O homem de cabelo branco
2 A luz do túnel- parte 1
Notas iniciais
Não havia mais som de chuva, só o dos pássaros anunciando alegres a chegada de um novo dia. Além disso, o ar estava úmido e com aquele agradável cheiro de terra molhada. Yuki revirou-se pensando ainda estar em sua cama da casa na vila, mas despertou ao bater o rosto com o duro chão de pedra. Abriu lentamente os olhos e contemplou por alguns segundos os primeiros raios da manhã iluminando as paredes da gruta. Tentou afastar a enorme preguiça que dominava seu ser sentando-se lentamente, apoiando um braço no chão, enquanto tirava a terra do seu rosto e cabelo com o outro. Não havia mais sinal de febre, mas ainda podia sentir as articulações doloridas e a garganta ardendo.
Ginko passou na sua frente, saindo da pequena gruta com a mochila nas costas. Lá fora as árvores pareciam mais verdes, lavadas pela tempestade do dia anterior, tudo parecia renovado. Seria mais um dia de longa caminhada. Talvez conseguisse chegar a alguma comunidade até o anoitecer, onde dormiria e talvez passasse um dia, mas voltando a caminhar em seguida sem se apegar a nada, a ninguém, só a seus pés e sua mochila, e às verdes trilhas e estradas poeirentas. Isso era ser um mushishi, um viajante, isso era ser ele.
–-Já está indo?—uma voz interrompeu seus devaneios: Yuki estava de pé logo atrás dele, ainda bocejando e esfregando os olhos, com os cabelos despenteados de quem passara a noite no chão de uma caverna e acabara de acordar. Pareceu-lhe uma criança vestindo um pijama bem maior que ela.
–-Sim, quero compensar o atraso de ontem. —ele respondeu, voltando os olhos para a trilha à sua frente.
–-Pra onde você vai?—ela perguntou, pegando sua mochila ainda molhada do chão e sacudindo-a.
–-Pro litoral, pegar um barco.—Pra qualquer lugar.
Yuki pensou no que já ouvira falar sobre o litoral- o mar (quantidade absurda de água que vira apenas em seus sonhos), os barcos (carapaças de madeira enormes e pesadas, mas com o poder de deslizar levemente sobre a água), mercado (multidão de pessoas e produtos formando um burburinho energético e animado). Uma onda de animação percorreu o corpo da garota ao imaginar-se ali no meio, entre as barracas, as casas, as pessoas, vendo novas cores, sentindo novos cheiros e a tão falada brisa marítima... Só com sua fértil imaginação Yuki viajava o mundo inteiro sem perceber.
–-E você?—foi a vez de Ginko interromper as fantasias da garota —Vai voltar pra sua vila?
–-É claro que não.
–-O que vai fazer, então?
–-Não está na cara?—ela sorriu—Eu vou com você.
Ginko levantou as sobrancelhas (ou pelo menos só a que dava pra ver):
–-Não.
–-Não?—ela pareceu surpresa —Você é bem... direto.
–-É que eu costumo viajar sozinho. Não é nada pessoal.—ele deu ombros e começou a caminhar.
Yuki botou a mochila molhada nos ombros, o alcançou, caminhando ao lado dele.
–-O que você está fazendo?—Ginko perguntou sem se dar o trabalho de virar o rosto para olhá-la ou parar de caminhar.—Não ouviu nada do que eu falei?
–-Você vai me deixar sozinha nessa floresta? Eu estou perdida e você mesmo falou que era perigoso...
Ele revirou os olhos, era óbvio que a garota poderia voltar se quisesse. Ginko conhecera brevemente todos os tipos de pessoa em suas infinitas peregrinações, conhecia bem o semblante de Yuki. Os olhos grandes e inquietos da garota denunciavam o tipo curioso e obstinado, e com pessoas assim nunca adiantava argumentar. É só uma criança.– ele concluiu enquanto soltava uma nuvem de fumaça pela boca-quando estiver no meio do caminho sentirá falta de seus pais e chorará querendo retornar.
–-Você faz o que quiser.—Ginko respondeu —mas vou deixar claro que não sou responsável por você. Se quer ser uma viajante vai ter que ser independente.
Os olhos da garota brilharam e seu peito encheu-se de ainda mais sonhos e esperanças. Yuki deu pulinhos de alegria, ela teve o ímpeto de abraçar o estranho, mas aquele olhar verdemente gelado não permitiu.
–-Obrigada, Ginko-san!! Não vai se arrepender de viajar junto comigo!
–-Não estamos viajando juntos estamos apenas indo pelo mesmo caminho.—Ginko respondeu, quanto mais rápido a garota o deixasse menos teria que se preocupar. Tenho que parar com essa mania filantrópica.
Mas, Yuki mal ouviu, ela saltitava indo na frente admirando-se com cada árvore diferente e cada animal que atravessava o caminho. A trilha que eles seguiam cortava a floresta por solos acidentados e irregulares e estava repleta de folhas e galhos arrastados pela tempestade do dia anterior, sem contar que a terra estava encharcada e atolava os pés dos andarilhos dificultando a caminhada e fazendo um irritante flop flop de succção em seus sapatos (ou pelo menos nos de Ginko, já que Yuki perdera os seus na tempestade). Ainda assim o clima era agradável e o sol brilhava, penetrando nas copas das árvores.
–-Ginko-san, você não me contou o que é mushishi.—Yuki perguntou, em parte querendo mesmo saber, em parte querendo apenas puxar conversa.
–-Nós lidamos com mushis. Resolvemos problemas causados por eles às pessoas, geralmente casos incomuns e estranhos.
–-Mushis?—Yuki sentiu-se ainda mais confusa.
Lá vamos nós outra vez.– pensou Ginko enquanto tentava explicar à garota usando os dedos da mão. Quanto mais próximo da palma, mais simples era o organismo, os humanos eram o dedo do meio e mais distantes da palma, as plantas eram o polegar. Pelo braço havia apenas bactérias e microorganismos e próximo ao coração, na fonte mais pura estavam os mushis. Era uma explicação um tanto incompleta, mas era a melhor que ele tinha. Mushis não tinham uma forma física definida ou um som exato, podiam estar na água, na terra, no ar ou em outras dimensões. Estavam entre a vida e a morte e além da compreensão humana.
Uma ventania chacoalhou as árvores e o som das folhas chocando-se umas contra as outras preencheu a floresta. Ginko tirou o cigarro da boca e olhou longamente para o céu.
–-É melhor apressarmos o passo, hoje a noite vai chover de novo.—ele constatou, recolocando o cigarro na boca.
–-Como você sabe dessas coisas?—ela perguntou. Será um feiticeiro?
–-O outono está chegando. Quando a tempestade vem toda a floresta se agita, os mushis migram inquietos, não vê?
Ele falava como se fosse óbvio, mas tudo parecia normal aos olhos da garota. O céu não estava muito cinzento, a floresta estava calma. Aonde estão os tais mushis? Yuki estreitou os olhos, procurando entres os grossos caules das árvores e em suas folhagens.
Era em torno de meio dia quando avistaram um casebre a alguns metros da trilha, escondido apenas por algumas árvores. Era uma casa pequena com as paredes de madeira cobertas de lodo e capim crescendo no telhado de palha. Era circundada por um terreno que talvez houvesse sido uma plantação, mas agora estava cheio de ervas daninhas e urtigas.
Que benção.–Ginko pensou- Uma casa abandonada. Abandonada e maltratada, mas uma casa significava um teto, e um teto em uma tempestade fazia toda a diferença. Ainda demoraria um pouco pra chover, mas a próxima vila estava a muitos quilômetros dalí, e não podiam arriscar uma corrida com o tempo. Temos que estar sempre um passo à frente dos imprevistos e empecilhos. Ele havia aprendido bastante em sua vida de andarilho e a falta de precaução já lhe pusera em situações à beira da morte. Se bem que já estou com o maior dos empecilhos.– ele recordou-se, olhando para a garota que andava na frente.
–-É melhor ficarmos aqui até que a chuva caia.—ele declarou, desviando-se da trilha em direção à casa.
Os dois passaram pelo terreno onde deveria haver uma plantação, Yuki pisava devagar como se algo ainda estivesse sendo cultivado ali. Ginko parecia não se importar.
–-Olá?—ele chamou enquanto avançava na frente. Os três degraus de madeira rangeram sob seus pés quando subiram até a varandinha. A porta estava meio enguiçada e um forte fedor de mofo saiu de dentro assim que Ginko a abriu.
Todas as janelas estavam fechadas e lá dentro mal podiam enxergar dois metros à frente devido a escuridão. Ginko foi na frente. Yuki ia entrar quando ouviu um baque e um ai, seguido pelo som de alguém correndo sob as tábuas podres. Correu para dentro, no escuro conseguiu ver apenas a silhueta dele se levantando do chão, com seu cabelo branco caído sobre o rosto e a fumaça do cigarro subindo.
–-Alguém... me bateu... e com algo bem duro, julgando pela dor—ele reclamou, com sua voz encantadoramente serena ecoando, massageando a cabeça com uma das mãos —E fugiu por ali!
Ginko correu para dentro da casa até desaparecer em outro cômodo, Yuki seguiu seus passos, tateando as paredes no escuro. Ouviu o som de uma janela sendo escancarada e uma luz saiu de um dos cômodos mais à frente no corredorzinho. Lá dentro, no canto, um garotinho protegia os olhos da repentina claridade com uma mão e segurava um grande pedaço de madeira com a outra, apontado na direção dos invasores. Ele era pequeno, pálido, seu cabelo estava grande e embaraçado e seu quimono era uma coisa velha e suja. Talvez ele quisesse parecer ameaçador, porém seus grandes olhos denunciavam o medo.
Atrás dele um homem estava sentado no chão com as costas apoiadas na parede e o olhar perdido no ar, parecia nem ter notado o alvoroço. Suas roupas também estavam sujas e seu cabelo e barba cresciam. Era magro como um esqueleto e pela boca semiaberta um fio de baba escorria.
–-Para trás! Quem são vocês??—a criança perguntou, com sua voz fina falhando.
–-Calma, somos viajantes, pensamos que a casa estivesse abandonada.—Ginko falava devagar, com as mãos para cima em um gesto de rendição —não queremos te machucar...—embora você não possa dizer o mesmo– ele quase completou enquanto sentia a cabeça latejar devido ao golpe.
–-PARA TRÁS!
–-O que está fazendo? Só queremos ajudar.—Yuki deu um passo à frente. Os olhos do menino arregalaram-se ao vê-la e ele abaixou a madeira.
–-M-mãe...?—ele murmurou, lágrimas já deslizavam em seu rosto.
–-“mãe”? Não... eu sou Yuki...
O garoto começou a soluçar abraçando-se ao homem no chão. O adulto não piscava nem se mexia, alheio a tudo em seu redor. Yuki sentiu náuseas ao vê-los ali, naquele canto escuro e imundo, os dois pálidos e encolhidos.
–-O que aconteceu? Posso ajudar?—ela sentou-se ao lado deles. Fediam a suor e carniça —Você mora aqui?
A criança balançou a cabeça afirmativamente.
–-Quantos anos você tem?
Ele levantou sete dedinhos. Yuki olhou para Ginko sem saber o que fazer, mas ele estava com a cara de sempre, soltando uma baforada de fumaça. Seu olho verde parecia estar fixo no homem.
–-Por que... Por que me chamou de mãe?—Yuki voltou-se novamente para a criança.
–-Ela também usava o cabelo assim.—ele respondeu fungando e enxugando as lágrimas.
–-E onde...—não sabia porque, mas tinha um mau pressentimento a respeito da resposta que obteria—Onde ela está?
O menino apontou um dedinho magro na direção de um cômodo do outro lado do corredor. Ginko virou-se e foi até lá. Quando deslizou a porta um cheiro horrível de putrefação encheu a casa, um fedor de carne estragada, doce e amargo ao mesmo tempo.
–-Yuki, fique aí—ele falou, embora tarde demais. Ela já estava ao seu lado, boquiaberta e com olhos arregalados.
O quarto era pequeno e a um lado da janela estava aberto, permitindo a entrada de alguma claridade. O assoalho estava manchado e repleto de baratas. No centro o corpo de uma mulher estava estirado e cheio de moscas. Ela estava com os grandes olhos opacos abertos, fixados no teto, enquanto os insetos entravam e saíam de sua boca e sua pele esbranquiçada e meio roxa em algumas partes. Seu quimono era vermelho e florido, cheio de manchas marrons de sangue seco. A bochecha e alguns pedaços de pele das mãos e das pernas já estavam comidos e roídos.
Yuki reparou nas duas longas tranças que a mulher usava, como as suas. Sentiu o vômito na garganta e correu para o terraço, para por todo o seu café da manhã para fora.
Fale com o autor