e sincero com ele! Ele merecia que eu tivesse mentido.”, pensou.
Terminou o banho, foi até o closet e escolheu suas roupas. Vestiu uma camisa gola polo verde clara, uma bermuda jeans azul clara e um tênis de tecido que imitava um jeans. Depois de pentear os cabelos seguiu até a porta e respirou fundo, não sabia o que ia encontrar do lado de fora. Estranhou que a porta do quarto já estivesse aberta quando tentou destranca-la, mas não pensou muito nisso.
Ao sair do quarto se deparou com Carlos com os cabelos ainda levemente molhados, indicando que havia tomado banho, e de roupa trocada. A mesa do café da manhã estava posta e muito farta. Tinha pão, queijo, peito de peru, manteiga, geleia, croissant, duas jarras de suco, leite, café, bolo, ovos mexidos. Carlos estava sentado em uma das cadeiras lendo o jornal e olhou apreensivo quando ouviu a porta do quarto abrir. O publicitário caminhou até a cozinha e viu aquele monte de coisas na mesa. “Onde ele arranjou tanta comida, se a dispensa tá praticamente vazia? Se ele tá pensando que vai me comprar com esse café da manhã de hotel depois de tudo que fez ontem, ele está muito enganado!”, pensou. Tonny estava tão indignado que nem atentou para o fato de que se o companheiro estava de roupa trocada era porque havia entrado no quarto em algum momento sem que percebesse.
– Bom dia. – Carlos tentou soar natural e seguro, mas falhou miseravelmente. Recebeu o silêncio de Tonny como resposta.
Com um semblante sério, Tonny foi até o armário pegou um copo e se dirigiu até a geladeira, encheu com um suco que encontrou na prateleira – certamente Carlos teria comprado naquela manhã, assim como as outras coisas – bebeu tudo de uma só de vez, foi até a pia, lavou o copo que tinha acabado de usar e colocou no escorredor de louças. Saiu da cozinha sem tocar em nada que estava na mesa.
– Tonny... – Carlos chamou derrotado quando viu o outro saindo do cômodo.
O mais novo, ainda em silêncio, foi até o quarto pegou o celular e a carteira. Quando saiu se deparou com o marido no meio da sala que parecia estar indo atrás dele no quarto naquele momento. Passou direto por Carlos, pegou as chaves do seu carro e de casa e saiu batendo a porta.
– Tonny! – ainda conseguiu ouvir seu nome ser chamado do lado de dentro.
O publicitário respirou aliviado e agradeceu aos céus imensamente o marido não ter ido atrás dele. Dirigiu até o único lugar onde estaria seguro da presença de Carlos o tempo que quisesse. Não tinha ido atrás dele naquela hora, mas, com certeza, com o avançar do dia, iria em sua busca em algum momento.
Tonny passou pela portaria sem ser interrompido e acenou para o porteiro do prédio que adentrava. Ficava num bairro de classe média. Tocou a campainha e aguardou. Tocou novamente. Três, quatro vezes. “Droga! Deveria ter trazido a minha chave!”, pensou. Quando já estava desistindo e prestes a dar as costas, ouviu o trinco abrir pelo lado de dentro.
Ethan apareceu só de cueca, com o rosto muito amassado e inchado e o cabelo completamente desgrenhado.
– Onde está a sua chave? – Foi a primeira coisa que perguntou com a voz rouca de quem acabou de acordar
– Esqueci em casa – respondeu entrando no apartamento do irmão.
– Você sabe que horas são?
– Sei. Quase uma hora.
– Como você tem coragem de me acordar à uma hora da madrugada? – Ethan perguntou sério e bravo e Tonny riu.
– É uma hora da tarde, ô palhaço! – respondeu bagunçando ainda mais os cabelos irmão mais velho.
– Eu sei! Mas você sabe que horas nós chegamos? – indagou se jogando pesadamente no sofá – Eram mais de oito horas da manhã, quase nove. Então não enche!
– E onde está o Vitinho? – Ethan não precisou responder, já que o rapaz apareceu com as mesmas vestes, apenas cueca, e a mesma cara do outro. Talvez pior, porque parecia que os olhos mal abriam.
– Cara! O que aconteceu?! Um trator passou por cima de você? Quer que eu te chame um carro funerário? – Tonny provocou quando viu a condição de Victor.
– Velho, não enche! Eu tô acabado! – se jogou sentado ao lado do primo mais novo no sofá de dois lugares, descansando a cabeça no ombro dele.
– Dá pra ver, sério mesmo! – riu – Onde vocês foram?
– Naquela boate que você gosta, a Tropical. – Ethan respondeu.
– Sério? – Tonny fez um carinha tristinha.
– Sério! Você perdeu, foi ótimo! – provocou o mais velho
– Eu não pude ir...
– Eu sei. Seu marido não deixa. – disparou num misto de desdém e mágoa.
– Ai, como você é ridículo! Eu expliquei pro Vitinho o motivo, eu tive uma crise alérgica.
– Humrum... Sei... E sua crise alérgica te deixa com voz de choro, né?! – Tonny cerrou os olhos para o irmão mais velho – Sim, eu ouvi! O telefone estava no viva-voz e eu apostei cem reais com o Vitinho que você não ia. A minha noite de diversão saiu praticamente de graça! – Ethan abriu um sorriso sarcástico.
– Eu estava com o nariz entupido! – Tonny exclamou como se seu tom de voz fosse transformar a frase em verdade – E não acredito que você anda fazendo fofoca e apostando sobre a minha vida!
– Não, eu não ando fazendo fofoca sobre a sua vida, especialmente a conjugal. Você já deixou bem claro, claro até demais, que não é pra eu me meter na sua vida com o seu marido. Só não queria gastar dinheiro, foi o jeito mais fácil que encontrei de fazer o Vitinho pagar pra mim. – Victor olhou enviesado pra Ethan que se desculpou – Foi mal, primo.
Tonny balançou a cabeça em sinal de negação – Você é inacreditável. – Disse em um tom baixo. Ethan apenas ergueu os ombros em resposta.
– Ai, chega desse papo que já está me irritando e eu tô com fome. – reclamou Victor – O que vamos comer?
– Cara, não tem quase nada aqui. Temos que sair pra comer ou pedir em casa. – respondeu Ethan.
– Eu não tô afim de sair. – se queixou Victor
– Nem eu – concordou Tonny – É melhor a gente pedir um yakissoba, o que acham? – Os outros dois concordaram com a ideia.
A comida enfim chegou e eles comeram. Ethan e Victor voltaram a dormir, enquanto Tonny ficou na sala entediado assistindo televisão. Mais tarde Tonny recebeu a ligação da mãe, uma coisa que ela sempre fazia no dia seguinte a uma visita dele e fingiu que não havia nada de errado entre ele e marido. Depois recebeu um telefonema de Tom que estava preocupado e apenas tranquilizou o amigo dizendo onde estava e que estava bem.
Passava das seis da noite quando Carlos entrou em casa, vasculhou tudo e percebeu que o marido não estava. Sacou o telefone do bolso e queria ligar para o marido, mas certamente Tonny não atenderia ou cairia na caixa, então ligou pra Glória.
– Mãe...
– Oi, meu amor. Tudo bem com você?
– Mais ou menos.
– O que foi que aconteceu?
– Você está em casa?
– Estou, acabei de chegar da casa da Elisa.
– O Tonny estava com vocês?
– Não, ele não estava. Vocês brigaram de novo, não é? Eu sabia que isso ia acontecer! O que você fez dessa vez, Carlos?
– Eu não quero falar sobre isso, mãe. Só queria saber onde ele está, saiu cedo e ainda não voltou. Ele não vai falar comigo e eu não tô afim de ligar pro Tom pra perguntar se o Tonny está com ele ou pra onde ele foi. Você pode ligar e descobrir pra mim? – Glória suspirou.
– Tá, tudo bem. Te ligo mais tarde.
Ethan acordou com a cara ainda mais amassada que antes e encontrou Tonny, que continuava na sala.
– Ainda está aqui? – indagou para o caçula que jogava um game de corrida desinteressado.
– É, estou.
– Já está escurecendo, hoje é domingo, é melhor você não ir tarde... – estava genuinamente preocupado com o irmão.
– Não sei, acho que vou dormir aqui. Tem espaço pra mim?
– Aqui sempre tem espaço pra você. O Vitinho está no outro quarto, mas você pode dormir comigo.
– Se bem que amanhã é segunda-feira e eu tenho que trabalhar, eu não tenho roupas aqui, acho que é melhor eu ir pra casa.
– Relaxa. Você pode vestir uma minha. Com certeza no meu guarda roupa tem algo que te serve. Não vai ser nem a primeira nem a segunda, muito menos a última vez que você veste uma roupa minha.
Ethan sabia, tinha certeza absoluta do que aquilo significava. Bastava somar dois mais dois. A voz de choro no dia anterior, o bolo que deu neles e mais essa de dormir lá. A briga tinha sido feia. Mas o que Ethan imaginava ser uma “briga feia” entre o casal nem chegava perto de ser o que realmente era.
Certa vez Ethan se irritou com um bolo que tomou de Tonny por causa de Carlos. O executivo fez um jantar romântico surpresa justamente na mesma noite que Tonny tinha combinado de sair com o irmão. Carlos disse ao marido que tinha esquecido o compromisso que o outro já tinha marcado anteriormente. Recém-casado, Tonny não quis comprar a briga com o marido. Apenas ligou para o irmão e disse que não poderia ir. O publicitário evitou o conflito com o parceiro, mas não imaginava que criaria um, tão grande quanto, com Ethan.
Flash back
– Você está atrasado! – disse Ethan visivelmente bravo quando Tonny sentou à mesa na cadeira em sua frente. Tinham combinado de almoçar juntos.
– Apenas cinco minutos, não precisa ficar bravo dessa maneira. – se surpreendeu Tonny
– Por que você não foi ontem?
– Ethan, eu sinto muito. Quando eu cheguei do trabalho o Carlos tinha me feito uma surpresa. Preparou um jantar romântico super-requintado, com direito a champanhe, garçom, iluminação especial, eu não tive escolha. Eu ainda falei pra ele que tinha marcado com você, mas ele esqueceu.
– E você acredita mesmo que ele esqueceu que você ia sair comigo. Ele inventou esse jantar só pra te prender! Não é possível que você seja tão burro! – aumentou o tom de voz.
– Não fale assim comigo! – irritou-se – O Carlos não faria uma coisa dessas. – Ethan riu fraco e balançou a cabeça em sinal de negação.
– Você não pode ser tão ingênuo assim... Aquele cara não vale nada! Ele faz você sofrer com aqueles ataques de ciúme infundados, tenta te afastar de todos, de mim principalmente, dos seus amigos, da nossa família, só falta querer prender você numa torre! – Bradou gesticulando – Será que não percebe isso? Ele finge ser altruísta te dando coisas, te proporcionando momentos, mas na verdade ele é absolutamente egoísta. Faz tudo isso só pra te prender a ele. Ainda dá tempo de você terminar com isso. Ele não merece você! É um canalha! Não vale nada!
– Lave sua boca pra falar do meu marido! Você nunca teve um relacionamento, não faz ideia do que é amar alguém, não sabe do que está falando. O Carlos me ama e faria qualquer coisa por mim. O que acontece na minha relação não é da sua conta! Nunca mais se meta nisso!
Fim do flash back
Desde então, Tonny nunca mais saiu numa noite de farra com o irmão e Ethan nunca mais disse uma palavra sobre o relacionamento dele com Carlos, buscava apoiar o mais novo com gestos. A maior prova disso era a cópia da chave que o caçula tinha. O apartamento do mais velho várias vezes foi o refúgio de Tonny. Ethan sabia que pra dormir ali, o irmão com certeza tinha brigado com o marido. Era a única condição que o fazia parar lá. Mas não proferia uma palavra sobre isso. Apenas fazia o necessário para o irmão ficar confortável em seu refúgio. Para ele, oferecer as próprias roupas era o mínimo que poderia fazer.
– Obrigada – Tonny sorriu em resposta. Sabia que o mais velho tinha ideia do que estava acontecendo, mas se limitou a simplesmente agradecer. No seu íntimo não agradecia apenas pela roupa, mas sim por todo apoio silencioso do irmão.
O telefone vibrou e Tonny tirou o aparelho do bolso. Viu o nome da sogra no visor e respirou fundo quase de forma ruidosa. Com essa reação do irmão, Ethan logo entendeu que se não era Carlos, tinha a ver com ele, e sem dizer uma palavra saiu do cômodo.
– Oi, sogra.
– Oi, meu querido. Está tudo bem com você? Onde você esta? – apesar do tom suave na voz, mulher foi direta
– O Carlos pediu pra você ligar pra saber onde eu estou, não foi?
– Ele fica preocupado com você.
– Então fala pra ele que estou bem e não precisa me esperar, não vou dormir em casa essa noite.
–Meu benzinho, você tem certeza disso? Não é melhor você voltar pra casa e tentar resolver as coisas?
Tonny calou. Todas as respostas que tinha em mente naquele momento eram grosseiras. Amava a sogra, sendo ela uma das duas únicas pessoas que sabiam de fato as coisas que aconteciam, era uma parceira, uma aliada, às vezes ficando contra o filho para estar em defesa dele, então não queria fazer aquilo.
– Tudo bem, eu já entendi. – disse a mulher calmamente quebrando o silêncio – Durma bem, meu querido.
– Obrigado. Você também.
Tonny respirou aliviado em não ter ele mesmo avisar que não voltaria pra casa. Provavelmente se limitaria em mandar uma mensagem de texto, mas nem isso precisaria fazer.
Glória, resignada em ser portadora da notícia, ligou para o filho. Carlos estava deitado na cama assistindo televisão com uma xicara de chocolate quente na mão quando o telefone tocou.
– Ele já está chegando? – o homem foi direto quando atendeu.
– Não, ele não está chegando...
– Então, onde ele está? Me diz que eu vou busca-lo, já está ficando tarde e hoje é domingo, é perigoso ele vir sozinho... – disparou a falar, mas foi interrompido pela mãe.
– Carlos! Carlos, me escuta. O Tonny não quis dizer onde estava. Pediu pra te avisar que está bem e não vai voltar pra casa hoje.
Carlos lançou a xícara que tinha na mão na porta do quarto. Glória pôde ouvir do outro lado da linha o barulho da louça se desfazendo em pedaços.
– Filho... – a mulher tentou.
– EU AINDA VOU MATAR AQUELE FILHO DA... – não completou a frase – EU ODEIO ELE!!! – Carlos explodiu de raiva. Estava se referindo ao cunhado, claro. Diante daquela resposta que recebera da mãe tinha certeza que o marido estava na casa dele. No fundo, Glória sabia também.
– Carlos! – a mulher repreendeu e Carlos ouviu a mãe suspirar alto – Você quer dormir aqui em casa comigo?
– Não. Vou trabalhar amanhã.
– Quer que eu vá dormir com você aí?
– Não. Não precisa. – respondeu e ouviu a mãe respirar fundo.
– Meu filho, tenta esfriar a cabeça, não vá fazer nenhuma besteir... – começou a falar mas foi interrompida.
– Mãe, mãe... Eu preciso desligar, tá bom. – nem esperou a resposta de Glória e finalizou a ligação.
O executivo discou o número que conhecia de trás pra frente e uma foto onde o casal se beijava apareceu na tela enquanto ligava.
Em outro apartamento num edifício um tanto distante daquele bairro nobre, a mesma foto apareceu quando o aparelho vibrou em cima da mesa de centro onde Tonny apoiava os pés.
O publicitário apenas olhou o telefone até parar de tocar. Uma, duas, três vezes. Na quarta recusou a chamada e achou que o outro entenderia, mas teve que recusar mais uma vez. Na sexta chamada desligou o telefone. Se sentia seguro, sabia o marido não teria coragem de aparecer ali.
Na segunda-feira Tonny chegou à agência de publicidade em que trabalhava sem muito humor.
O lugar parecia uma sala gigantesca, do tamanho de um pequeno galpão, com divisórias coloridas que variavam de tamanho, mas nunca maior que um metro e meio de altura, que separavam as mesas onde os profissionais trabalhavam.
O publicitário caminhou até a sua mesa e percebeu uma movimentação no box ao lado, onde ficava uma de suas colegas. Havia pelo menos cinco ou seis mulheres ali.
– Nossa, Tonny, eu não sabia que suas pernas eram tão grossas! – uma delas exclamou indiscreta, assim que percebeu a presença do rapaz.
– Oi? – indagou surpreso com a fala da outra.
– Olha aqui, dá pra ver tudinho! – ergueu uma revista aberta pra ele.
Quando olhou mais atentamente, Tonny não acreditou no que via. Era uma matéria de uma página inteira. A maior parte do espaço era tomada por uma montagem de cinco fotos. Uma mostrava Tonny e Carlos comendo do lado de fora do bistrô, na outra eles pedalavam pela calçada, que ele reconheceu ser o caminho para a academia, e as últimas três eram praticamente uma sequencia: Carlos tocando a mão de Tonny, os dois abraçados com os rostos próximos num carinho e por último se beijando.
O título em grandes letras dizia “Carlos Gutierrez curte manhã de sábado com o marido”. “O empresário tomou café, pedalou e encheu o amado de beijos e carinhos”, afirmava o subtítulo. O breve texto da matéria discorria sobre como era comum encontrar os dois em clima de romance, como era difícil para qualquer mortal se manter daquela forma depois de 13 anos de relacionamento, citava que Carlos tinha acompanhado o marido até a academia e, por fim, afirmava o quanto o publicitário Anthony era sortudo de ter um marido lindo, carinhoso e bem sucedido.
Tonny mal acreditou quando viu aquilo. Nunca na vida imaginaria que estava sendo observado e tendo sua privacidade invadida mais uma vez naquele dia. “Inacreditável!”, pensou o publicitário. A vida dele realmente parecia perfeita, até pra ele mesmo, olhando aquela revista. Se não fosse a própria vida e o que passou nos últimos dois dias, até ele acreditaria.
Fechou a publicação com força e jogou em cima da mesa da outra.
– Não acredito que vocês perdem tempo com essas porcarias.
– Nem todo mundo tem a sua nada dura vida... Nós, pobres mortais, nos divertimos sonhando com uma vida melhor através da boa vida alheia – respondeu a outra.
Tonny apenas bufou em resposta e sentou malcriado na cadeira. “Ah, se você soubesse. Ah, se qualquer um de vocês soubesse...”, pensou enquanto lembrava que estava desde sábado sem falar com o marido.
Carlos entrou na sala da presidência no edifício da multinacional em que era vice e se jogou em uma das cadeiras em frente à mesa. Fora informado pela secretária que era chamado pelo presidente assim que chegou.
– Nossa! Você está péssimo! – Exclamou com ênfase o homem com alguns fios brancos do outro lado da mesa.
Klaus era o CEO da empresa. Mantinha uma relação com Carlos que ia além do seu posto superior ao do outro. Tinha 50 e poucos anos e um ar confiante. O moreno tinha chegado onde estava graças a Klaus, pelo menos em parte, já que era um profissional excelente. Carlos tinha iniciado sua carreira ali e nunca mudou de trabalho. Começou como estagiário de economia no escritório por indicação de um professor que lhe falou sobre a vaga. Graças a sua competência foi crescendo na empresa. Klaus não se arrependia de nenhuma decisão que tinha feito em relação a Carlos, cada vez que o promoveu. O moreno sempre superava suas expectativas. E esse era um dos motivos que havia chamado ele na sua sala. Queria lhe passar a responsabilidade de uma negociação que poderia render bilhões em lucro por mês à empresa. Não seria uma tarefa rápida e fácil, mas caso ele conseguisse, o transformaria em sócio. Era merecido.
– Eu sei – respondeu sem humor – tenho espelho em casa. – Carlos não havia dormido a noite toda. O mais velho riu da resposta.
– Problemas no paraíso? – já conhecia aquela cara.
– Ai, nem me fala nisso. Olha, eu realmente não sei mais o que fazer. Eu devo ter feito muito mal a alguém pra merecer um cunhado como aquele. Só posso ter jogado pedra na cruz! Se não fosse por ele, com certeza, pelo menos metade dos meus problemas com o Tonny não existiria. – isso era uma coisa que Carlos acreditava piamente! – Se eu matar ele algum dia, promete que não vai deixar ninguém me prender? Ou pelo menos que não vai deixar o Tonny desamparado?
– Você está louco, Carlos! Vira essa boca pra lá! Você não teria coragem. Cão que ladra não morde. Você vai superar isso. Você sempre supera, relaxa!
Klaus estava sempre pronto para ouvir os problemas conjugais de Carlos e dar conselhos. Mas a história que chegava até ele era sempre uma versão editada. Além de Glória, era a única pessoa com quem Carlos desabafava, embora em parte, sobre as suas questões com Tonny.
– Eu sei. Mas passar por isso é um saco! – respirou fundo antes de mudar de assunto – Mas não foi pra falar da minha aparência que você me chamou aqui.
– Exatamente. Tem duas coisas que quero tratar com você. A primeira é que tenho uma proposta pra você. – explicou o que tinha em mente sobre a negociação e torna-lo sócio e por fim indagou – Então, o que acha?
– Vai ser um desafio muito grande. É muita responsabilidade, você poderia cuidar disso pessoalmente pra garantir o resultado das negociações, mas eu topo. Vou correr o risco.
– Muito bem. Não esperava outra resposta de você.
– E o outro assunto, qual é?
Como se estivesse ouvindo atrás da porta e esperando a deixa, ouve-se uma batida e Mazo entra em seguida. O rapaz negro com tanta beleza poderia ser facilmente um modelo bem sucedido, mas era o Diretor de Marketing da multinacional, muito bem sucedido nisso também.
– Bem na hora, Mazo. Quero discutir com vocês o plano de imagem e propaganda da empresa.
– Cara, você está horrível! – exclama Mazo ao olhar para o rosto de Carlos, já sabia o motivo.
– Eu já sei! – respondeu mal humorado – Vamos falar de trabalho que é melhor.
Então os três começaram a tratar das questões da empresa.
Passavam das 14h, Tonny já tinha retornado do almoço e Carlos não tinha tentado nenhum contato desde a noite anterior.
– O senhor é Anthony Gutierrez? – indagou o desconhecido. Tonny levantou os olhos da tela do computador para visualizar o homem atrás da divisória baixa a sua frente.
– Anthony Moore-Gutierrez, sou eu. Por quê? – corrigiu o rapaz como se tivesse mais alguém ali com aquele nome. O estranho saiu sem dizer nada e quando voltou Tonny tomou um susto.
Havia um buquê simplesmente enorme e belíssimo de flores vermelhas e brancas. Era tão grande que Tonny nem conseguia visualizar o homem atrás enquanto ele dizia:
– Isso é pro senhor.
Tonny balançou a cabeça em negação, apenas uma pessoa poderia estar fazendo aquilo. Levantou resignado e pegou as flores para o alívio do rapaz, estava realmente pesado!
– Obrigado.
– Assine aqui, por favor.
Enquanto assinava o comprovante de entrega, num segundo um mulheril apareceu ao seu redor.
– Nossa! Mas nasceu virado pra lua mesmo! Sábado perfeito, flores no trabalho... Aposto que passaram o domingo todo fazendo amor. Aquele seu marido deve ser muito bom de cama, né não? Se fosse meu, não deixava ele levantar pra nada! – uma delas disse suspirando.
– Se um dia você se separar dele promete que fala pra gente primeiro? Quem sabe a gente tem mais chance se colocar o currículo primeiro. Já que ele tem uma queda por publicitários, quem sabe? – perguntou uma outra.
– Fala pra mim também, quem sabe eu tenho chance. De repente eu posso gostar... Com tanto homem se descobrindo gay e bissexual, alguma coisa deve ter aí! – gracejou o colega que sentava atrás dele que era absolutamente hétero e casado com uma mulher. As meninas riram.
– Tá bom! No dia que eu me separar dele eu prometo que vocês saberão em primeira mão, juro! – disse emburrado de um jeito engaçado e exagerado – Agora me deixem em paz que eu quero trabalhar! – falou abanando os braços.
Tonny recebeu mais outros três buquês iguais, de hora em hora. Não tinha mais onde colocar as flores, eram muitas! O escritório todo já estava alvoroçado com aquilo. Apenas o buquê que recebeu por último, às 17h, tinha um cartão, onde Tonny reconheceu a letra do marido.
“Queria poder te dar uma rosa por cada lágrima que fiz você derramar. Sinto muito. Sinto sua falta. Te amo mais que tudo. Carlos.”
Fale com o autor