O homem que eu amo
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Quando abriu a porta, Glória deu de cara com Elisa. Sentiu seu corpo gelar. Em sua cabeça passaram mil pensamentos ao mesmo tempo, queria falar alguma coisa mas não pôde. A mãe de Carlos definitivamente não esperava pelo tapa que a atingiu na face.
– Eu confiava em você, abri as portas da minha casa pra você. Tinha você como mais que amiga, como uma irmã, e você deixando o meu filho sofrer para proteger o seu! Nunca mencionou uma palavra sequer sobre o que acontecia pelas minhas costas. — Glória abriu a boca sem emitir nenhum som, não sabia exatamente o que dizer. Elisa ergueu a mão indicando que ela parasse — Não precisa dizer nada. Vim apenas buscar meu filho.
Tonny estava de pé, assistindo a cena estatelado. Foi quando aconteceu a última coisa que ele queria e esperava: Ethan surgiu atrás de Elisa.
Era a primeira vez que os irmãos se viam em sete meses. A primeira vez desde o dia que Tonny contou que iria adotar e formar uma família com Carlos, e eles romperam. A partir daquele momento não houve uma palavra sequer do mais velho dirigida a ele.
Quando Ethan visualizou Tonny, entrou na sala feito um furacão, passando pelas duas mulheres paradas na porta. Ao se aproximar do irmão caçula, segurou o rosto dele entre as mãos.
– O que ele fez com você? — a voz de Ethan era um sussuro sofrido. Suas primeiras palavras para o irmão em meses.
Examinou o rosto do publicitário, em seguida desceu a mão até a barra de sua camisa. Tonny o segurou com o intúito de impedir, mas recebeu um olhar intenso, como uma advertência muda. Embora eu não soubesse exatamente o que aquilo queria dizer, o publicitário achou por bem ceder. Assim, Ethan viu o dorso completamente marcado e teve certeza que todo o resto do corpo que estava coberto por outas semelhante àquela.
Ethan sentia um ódio que não podia descrever queimando por dentro. Raiva, muita raiva. Mal podia acreditar no que aquele homem, que considerava tão desprezível, tinha feito com uma das pessoas que mais amava no mundo.
– O que esse animal fez com você? — fez uma expressão que parecia de dor — ONDE ELE ESTÁ? EU VOU MATAR ESSE FILHO DA PUTA NA PORRADA! — Ethan explodiu em cólera.
– Não, Ethan! Pelo amor de Deus! Eu estou bem... — tentou segurar o irmão pela camisa, mas ele se soltou, indo em direção ao quarto.
Na mesma hora Carlos abriu a porta.
– O que está acontecen... — sequer terminou a frase, o soco de Ethan o atingiu em cheio, fazendo-o cambalear para trás, quase caindo. Logo o executivo identificou quem o acertou e partiu pra cima do cunhado.
Carlos desferiu um soco, mas Ethan se esquivou tornando o impacto leve, e logo revidou com mais dois golpes, levando o executivo ao chão.
– Parem! Parem com isso! — Tonny griitou tentando segurar o irmão — Ethan, para com isso! Não vai levar a nada.
– ELE NÃO GOSTA DE BATER? QUEM GOSTA DE BATER TAMBÉM TEM QUE GOSTAR DE APANHAR! — se soltou do agarro do publicitário e chutou o cunhado duas vezes antes que ele pudesse levantar. No terceiro chute, Carlos segurou o pé dele fazendo-o cair no chão também.
O executivo desferiu um soco no adversário assim que ele caiu no chão, atingindo-o em cheio. Ethan devolveu o golpe e montou sobre ele, socando o cunhado várias vezes no rosto e nas costelas.
– Vitinho, pelo amor de Deus! Você vai ficar aí só olhando? — Tonny agarrou o primo pela camisa — Eles se odeiam, isso só vai acabar quando um sair morto! Me ajuda, por favor!
O plano de Victor era justamente continuar apenas olhando, já que Ethan estava dando conta do recado. O plano B era se juntar a Ethan para bater em Carlos, caso o executivo fosse melhor, mas não era o caso. Vitinho queria mais era que Ethan batesse nele até ele perder a consciência. "Pra ele deixar de ser covarde", pensou. Não respondeu, apenas continuou observando.
– O que você quer? — Tonny virou o rosto do mais alto fazendo-o encara-lo. — Que aconteça uma tragédia? Que Ethan passe o resto da vida na cadeia por homicídio ou por tentativa? Seja racional! Vitinho?
O rapaz ficou o olhou por alguns segundos, parecendo ponderar as palavras de Anthony. Até que foi ao primo mais velho, que ainda socava o cunhado, dando uma chave de braço que o obrigou a levantar.
No mesmo momento Thomas chega ao apartamento e encontra o caos instalado.
– ME SOLTA! ME SOLTA, VITINHO! — Ethan gritava — EU VOU ACABAR COM A RAÇA DELE! ELE VAI SE ARREPENDER DE TER TOCADO A MÃO NO MEU IRMÃO! VAI SE ARREPENDER DE TER NASCIDO! VOU ACABAR COM A VIDA DELE!
Sem o cunhado sobre o seu corpo, Carlos finalmente pôde levantar e logo foi segurado por Anthony e Thomas.
– VEM OTÁRIO! EU ACABO COM VOCÊ, SEU MERDA! — gritava o outro em resposta. O rosto ensanguetado pelo corte anterior que havia sido reaberto durante a briga — VEM! QUE EU MATO VOCÊ E ME LIVRO DE UMA VEZ!
– Victor, leva ele pra fora, pelo amor de Deus! — Tonny pediu e olhou o marido — Cala a boca, Carlos! Fica quieto!
– ME LARGA, VICTOR! EU VOU MOER ELE NA PORRADA! — Ethan deu um impulso quase se soltando do agarro para partir pra cima de Carlos novamente.
– MÃE! — Tonny pediu com olhos suplicantes a intervenção de Elisa, a única que ele sabia que poderia fazer o irmão parar naquele momento.
– Ethan, me espere lá fora. — Elisa finalmente se pronunciou.
– NÃO, MÃE! EU VOU DESTRUIR A VIDA DESSE DESGRAÇADO!
–Ethan! Estou mandando você me esperar lá fora! Leva ele, Vitinho.
Ethan olhou a mãe contrariado, depois dirigiu um olhar ameaçado ao cunhado.
– EU AINDA NÃO ACABEI COM VOCÊ! — disse apontando pra Carlos antes de sair.
Tom e Tonny soltaram Carlos. E Glória deu uma toalha de rosto para o filho pressionar o ferimento e estancar o sangramento.
Elisa olhou para o filho mais novo:
– Arrume as suas coisas. Você vai voltar pra casa agora comigo.
– Mãe! Eu não posso simplesmente arrumar as minhas coisas e voltar pra sua casa. Eu ia...
– Eu mandei você arrumar suas coisas! — ela o interrompeu — Você vai sair daqui comigo agora!
– Não precisa isso. — tentou argumentar — O Carlos pode sair e ir morar na casa nova.
– O Tonny tem razão. — se pronunciou o executivo — Esse apartamento é dele e...
– Eu não dirigi a palavra a você. — interrompeu o genro — Mas escute bem porque essa é a última vez. Eu te tratei como um filho. Eu confiei a vida do meu caçula à você; e você batia nele pelas minhas costas. Você quer que ele fique aqui pra que? Pra ficar ao seu alcance? Para aliciá-lo e convence-lo mais uma vez que você vai mudar, para ele voltar pra você? Pois saiba que no que depender de mim, ele nunca mais vai olhar pra você; nem sequer andar na mesma calçada que você. E eu vou garantir que seja assim, nem que pra isso eu tenha que cuidar de cada passo dele. E te digo mais uma coisa: eu não deixei Ethan continuar só porque eu não quero um filho na cadeia; porque eu tenho certeza que ele ia te matar. — virou-se para Tom — E você? Amigo do meu filho? É assim que você se considera "o melhor amigo" dele? Vendo essa barbaridade acontecer e se mantendo calado? Sem fazer nada?Faz-me rir!
Thomas até poderia dizer que foi contra a sua vontade que manteve segredo; que sempre aconselhou e deu forças para o melhor amigo deixar Carlos; que muitas vezes disse poucas e boas ao marido do amigo por conta das agressões, mesmo o próprio marido não gostando nada quando fazia isso. Mas preferiu se calar. Não era o momento. Ele era pai, entendia a mágoa dela de não saber o que acontecia com o próprio filho, inocente, endeusando quem não merecia.
– Vamos, eu não tenho todo o tempo do mundo! — Elisa disse ao filho — Você vai sair daqui por bem ou por mal. Você escolhe.
Tonny ponderou tudo que já tinha acontecido ali, as coisas que sua mãe disse às pessoas que estiveram ao seu lado todo esse tempo. Achou por bem obedecer. Entrou no closet.
– Não... Não, não, não... — Carlos seguiu o marido, sob o olhar atento de Elisa — Você não pode ir embora, Tonny. Por favor. — pediu desesperado.
O publicitário pegou uma mochila. Não pretendia levar muitas coisas, tinha roupas na casa da mãe. Apenas algumas peças preferidas e objetos de uso pessoal.
– Não tenho escolha... — respondeu enquanto pegava suas coisas — A gente ia se separar mesmo... Era sobre isso que eu queria falar com você. Não tinha como continuar depois do que aconteceu ontem. Eu queria o divócio...
– Não! Não era pra ser assim! A gente ia se mudar pra casa nova amanhã, lembra? O nosso filho está chegando, a nossa família. — disse suplicante, com os olhos cheios de lágrimas.
– Não tem mais casa, não tem mais filho, não tem mais eu e você. Acabou. — Tonny respondeu, fechando a sacola, tentando segurar as lágrimas em vão — Minha mãe já sabe, ela não vai me deixar ficar. Ela vai me tirar daqui por bem ou por mal, ela não está brincando. E eu não quero ser responsável por uma tragédia. — olhou o marido que chorava copiosamente. Aquilo doía. Não deveria se importar, mas não conseguia. Tudo que queria naquele momento era coloca-lo no colo e consola-lo, dizer que ia ficar tudo bem... Mas não podia. Não era verdade. Não acreditava que ia ficar tudo bem. Se limitou a dizer:
– Se cuida.
Tinha a intenção de sair, mas foi impedido de andar. Carlos se ajoelhou, abraçando suas pernas, chorando a ponto de soluçar.
– Não me deixa, pelo amor de Deus. Eu faço qualquer coisa! Eu faço o que você quiser! Não faz isso comigo... Eu não vou aguentar... Eu não sei viver sem você...
Tonny fechou os olhos e respirou fundo, mas não pôde evitar as grossas lágrimas que vieram e tomaram conta de seu rosto. Embora a pele castigada doesse com o aperto, doía muito mais ver o homem que tanto amava desesperado daquele jeito. Simplesmente não conseguia manter nenhum sentimento negativo por ele naquele momento, mesmo que a dor nas pernas o lembrasse do motivo de estar naquela situação, se separando daquela maneira.
– Vamos, Anthony. Eu não tenho o dia todo. — Elisa apareceu na porta do closet.
– NÃO! — Carlos gritou, num urro sofrido, apertando ainda mais o marido.
Tonny até tentou, mas não conseguiu impedir os soluços altos que vieram quando o próprio choro se intensificou.
Glória passou por Elisa, entrou no closet e abaixou ao lado do filho, passando os braços em volta dos ombros.
– Não piora as coisas, meu filho... Deixa ele ir. É melhor assim... — colocou as mãos por cima das dele, conduzindo-o a desfazer o aperto.
Tonny finalmente saiu e Carlos soltou um urro gutural. Uma dor indescritível rasgava o seu peito, sentia como se fosse morrer.
No quarto, Tonny abraçou Tom, deixando a mochila cair no chão. Soluçou entre os braços do amigo por vários minutos, enquanto ouvia os urros do marido que vinham lá de dentro, que também não parava de chorar.
Elisa estava sendo paciente enquanto o filho derramava sua dor, mas já era o momento de acabar com aquilo.
– Já passou da hora, Anthony. Vamos.
– Vai ficar tudo bem, você vai ver... — Tom falou no ouvido do amigo — É melhor você ir agora. A sua família vai cuidar bem de você . A sua mãe te ama, ela só vai fazer o que for melhor pra você — secou o rosto do publicitário com as mãos e deu-lhe um selinho — Eu te amo. Pode contar comigo pra qualquer coisa que precisar. Qualquer coisa me liga, ok? Se cuida direitinho, a Nana e o Dan querem o tio deles bem. — piscou e o beijou no rosto.
Tonny colocou a mochila nas costas, pegou a carteira no criado mudo do quarto e seguiu a mãe, batendo a porta da sala.
Ao ouvir o som da porta se fechando, Carlos sentiu algo que parecia impossível de conrolar: o peito doía e comprimia ainda mais, de repente ficou difícil de respirar, não conseguia buscar o ar e começou a hiperventilar.
– Calma, meu filho... Respira. Tá tudo bem, respira.
O executivo só piorava, ficava cada vez mais sem ar. Já começava a ficar com o rosto vermelho.
– Não me assusta desse jeito, filho, respira! — Glória falou alto, chamando atenção de Tom que entrou no cômodo e identificou que Carlos estava tendo um ataque de pânico, ou pelo menos parecia.
– Encosta as costas dele contra o seu peito. — ele instruiu a mulher, que se posicionou atrás do filho, obedecendo-o — Carlos, olha pra mim. Inspira devagar — fez o exercício respiratório, indicando com a mão para Glória fazer o mesmo — Expira. Solta o ar. — Inicialmente não parecia estar funcionando, então o rapaz colocou a mão do executivo no seu torax — Consegue sentir? Inspira... Puxa o ar. Agora solta... De novo. Inspira, expira...
Aos poucos a respiração de Carlos foi voltando ao normal e ele entrou num estado de torpor. Olhar distante, nem parecia estar neste mundo, mal piscava. Seu rosto não demonstrava emoção alguma. Apenas grossas lágrimas caiam molhando seu rosto que ainda tinha marcas de sangue.
– Obrigada. — disse Gloria.
– Assistir canais sobre cuidados com os filhos pode ser mais útil do que a gente imagina. Posso ajudar em mais alguma coisa?
– Não. Você pode ir. Obrigada.
.
No saguão do prédio, Ethan andava de um lado para o outro, nervoso.
– É melhor eu voltar pra lá. Deve ter acontecido alguma coisa... — ameaçou adentrar o elevador.
– Não. Espera aqui. A tia pediu pra gente esperar aqui. Se acontecer alguma coisa e precisar, ela vai ligar. Agora deixa eu ver isso aqui... — passou a mão pela face de Ethan onde estava vermelho, ficando ainda mais perto — Isso vai ficar inchado. Quando chegar em casa vamos colocar gelo.
– Tsc. Tanto faz...
"Plim". O barulho do elevador fez os dois se assustarem, se afastando bruscamente.
Quando a porta abriu, Tonny saiu acompanhado da mãe, completamente desolado. O rosto vermelho, encharcado de lágrimas.
Ethan andou a passos largos até o irmão e o abraçou forte, que apenas pusou as mãos em suas costas.
– Desculpa por ter te abandonado dessa maneira. Me perdoa por te deixar nas mãos daquele crápula, sofrendo. Eu devia ter prestado mais atenção em você; deveria ter cuidado melhor de você... Mas não vou deixar isso se repetir, eu prometo. — segurou o rosto do caçula entre as mãos e beijou demoradamente, depois voltou a abraça-lo.
– Para de apertar ele desse jeito! Ele tá machucado. — ralhou Vitinho
– Ah! É verdade. Só de lembrar o que ele fez com você, dá vontade de voltar lá e desintegrar ele na porrada.
– Não foi nada. Eu estou bem. — Tonny respondeu sem ânimo algum. Das dores que sentia naquele momento, as do corpo eram as mais insignificantes.
No caminho até a casa de Elisa o clima era carregado. Victor dirigia o carro de Ethan, com a tia ao seu lado, no carona. Tonny chorava com a cabeça encostada no vidro fumê da janela de trás, com o irmão ao lado.
– Tá tudo bem... — Ethan colocou o queixo no ombro do caçula — Agora você vai ficar bem, eu vou cuidar de você... Nunca mais vou te deixar sozinho. — disse carinhoso.
Durante os últimos sete meses, o que Tonny mais queria no mundo era ter o irmão de volta. Ter o toque dele, poder conversar e dizer o quanto o amava, tê-lo por perto... Agora ele estva ali ao seu lado, acariciando seus cabelos, tentando conforta-lo, prometendo que não se afastaria nunca mais — como ele sonhou com isso. Mas não gostaria que tudo estivesse acontecendo naquela condição. Queria poder estar pelamente feliz por estar junto com Ethan novamente, mas parecia impossível devido a dor que rasgava seu peito.
"Então é assim que acaba quase 14 anos de relacionamento? Minha vida inteira dedicada a ele...", Tonny mal podia acreditar.
Relembrava as súplicas do marido, implorando para que ficasse. "Eu não sei viver sem você". A voz dele parecia ecoar na sua mente. Tonny se perguntava se ele mesmo sabia viver sem Carlos. Era tão jovem quando começou o relacionamento, apenas 17 anos. Sua vida inteira construída junto com ele. Tantas primeiras vezes compartilhadas. Como seria sua vida agora? Dormir e acordar sozinho, sem o homem que amava ao seu lado, sem as noites de amor, sem seus beijos para acorda-lo...
Não fazia idéia de como seria sua vida dali pra frente. Sua família havia descoberto o que acontecia no seu casamento; e com o histórico da tia que sofria violência doméstica, a mãe faria de tudo pra ele não voltar para aquela relação.
– Chegamos. — a voz de Ethan o fez despertar se seus pensamentos.
Desceu do veículo lentamente e andava sem vontade alguma. Ethan o amparava com as mãos em volta dos seus ombros. Assim entraram em casa e subiram as escadas até o antigo quarto do publicitário.
– Vocês dois podem sair. Eu preciso ter uma conversa com o Anthony. — disse Elisa.
– Mãe... — o caçula pediu com olhos suplicantes. Ele já estava se sentindo muito mal, aquela conversa era a última coisa que queria no momento. Já sentia como se tivesse o peso do mundo nas costas, precisava respirar.
– Mãe, é melhor deixar ele descansar um pouco. — intercedeu Ethan. Era óbvio demais que o irmão não estava nada bem.
– Não. Quero agora. Podem sair.
Assim eles fizeram. Tonny sentou jogando o peso do corpo sobre o colchão, fitou a mãe com um olhar triste e derrotado, mas Elisa não se compadeceu, encarou o filho caçula e cruzou os braços a frente do peito.
– Há quanto tempo isso acontece pelas minhas costas? E não se atreva a mentir pra mim!
– Mãe, por favor, me dá um tempo... Eu estou exausto, exaurido...
– Eu também estou exausta! Estou cansada de ter você omitindo coisas e mentindo pra mim! Cansada de ser enganada por você! Portanto eu acho bom você responder a minha pergunta! Há quanto tempo ele bate em você?
Tonny encarou a mãe sem dizer nada por longos segundos. Admitir aquilo era muito difícil, mais do que ele imaginava. Nunca tinha falado sobre aquilo com ninguém que não fosse Glória e Tom. Era como se tivesse virado realidade só porque deixou de ser segredo. Falar alto sobre aquilo com a mãe o obrigava a encarar a realidade dos fatos.
– Há uns seis anos... — sua voz era tão baixa que Elisa quase não ouviu. Esfregou as têmporas — Eu não quero falar sobre isso, mãe, por favor...
– Seis anos???!!! — a mulher quase gritou — Você... Eu não acredito! — a mulher começou a andar para lá e para cá sem parar — Eu imaginava que essa não era a primeira vez, mas seis anos?! Eu... Eu não posso acreditar numa coisa dessas... E eu realmente acreditando que ele era um bom marido, o seu marido perfeito! Como eu pude ser tão cega? Anos convivendo com o problema da minha irmã e não percebi o que estava acontecendo na minha cara, com o meu próprio filho! — ela parou na frente dele — Agora me diz, por quê? Por que manter um casamento de fachada desde o começo? Eu não quero acreditar que você se submete a isso por causa da vida de luxo que ele te dá.
– Não é de fachada! — irritou-se Tonny — Meu casamento não é de fachada, nem nunca foi! Muito menos por dinheiro! — aumentou o tom de voz se mostrando ofendido — Nós casamos e nos mantivemos casados porque nós nos amamos! Nós sempre nos amamos! Sempre!
– Amor??? Amor?! — puxou o filho pelo pulso fazendo-o levantar e levando até o espelho de corpo inteiro em uma das paredes do quarto — Olha bem pro seu rosto! Isso é amor??? Tira essa roupa!
– Quê?!
– Tira essa roupa! Agora! — aumentou o tom de voz.
– Eu não vou...
– Tira essa roupa agora ou eu arranco ela do seu corpo! — ela gritou.
Tonny arregalou os olhos incrédulo, completamente surpreso com a fúria dela. Nunca tinha visto a mãe daquela forma e ela já tinha sofrido com problemas cardíacos, então fez o que tinha sido ordenado. Tirou a camisa lentamente e em seguida deixou a calça cair sobre os pés.
Elisa levou as duas mãos a boca para abafar um soluço ao ver o estado do corpo do filho.
– Como... Como você tem coragemde falar em amor??? — a voz de Elisa era um fio. Tonny abaixou a cabeça, tinha os ombros caídos — Esse homem não ama você! — começou a aumentar o tom de voz — Se olha no espelho! Você acha que quem ama faz isso? Quem ama não bate, não machuca, não espanca! — segurou a cabeça dele forçando-o a encarar o espelho — OLHA O QUE ESSE MONSTRO FEZ COM VOCÊ! ISSO NÃO É AMOR! NÃO É!
Lágrimas voltaram a rolar pelo rosto do publicitário.
– Por que ele faz isso com você? Qual o motivo que ele acha que tem pra fazer isso com você?
"O ciúme incontrolável dele, esse é o motivo", Tonny pensou, mas não respondeu à mãe.
– Você não quer falar, ok. Mas pode escutar bem o que eu vou te dizer: a partir de hoje você não vai mais chegar perto dele. Nunca mais! Não vai falar, nem sequer olhar pra ele novamente. Você vai procurar um advogado e dar entrada nos papéis do divórcio. A partir de hoje você só vai sair para trabalhar e volta direto pra casa. Você sai às 19h? Quero você aqui até às 20h. Se você precisar ir para outro lugar, você vai me pedir e só vai sair com seu irmão ou com seu primo ou comigo! Fui clara?
– Mãe! — secou as lágrimas grosseiramente — Você não pode fazer isso comigo! Eu sou adulto! Não sou uma criança que você coloca de castigo! Muito menos um prisioneiro em condicional!
– Você não é digno de confiança!
– Eu não vou me submeter a isso! — disse levantando a calça novamente.
– Você vai! Você vai ou eu faço um escândalo! Conto tudo para o primeiro paparazzo de beira de esquina!
– Você não faria isso... — a voz de Tonny era um fio de pura incredulidade.
– Experimenta desobedecer uma única palavra e você vai ver do que sou capaz! — a mãe respondeu num tom ameaçador, estreitando os olhos para o filho e em seguida saiu do cômodo. Seguiu para o próprio quarto, batendo a porta atrás de si.
Quando finalmente estava sozinha, a matriarca deixou-se desabafar. Chorou. Chorou muito. Chorou copiosamente. Se questionando o tempo inteiro. Mais de seis anos! Como ela nunca percebeu nenhum sinal? Será que a idolatria ao genro a fez incapaz de ver qual era a realidade do casal?
Sentia-se incompetente, se culpava por não ter feito o papel de mãe como deveria, protegendo o filho. Sentia raiva, muita raiva de si mesma por te se deixado enganar e raiva das pessoas, por tê-la enganado por tanto tempo. De Glória, que tinha como amiga e irmã e acobertava as trocidades do filho; de Tom que sabia de tudo e mantinha segredo. E Carlos... Esse ela nunca mais queria ver na vida! Ela tinha todo o amor e carinho do mundo por ele. O amava da mesma forma que amava Ethan, Jessie e Tonny. Nem mais nem menos. Se sentia completamente apunhalada pelas costas, até mesmo pelo filho. Sim, ele era vítima, mas a deixou no escuro. Deixou que ela acreditasse que tinha o melhor genro do mundo.
Mas agora ela faria o certo. Protegeria o filho dos abusos. Não deixaria que o executivo escostasse mais um dedo sequer em Anthony. Custasse o que custasse. O que não pôde fazer pela irmã, faria pelo filho, nem que tivesse que amarra-lo.
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Depois de muito tentar e insistir, finalmente Glória havia conseguido fazer Carlos levantar do chão do closet e o levou para um banho rápido de chuveiro.
Carlos parecia um zumbi. O olhar completamente sem vida, fazia os movimentos no automático, não parecia perceber nada ao seu redor, tampouco ouvir o que sua mãe falava. Parecia um corpo sem vida. Apenas grossas lágrimas caiam molhando seu rosto sem expressão alguma.
– Vamos dormir um pouco. Amanhã tudo vai parecer melhor que hoje, você vai ver... — Glória o deitou na cama nu após seca-lo e o cobriu com o lençol.
Pegou o kit de primeiros socorros e pôs-se a limpar o corte, que a pouco sangrava, com alcool parar evitar infecções. Ainda que aquilo provavelmente estivesse ardendo bastante, Carlos não esboçava nenhuma expressão dor e isso preocupava a mãe. Terminado o curativo, ela colocou dois comprimidos na boca do executivo, um analgésico e um relaxante, e encostou o copo de água na boca dele.
– Bebe, meu filho. Você vai se sentir melhor. — Novamente num movimento quase que robótico, Carlos engoliu a medicação.
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– Oi... — Tom chegou em casa e encontrou o marido no tapete da sala, sentado brincando de montar com os filhos. Dan estava sentando entre as pernas do pai. O garoto não estranhava mais ninguém, mas ainda não tinha voltado a ser ativo como costumava. Nana corria pela casa catando as peças — eram centenas — para o pai e o irmão encaixarem.
– Oi! Não demorou nada. — Mazo respondeu colocando mais um bloquinho e depois olhou para o marido — Que cara de enterro é essa? O que aconteceu?
– Papa! — Nana gritou. A menina ainda dormia quando o pai saiu, resultado de ter acordado de madrugada e agora estava a todo vapor.
Thomas sentou ao lado do marido no chão e abraçou a filha com um braço e passou o outro em volta de Mazo.
– Eu agradeço a Deus todos os dias por ter me dado vocês. Vocês são mais do que eu poderia querer, mais do que eu poderia sonhar. Deus permita que permaneçamos uma família unida, sem mentiras, sem segredos, um zelando pelo outro sempre.
– O que aconteceu lá pra você voltar desse jeito? — Mazo perguntou meio incomodado com a parte das "mentiras e segredos" do discurso do marido, pensando em Lucas.
– O Tonny e o Carlos se separaram.
Mazo ficou boquiaberto, parecia incapaz de proferir algo, mas se obrigou a perguntar:
– Como assim se separaram? Eles já brigaram tantas vezes antes e nunca se separaram... E por que você não está com o Anthony, então?
– Dessa vez é diferente... A Rose já foi pra casa?
– Já.
– Filho, fica aqui brincando com a sua irmã que eu preciso conversar com o papai, tá bom? — passou a mão pela face de Dan — E você se comporte! — disse beijando a filha. — Sem brigar os dois. A gente vai tá bem ali no sofá, ok? — advertiu os dois que balançaram a cabeça positivamente.
O casal levantou e sentou no estofado de dois lugares mais afastado das crianças.
– Eu preciso que você entenda que eu não estava mantendo um segredo de você. — Tom começou — Não era um segredo meu, era do Tonny e eu não podia trair a confiança dele. Sei que nós combinamos nunca manter segredos um do outro, e sempre cumprimos isso, mas era um particular dele. — ele falava baixo para as crianças não ouvirem.
Mazo se mexeu desconfortável com todo aquele papo.
– Você está me assustando. O que isso tem a ver com a separação de Carlos e Anthony?
– Eles se separaram porque a família do Tonny descobriu que o Carlos bate nele...
– Como assim? Que loucura é essa? A troco de que o Carlos bateria no próprio marido? O Tonny é a pessoa que ele mais venera no mundo. Ele faz o possível e o impossível por aquele homem. Como isso é possível?
– Por causa do ciúme... Algumas vezes a coisa não acabava nas cenas que víamos ele fazer. Quando ele fica com muito ciúme ele se descontrola e desconta no Tonny.
– Era por isso que você dizia tantos desaforos pra ele?
– Era... — suspirou — Na noite passada ele bateu muito no Tonny quando chegou em casa.
Mazo estava pasmo. — E você sabia disso há quanto tempo?
– Sabia desde a primeira vez que aconteceu, alguns meses depois que eles casaram. Mas Tonny me pediu segredo. Hoje a família dele finalmente descobriu e a Elisa foi buscar o Tonny. Foi uma cena muito triste, terrível. Eu sempre incentivei o Tonny a deixar o Carlos, mas não gostaria que fosse daquela forma. Foi traumático demais. Eu nunca vi o Carlos tão vulnerável e desesperado na minha vida. Não parecia em nada o homem imponente que ele sempre aparenta, sabe? O Tonny chorou uns cinco minutos ou mais no ombro antes de sair.
– E será que é definitivo?
– Eu acho que sim... Não acredito que a Elisa ou o Ethan deixe o Tonny se aproximar do Carlos novamente.
– Eu acho que isso não quer dizer nada... Você sabe muito bem que se dependesse da minha mãe, nós não estaríamos juntos. Aliás, ela fez de um tudo pra gente não ficar, e olha onde a gente chegou. — apontou com as mãos para os filhos, que considerava o símbolo máximo do amor que tinham — E eu agradeço aos céus por isso.
– Mas é diferente! A sua mãe não gosta de mim sem motivo. Aliás, ela acha que sempre ainda tá em tempo de você encontrar alguém melhor que eu... — o dono de casa nunca esquecera o dia que a sogra disse "tem certeza que você vai se casar com ele? Você pode melhor que isso, meu filho", sem se importar com a sua presença. E tal mágoa era notável na sua expressão e na sua voz.
– Vamos parar de falar na Dra. Izabel Alice? Chega o clima fica pesado. — tentou dispersar sabendo como Tom acabava ficando quando falava na sogra, no final das contas sempre sobrava pro executivo a irritação e os gritos depois.
– Pois é! O fato é que a Elisa tem motivos reais para querer o Carlos longe do Anthony. O que não é o caso da Dra. Izabel Alice comigo.
– Verdade. Nisso você tem razão.
– Só me diz uma coisa... Faz tempo que a sua mãe não liga pra fazar com os netos...
– Ela está viajando com um grupo de médicos humanitários pela África. Atendendo crianças de comunidades paupérrimas.
– Você tem falado com ela?
– Não. Faz tempo que não nos falamos. As condições são muito precárias e ela não tem tempo.
– Bem que eu estranhei ela não ligar com aquela voz cheia de si! "Quero falar com meus netos!" — imitou o jeito da sogra de um jeito estranho. Mazo até riria, mas depois iria sobrar pra ele — Nem um bom dia, um boa tarde, nada. Um dia desses ela ligou e eu fiquei ouvindo na extensão o que ela falava pras crianças. Ela disse pro Dan: "Oi amor, é a vovó Izabel, a mãe do papai Mazo". Enfatizou pra ele não ter dúvidas. Depois perguntou "aquele seu outro pai está cuidando mesmo de vocês?". Ai que raiva que me deu! Tive vontade de xingar ela tanto! Quem ela pensa que é pra falar assim de mim para os meus filhos? — o tom de voz de Thomas já começava a ficar alterado, definitivamente ele estava com raiva e Mazo ficando preocupado onde isso ia chegar.
– Você tem toda razão. — ele disse cauteloso — Mas é você que permite que ela fale com eles...
– E o que você queria que eu fizesse? — disse já visívelmente irritado, gesticulando — Que eu proibisse eles de ter contato com a própria avó? A única que eles podem ter contato? Para o meu pai e minha mãe eu não existo. Ter um filho gay já é um ultraje pra eles, com marido e filhos negros, então, acabou o mundo! Racistas homofóbicos de merda! O que você queria que eu fizesse? Pelo menos a sua mãe gosta dos netos e se importa com eles! — aumentou o nível da voz.
– Ei! Ei! Calma... Você vai assustar Nana e Dan desse jeito. Você está certo. Eu vou falar com ela sobre o comportamento dela com você, ok?
– Não importa. Não vai fazer diferença!
– Mesmo assim eu vou falar.
– Isso não é importante. O que me preocupa agora é o estado do Anthony. — suspirou cansado — Queria poder estar perto dele agora... — olhou no fundo dos olhos do marido- Você entende que te contar não era uma decisão minha? Eu nunca quis esconder nada de você.
– Eu entendo sim. Ele é o seu melhor amigo e era a vida dele.
– Ótimo. Sem mais segredos entre nós? — indagou Tom.
Mazo ficou desconfortável e desviou o olhar, mas respondeu:
– Sem mais segredos. — sorriu amarelo.
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