O homem de cabelo branco
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Havia caminhado por um longo tempo até que, cansada, permitiu-se deitar entre as raízes de uma grande árvore e ali permanecer por mais algumas horas. Mais cedo ela acabara saindo da trilha sem perceber e passara a vagar pela densa floresta até não ter mais nenhuma noção de pra onde estivesse indo.
Por mais que parecesse uma situação preocupante, ela estava bem tranquila, sentia-se acima de tudo livre. Livre de afazeres, cobranças, casamentos arranjados, cozinhas, pessoas. Pensara até em se livrar do seu quimono devido ao calor insuportável daquele verão, mas isso seria muito insensato. Por hora ela permaneceria ali, deitada na sombra, só voltaria a caminhar ao anoitecer quando o ar ficasse mais fresco e a floresta mais calma.
As cigarras entoavam bem alto suas melodias e alguns raios de sol penetravam pelas copas das árvores projetando manchas de luz por todo o chão. Ela desfez uma de suas tranças para refazê-la, e, enquanto seus dedos corriam maquinalmente pelas mechas de cabelo, ela perdia-se nos próprios pensamentos.
Terminando a trança amarrou a ponta com uma liga e começou a mexer na bolsa de pano que continha algumas roupas e alimentos. Antes que pudesse por um punhado de frutinhas silvestres na boca sentiu que a floresta se agitou, como que anunciando a aproximação de algo excepcional. Uma ventania passou por ela, balançando suas tranças, e ela pôde ouvir passos pesados aproximando-se, alguém que despreocupadamente subia o pequeno morro pisoteando as folhas secas e gravetos do chão. Sem saber o motivo o ritmo de suas batidas cardíacas acelerou, e antes do que-quer-que-fosse estivesse perto o bastante ela pegou sua bolsa e escondeu-se atrás do tronco da árvore que estava antes encostada.
Talvez seu estranho pressentimento a estivesse alertando sobre algum animal selvagem ou de alguma pessoa da aldeia a procurando para levá-la de volta. Antiga Aldeia, Ex-aldeia.- ela corrigiu seus próprios pensamentos. Espreitou por trás do tronco até conseguir ver algo subindo. Primeiro apareceu uma ponta branca, uma cabeça, depois um tórax, abdômen... Era uma pessoa, afinal; mas ela continuou observando sem abandonar seu esconderijo.
Cabelo branco, brilhante, longo só o suficiente para cair-lhe sobre o rosto e cobrir-lhe todo o olho esquerdo, enquanto o direito era de um verde intenso e vibrante. Ele arfava, talvez pela subida, talvez pelo calor, mas provavelmente pelos dois. As mangas de sua camisa branca estavam dobradas acima do cotovelo, os botões de cima abertos, calça marrom. Ela nunca houvera visto roupas daquele tipo, seria ele um estrangeiro? Ele também carregava uma mochila de madeira retangular grande e pesada.
Ela tentou imaginar porquê alguém fumaria esse calor, o cigarro do estranho parecia forte e soltava bastante fumaça, mas não exalava cheiro algum, a não ser um tênue e quase imperceptível aroma adocicado.
A garota parou de espiar e encolheu-se atrás do tronco quando ele se aproximou. Ele passou pela árvore na qual ela se escondia e subitamente o barulho de seus passos parou. Será que ele me viu?- ela pensou-Se ele resolver verificar se tem algo aqui atrás como devo reagir?
--Ei.—o homem falou, não havia outra pessoa na floresta, ele só podia tê-la percebido. Ela continuou escondida, talvez ele fosse embora pensando que havia sido só impressão. —Você atrás da árvore.
Agora não havia mais dúvida, ele a vira. Ela lentamente saiu detrás do tronco, um pouco envergonhada. De perto ele era bem mais estranho, aquele jeito de olhar meio morto contrastando com a cor tão viva de seu olho, parecia bem jovem, então por que tinha o cabelo inteiramente branco? Era bem alto, devia ter cerca de 1 metro e 83. O mais intrigante era essa aura enigmática que parecia cercá-lo como se sua presença por si só despertasse um sexto sentido.
--O que está fazendo aí?—ele perguntou, tirando o cigarro da boca.
--E-eu sou uma viajante.—balbuciou a garota, ele a olhou como se não acreditasse muito, talvez porque ela mais parecesse uma adolescente desajeitada e perdida.
--Você deveria andar logo. Uma grande tempestade está por vir.—ele recolocou o cigarro na boca e voltou a andar até desaparecer entre as árvores.
A garota ainda ficou por algum tempo pensando na aparição, curiosa- naquele sujeito que mais parecia um daqueles espíritos da floresta que só existiam em histórias. A verdade é que com todo aquele sol e calor não tinha a mínima possibilidade de chover, não havia sequer nuvens no céu.
***
Estava anoitecendo. O calor escaldante de mais cedo houvera sido substituído por um ar serenado cheio de ventanias. Ela apertava o passo perguntando-se quando exatamente aquele céu tão aberto ficara daquela forma: completamente cinza.
As primeiras gotas geladas de chuva caíram. Ela amarrou a bolsa nas costas e começou a correr à procura de um abrigo entre as árvores. O chuvisco tornou-se um temporal transformando todo o chão em um lamaçal. Ela puxava a barra do quimono que roçava em suas pernas a impedindo de andar mais rápido e a fazendo tropeçar e cair, sujando-se de lama e folhas secas.
O barulho dos pingos grossos de chuva caindo pesadamente sobre as folhas e o chão estava ensurdecedor e toda aquela água esbranquiçava sua visão e confundia seus sentidos. Ela desistiu de correr, pois já estava completamente encharcada- a roupa pesava mais e grudava em seu corpo assim como o cabelo grudava em sua testa e nuca, a bolsa também estava inteiramente ensopada. Ela tirara os chinelos de madeira que afundava no aguaceiro sempre que ela pisava. A garota já não sabia quanto tempo ficara vagando na chuva, era difícil respirar e pensar com clareza. Sentia a chuva gelada em todo o seu corpo penetrando em sua alma até que começou a tossir muito e ter tremedeiras. Já estava completamente escuro quando em meio à névoa do temporal ela viu uma pequena luz ao longe.
A garota caminhou em direção à luz sem ter certeza se era ou não uma miragem e deparou-se com uma pequena gruta de pedra entre duas grandes árvores que a envolviam com suas raízes. Lá dentro alguém havia acendido uma fogueira que crepitava aconchegantemente.
Ela entrou na gruta devagar, pingava tanto que deixava um rastro de água atrás de si. Seus olhos doíam tanto (devido à grande quantidade de água que entrara neles) que mal conseguiu distinguir o homem de cabelos brancos atrás da fogueira no fundo da pequena caverna.
Ele arrumava um saco de dormir no chão quando a viu de pé na entrada. Um clarão de relâmpago invadiu o lugar por um segundo, seguido por um trovão ensurdecedor. A garota teve um acesso de tosse, curvando-se sobre si mesma abraçando a barriga, sua bolsa caiu no chão de pedra formando uma poça d’água ao redor. Ele correu até ela, afastou algumas mechas encharcadas que estavam grudadas na testa da garota e por baixo da água fria a pele ardia em febre.
Ela voltou seus olhos para o rosto dele e por algum motivo sentiu-se um pouco mais tranquila. Ele suspirou, pegando o cigarro e soltando fumaça pela boca:
--Eu não avisei a você?
Ela assentiu de leve com a cabeça, sua pele estava pálida e seus lábios tremiam sem cor. Desse jeito ela vai morrer.—o homem pensou—Não são apenas os mushis que me perseguem, os problemas também...
--Você está muito resfriada, eu suponho que não tenha roupas secas.—ele a ajudou a sentar-se próxima à fogueira, encostada na parede. Ela se envolveu com os próprios braços pra se proteger do frio, ainda tossindo um pouco.—Pegue algumas das minhas e se troque rápido, eu devo ter algum remédio aqui comigo.
Ele tirou da mochila de madeira uma camiseta bege e uma calça marrom como a dele e entregou a ela, em seguida virou-se de costas vasculhando a mochila novamente. Ela olhou confusa para as roupas estranhas, mas logo colocou a calça por baixo do quimono molhado e o retirou. Quis vestir a camiseta bem rápido mas atrapalhou-se na hora de botar os braços no lugar certo. As roupas eram bem folgadas e mesmo com o corpo molhado vestir algo seco a dava uma ótima sensação de leveza. Também tinham o cheiro adocicado do dono.
O homem encontrou o que procurava: umas folhas verdes do tamanho da palma da mão. Entregou à garota e a mandou mastigá-las bem e engoli-las. Ardiam um pouco, mas a fariam melhorar. Em seguida sentou-se do outro lado da fogueira, encostando-se na parede oposta à que ela estava.
--Como você sabia?—a garota balbuciou enquanto mascava as folhas e com as mãos trêmulas espremia a água de uma das tranças.—Digo, da chuva.
--Diferente de você eu já viajo à muito tempo.—ele respondeu soltando fumaça pela boca até estar envolvido numa nuvem esbranquiçada.—É preciso reconhecer os sinais, seguir as rotas. Você podia ter se matado.
Ela abaixou a cabeça, envergonhada. Engoliu as folhas e sentiu uma onda de energia percorrer-lhe o corpo.
--Você é médico?—ela perguntou ao sentir a melhora imediata.
--Não, sou um mushishi. Meu nome é Ginko.
--Mushishi?—ela arregalou os olhos e chegou mais perto da fogueira, sua curiosidade habitual já estava voltando—O que isso quer dizer?
--Bem...—ele pensou, na verdade, a maioria dos camponeses e aldeões não sabia nem da existência dos mushis, de modo que ele sempre tinha que explicar a mesma coisa. Mas naquela noite ele estava realmente atordoado, estivera andando no sol quente desde o amanhecer e agora parado por aquela tempestade. Sem contar no sono que dava o barulho da chuva batendo no teto da gruta.--...é difícil de explicar. E você? O que estava fazendo na floresta?
--Eu fugi.—ela gaguejou—Eu não tinha nenhuma utilidade na minha vila, nenhuma felicidade também. Não tinha porquê ficar lá.
--Você não tinha família?— sua voz era calma, até parecia que ele não se importava.
--Sim, mas eles tinham outros filhos. Eu era apenas um fardo.—a garota sentiu as palavras pesarem um pouco, talvez no fundo fosse sentir alguma falta deles. Só que bem no fundo mesmo.
--E você não tem nome?—Ginko perguntou. Ela conseguia distinguir apenas seu olho verde fixado nela através das chamas da fogueira que ficava entre eles.
--Yuki.—ela murmurou, mais baixo do que gostaria. Não gostava desse nome, parecia-lhe sempre uma ironia. Yuki significa neve- branca, leve, graciosa, enquanto ela era desajeitada, curiosa, agitada e nem branca era! Yuki tinha a pele morena como as pessoas de Okinawa, olhos redondos e negros e cabelo preto, ondulado e longo, preso sempre em duas tranças.
Yuki não era boa em serviços domésticos, estava sempre no mundo da lua, sonhando com o dia que veria o que tem no mundo após aquelas montanhas que cercavam a vila; assim quebrava os pratos e as porcelanas e deixava os lençóis caírem do varal. Andava descalça e se aventurava sozinha na floresta deixando todos preocupados com seus repentinos sumiços, não era elegante e nem atraente com seu corpinho de 16 anos. Os pais estavam certos de que nenhum bom pretendente pediria a mão da filha, então aceitaram a proposta de casá-la com um humilde e não muito exigente fazendeiro apesar dela ainda ser bem jovem. Yuki não esperou até a data do casamento, arrumou uma pequena mochila com roupas, comida e um pouco de dinheiro e sem nenhum remorso abandonou a vila, na hora do desespero ela daria um jeito de arranjar um dinheiro a mais.
“Yuki...” Ginko sussurrou, aquele nome lhe era muito familiar, talvez tivesse alguma relação com seu passado borrado e confuso. Seria o nome de alguém de sua família? Um conhecido?
--Sabe, você devia voltar ara o lugar de onde veio. É muito perigoso viajar sozinha por aí, ainda mais quando não se tem a certeza de um emprego.—ele aconselhou tirando o cigarro da boca.
--Eu não vou voltar.—Yuki exclamou, convicta.
--Ás vezes eu gostaria de me estabelecer em um lugar. Tenho um pouco de inveja de você que tem uma casa e uma família. Ainda assim você larga tudo.—Ginko ia dizendo enquanto olhava para o teto da caverna, parecia sonolento, perdido em seus próprios pensamentos ou no barulho da chuva.—Você é só uma criança, tem uma vida pela frente.
--Eu tenho dezesseis, entendeu? DEZESSEIS!—ela respondeu, ofendida. Ginko riu consigo mesmo “Pelo menos você sabe a idade que tem...”—Aliás,--ela continuou —Qual é a graça de passar a vida toda numa droga de vila? O bom é viajar, conhecer novos lugares, pessoas, histórias...
--Nem todos os lugares são bonitos, nem todas as histórias são felizes.—ele soltou mais fumaça pela boca—Depois de um tempo todos os lugares começam a parecer iguais, todos os rostos passam a se embaralhar na nossa mente.
--Então terei que ver por mim mesma.
Ginko não respondeu, só ouvia-se o barulho da chuva e o crepitar baixinho do fogo. Ele pegou uns gravetos secos que tinha colhido mais cedo e alimentou a fogueira. Apagou o cigarro.
--Amanhã você pensa no que vai fazer.—ele falou, acendendo um incenso e deitando-se de lado no saco de dormir—Boa noite.
Yuki ainda ficou algum tempo observando o fogo dançar na sua frente, parecia não ter dúvidas quanto à sua decisão. Esticou um pouco o pescoço para tentar ver sobre a fogueira o homem estranho que lhe salvara a vida, ele estava deitado de costas pra ela.
--Ginko-san?—Ela chamou, mas ele não se moveu. Já devia ter dormido.—Obrigada.
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